terça-feira, 1 de junho de 2010

Para Além da Indignação

Escrevi aqui algumas vezes espinafrando a política do Estado de Israel. Não do povo israelense, muito menos dos judeus, mas do país. Israel é caso complexo, desde sua origem controversa, servindo oficialmente como lar dos judeus espalhados pelo mundo, mas na prática prefigurando um posto-avançado dos Estados Unidos no Oriente Médio (embora o lobby sionista influa mais no Capitólio do que os americanos no Knesset), passando por cada guerra por território, até o mais recente episódio, em que a marinha israelense atacou uma frota de ativistas dispostos a quebrar o bloqueio a Gaza com ajuda humanitária, matando ao menos nove e ferindo uns quantos outros, Israel é polêmica pura.

Sendo aliado americano e contando assim com meios de comunicação favoráveis mundo afora (e, ao que parece, pastores evangélicos também), ainda é possível ver gente defendendo as posições e as ações daquele país. Mas com esse último crime - o Financial Times o descreve como ato de pirataria - Israel conseguiu a reprovação internacional virtualmente unânime; apenas os amigos de sempre, os EUA (que fingiam "estremecimento" com a questão dos assentamentos), soltaram uma frrouxa declaração segundo a qual estariam "tentando entender" a "tragédia". Periódicos prestigiados, opinião pública, todos condenam Israel e estão indignados.

E eu pergunto: e daí? No cerco a Gaza, um monte de gente ficou indignado - o pateta aqui foi protestar na Embaixada - e eles fizeram o que quiseram, fósforo branco, destruição deliberada de minaretes, etc. E até o relatório que aponta seus crimes de guerra (além das faltas do Hamas) é esnobado por filial e matriz, e dificilmente terá algum efeito mais que documental. O que me garante que daqui a dois anos o ataque à flotilha não será lembrado como apenas um episódio de agressão israelense, em uma matéria jornalística sobre uma nova ofensiva ou algo assim?

Resta-nos fazer barulho, continuar pressionando e lutando a batalha de relações públicas que é vital para eles, convencendo o porteiro do seu prédio e o dono do bar que não é bem como a Globo pinta. Essa batalha deve ser travada no mundo todo, é claro, para criar consciência e daí pressionar os governantes, que - esses sim - precisam adotar uma postura clara. O crime contra os pacifistas, que denunciavam o absurdo estrangulamento de Gaza, do qual o Egito é cúmplice, logrou suscitar uma comoção mundial e manifestações de repúdio, deixando Israel isolado e mesmo sem seu principal aliado árabe, a Turquia (a maior parte da frota e dos ativistas era turca). Talvez o episódio marque um ponto de inflexão no meio diplomático de modo a não mais aceitar os abusos israelenses (para isso, supostamente, existe diplomacia). Esperemos. Mas o pessimismo, dado todo o retrospecto, é justificável.  

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