quarta-feira, 14 de julho de 2010

A Alternativa Socialista

A maior parte de vocês dirá que o socialismo é anacrônico, está morto e enterrado, sob os escombros do Muro de Berlim (se eles não tivessem virado, emblematicamente, souvenirs caríssimos). Boa parte vai concordar em dizer que o socialismo foi brutal, um período que não deveria nunca voltar. O problema é que a História é contada pelos vencedores. E quem tem lhe contado essa história é - em grande medida - uma mídia alinhada com o conservadorismo, e com o imperialismo dos campeões capitalistas da América do Norte.

Sem dúvida que Stálin foi um carniceiro, que pôs um projeto pessoal de poder acima de um ideal que já não ia muito bem das pernas. Na verdade, os socialistas tomaram o poder na Rússia em 17 e ficaram sem saber o que fazer: a teoria marxista previa uma transição de uma sociedade industrial para uma "ditadura do proletariado" (entendida como governo provisório, sentido original de ditadura) que daria lugar ao socialismo e enfim ao comunismo, em que mesmo o Estado sumiria. Ocorre que a Rússia estava longe de ser uma sociedade industrial, e ainda carregava vestígios de feudalismo. O Partido esperava que a Alemanha, terra do mais forte partido comunista, fizesse a revolução e viesse em seu socorro, o que não aconteceu. Daí em diante, partiram para rumos opostos à ideologia que supostamente os motivava: um regime de chumbo sem liberdades individuais e um capitalismo totalmente controlado pelo Estado. A ideologia se converteu em religião, e o jogo passou a ser brincar de superpotência contra os EUA (desperdiçando recursos com armamento).

Mas quantas vezes falam sobre Salvador Allende? Eleito democraticamente no Chile, começou a mudar a sociedade, efetivamente socializando os meios de produção. Que aconteceu? O capitalismo, tão bonzinho, tão íntegro e moralista, mandou bombardear La Moneda, onde Salvador tirou a própria vida, savando a própria honra. Não me aterei aqui em mencionar outros crimes em nome do capitalismo, sugiro Chomsky como fonte.

Como disse Plínio, o sonho socialista vive seu pior momento, mas é imorredouro. Por que ser socialista hoje, se não há a menor chance de implementar alguma transição em pelo menos 20 anos? Para fomentar o debate, quebrar o domínio do discurso único. Fiquei estarrecido ao ouvir de Lula o embuste oficial da ditadura: fazer crescer o bolo para reparti-lo. Assim, os mandarins do capitalismo manejam qualquer um que entre lá (pois se não se curvar, não entra), de modo a garantir a expansão das atividades econômicas, pouco importando as mazelas históricas da sociedade.

Até acho que Lula fez bem, dentro dos liames a que o Estado está submetido. Foi um sucesso de realpolitik, e diminuiu a pobreza de fato, com a ação emergencial da transferência direta de renda. Ocorre que estão tomando isso por solução dos problemas. Posso me descobrir enganado lá na frente, mas eu nunca vi ninguém fazer omelete sem quebrar os ovos, ou seja, transformar a sociedade sem mexer em suas estruturas.

A questão agrária foi um ponto em que o PT capitulou covardemente, e a estrutura fundiária continua absurda a ponto de 1% dos terratenentes possuírem 46% das terras. E falar nisso ainda é tabu. Reforma agrária é vista como tão anacrônica quanto o comunismo, quando por volta da Constituinte estava na boca de todos principais políticos do campo que combatera a ditadura: Ulisses, Fernando Henrique, Serra, Lula... e Plínio, que segue firme sem mudar de posição.

Os serviços públicos como saúde, transporte e educação continuam sendo oferecidos para "cidadãos de segunda classe", enquanto nós que temos alguma grana pagamos por eles e não nos importamos muito. Não é o caso em Cuba, sabiam? Aquela pequena ilha vítima de estrangulação econômica há cinco décadas. Segurança? Aí sim os ricos reclamam: por que a polícia não protege meu patrimônio dessa horda de miseráveis? (obviamente a criminalidade é um assunto complexo, mas a disparidade de renda é certamente determinante) Por que não somem com esses pedintes e guardadores de carro? Por que não passam bala nesses craqueiros que enfeiam minha cidade (pro meu filhão passear tranquilo de carro importado, bêbado)?

Enfim, preciso ainda explicar por que declaro aqui que, havendo segundo turno, voto na candidata indicada pelo governo. Por abominar o outro campo dessa duvidosa polarização. Talvez nem tanto pelos auto-declarados social-democratas, que um dia talvez tenham tido pendores de centro-esquerda, antes de se refestelarem no poder, mas em grande parte pelos aliados, assim-chamados democratas, esses sim asquerosos reacionários empedernidos. Ambos partidos representam apenas uma elite retrógrada do país, uma mais urbana, outra mais rural. Também se pode dizer que o período do PT foi melhor pro país do que o do PSDB, então, como essa é própria ideia de segundo turno (se o seu não vai, escolha entre os dois primeiros), declaro meu voto para Plínio, e - talvez - depois para Dilma. Talvez, porque pode ser que nem precise.

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