quinta-feira, 22 de julho de 2010

O PT, as FARC e os Rumos da Esquerda

O mais recente episódio da briga de foice eleitoral - que só tende a piorar - é a questão em torno da relação entre PT e FARC, levantada pelo inacreditável vice de Serra, Índio da Costa, que vai dar uma força a Serra quando ele se sentir tímido demais para propalar o discurso vejístico, aquele calcado na guerra-fria.
O PT tem de fato pontos de contato com as FARC, sem que isso signifique apoio a seus métodos. A começar pelo Foro de São Paulo, reunião de partidos esquerdistas da América Latina, que inclusive rechaçou os colombianos em encontros mais recentes. Houve também visitas de emissários dos guerilheiros a líderes petistas como Olívio Dutra. Portanto, infunada de todo a "acusação" não é.
Era uma oportunidade excelente para o PT esclarecer à população a situação do país vizinho, em que ambos lados do conflito político se financiam com narcotráfico e atuam através de terrorismo, sendo a diferença que a situação faz isso com respaldo estadunidense, com representação política, e com impacto muito maior sobre a população. Sugiro a esse respeito a matéria do Monde Diplomatique "Tous les colombiens ne s'appelent pas Ingrid". Ressalte-se que não estou defendendo as FARC, mas apenas uma informação mais completa. A guerrilha não é um bando de facínoras desalmados que praticam o mal pelo mal, combatendo as forças do bem, do angelical Uribe.
Ocorre que o PT é representante da esquerda envergonhada, que morre de medo da opinião pública fabricada por uma mídia dedicada à narrativa gringa da história latinoamericana, já que seu enfoque político é mais mercadológico que ideológico, e seu objetivo é obviamente muito mais permanecer no poder do que encampar bandeiras esquerdistas - ainda mais numa questão tão espinhosa.
Dilma diz-se "acima" da polêmica. É uma pena. Para ela, que chama o adversário para cima, e para a opinião pública, que fica privada de um debate mais esclarecedor (que, aliás, nunca foi objetivo de qualquer dos lados).
Isso nos traz à questão dos rumos da esquerda, justamente em seu aparentemente melhor momento no subcontinente. Na Colômbia, ela parte para o crime, e ressalte-se que quando depôs as armas para perseguir a via eleitoral foi atraiçoada e milhares de seus quadros foram chacinados. Na Bolívia parece viver um momento formidável, de transformação pela via democrática - mas parece por demais calcada na figura de Evo, que pode ser tentado a imitar seu ídolo Chávez, um outro líder vermelho popular, mas tirado ao caricato, e que parece pôr seu projeto de permanência no poder acima de tudo mais. Nada sei sobre Equador ou Nicarágua. Tenho simpatia pelo casal Kirchner, apesar de pouco saber sobre os vecinos do Rio da Prata, e torço por Mujica no Uruguai, embora me pareça que o antecessor Vásquez se pareça muito com... Lula, um ícone sem dúvida, mas sem nenhuma consistência esquerdista - o que se reflete na política econômica, na covardia ante a concentração fundiária e por aí vai. Não sei por que deixaram de usar uma expressão muito adequada para a América Latina, segundo a qual a região viveria uma "Onda Rosa". Enquanto isso, partidos que não se venderam (chame-os de dinossauros, se preferir) parecem condenados à irrelevância política.

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