terça-feira, 5 de outubro de 2010

O Fenômeno Verde

Eu sempre preciso dar piruetas para explicar que respeito muito Marina Silva, admiro muito sua trajetória, considero-a articulada e inteligente, mas divirjo frontalmente de seu projeto político. Se é que podemos chamar de projeto político "tocar o barco adiante", o que era afinal o objetivo dos três principais candidatos. Mas de qualquer forma não dá pra ignorar que o PV é um partido de centro-direita que, com a retórica ambiental, coloca-se como "pós-ideológico". Assim, é vazio. Porque a ecologia, enquanto viger o capitalismo, não passará de protocolo de boas intenções, e - pior - ferramenta de marketing - para produtos e, voilà: partidos. Marina prometia, se eleita, governar com PT e PSDB. Se por um lado isso é indiretamente uma denúncia da geleia geral que virou a política, por outro é uma síndrome de poliana acreditar que num passe de mágica os dois condomínios de oligarcas rivais iriam aderir ao "elemento neutro". A questão da fé ela até conseguiu controlar, embora a dado momento tenha exagerado nos "graças a Deus". A proposta de lançar temas polêmicos para plebiscito parece democrática, mas é hipócrita. Como ela já conhece o senso comum, exime-se de tomar uma decisão ela mesma e evita que a acusem de fundamentalista.

Mas enfim, como explicar o fenômeno Marina? Não penso que religião e boatos sobre a posição de Dilma quanto ao aborto tenham influído na "onda verde" que garantiu a Marina quase 20% dos votos, no melhor 3º lugar da Nova República. [Plínio foi o Forlán das eleições, chegou em quarto mas apresentou o melhor futebol] Nem vou me preocupar com o erro das pesquisas. Li por aí que o Jornal Nacional de sábado enalteceu Marina em uma super produção (eu não assisto TV), isso deve ter influenciado muito - e diz muito sobre nossa "democracia". Mas o que quero afinal introduzir aqui é a análise de Noam Chomsky sobre a democracia de lá, mas que vale - cada vez mais - para cá. Eleições são eventos em que investidores se unem para chegar ao poder (a Teoria do Investimento na Política de Thomas Fergusson) e interessa que os assuntos reais sejam deixados de lado para focar nas qualidades dos candidatos. Dilma e Serra são antipáticos, Marina mesmo tendo voz desagradável tem seu apelo. E quem pode ser contra a ecologia, afinal? Eu mesmo quando mais novo e menos informado já nutri simpatias ao PV! Gente de todo jeito, com diversas motivações, votou em Marina, mas eu vejo seu eleitor típico como "desiludido com a política", avesso, ou mesmo alheio, aos conceitos de esquerda e direita, vendo em Marina a alternativa perfeita, por suas virtudes pessoais; sem esquecer o apelo ecológico. Enfim, em termos práticos, temos as nuances: os que a veem como alternativa, e pelo antipetismo aderirão a Serra, e os que pelo antitucanismo aderirão a Dilma. Usando meus dotes de palpitologia eu estimo os dois campos em dois terços e um terço, respectivamente. Não é preciso muita matemática para dizer que Dilma ainda ganha, mas não será com folga. Por isso mesmo, terá minha ajuda, afinal posso dizer que sou psolista antitucano.

Um comentário:

Ana Carolina disse...

boa análise... muito boa. "Dilma e Serra são antipáticos, Marina mesmo tendo voz desagradável tem seu apelo. E quem pode ser contra a ecologia, afinal? Eu mesmo quando mais novo e menos informado já nutri simpatias ao PV!" dois! hahaha