sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Questão de Valores

O adjetivo que mais gostam de impingir a meu candidato a presidente, Plínio de Arruda Sampaio, é (talvez depois de "engraçado", dado seu tom mordaz, às vezes jocoso, nos debates) radical. Nós não rechaçamos essa "crítica"; na verdade, não enxergamos crítica (ainda que seja de fato quase um insulto para o emissor), pois enxergamos a sociedade brasileira como intrinsecamente injusta (o que programas de renda mínima estão longe de mudar, ainda que essa discussão vá longe), e postulamos que apenas mudanças radicais trarão uma sociedade mais igualitária.

Há a questão da reforma agrária, por exemplo, que é de fato crucial. É um tema que andava, desde a redemocratização (ou détente) até a Constituinte, pela boca de peessedebistas quando eles aprendiam ainda a voar e pudessem talvez ainda merecer a sigla de social-democratas; do doutor Ulisses Guimarães, quando seu partido pudesse ter alguma honra; e obviamente do PT, quando a estrela era uma divisa e não apenas um logotipo. À medida que chegavam ao poder, todos esqueciam rapidinho do que haviam dito. Por que será? Devo lembrar que a pauta exportadora brasileira é (e tem sido ainda mais ultimamente) baseada em produtos primários? Que o coronelismo ainda grassa pelo interior da maior parte do país? O presidente da república parece ser pequeno ante esse poder dos 1% dos proprietários que abocanham 46% da área cultivada. Pelo menos quando se opta pela "virtude da moderação".

Mas minha intenção ao escrever era desde o início abordar a questão da educação. A proposta do PSol é a educação 100% pública. Isso é visto como um absurdo completo pela mentalidade neoliberal (ainda que não o seria pelos liberais originais, como demonstrarei), pois vê-se o direito sagrado, não aquele de todos cidadãos terem uma educação equivalente, mas aquele de um empresário lucrar com ensino. Mais que isso: talvez não se admita, mas o que o Brasil de cima vê mais ameaçado é o privilégio; a clivagem entre o Brasil que vai ter os melhores empregos e os que terão subempregos, se forem muito perseverantes. Por fim, nunca interessará à reduzida "elite dirigente" que pessoas sejam realmente educadas e conscientizadas, mas apenas treinadas - e  de acordo com a clivagem mencionada, algo como a distopia de Huxley.

Mas, na prática, dá pra fazer? Sim. É um desafio, por certo, que só se completará com a aderência de todos atores envolvidos. Pelo que eu entendo, haveria uma confluência pela qual a estrutura atual particular seguiria funcionando, mas assimilada pelo Estado. E obviamente, todo o investimento necessário para melhorar a rede pública seria feito - para isso a reserva de 10% do PIB para a Educação - até que as duas redes se integrassem. Não é impossível e certamente já foi feito.

A questão é saber que valores o brasileiro quer ostentar, se os de uma sociedade estamental - que vive, sim, até hoje - tais como são bombardeados pelos meios de comunicação que fazem mesmo o oprimido pensar o que o patrão quer, ou se nos atualizaremos (de fato, não apenas no discurso) até aqueles da Revolução Francesa, pelo menos. Igualdade não combina com duas categorias de escola. Fraternidade não existe quando uma criança teme a outra, que de sua parte ou inveja ou odeia e eventualmente talvez roube a outra. E Liberdade não existe quando o futuro é decidido cedo, fazendo da pobreza hereditária.

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