sábado, 28 de agosto de 2010

Return to Forever - Hymn of the 7th Galaxy

Cansei de ficar falando de política. O pleito federal parece decidido. Talvez deva comentar ter nessa semana cumprimentado meu candidato pessoalmente, ainda que por outras questões tenha perdido quase todo o evento com ele.
O acontecimento maior fica sendo a chegada com um pacote de LPs há muito aguardados. Algumas coisas fantásticas como o Trout Mask Replica estão lá, e um Vandermark 5 que ouço agora e que merecerá certamente sua própria postagem.
Mas me achei na obrigação de comentar o estupendo álbum Hymn of the 7th Galaxy, do Return to Forever, o grupo de fusion (pra mim, a expressão máxima do estilo) capitaneado por Chick Corea e com nada menos que Stanley Clarke por fiel escudeiro. O disco é o melhor do grupo, com o ponteiro sempre no vermelho; instrumentos sempre muito bem tocados, mas sem pedantismo. Uma combinação de rara felicidade. Bill Connors (guitarra - eu sempre pensei que fosse o Al di Meola!) e Lenny White (batera) completam a trupe.
Já escutei muito esse disco, tendo-o baixado em MP3. Mas agora, com o vinil, sei como ele foi concebido. A riqueza de texturas é realmente insuperável, além das dimensões subjetivas de cor, calor, e "presença".
É claro que ainda dá pra apreciar digitalmente. Fica para vocês gostinho, no vídeo a seguir.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Pharoah Sanders em Sampa

Eu ia assistir ao Corinthians x São Paulo no Pacaembu, no último fim de semana em Sampa. Foi uma pena perder o 3x0 - fora o espetáculo -, mas quando pintou uma chance de ver o jazzista veterano Pharoah Sanders (parceiro de gente como Sun Ra, Coltrane e Don Cherry), a escolha foi injusta. Foi fantástico. A apresentação me deu a impressão de ser bastante composta e estruturada, com pouca liberdade para improvisação; uma gigantesca peça que se metamorfoseava passeando por todos ritmos negros (e a música popular ocidental é toda negra, afinal), inclusive brasileiros - havia dois brasucas na formação (não eram improvisados, mas parte integrante da trip!). A rapazeada não brinca em serviço, e lá está no youtube um trecho da performance.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Qual é a tua, Nassa?

Ontem, acompanhava o jornalista Luís Nassif em uma (ótima) transmissão sobre a crise da imprensa e ascenção  da blogosfera, uma saga da qual ele mesmo é protagonista. Eu mesmo acompanho sua página, e recomendo aí ao lado, embora às vezes me pareça que embarquem (ele, e principalmente os comentaristas) com tanto vigor no governismo que o nível de chapa-branquismo fique intolerável.

Pois durante a transmissão Nassif chegou a se referir a Plínio como "meu grande amigo"; bacana, mas até aí morreu o Neves, pois mesmo FHC e Serra foram (não sei se seguem sendo) grandes amigos de Plínio. Eu mesmo tenho amigos com posições políticas diametralmente opostas.

Num dado momento, Nassif defendia, sem explicitar, a posição de que só é possível governar pelo centro (o que o PHA também defende), e que só resta definir um detalhe metodológico ou outro. Enquanto isso, há que se combater uma direita golpista (é óbvio), e uma esquerda "que quer reeditar a Revolução Russa". Ora, imaginando que à esquerda do espectro estão o P-Sol, o PCO, o PSTU, o PCB e talvez outro que me escape, e considerando que - até onde eu saiba - ninguém propõe repetir a malfadada experiência soviética (até porque as condições históricas são totalmente diversas), eu vi na "ironia" um ataque à posição (socialista, sim, e daí?) do meu partido.

E tuitei:
Errado, @luisnassif a esquerda não quer reeditar a Revolução Russa aqui. Informe-se #PlínioPresidente50
E depois:
@pliniodearruda Plínio, o @luisnassif nos acusou de querer reeditar a Revolução Russa! É um tucano arrependido ou o quê?

Carregando um pouco nas tintas, admito, mas qualquer um sabe, ou deveria saber, que antes de ser lulista aguerrido, Nassif transitava com desenvoltura no ninho tucano, e é inclusive bem claro quanto a sua relação com seus caciques - quando narra o encontro que teve com Serra e FHC no Alvorada, por exemplo.

Nassif respondeu meu tuíter, mesmo com muito sono, como dizia estar. Não explicava o que quis dizer com "reeditar a Revolução", ou a quem se referia. Foi algo mais parecido a um dedo na minha cara.

Não tente me intrigar com o Plinio RT @Leosfera: @pliniodearrudaPlínio, o @luisnassif nos acusou de querer reeditar a Revolução Russa!

Eu, que nunca quis intrigar ninguém, pelo contrário: fiquei intrigado eu com a afirmação do respeitado jornalista, blogueiro e bandolinista (e achei mais que natural jogar o espaguete no ventilador), ainda caí na besteira de fazer um mea culpa:

@luisnassif: Não tente me intrigar com o Plinio @Leosfera: Mea culpa putativo: eu devo ter entendido errado mesmo. É que é um ataque comum.

E voltei a assistir ao vídeo... e fiquei com a mesma impressão inicial: Nassif acusa os socialistas - mais, a "esquerda" - de perseguir aqueles caminhos que Chomsky desmonta com maestria como não sendo nada parecido com socialismo.

Portanto, como em qualquer "discussão", faço questão de o certo é pedir desculpas e me retirar, e deixar de fofoca, que não estamos aqui para isso. Mas cá entre nós, venerável leitor, Nassif repisou um dos mais batidos e odiosos clichês sobre a esquerda. E eu não podia ficar calado.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Joguete da Direita é o Escambau

Nem sei se deveria me dar o trabalho de contestar a ridícula alegação de que Plínio e o P-Sol fariam o jogo da Direita ao apertar Dilma e criticar o PT. Esse é o discurso daquela turma para qual Lula e PT são infalíveis; como para Mestre Pangloss, preceptor do Cândido: tudo para o melhor, no melhor dos mundos.


Eu aqui cansei de apoiar Lula e defendê-lo dos ataques irados da direita, através de uma mídia comprometida. Mas não acho que não se possam fazer críticas ao presidente e ao governo, o que deveria ser óbvio por si mesmo. São inúmeras críticas que podem ser feitas, e algumas eu elenquei neste comentário lá no Nassif:





Sobre críticas ao governo



Por Marc
Pessoal um pouco de esperança.
Será que depois da eleição; Dilma eleita; poderemos fazer as criticas justas e necessárias ao governo, sem olhar pro lado e ver o Reinaldo Azevedo?
To de saco cheio de ficar defendendo o governo Lula!
Eu quero ter o direito de criticar!
Eu quero ter acesso a criticas e analises consistentes e equilibradas.
Sera que é pedir muito? 


***
Finalmente!
Às vezes me parece que este blog vai escorregando para a "torcida de futebol", como o do PHA, por exemplo.
Recomnedo a crítica balizada de João Pedro Stédile (tirado do Brasil de Fatovia Azenha)
É aquilo que previa Robert Michels: quando a esquerda aceita os caminhos da democracia institucional, acaba sendo tolhida por ela (não por isso a via armada é indicada, a não ser em situações especialíssimas).

Lula resolveu fazer o possível sem "balançar o barco" demais. E acabou apostando as fichas na transferência direta de renda, que é um band-aid que evita fazer a sutura da chaga social (mas mais do que jamais havia sido feito); a eleveção paulatina do mínimo teve um impacto ainda maior. Com isso houve crescimênto econômico, o que é positivo para os mais ricos, com ressonâncias inegáveis para os de baixo (temos o menor desemprego da história). Enfim, há uma transformação em curso, mas é no fim um "gostinho de social-democracia" para um povo acostumado ao amargor da penúria e da indiferença.
Mas nossa sociedade ainda é sumamente desigual (4a do mundo), a terra é concentrada (2a do mundo). Os serviços públicos - educação, saúde, segurança, transporte - são uma vergonha, nada melhoraram. Ainda há analfabetismo absoluto, e o funcional é dos maiores do planeta. Nossos alunos (mesmo os ricos) fazem feio em comparações internacionais. Não há pesquisa e desenvolvimento relevantes; nossa indústria limita-se a montar componentes asiáticos. Não foram feitas as reformas que Lula propôs: agrária, nem pensar, política, empurra-se com a barriga; tribuária, naufragou duas vezes (e nem era uma de verdade, que efetivasse enfim a progressividade, desonerasse consumo e onerasse patrimônio e renda); urbana, que é isso?; a previdenciária - imposta desde washington, ou wall street - essa sim passou (pela preocupação fiscal, e não demográfica).
Não gosto de ver o ufanismo de muita gente aqui, como se o país tivesse alcançado o primeiro mundo, o céu do consumo... Nassif ao menos critica a política econômica, a mesmo do governo anterior, aliás. O que nos faz questionar: será que é o "coiso" quem manda? O capitalismo internacional? É esse mesmo o único jogo que é possível jogar? Não sei.
Sei que é prudente elogiar o governo do PT onde couber, mas sempre com o distanciamento necessário para criticar também. Como a Caros Amigos tem feito. Por fim, lembro a categoria de Faoro, dos "donos do poder". Lula percebeu que "se não se pode vencê-los, junte-se a eles". Para o bem e para o mal.
***
Esqueci ao menos uma: a pauta de exportação brasileira depende cada vez mais de produtos primários: soja, carne, minério. Às vezes me parece estarmos vivendo uma nova versão não do milagre dos milicos (que ao menos foi um salto em infraestrutura), mas uma da prosperidade do café. Também na época as relações sociais tinham um ganho com o fim da escravidão, guardadas as proporções, e o andar de cima fazia a festa. Que mal compare; o que insisto em dizer é que não tivemos um salto qualitativo como nação, como um maciço investimento nos serviços públicos e a reforma agrária poderiam garantir nesse duplo mandato da suposta esquerda no poder. Foi um ganho quantitativo, com as migalhas ficando mais gordas.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Programa do P-Sol

  1. Auditoria da dívida pública, com suspensão do pagamento dos juros e amortizações, controle do fluxo de capitais e do câmbio, com subordinação do Banco Central (BC) ao Estado e taxação progressiva das grandes fortunas (acima de R$ 2 milhões).
  2. Defesa da reestatização da Vale; contra as privatizações, em especial a dos Correios (não à transformação da EBCT em Correios do Brasil S/A).
  3. Defesa da soberania nacional, fim da privatização das florestas, revogação da MP 458, que legaliza a grilagem no campo;desmatamento zero.
  4. Apoio aos povos indígenas, ribeirinhos e das populações tradicionais, contra a construção da hidrelétrica de Belo Monte.
  5. Pela revitalização e contra a transposição das águas do Rio São Francisco; contra obras que inviabilizam a permanência das comunidades tradicionais da região; defesa da revitalização e implantação de projetos para combater os efeitos da seca.
  6. Defesa da Petrobrás 100% estatal; com monopólio estatal da produção e exploração de petróleo; controle estatal e social sobre o pré-sal; transição para fontes de energia renováveis.
  7. Reforma agrária, defesa dos movimentos sociais sem-terra e das suas ocupações; limitação do tamanho da propriedade rural ao tamanho máximo de mil hectares, com expropriação de todas as terras que utilizem trabalho escravo e infantil.
  8. Pela segurança alimentar da população, contra os alimentos transgênicos.
  9. Reforma urbana: defesa dos movimentos sociais de sem-tetos e das ocupações urbanas; pelo direito à moradia digna, contras as remoções forçadas e por um plano de utilização de imóveis vazios que hoje servem à especulação imobiliária como ponto de apoio fundamental em uma política de habitação popular.
  10. Fim da criminalização dos movimentos sociais e da pobreza; anistia a todos os militantes e dirigentes dos movimentos perseguidos com mandatos de prisão, condenações e processo judiciais.
  11. Manutenção do direito de greve e fim dos interditos proibitórios. Defesa do direito de greve dos servidores públicos; contra o arrocho salarial e o congelamento de salários do funcionalismo; contras as medidas e projetos que visam precarizar, privatizar e destruir os direitos dos servidores e os serviços públicos.
  12. Fim do fator previdenciário e defesa da previdência pública.
  13. Apoio à demarcação, homologação, titulação e garantia de inviolabilidade dos territórios indígenas, quilombolas e os territórios de matriz africana; combate ao racismo ambiental.
  14. Redução da jornada de trabalho de 40 horas, sem redução de salários; fim da flexibilização da jornada e dos direitos trabalhistas, fim dos bancos de horas.
  15. Defesa do Plano Nacional de Educação da Sociedade Brasileira e destinação de 10% do PIB para garantir educação pública em todos os níveis.
  16. Fim do modelo de gestão por Organizações Sociais na Saúde e extinção das Fundações privadas na gestão pública;defesa da saúde pública universal, integral e com controle social.
  17. Auditoria da dívida ecológica decorrente dos passivos ambientais provocados pelas grandes indústrias e o agronegócio; utilização do dinheiro do resgate dessa dívida para pesquisa e transição para matrizes energéticas limpas e renováveis.
  18. Reforma política com participação popular, baseada no financiamento público exclusivo de campanha.
  19. Em defesa da legalização do aborto, pelo fim da criminalização das mulheres.
  20. Contra o racismo, a homofobia e o machismo.
  21. Pela democratização dos meios de comunicação; auditoria de todas as concessões das emissoras de rádio e TV; fim da criminalização das rádios comunitárias; anistia aos comunicadores populares; proibição da propriedade cruzada dos meios de comunicação; banda larga universal operada em regime público; criação do Conselho Nacional de Comunicação como instância deliberativa de definição das políticas de comunicação com participação popular; políticas públicas de incentivo à implementação de softwares públicos e livres, ampliando o acesso e a democratização.
  22. Apoiar as experiências e investir em novas iniciativas de economia solidária, cooperativas e associativas.
  23. Retirada das tropas militares do Haiti e sua substituição por contingentes de médicos, técnicos e professores.
  24. Política externa referenciada na soberania brasileira, no combate ao imperialismo e no apoio às lutas e à autodeterminação dos povos.
  25. Combate sem tréguas à corrupção institucionalizada no Brasil - defendendo a punição de todos os envolvidos em denúncias de desvios de verbas, cassação de mandatos de parlamentares corruptos, financiamento público exclusivo de campanha.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Pat Metheny: Diversão Tripla


Existem algumas formas de investir o dinheirinho suado que a gente começa a ganhar. Algumas não trazem riscos, outras podem gerar ganhos maiores. Tem uma que só rende mesmo muito prazer, e é a que este perdulário blogueiro adotou: discos. Não me refiro aos anódinos disquinhos compactos, mas aos long plays, que estão de volta com tudo, sim senhor. Já cheguei a encetar um inventário por aqui, que já está defasado há muito, portanto deixa pra lá.

Mas na última aquisição que fiz está uma joia rara. Daquelas que têm o sabor do seu bolo favorito, que sua vó fazia, algo extraordinário, digno de nota. É o disco triplo Day Trip/Tokyo Day Trip de Pat Metheny com Christian McBride e Antonio Sánchez. Já ouvi uma vez que o fundamento do jazz é no fim o trio - e os exemplos são tantos, mas vez agora à mente outro LP que comprei, do Bill Evans Trio, Moon Beams -; se aqui a guitarra substitui o mais tradicional piano, é apenas a exceção que confirma a regra. Eles vão com naturalidade desde a mais bela balada à pegada mais nervosa. Day Trip é um disco de estúdio, duplo, e Tokyo Day Trip é um EP ao vivo. Some-se a bela arte, grande como só os bolachões permitem, e o conteúdo integral em CD de preza, com a praticidade envolvida e voilà: um discaço. Uma resenha que li comentava como as pausas entre faixas eram "mortas" de tão silenciosas. De fato, esse foi o disco mais "hi-fi" em que pus as mãos. O lançamento é de 2005, da (excelente) gravadora Nonesuch, em prensagem "audiófilo" de 180g.

Fiquem com Let's Move de tira-gosto.

E acho que eles não se ofenderão se vocês só baixarem os sons. Embora eu recomende muito a aquisição do disco (lá fora, aqui é o triplo - e sem trocadilho).
Day Trip Tokyo Day Trip

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Então, Truco!

Quando soube que a oposição direitista estava disposta a trazer ao Brasil, na reta final das eleições, a iraniana Sakineh Mohammadi Ashtiani, condenada à lapidação por adultério no Irã, pensei logo: coitada da moça. Não bastassem todas suas vicissitudes na terra natal, seria ainda joguete político em outro hemisfério.

Falar em moralidade em relações internacionais é sempre complicado.  É difícil fugir da moralidade distorcida que Chomsky denuncia no documentário para o qual eu humildemente fiz legendas. E no livro Contendo a Democracia, que estou terminando de ler. Violações de direitos humanos praticadas pelo inimigo são crimes indizíveis, ao passo que as nossas e de nossos aliados são relativizidas, ignoradas se possível.


Essa mesma turma que queria se aproveitar Ashtiani para faturar politicamente, denunciando a crueldade da sociedade iraniana, dá apoio tácito à tortura policial e aos grupos de extermínio, que "pelo menos combatem a bandidagem" ou algo assim. Alguns, representados no Congresso por gente como Bolsonaro, nem sequer se dão o trabalho de esconder ou tergiversar. No plano internacional, apenas desafetos dos EUA são condenáveis, enquanto eles mesmos e seus aliados jamais são questionados pela mídia hegemônica. Os modos "atrasados" da Arábia Saudita, ou do mesmo Irã sob o Xá, nunca foram problema.

Eu de minha parte condeno com veemência práticas como a lapidação de mulheres adúlteras no Irã, assim como a pena de morte por injeção letal texana. Mas acho insuportável essa postura, "self-righteous" como eles diriam, do "Ocidente" de se achar o modelo de como uma sociedade deveria funcionar, e ignorar sua crueldade intrínseca, seu materialismo ganancioso, a exploração que a move, e a violência que segue, para sair apontando dedo por aí. Só a sociedade iraniana pode obter a conquista de abolir essa e outras práticas. O que não impede, entretanto, nossa diplomacia de firmar sua posição em favor dos direitos humanos.

Sendo assim, Lula falou besteira da grossa ao defender respeito às leis iranianas e ao dizer que sua interferência no caso seria uma "avacalhação". Ele não avacalhou a Itália no caso Battisti (acertadamente a meu ver)? Pois depois dessa declaração, de repente algum assessor palaciano - o Marco Aurélio, talvez? - assoprou em seu ouvido que ele só tinha a ganhar oferecendo asilo a Ashtiani, e além do mais o Irã precisa mais do Brasil do que o contrário, e que o gesto contaria pontos junto à "comunidade internacional" - que o conciliador Lula não quer desagradar totalmente - e pavimentaria o caminho para um possível Nobel da Paz..

E Lula chamou truco em cima da oposição: se vocês querem se aproveitar da moça, vejamos quem vai se dar bem no fim.

domingo, 1 de agosto de 2010

Nem Todos Colombianos se Chamam Ingrid

Como já andei comentando aqui, a discussão sobre o conflito político colombiano propalado por nossa mídia fica sempre manco. É sempre sobre um bando de gente malvada que aterroriza os bons cidadãos. Comentei lá também sobre a matéria do Monde Dipomatique que dá uma visão mais ampla sobre o tema. Como não foram só as declarações do vice demista de Serra a trazer o tema à baila, mas - coisa muito mais séria - o rompimento entre Colômbia e Venezuela (ainda que Lula esteja razoavelmente certo em pintá-lo como "conflito verbal"), resolvi empreender uma tradução do texto, que é longo, mas será um bom exercício.


Tous les Colombiens ne s’appellent pas Ingrid 

(Paola Ramírez Orozco, Diplô, fevereiro de 2009)



Desde a libertação de Ingrid Betancourt, em 2 de julho de 2008, a Colômbia desapareceu das prioridades midiáticas e das preocupações das "people" e dos homens e mulheres políticos até então apaixonadas por esse país. Bem como o destino dos outros reféns detidos pela guerrilha e o tema do intercâmbio humanitário. Acabamos de ser informados de que, em 13 de janeiro, o presidente Álvaro Uribe recebeu, em Washington, das mãos de seu homólogo americano George W. Bush - ao fim de um mandato de balanço calamitoso -, a medalha presidencial da Liberdade. Assaz simbólico...


Centro de Bogotá. À entrada de um arranha-céu vigiado por câmeras, um guarda pergunta mecanicamente: andar, razão da visita, documento de identidade e número de telefone. Em troca, um passe autoriza a travessia do hall, dá direito a uma revista minuciosa e permite o acesso aos elevadores. No vigésimo quinto andar, um outro guarda faz as mesmas perguntas. Enfim, a transposição de duas portas blindadas e de uma barreira de segurança marca a entrada dos escritórios, seja de organizações de defesa dos direitos da pessoa humana, de sindicatos, de partidos políticos ou de organismos independentes. Às vezes, além de guarda-costas, uma ambulância segue os trajetos de um opositor político que se desloca em carro blindado.


A "segurança democrática", política musculosa do presidente Álvaro Uribe Vélez, chegado ao poder em 2002, seria ela um mito? Numerosos magistrados, membros de organizações não-governamentais (ONG), sindicalistas, homens ou mulheres da política, e mesmo certos jornalistas, parecem assim pensar. Segundo o Sr. Alirio Uribe, defensor dos direitos da pessoa humana, apenas alguns privilegiados - a "elite", as empresas, as multinacionais - dela se beneficiariam. Ao passo que "todos aqueles que criticam a política do presidente ou se opõem a seu regime são demonizados". Quando não são assassinados. Em silêncio, pois os meios de comunicação estão muito ocupados.


Muito ocupados enquanto exprimem uma emoção legítima: "Ingrid Betancourt, refém das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia [FARC]" (desde 23 de fevereiro de 2002); um alívio compartilhado: "Ingrid liberta!" (em 2 de julho de 2008); quando se embalam definitivamente: "Betancout encontra Sarkozy", "IB Women World Awards 2008/2009", "Santa Ingrid visita o Papa", "A ex-refém volta à Colômbia", com a única preocupação (não contestável ademais): "Sem mais sequestros!" As FARC detêm ainda vinte e sete "prisioneiros políticos", civis, militares ou policiais, que elas pretendem trocar por guerrilheiros aprisionados.


Em 28 de novembro de 2008, centenas de milhares de manifestantes exibindo camisetas brancas cruzadas por um "Colombia soy yo" desfilaram nas principais cidades do país e capitais estrangeiras (Paris, Madrid, etc.). Como em outras circunstâncias, a manifestação, que se beneficiou de um apoio (implícito) do poder colombiano e (explícito) dos meios de comunicação nacionais e estrangeiros, não apontou o dedo senão a um único dos protagonistas do conflito colombiano: a guerrilha.


Curiosamente, em 6 de março do mesmo ano, uma manifestação contra a violência do Estado não havia provocado nem a presença dos projetores nem a das câmeras. "Nós marchamos para protestar contra as valas comuns, os massacres, os assassinatos, os desaparecimentos e as expulsões de populações, pois a ideia de que se deveria mostrar mais solidário com os reféns, dos quais uma em particular, do que com as vítimas do Estado e dos paramilitares havia se propagado", explica Jorge Rojas, diretor do Centro de estudos dos direitos humanos e da expulsão (Codhes), uma ONG. Enquanto José Obdulio Gaviria, primo primeiro de Pablo Escobar (o finado barão da droga) e conselheiro do presidente Uribe, qualificava tal operação de "marcha promovida pelas FARC", os Aguillas Negras, nova denominação dos grupos paramilitares, proferiam ameaças de morte contra os organizadores e participantes. Convencidos de que as associações não devem esmorecer "cada vez que os paramilitares ou o presidente a ameaçam", como exclamou um manifestante, mais de trezentas mil pessoas se mobilizaram ainda assim na Colômbia.


Uma semana depois, seis organizadores dessa manifestação haviam sido assassinados. Dez sindicalistas tiveram a mesma sorte ao correr de um mês. Único consolo: "Sem os apoios institucionais, econômicos e midiáticos dos quais a marcha contra as FARC se beneficiou e à qual nós participamos, testemunha um organizador, aquela de 6 de março rompeu com a unanimidade que querem nos impor e com a ideia de que a violência vem unicamente das guerrilhas."


Hostil a todo diálogo com a oposição armada, o chefe de Estado tem, desde sua chegada ao poder, privilegiado a via militar. Entre 2002 e 2007, treze mil, seiscentos e trinta e quatro civis morreram, vítimas da violência política. De acordo o Codhes, Dos quatro milhões de pessoas expulsas à força desde 1985, três milhões o foram sob o governo do Sr. Uribe.


Para o advogado Sergio Roldán, essas transferências de população não devem nada ao acaso: "Os camponeses que se recusam a cultivar a folha de coca são expulsos em benefício dos narcotraficantes. Corredor estratégico de encaminhamento de armas e de droga, a terra é limpada de sua população em benefício de grupos armados. Enfim, ela é uma fonte de exploração comercial. Sua acumulaçao é, para os industriais nacionais e internacionais, um prêmio - que implica igualmente o Estado.


Presidente do Codhes, Marco Romero estima em seis milhões e oitocentos mil o número de hectares expropriados ou "vendidos ilegalmente por funcionários corruptos".  O caso do Chocó, região da costa do Pacífico onde vivem as comunidades afro-colombianas, é, desse ponto de vista, emblemático. Milhares de camponeses, obrigados a fugir da violência, abandonaram suas terras "aos megaprojetos previstos para a cultura da palma africana utilizada na fabricação de agrocombustíveis".


"O período 'uribista', constata Daniel Maestre, expulso da comunidade Kankuamo, é o mais repressivo que nossas comunidades [indígenas] jamais conhecemos. Fazer valer nossos direitos e territórios reconhecidos  na Constituição de 1991 e em acordos internacionais é muito difícil." Vítimas dos paramilitares, da guerrilha e do exército - envolvido, segundo a Organização Nacional Indígena da Colômbia (ONIC), em 60% dos casos -, mais de mil e duzentos indígenas foram assassinados ao longo dos seis últimos anos. "A 'segurança democrática' matou mais gente do que ajudou", afirma Jairo Chicama, um indígena embera katio.


Exigindo do governo o respeito a suas vidas e a abertura de um diálogo, perto de quarenta mil indígenas se mobilizaram a partir de 12 de outubro de 2008. Violentamente reprimidos pelas forças da ordem - quatro mortos e uma centena de feridos na comunidade La Maria Piendamó -, os indígenas desmentem as acusações do presidente Uribe justificando a ação militar. "Nosso movimento é pacífico e não é aliado das FARC, afirma Ayda Quilcue. Ou então, se todos aqueles que sofrem a grand crise social são delinquentes, guerrilheiros, como diz o presidente, todos colombianos são membros das FARC!" 


Jovem militante da associação Filhos e Filhas pela Memória e contra a Impunidade, Jessika Hoyos na diz outra coisa: "Nós devemos lembrar quem eram nossos pais, porque eles morreram na mais completa indiferença. Eles não eram terroristas, mas gente que, por seu trabalho ou suas convicções, queriam melhorar este país. Somente, se alguém se pronuncia contra o Sr. Uribe, torna-se um antipatriota, um guerrilheiro; é por isso que há tantos mortos e tantas pessoas forçadas ao exílio." 


A terra é limpa de sua população em proveito dos grupos ilegais


O chefe de Estado se recusa a admitir a existência de um conflito político em um país que conhece uma guerra interna desde os anos 1950. A "ameaça terrorista" lhe basta como explicação. Para "pacificar" o país, o exército, ele mesmo, há tempo pactua com os paramilitares que combatem maciçamente... camponeses, estudantes, professores, sindicalistas, defensores dos direitos humanos, jornalistas e militantes políticos.


As famílias das vítimas que haviam depositado todas suas esperanças na audiências judiciais previstas pela lei dita "justiça e paz", adotada em 2005 para "desmobilizar" os paramilitares e lançar luz sobre seus crimes, muito rapidamente se desencantaram. Reunidas no seio do Movimento Nacional de Vítimas dos Crimes de Estado (Movice), elas lutam hoje contra o esquecimento e a impunidade "premeditada" do presidente. Este faz extraditar aos Estados Unidos, onde serão julgados por narcotráfico, quatorze dos chefes paramilitares mais poderosos. Na Colômbia, acusados de crimes contra a humanidade, havia o risco que eles fizessem comprometedoras revelações sobre suas alianças passadas com membros da classe política.


Mais de cento e setenta funcionários do Estado já foram implicados no escândalo chamado "da parapolítica" - termo que designa a colusão entre paramilitares, políticos e eleitos locais próximos do presidente Uribe ou pertencentes a sua esfera. Entre eles, Jorge Noguera, ex-braço direito do chefe de Estado e diretor do departamento administrativo de segurança (DAS), preso (depois solto) por ter posto tal instituição ao serviço dos paramilitares e ter-lhes remetido uma lista de dirigentes sindicais, professores universitários e opositores a assassinar; Guilherme Cossio, procurador do departamento de Antioquia e irmão do ministro do interior e da justiça, sacado de suas funções por seus laços "narcoparas"; Carlos Garcia, presidente do bastante uribista Partido U...


Trinta e seis eleitos da maioria e dois ex-presidentes do Senado estão encarcerados, enquanto que mais de sessenta e cinco da maioria estão sob exame. Antigo comandante da 17ª brigada do exército, baseada em Carepa (comunidade de Urabá, dependente do governo de Antioquia, departamento governado por Uribe de 1995 a 1997), o general Alejo del Rio, responsável, segundo o chefe paramilitar Ever Veloza - codinome "HH" -, pela expansão do "paramilitarismo" no país, foi preso.


Paradoxalmente, afirma Ivan Cepeda, presidente do Movice, "esses acontecimentos deixam nosso trabalho ainda mais difícil; o presidente defende as pessoas ligadas aos paramilitares e à máfia; nós, nós nos tornamos alvo deles: vinte de nossos dirigentes foram assassinados desde 2005". Principalmente nos departamentos de Sucre, Antioquia e Córdoba, onde, "impondo um regime de terror, os 'paras' decidem quem serão os representantes políticos, os reitores de universidades, os funcionários públicos, etc. Em uma dessas zonas se encontra o domínio do presidente, situado na proximidade daquele [do chefe paramilitar] Salvatore Mancuso. Podemos afirmar com certeza que aquele que vive na região, que conhece a região, sabe o que se passa."


Não obstante a "desmobilização", em vinte e dois departamentos - de trinta e dois -, estruturas paramilitares agiriam em toda liberdade com a bênção das elites. Mesmo no estrangeiro, informa o sr. Cepeda, as vítimas do Estado exiladas ou refugiadas não estão mais seguras. "Acusadas de pertencer às FARC, elas são perseguidas pelas instâncias diplomáticas da Colômbia." 


"É difícil acompanhar as pessoas que vão votar com uma arma"


A exemplo do diário El Tiempo, fonte de informação da imprensa estrangeira e propriedade da família do vice-presidente (Francisco Santos),e do ministro da defesa (Juan Manuel Santos), as redes de televisão tais como RCN (Radio Cadena Nacional) e Caracol (Cadena Radial de Colombia) servem de caixas de ressonância para a propaganda do poder. Para aqueles que, em nome de uma imprensa independente, "lutam contra a visão falseada da realidade, contra a unanimidade e o uribismo", como Antonio Morales, de volta ao país depois de seis anos de exílio e diretor do novo jornal Polo, as dificuldades começam com as campanhas "impedindo a distribuição do jornal e o acesso à publicidade".


Acusados pelo executivo de "favorecer os atos terroristas" por seguirem as "violações dos direitos da pessoa humana", outros, como Holman Morris, jornalista da emissão televisiva "Contravia", são ameaçados de morte. Em suma, constata este último, "nós não temos escolha senão entre viver com estas ameaças de morte ou praticar a autocensura". Nenhuma necessidade de precisar que, nas zonas paramilitares, a liberdade de expressão e o pluralismo político desapareceram.


Ainda assim, observa o senador do Pólo Democrático Alternativo (PDA) Gustavo Petro, "ainda que sejamos todos ameaçados de morte e que soframos a vontade de destruição do presidente, os partidos de esquerda ou de oposição existem nas cidades. É difícil matar todo mundo na rua ou acompanhar as pessoas que vão votar com uma arma", Isso explicaria em parte a eleição de prefeitos de oposição nas três grandes metrópoles do país - Bogotá, Medellin e Cali. "Nas regiões de César e Magdalena, lembra orgulhosamente o senador, evocando esses feudos paramilitares onde não havia senão um único cadidato (o deles!), o voto branco venceu." 


Se as manifestações de resistência pacífica da sociedade se multiplicam, os temores de represálias sangrentas persistem. "Com um governo tão autoritário e intolerante como este de uribe, a oposição política não armada corre grandes riscos, afirama Carlos Gaviria, presidente do PDA; ele não nos vê como uma necessidade, mas como um estorvo à democracia". Confrontado com os ataques do presidente e com os múltiplos assassinatos de seus dirigentes, este novo partido reagrupando a esquerda do país tem na memória o extermínio - quatro mil mortos - dos militantes da União Patriótica nos anos 1980. Como, em face a esse evento marcante da História política da Colômbia, não considerar que existe "uma lógica de Estado pressionando a sociedade civil à luta armada"?


Desejoso de postular um terceiro mandato [N.doT.: a Suprema Corte o impediu, mas ele elegeu o sucessor, Juan Manuel Santos], o presidente sonha visivelmente em desmantelar a Constituição de 1991. Ele já logrou tê-la revisada, não sem ter comprado os votos de certos parlamentares, para se fazer reeleger em 2006. Para Fernando Cifuentes, procurador da república, "os métodos do presidente, as violações do texto constitucional e a 'parapolítica' não respeitam os princípios fundamentais da democracia. Se isso continuar, vamos em direção a uma ditadura totalitária.


A crer nos testemunhos, a chegada de Uribe à chefia do Estado de fato em nada serviu à justiça. "O executivo exerce uma verdadeira pressão sobre nós pelo viés econômico e político, afirma Esperanza Delgado. presidente do Asonal Judicial du Valle del Cauca, um sindicato de magistrados. Nós trabalhamos 'com as unhas' e a independência da justiça não é respeitada. Certos procuradores nomeados pelo procurador-geral da nação, ele por sua vez escolhido pelo presidente, devem agir como lhe pedem, senão são destituídos ou assassinados. No domínio da 'parapolítica', a Corte de justiça tem as provas e as testemunhas  para julgar e condenar os deputados. Mas, em vez de a deixar fazer seu trabalho, o presidente a ataca sempre que tem a ocasião."


"Neste país, é mais fácil montar uma guerrilha que um sindicato"


Uma intervenção patente no caso de Mario Uribe, senador e primo do presidente. Acusado e condenado em abril de 2008, ele seria posto em liberdade quatro meses mais tarde pelo vice-procurador geral, "falta de provas". O procurador Ramiro Marin, que havia ordenado sua prisão, se demite "não porque Mario Uribe foi posto em liberdade, mas porque, durante o processo, a independência da justiça foi pisoteada e, com ela, minha honra pessoal, familiar e profissional. Para mim, era claro que havia provas reais suficientes para proceder à prisão".




Enquanto a justiça utiliza a lei para tentar lutar contra o absolutismo presidencial, as estratégias do governo para deslegitimar os membros da Corte Suprema emanam da Casa de Nariño, o palácio presidencial. Já faz alguns meses, altos funcionários públicos e emissários paramilitares se reunem. Sua missão? Buscar provas contra os "prevaricadores putchistas, fazendo o jogo da guerrilha e do terrorismo". É assim que Uribe qualifica esses magistrados e juízes de instrução que diligenciam sobre a "parapolítica". "Tais procedimentos, afirma Madame Delgado, põem em perigo nossas vidas e toda credibilidade de nossa instituição e de nossa ação. Se o chefe de Estado faz troça da justiça, imagine os delinquentes!"


Greves gerais de servidores da justiça já ocorreram em todo o país, e as paralizações se intensificam tão forte é a indignação. Em setembro de 2008, durante quarenta e quatro dias, um movimento nacional pela independência da justiça e pela revalorização dos salários mobilizou mais de 80% dos efetivos da instituição judiciária. Fechado a qualquer diálogo, o chefe de Estado replicou decretando estado de urgência. Quando não é o exército, é o terror anônimo que neutraliza o descontentamento. Na madrugada de 31 de agosto, uma bomba destruiu o palácio de justiça da cidade de Cali. Além da morte de quatro pessoas, processos instruídos para a condenação de criminosos desapareceram na fumaça. "Nós não nos sentimos seguros, testemunha uma procuradora. O presidente se apressou em dizer que se tratava de um atentado das FARC. Nós nada sabemos. Eu tinha processos sobre narcotraficantes, paramilitares e políticos. As audiências estavam previstas para esta semana. Agora eu não tenho mais nada, meu gabinete foi completamente destruído." 


Para os sindicatos, esta guerra encarniçada contra o "terrorismo" tem por objeto camuflar os revezes do poder: um desemprego em alta, uma economia debilitada, 70% de pobres e 27% de aumento das plantações de folha de coca. Em tal contexto, por que Uribe encetaria discussões ou negociações com a oposição armada? "Sem as FARC, afirma o sindicalista Luciano Sanin, sua política não faria nenhum sentido. Ele deve manter a ameaça terrorista para justificar suas medidas de 'segurança democrática', os gastos militares [6% do Produto Interno Bruto] e a ausência de investimento social."


Acusados pelo presidente de "desestabilizar o Estado", os sindicalistas se sentem mais do que nunca ameaçados. "A cultura política da Colômbia sempre recusou o sindicalismo, prossegue Sanin, mas é a primeira vez que temos um regime tão neoliberal e repressivo." Segundo a Escola Nacional dos Sindicalistas (ENS), dois mil, seiscentos e oitenta e quatro sindicalistas foram assassinados em vinte e dois anos, dos quais quatrocentos e setenta e três durante os dois mandatos de Uribe (quarenta e um em 2008).


A ação dos sindicatos junto ao Congresso americano conduziu os democratas a suspender a assinatura do tratado de livre comércio (TLC) Colômbia-Estados Unidos, principal objetivo de Uribe. Esse revés explicaria em parte a repressão. Mas, para o presidente da Central Unitária dos Trabalhadores (CUT), Tarcisio More, "o presidente quer [igualmente] realizar o sonho neoliberal: dispor de uma mão de obra barata, taxável à vontade, sem direitos nem sindicatos", a exemplo das Cooperativas de Trabalho Associado (CTA) onde os empregadores são exonerados de toda obrigação coletiva e de cotizações patronais para a saúde e as aposentadorias.


Limitando os direitos dos empregados e enfraquecendo a força dos sindicatos, esse sistema rege o exército de trabalhadores das empresas açucareiras do Vale do Cauca. Sem nenhuma proteção social, eles cortam a cana de açúcar, à machadinha, quatorze horas por dia, sete dias por semana, por pouco mais de 200 dólares (147 euros) por mês. Quando de uma greve deflagrada em 15 de setembro, quase dezoito mil cortadores exigiram condições de trabalho decentes e o fim do sistema das CTA. Foi preciso uma paralisação de cinquenta e cinco dias para que um acordo melhorando as condições de trabalho fosse obtido com o Ministério da Proteção Social. Entretempos, o governo tendo apresentado esse movimento como um "protesto de delinquentes infiltrados pelas FARC", o exército interveio violentamente, deixando mais de cem feridos.

Os outros setores econômicos não escapam a essa realidade. "De dezenove milhões de trabalhadores, sublinha o Sr. Mora, menos de cinco milhões se beneficiam duma proteção social. Oitocentos e cinquenta mil apenas são organizados, e um de cada cem dispõem de convenção coletiva." Em cinco anos, o Ministério da Proteção Social, de acordo com a ENS, recusou-se a registrar quinhentas e quinze novas organizações sindicais, confirmando a fala de Sened Niño, presidente da Federação Colombiana dos Educadores (Fecode): "Neste país, é mais fácil montar uma guerrilha que um sindicato."

"Se o chefe de Estado faz troça da Justiça, imaginem os delinquentes!"

Expondo sua vida e a de suas famílias, os sindicalistas colombianos exercem de fato uma atividade suicida. "Eu devo me esconder, proteger minha vida e a de meus filhos, mudar cada vez que minha casa é saqueada, e receber ameaças de morte, conta um dirigente. Para minha família, ser sindicalista é a pior coisa que possa acontecer a qualquer um neste país.

Quanto às mulheres, a selvageria de que elas são vítimas "se exprime fora dos esquemas que caracterizam a violência política, analisa Pilar Rueda, professora na Universidade de La Salla (Bogotá). Elas são esfaqueadas para dar a impressão de crime passional, elas são vítimas de sevícias sexuais, de trabalhos forçados, e representam 70% da população expulsa". Em síntese, conclui Rueda, sob pretexto de combater a guerrilha, "os paramilitares combateram uma sociedade civil não armada".

Sem garantias para defender seus direitos, a luta não violenta da sociedade colombiana que quer construir uma real democracia em um país em guerra sobe a aposta. Entretanto, o país transborda de iniciativas individuais e coletivas nutridas pela esperança de obter um dia o apoio da "comunidade internacional". "Nós não podemos concorrer com a mídia, as armas, o dinheiro, nem com o dinheiro, afirma Lilia Solano, militante dos direitos da pessoa humana, mas nós podemos perseverar em nossa luta. Não sei se somos vítimas de uma loucura coletiva, mas não cessaremos jamais de resistir."




Paola Ramírez Orozco