terça-feira, 29 de junho de 2010

Por uma vida mais careta

Caríssimos, cheguei a apagar a última postagem, mas mudei de ideia. Fica aí como testemunho da treva que me ameaçava, do pessimismo que se insinuava e mesmo de uma concepção de vida que podia parecer charmosa, descolada, mas que o mais reles bom senso serve para demonstrar que é uma furada. Não é possível um ser humano escolher se jogar no poço.

Não gosto de usar este espaço para assuntos tão íntimos, afinal esta porra de sítio é público e, se é pouco visitado, pode o ser por olhos pouco convenientes. Mas venho aqui a esta tribuna virtual reafirmar uma decisão que tomei ontem, pouco antes da bela vitória da esquadra-canarinho ante o velho freguês sulamericano pelas oitavas (será que o Dunga traz o Caneco?).

Saquei que - sendo maníaco-depressivo, como já entreguei- não posso beber e me drogar obsessivamente como tenho feito, e lutarei para virar o cara mais careta do mundo, pelo menos no que se refere a esse aspecto - todo o resto não precisa mudar. Os 3.0 estão quase aí, e não quero seguir fora do prumo, cambaleando numa adolescência prolonganda até uma velhice degenerada (Bukowski, enfim).

Sei que ninguém quer saber disso, e se você leu até aqui, sorte minha: já não é das 85% das visistas que duram até 5 segundos. Acredito estar escrevendo para mim mesmo, afinal. Para deixar gravado aqui o compromisso, assim como o "contrato" que assinei com as datas em que parei de fumar o careta e de beber e "bem, você sabe".

Daqui a um mês, ou 29 dias para ser exato, atravesso o umbral dos "inta", não é pouca coisa. Estou certo de que a cada ano celebrarei tantos anos (mais um mês) de nova vida. Mas prometo não virar evangélico, pelo menos.

domingo, 27 de junho de 2010

Por uma vida mais Bukowski

Tenho pensado seriamente em deliberadamente me tornar um velho degenerado - ainda que precocemente - bêbado, drogado e misantropo incorrigível. Algo meio Bukowski. A gente é obrigado a fazer uma força tremenda para cumprir um papel social minimamente respeitável, conseguir um emprego que pague bem, mesmo que seja uma tortura, casar, mesmo que seja extremamente caótica a relação entre os dois gêneros, que as pessoas falem cada vez menos umas com as outras (especialmente em Brazolha), e que uma vez unidos, a relação passe quase sempre a ser um jogo de suportar o outro para não jogar fora aquela frágil conquista, que cada um reclame o direito de ser o que é, sem aceitar o que o ouro é, ter filhos, e dividir o ""legado de nossa miséria" com mais uma criatura, ter um trabalho enorme com essa coisa frágil que vai atingir a adolescência e nos culpar por todos seus males, comprar carro, casa, viajar nas férias, dar pipoca aos macacos, como diria o Raul no tempo em que isso era permitido, e é intriga no trabalho, mulher ciumenta, você já bebeu muito hoje! e o caralho. Eu quero é afundar na minha própria podridão: engoradar, ficar bêbado todo dia antes de meio dia, fumar um quilo de maconha por mês, sozinho, consumir infindáveis horas vendo pornografia na internet, quem sabe cometer umas historietas ainda que não aspire à grandeza do mestre Buk, não parar em emprego nenhum, comer uma puta às vezes, daquelas mais detonadas, é claro, e chegar aos quarenta com aspecto de sessenta. Quem sabe eu não venha a imitar outro ícone da contracultura gringa, Hunter Thompson, e meta um balaço no coco quando encher o saco de tudo? Como Kurt Cobain, por exemplo, que escolheu ser junkie e se matou antes de trinta (melhor se apressar!), destino natural de um maníaco-depressivo?

quarta-feira, 23 de junho de 2010

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Comentando a Polêmica Ambiental

Proteger floresta no Brasil dá lucro a agricultor nos EUA, diz estudo



(da Lhofa de Pão Saulo)
 
Bem, aqui é importante tentar não ver o bem contra o mal, mas interesses individuais e clasistas, além de um interesse difuso pela preservação.

Ruralista aqui: tradicional "dono do poder" que contava com proteção total do Estado. Quer toda terra que existir e mais um pouco, acha o preservacionismo uma besteira e um "complô" estrangeiro".

Ruralista lá: conta com apoio total do governo, mesmo tendo menos representatividade política. Lá, não há o que desmatar, então podem se fantasiar de "verdes". Devido ao "dollar gap", sua agricultura só sobrevive com subsídios injustos e "sutil" intervenção nos concorrentes.

Ambientalista: é uma classe grande, e junto com a sincera preocupação ambiental (que ainda não sedimentou bem no ser humano, ou não ultrapassou a preocupação financeira) acredito que haja grupos eminentemente políticos, adeptos da famosa moralidade seletiva que acomete os países poderosos.

O meio-ambiente (natural): esse não pode se defender só, e tem há muito cedido espaço a atividades lucrativas; na maior parte do mundo desenvolvido, de forma total e talvez irreversível. Países como o Brasil, não muitos, orgulham-se da "fronteira agrícola", ou seja: persistem no erro em nome do "progresso".

Há pouca razão para otimismo. O dinheiro vale mais que qualquer coisa, ou pelo menos essa é a ilusão necessária que adotamos. Se alguma forma de socialismo efetivo puder vir à tona no futuro, contemplando essa preocupação do "bem-viver" e "bem-coviver", pode ser que haja esperança. Do contrário, em alguns séculos viveremos em um planeta transfigurado por inteiro, em que a agressão do homem refletirá sobre sua própria condição de vida. Se vai dar pra consertar não compete a mim sequer especular.

Dunga Zangado e a Vênus Platinada

Leosfera está usando o período de Copa do Mundo como manda o figurino: vagabundeando no trabalho e bebendo durante a semana sem culpa (ainda que eu não ligue muito pra culpa de corriqueiro). Isso obviamente tem deixado pouco tempo para passar por aqui e postar alguma coisa, mas um episódio inusitado forneceu bom pretexto para cometer estas linhas.

Sempre houve, em copas do mundo, uma relação estranha da imprensa com a seleção. O brasileiro de modo geral torce pra seleção, mas gosta de dar seus pitacos, dificilmente apoiando o técnico integralmente; pode-se dizer que o primeiro esporte no Brasil não é o futebol, mas descer a lenha no técnico da seleção. Boa parte disso se deve ao comportamento da medonha imprensa esportiva tapuia: não têm muito o que falar, uma vez que nosso futebol não tem dado muito assunto mesmo, e precisam ficar inventando, procurando pêlo em ovo.

Pelo menos parece ser esse o caso na polêmica entre o treinador da seleção-canarinho e um repórter da (ou antes a própria) Rede Globo. Esse veículo tem garimpado manchetes bombásticas que depois se frustram, como a contusão do Gilberto Silva, ou as dúvidas em torno do goleiro titular. Mas na verdade o fulcro do "clima tenso" entre treinador e a "mídia" (e a Globo acredita ser a mídia) é a ausência da tradicional "relação privilegiada" entre a seleção e a nossa bendita Vênus Platinada, acostumada a determinar absolutamente tudo nesta seara. Dunga tem mantido o time enclausurado, treinado com portões fechados, e impedido o clima de oba-oba que ajudou a derrubar nossa esquadra há quatro anos; acontece que a empresa do clã Marinho sempre foi acostumada a estar dentro da concentração, com entrevistas exclusiva a qualquer momento. Adicione-se a isso o fato de Dunga ter trabalhado na Band na última Copa. Bem, escantear a Globo é algo positivo, mas...

Dunga pisou na bola ao, infantilmente, xingar o repórter Alex Escobar durante a coletiva oficial da Fifa após a (finalmente) convincente vitória sobre a Costa do Marfim no último domingo. Após comentar que a imprensa cobrava Luís Fabiano indevidamente, Dunga não gostou do comportamento do jornalista e perguntou se havia "algum problema", e depois, enquanto outro repórter fazia a pergunta, balbuciou vários impropérios como "cagão", olhando para o "global". Bem, vamos lá: o Cony mandou bem ao dizer que o Dunga tem que ganhar, e não ser delicado com jornalistas; quem não sabia que o Dunga é um gauchão bronco, afinal? Ainda assim, não é uma atitude profissional, ele deveria ignorar as críticas e tripudiar sobre seus detratores com uma altiva indiferença, e com a conquista do Caneco, afinal.

sábado, 12 de junho de 2010

Pirando pra Dentro


Dave Douglas veio ao Brasil em 2001, e eu dei a sorte de ver na TV um trechinho com ele, em que me chamou a atenção o baterista: ele espancava a batera mais do que um metaleiro. Considerando meu passado roqueiro, é claro que isso conta. Fui até a loja e comprei o Soul on Soul, e o batera de fato detonava: Joey Baron (não sei se era o mesmo). Sei que fui buscar mais na rede sobre o trumpetista e descobri que aquele era um disco "careta", e que Douglas tinha trabalhos mais experimentais, como o magnífico Freak In (2003): tablas indianas e batidas eletrônicas convivem com a maior naturalidade neste discaço. É um jazz elétrico, frenético boa parte do tempo, continuando a tradição jazz-rock de Miles Davis, com um toque mais hodierno. Marc Ribot (do Bar Khokba Sextet, de John Zorn) é o guitarrista, enquanto Jamie Saft e Ikue Mori (que vi em Lisboa com a Sylvie Courvoisier) acrescentam teclados e efeitos MIDI que dão ao disco um tom modernoso, clubber até, mas nunca esquecendo o requinte de um instrumento bem tocado. Mais de uma faixa faz referência ao Fórum Social Mundial de Porto Alegre, como obviamente... Porto Alegre, e Traveller There Is No Road (Viajante no hay camiño... el camiño se hace al camiñar). Então nosso trumpetista é um comunistinha safado. No fim, que posso eu dizer sobre este disco que chegue perto do prazer de escutá-lo? Digamos então que seus pontos fortes são a inventividade, a grande riqueza rítmica e tímbrica, os solos de Douglas... Eu sugeriria inclusive o Freak In para aqueles que pensam que jazz é chato. Aqui vai só uma palhinha para vocês

Freak In



sexta-feira, 11 de junho de 2010

Alguém se lembra do Ciro?

Alardeado já faz um tempo como promessa política, e sempre relegado a coadjuvante, Ciro Gomes nesta eleição foi sacrificado pelo projeto continuísta do lulopetismo. E ninguém mais se lembra dele. Ciro é vítima de sua própria empáfia. Mesmo que seja divertido vê-lo falar às vezes, vejo nele um arrivista sem muitos escrúpulos e com um ego inchado. Uma coisa eu garanto: se ele não teve vez agora, dificilmente terá em 14. Que se candidate a vereador de Fortaleza em 12.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Daqui a Oito Anos

Não sei quem vencerá as eleições deste ano, mas tenho meus palpites. Mesmo não sendo vitorioso - excluída a intervenção divina - o candidato do meu partido, acho que posso ser otimista e acreditar que a inflexão introduzida pelo governo do Partido dos Trabalhadores, fazendo o país ser ao menos um pouco mais "de todos", não será revertida, mesmo vencendo o campo conservador. Portanto, imaginando que o(a) eleito(a) obtenha um segundo mandato e que o Brasil siga evoluindo em ritmo próximo do atual - ou mais rápido, talvez, já que a grana do pré-sal vem aí - resolvi lançar-me a um exercício de futurologia até o momento que como este, que marca o fim dos oito do Lula, marcará a obra completa do próximo(a) presidente(a). Há uma possibilidade diferente, em que 14 o Lula volte, mas deixemos isso de lado.

Eu quero, antes de mais nada, que em oito anos a riqueza seja muito melhor distribuída, com cada vez menos gente precisando de assistência estatal, e com nosso índice Gini rivalizando com os exibidos pelo "Ocidente" hoje. É questão de honra para a nação que até lá se erradique o analfabetismo, e que a educação pública melhore a ponto de reduzir drasticamente o analfabetismo funcional. Seria o paraíso se em 2018 a média de leitura de nós outros brasucas fosse de uns 5 livros por ano. Isso seria um corolário ao maior letramento, e depende de mudança cultural profunda. Este veículo aqui, a rede, será obviamente um fórum de leitura e escrita: cabe a cidadãos cada vez mais "cultos" (não gosto muito do termo, mas vá lá) utilizá-la com mais discernimento. Realmente espero que em nosso país se chegue a um consenso, uma solução negociada para a questão fundiária, sacodindo a poeira de séculos de latifúndio em favor de um modelo que contemple a produção de alimento saudável para consumo interno assim como a produção de bens primários para exportação, fonte de divisas (ainda que se deva priorizar o comércio de bens com maior valor agregado), tudo com um sistema integrado de escoamento, infra-estrutura adequada para tal (principalmente as esquecidas ferrovias). Espero ver a criminalidade recuar junto com a disparidade, e com o já tardio reconhecimento de que a guerra ao narcotráfico é mais nociva que todas substâncias ilícitas juntas. Espero ver as metrópoles mais planejadas, com a mobilidade garantida por sistemas de transporte público abrangentes, eficientes e baratos, e com a preocupação com a acessibilidade se disseminando. Espero ver as desigualdades regionais diminuindo, mas com respeito a especificidades de regiões como a amazônica, à qual não se pode aplicar nosso conceito de progresso material a qualquer preço, garantindo à população uma vida confortável, com acesso a serviços como bons hospitas, sem a necessidade de criar fortunas à custa da floresta e dos índios. Quero ver investimento em ciência e tecnologia, tirando nosso país da posição periférica, no máximo intermediária, que temos hoje. Deverá haver incentivo maciço às artes e às culturas, tanto as "de raiz" quanto as de matriz europeia; além de fomento ao esporte, em comunidades pobres e em competições de alto nível. Tomara que o Brasil esteja disputando o octa (e o Timão vença uma Libertadores). Oxalá...

Bem, algumas dessas coisas parecem um tanto distantes... (talvez para o fim do quarto mandato do Lula, em 22?). E falta ainda combinar com os russos, é verdade. Mas é bom saber aonde se quer chegar, não?

domingo, 6 de junho de 2010

Tem peixe

Há alguns dias, a blogosfera gira em torno de mais um (confuso) episódio da assim-chamada pré-campanha: mais uma vez haveria petistas aloprados fabricando dossiês contra os adversários, e planejavam mesmo espionar a vida pessoal de Serra. Ao menos foi isso que nossa imprensa engajada (golpista se você preferir) alardeou.

Antes de mais nada, em uma situação como esta, é difícil engolir a narrativa de qualquer um dos lados. Não dá simplesmente pra acreditar em um veículo como a Veja, mas tomar as justificativas oficiais do PT por seu valor de face é assaz temerário. Tem peixe aí, dá pra sentir o cheiro. 

Bem, o assunto começou, ao que me parece, com uma matéria do Globo, que dava conta de que o PT tinha fabricado um dossiê envolvendo Verônica Serra, filha do Vampiro. Ao que tudo indica, trata-se de um ataque preventivo ante o livro do jornalista Amaury Ribeiro Jr., sobre todo o processo de privatização, ou "privataria", que comprometeria Serra através do ex-tesoureiro de sua campanha e diretor do BB, Ricardo Sérgio (aquele do "limite da irresponsabilidade"), além de associá-lo a Daniel Dantas, através de uma empresa que a filha de Serra e a irmã de Dantas (presa recentemente junto com o irmão) mantiveram em Miami. A nota curiosa é que o livro (ou a investigação) parece ter sido encomendado pela equipe do Aécio, depois que começou a circular que o Vampiro ia espionar o mineiro (para saber que ele cheira pó? dãã!). Enfim, olhando só essa trama, quem precisa dar explicações é Serra. Levantar acusações, e embasadas, não é ilegal.
 
Já a conversa da arapongagem que supõe-se que a campanha Dilma praticaria sobre Serra, surgiu um delegado Onézio, ligado ao Itagiba, aliado de Serra, que afirma ter sido procurado para fazer o que faz: espionagem, mas que teria recusado ofendido e procurado a revista Veja. Beleza, não dá pra embarcar na da Veja, porém... Lanzetta, contratado pela campanha Dilma oficialmente para contratar jornalistas, e acusado de intermediar o "projeto de trabalho", pediu o penico oficialmente, confirmando o episódio, com a ressalva de que ele é que teria sido procurado pelo milico, que ofereecia seus serviços. Tremendamente implausível também.


Portanto, eu não sei dizer como foi, mas houve essa movimentação para promover espionagem, algo ilegal, e isso pega bem mal para o campo de Dilma. Toutes les comptes faites, parece que não houve crime algum - se houve, são os que virão no livro de Amaury. Portanto, estando ainda mais a Copa do Mundo aí, este episódio sairá na urina, mas serve de indício para a baixaria que deve vir por aí (pelo menos um dos lados apelou). Além do mais, o eleitorado que vai de fato decidir a eleição, aquele que não se alinha a um campo, desinteressado de política, não será nunca afetado por esse tipo de acusação, então nada muda. E la nave va!

P.S.: Dilma e Serra vão jogar tanta lama um no outro que o Plínio vai ganhar no primeiro turno, quer apostar?

terça-feira, 1 de junho de 2010

Ensemble 4'33''

Meu caro amigo Pedro, inftigável pesquisador sonoro do ambiente mais, digamos, "pontiagudo" da música, me entregou um HD externo que eu comprara lá em Lisboa (e dera pau) com absurdos 450G de MP3. Será o trabalho de uma vida desbravar tudo, se é que um dia eu chego a escutar tudo. Bem, uma das coisas interessantes que lá estão é este Ensemble 4'33''  O nome remete à composição de John Cage, peça "para qalqer númro de músicos", consistindo de 4 miutos e 33segundos de silêncio. Apesar disso, o som deles é bem roqueiro, mas com doses de vanguarda, algo meio French TV talvez.
 Fique então com Black Russian.

Para Além da Indignação

Escrevi aqui algumas vezes espinafrando a política do Estado de Israel. Não do povo israelense, muito menos dos judeus, mas do país. Israel é caso complexo, desde sua origem controversa, servindo oficialmente como lar dos judeus espalhados pelo mundo, mas na prática prefigurando um posto-avançado dos Estados Unidos no Oriente Médio (embora o lobby sionista influa mais no Capitólio do que os americanos no Knesset), passando por cada guerra por território, até o mais recente episódio, em que a marinha israelense atacou uma frota de ativistas dispostos a quebrar o bloqueio a Gaza com ajuda humanitária, matando ao menos nove e ferindo uns quantos outros, Israel é polêmica pura.

Sendo aliado americano e contando assim com meios de comunicação favoráveis mundo afora (e, ao que parece, pastores evangélicos também), ainda é possível ver gente defendendo as posições e as ações daquele país. Mas com esse último crime - o Financial Times o descreve como ato de pirataria - Israel conseguiu a reprovação internacional virtualmente unânime; apenas os amigos de sempre, os EUA (que fingiam "estremecimento" com a questão dos assentamentos), soltaram uma frrouxa declaração segundo a qual estariam "tentando entender" a "tragédia". Periódicos prestigiados, opinião pública, todos condenam Israel e estão indignados.

E eu pergunto: e daí? No cerco a Gaza, um monte de gente ficou indignado - o pateta aqui foi protestar na Embaixada - e eles fizeram o que quiseram, fósforo branco, destruição deliberada de minaretes, etc. E até o relatório que aponta seus crimes de guerra (além das faltas do Hamas) é esnobado por filial e matriz, e dificilmente terá algum efeito mais que documental. O que me garante que daqui a dois anos o ataque à flotilha não será lembrado como apenas um episódio de agressão israelense, em uma matéria jornalística sobre uma nova ofensiva ou algo assim?

Resta-nos fazer barulho, continuar pressionando e lutando a batalha de relações públicas que é vital para eles, convencendo o porteiro do seu prédio e o dono do bar que não é bem como a Globo pinta. Essa batalha deve ser travada no mundo todo, é claro, para criar consciência e daí pressionar os governantes, que - esses sim - precisam adotar uma postura clara. O crime contra os pacifistas, que denunciavam o absurdo estrangulamento de Gaza, do qual o Egito é cúmplice, logrou suscitar uma comoção mundial e manifestações de repúdio, deixando Israel isolado e mesmo sem seu principal aliado árabe, a Turquia (a maior parte da frota e dos ativistas era turca). Talvez o episódio marque um ponto de inflexão no meio diplomático de modo a não mais aceitar os abusos israelenses (para isso, supostamente, existe diplomacia). Esperemos. Mas o pessimismo, dado todo o retrospecto, é justificável.