segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Então, Truco!

Quando soube que a oposição direitista estava disposta a trazer ao Brasil, na reta final das eleições, a iraniana Sakineh Mohammadi Ashtiani, condenada à lapidação por adultério no Irã, pensei logo: coitada da moça. Não bastassem todas suas vicissitudes na terra natal, seria ainda joguete político em outro hemisfério.

Falar em moralidade em relações internacionais é sempre complicado.  É difícil fugir da moralidade distorcida que Chomsky denuncia no documentário para o qual eu humildemente fiz legendas. E no livro Contendo a Democracia, que estou terminando de ler. Violações de direitos humanos praticadas pelo inimigo são crimes indizíveis, ao passo que as nossas e de nossos aliados são relativizidas, ignoradas se possível.


Essa mesma turma que queria se aproveitar Ashtiani para faturar politicamente, denunciando a crueldade da sociedade iraniana, dá apoio tácito à tortura policial e aos grupos de extermínio, que "pelo menos combatem a bandidagem" ou algo assim. Alguns, representados no Congresso por gente como Bolsonaro, nem sequer se dão o trabalho de esconder ou tergiversar. No plano internacional, apenas desafetos dos EUA são condenáveis, enquanto eles mesmos e seus aliados jamais são questionados pela mídia hegemônica. Os modos "atrasados" da Arábia Saudita, ou do mesmo Irã sob o Xá, nunca foram problema.

Eu de minha parte condeno com veemência práticas como a lapidação de mulheres adúlteras no Irã, assim como a pena de morte por injeção letal texana. Mas acho insuportável essa postura, "self-righteous" como eles diriam, do "Ocidente" de se achar o modelo de como uma sociedade deveria funcionar, e ignorar sua crueldade intrínseca, seu materialismo ganancioso, a exploração que a move, e a violência que segue, para sair apontando dedo por aí. Só a sociedade iraniana pode obter a conquista de abolir essa e outras práticas. O que não impede, entretanto, nossa diplomacia de firmar sua posição em favor dos direitos humanos.

Sendo assim, Lula falou besteira da grossa ao defender respeito às leis iranianas e ao dizer que sua interferência no caso seria uma "avacalhação". Ele não avacalhou a Itália no caso Battisti (acertadamente a meu ver)? Pois depois dessa declaração, de repente algum assessor palaciano - o Marco Aurélio, talvez? - assoprou em seu ouvido que ele só tinha a ganhar oferecendo asilo a Ashtiani, e além do mais o Irã precisa mais do Brasil do que o contrário, e que o gesto contaria pontos junto à "comunidade internacional" - que o conciliador Lula não quer desagradar totalmente - e pavimentaria o caminho para um possível Nobel da Paz..

E Lula chamou truco em cima da oposição: se vocês querem se aproveitar da moça, vejamos quem vai se dar bem no fim.

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