sábado, 16 de outubro de 2010

A Gincana Eleitoral (virando Batalha Campal)

Pouco importa o resultado final destas eleições (até porque pouco importa mesmo), teremos motivo para nos envergonhar. Do processo eleitoral e das campanhas. O Brasil gosta de alardear ser uma democracia estável, sólida, o que nos poria à frente dos colegas do BRIC, ou de China e Rússia ao menos. Mas dá pra levar a sério mesmo nossa "festa da democracia"?

Vou evitar entrar em discussões ontológicas, nem vou dissecar etimologicamente o termo, uma vez que sou reconhecidamente ignorante em qualquer assunto que seja. Vou tão somente traçar algumas considerações que me vêm à mente. Antes de mais nada, o fato de que as campanhas são financiadas basicamente por empresários, sendo o retorno eleitoral quase diretamente proporcional ao investimento, garante que apenas interesses dessa classe estejam de fato representados. Já fui contra o financiamento público de campanha, pensava que a corrupção prosseguiria com qualquer outro pretexto. É fato. Mas candidatos com posições menos vendáveis, digamos assim, não ficam alijados do processo. Corrupção há que se tentar combater sempre. Bem, mas o financiamento público não corrige outra distorção: a despolitização. Vou citar de novo Thomas Fergusson e a Teoria do Investimento Político (via Chomsky): os investidores se unem para eleger representantes e, como sabem que a opinião do público diverge da sua, convém que os temas sejam deixados de lado em favor da comparação de "qualidades" dos candidatos (no nosso caso, os defeitos do outro); some a isso que no máximo metade do eleitorado sequer sabe o que é esquerda ou direita, e temos eventos mercadológicos, anúncios de sabão em pó, em vez de política.

Tomando o caso em questão, a temporada 2010 do "reality show" mais bizarro da Terra, tivemos as presepadas do Judiciário, que não sabe dizer que lei vale, quando e para quem, e segue que o resultado exarado no último dia 3 ainda pode sofrer várias alterações. Vamos lá: a lei de iniciativa popular alcunhada Ficha Limpa é uma boa inciativa; longe de uma panaceia, mas capaz de estabelecer um filtro mínimo para a eligibilidade (ainda que distorções tenha havido, como o Aldo Santos, vice do Búfalo em SP que foi - ao que me parece - injustamente condenado ao ceder um ônibus a sem-teto). Ocorre que a lei foi aprovada ainda este ano, e com uma alteração marota que devia remetê-la de volta à câmara; a Justiça Eleitoral forçou a barra para interpretar que ela não alterava o processo eleitoral e podia valer já este ano. É claro que são muitos os furos pelos quais ela pode ser questionada. Chamada a decidir, a Corte Suprema chegou a um empate e... lá ficou. Não sabiam que regra valia nem para o desempate. Risível. E segue o barco. Outro caso que foi emblemático do pleito foi o fenômeno Tiririca. Não é a primeira vez que alguém é eleito por sua celebridade, mas o "comediante" em questão sempre foi célebre por sua ignorância; não foi senão a dias do pleito que alguém levantou a "denúncia" de que ele era iletrado. Já li até que ele poderia ser preso, já que afirmou saber ler e escrever para se candidatar. Mas mais não soube.

Por fim, quero aqui registrar minha repulsa ao rumo que vêm tomando as campanhas presidenciais. Não só são vazias e despolitizadas, calcadas na descontrução do adversário, muita vez por ofensas, mas desviaram-se para o obscurantismo passional, privilegiando um tema que quanto mais longe de política melhor: religião. Começou pouco antes do primeiro turno, com boatos de que Dilma seria pela legalização do aborto. Há algo de verdade nisso, e eu vi uma entrevista dela em que ela defendia esse ponto de vista. Mas obviamente o cálculo político vale para o PT mais do que qualquer convicção ou coerência: a campanha a presidente 2010 nunca cogitou mudar a lei. O PSOL sim, mesmo tendo um candidato extremamente católico, propunha abolir a hipócrita proibição que só garante que moças pobres morram ou se mutilem em abortos ilegais enquanto, da classe média pra cima, há sempre uma clínica muito profissional à disposição. Bem, voltando à vaca fria, o que passamos a ver foi uma disputa para saber quem era o candidato mais cristão. Signo de atraso. As militâncias por seu turno se comportam como torcidas de futebol, com suas palavras de ordem e tudo mais. Por isso eu tenho dito que se trata de uma Gincana Eleitoral: um grita Erenice de lá, outro responde Paulo Preto. De ontem pra cá os dilmistas estão apostando em uma "arrancada" no twitter, que inclui encher o saco do Plínio que - coerentemente - prega voto nulo, enquanto o PSOL espertamente prega o Serra Não. Sei que essa arrancada está me torrando a paciência, e seria ainda pior se eu também seguisse serristas.

Que acabe logo essa agonia, e que o Serra não vença. Mas andei pensando: e se desmarcassem a votação e marcassem uma batalha campal?

Um comentário:

Ana Carolina disse...

cantou a pedra, hein, rapaz?