domingo, 24 de outubro de 2010

SLAVOJ ŽIŽEK no Democracy Now! parte 1

Em breve, o vídeo legendado.


AMY GOODMAN: Nos voltamos para a Europa, ondo muitos estão preocupados com a crescente aceitabilidade de retórica e políticas anti-imigrante. Longe de apenas ser expressa pela extrema-direita, a tendência anti-imigrante adentrou o mainstream. A chanceler alemã Angela Merkel disse a uma reunião de jovens membros do partido conservador União Democrática Cristã neste fim de semana que o multiculturalismo fracassou completamente.
CHANCELLOR ANGELA MERKEL: Em Frankfurt, principalmente, duas de cada três crianças abaixo de cinco anos tem um origem imigrante. Somos um país que, no começo dos anos 60, de fato trouxe trabalhadores convidados à Alemanha. Agora eles vivem conosco, e nós mentimos para nós mesmos por um tempo, dizendo que eles não ficarão e que desaparecerão um dia. Essa não é a realidade. Essa abordagem multicultural, dizer que simplesmente vivemos lado a lado e estamos felizes um com o outro, essa abordagem fracassou, fracassou totalmente.
AMY GOODMAN: A chanceler alemã acrescentou depois que imigrantes são bem vindos na Alemanha e que o Islã é uma parte da cultura da nação nos dias atuais. Seus comentários são vistos como parte de uma guinada à direita e vêm apenas dias após um estudo pela Fundação Friedrich Ebert, de centro-esquerda, descobrir que mais de 30 por cento das pessoas acreditam que a Alemanha é “dominada por estrangeiros.” Um número similar acreditava que os imigrantes tinham vindo para a Alemanha por seus benefícios sociais e “deveriam ser mandados para casa quando o emprego é escasso.” No começo do ano, um livro de um banqueiro influente causou furor, por atribuir o declínio da nacionalidade alemã ao suposto fracasso de muitos imigrantes em se integrarem.  
Enquanto os debates prosseguem na Europa, recebo aqui em Nova Iorque um controverso intellectual público que foi chamado de “Elvis da tória cultural.” Sim, estou falando do filósofo e crítico esloveno Slavoj Žižek. Ele é o autor de mais de trinta livros. Seu mais recente, da Verso, acaba de sair, e se chama “Vivendo no Fim dos Tempos”. Em recente artigo para o jornal londrino The Guardian, ele argumenta que “através da Europa, a política da extrema direita está infectando a todos com a necessidade de uma política anti-imigrante ‘razoável.’”
Bem, Slavoj Žižek, bem vindo ao Democracy Now!
SLAVOJ ŽIŽEK: Feliz de estar aqui. Obrigado.
AMY GOODMAN: Junte tudo para nós, desde a Angela Merkel falando sobre o fim do multiculturalismo – e mesmo o que isso significa, “multiculturalismo” – aos protestos em massa que estão ocorrendo na França e mais além.
SLAVOJ ŽIŽEK: Eu realmente penso que geralmente nós europeus somos um pouco arrogantes, como se fôssemos o modelo de tolerância e por aí vai. Agora algo horrível aconteceu, e o que é realmente preocupante é que não apenas os países, as partes da Europa, que geralmente associamos à intolerância, como o sudeste da Europa, Romênia, Hungria e tal, são inclusive os próprios modelos de tolerância: Holanda, Noruega e tal.
O que realmente me preocupa é... vou dizer algo muito simples, quase lugar-comum, que, você sabe, para mim, eu sou nisso sempre pela censura. Através da democracia, tolerância, num sentido autêntico, significa que você simplesmente não pode dizer certas coisas publicamente. Você é considerado... você sabe, como se você disser publicamente uma piada anti-semita, sexista, é inaceitável. Coisas que eram inaceitáveis dez, quinze anos atrás são agora aceitáveis. E o que realmente me preocupa é como a extrema-direita, o que era vinte anos atrás o domínio da extrema-direita, está ditando... mesmo se são uma minoria, estão ditando a agenda geral.
O truque retórico típico aqui é em dois movimentos. Primeiro, você obviamente condena a extrema-direita: “sem lugar na nossa democracia desenvolvida”. Mas então você acrescenta: “Mas eles estão abordando as reais preocupações das pessoas,” e tal e tal. Então, precisamente – este é o truque sofisticado sujo – de modo a prevenir demonstrações de ódio, temos de controlar a situação. Você sabe que ele era politicamente próximo à social-democracia.
AMY GOODMAN: Que significa?
SLAVOJ ŽIŽEK: Que significa que eles… realmente, a extrema direita impôs seu tema sobre todos. Mas deixe-me dizer agora algo que pode lhe surpreender. Eu, é claro, não aceito essa lógica horrível – temos que fazer mais modestamente para prevenir demonstrações reais – mas eu penso que há uma falha nessa visão padrão, liberal, multicultural, que quer dizer que todo grupo étnico, qualquer coisa, em si mesma, tudo que precisamos é de um arcabouço legal neutro garantindo a coexistência de grupos. Desculpe se eu choco alguém, mas eu penso que de fato precisamos do que os alemães chamam Leitkultur, cultura prevalente. Apenas ela não deveria ser definida nacionalmente. Deveríamos lutar por isso. Sim, eu concordo com os direitistas. Nós precisamos de um conjunto de valores aceitos por todos. Mas quais serão esses valores, meu Deus? Nós negligenciamos isso um pouco. Você sabe que não é apenas esse modelo liberal abstrato: você tem seu mundo, eu tenho meu mundo, nós apenas precisamos de uma rede legal neutra – como vamos educadamente ignorar um ao outro. 
Meu segundo argumento seria que é absolutamente crucial como essa explosão anti-imigrante está ligada ao recuo da política esquerdista, especialmente em matéria de economia e tal. E como se a esquerda, estando obcecada pela ideia de que não devemos parecer reacionários no sentido econômico, o que é dizer “Não, não, não somos os velhos sindicalistas da classe trabalhadora, somos pelo capitalismo digital pós-moderno” e tal. Eles não querem tocar a classe trabalhadora ou as assim-denominadas pessoas comuns de baixo. E aqui os direitistas entram. Você sabe, o horrível paradoxo é que, fora alguns pequenos partidos esquerdistas marginais, a única força política séria na Europa hoje que ainda está apta a apelar às pessoas trabalhadoras comuns são os anti-imigrantes de direita? Então você vê, nós, os esquerdistas não temos direito algum, absolutamente direito algum, de assumir essa postura arrogante de pessoas tolerantes ofendidas que estão horrorizadas... não, deveríamos fazer a pergunta, como permitimos o que está acontecendo.
AMY GOODMAN: Eu quero perguntar a você sobre essa pequisa do Christian Science Monitor que mostrou que 13 por cento dos alemães apreciariam a chegada de um novo Führer. Mais de um terço dos alemães sentem que o país é “dominado por estrangeiros.” Aproximadamente 60 por cento limitariam a prática do Islã, e 17 por cento acreditam que judeus têm influência demais. Treze por cento apreciariam a chegada de um novo Führer.
SLAVOJ ŽIŽEK: Penso... agora de novo, talvez isso a choque, mas, você sabe, não exagere o significado disso. Não, não, eu não penso que... OK, minha primeira tese, que a Alemanha – e isso o faz ainda mais trágico – a partir de minha própria experiência, a Alemanha é, por exemplo, muito mais eficientemente, na vida quotidiana, tolerante do que a França, por exemplo, eu alego isso com toda minha responsabilidade. Não é tão geral quanto possa parecer. Vá à parte mista da ex-Berlim Ocidental e tal, você ainda vê colaboração maravilhosa. Não se preocupe com isso. O que estou precisamente dizendo é que não deveríamos ficar fascinados demais com esses detalhes.
Nós deveríamos fazer perguntas mais fundamentais, como isso é, para mim, apenas parte de uma guinada geral, o que menciono no texto a que você gentilmente se refere, como todo o mapa político da Europa está mudando de uma forma horrível. Para abreviar uma história longa, bem concisamente, até agora, tínhamos a situação padrão que vocês têm até agora aqui: um grande partido de centro-esquerda, um grande partido de centro-direita – eles são os únicos partidos que se dirigem a toda a população – e então pequenos partidos marginais. Agora, mais e mais na Europa, outra polaridade está emergindo: um grande partido capitalista liberal, que pode mesmo ser em temas sociais como aborto, direitos femininos, relativamente progressistas – puro, chamemos, partido capitalista – e a única oposição séria são os nacionalistas imigrantes... anti-imigrantes. É algo horrível que aconteceu. Os anti-imigrantes estão se estabelecendo como a única autêntica - claro, eles não são autênticos politicamente, mas no sentido de realmente percebidos como autêntica – voz de protesto. Se você quer protestar, o único modo de fazê-lo efetivamente na Europa é esse. Então eu penso ser uma questão de vida ou morte uma esquerda ligeiramente mais radical emergir.
Sabe o quê? Walter Benjamin, o grande acadêmico da Escola de Frankfurt, ele disse algo que deveríamos sempre ter em mente hoje. Ele disse: “Atrás de todo fascismo, há uma revolução fracassada.” Serve, mais do que nunca, para nós. Como, tome... tomemos seu próprio país, Kansas, que é agora a matriz do fundamentalismo cristão. Como Thomas Frank demonstrou em seu livro, Deus meu, até vinte, trinta anos atrás, Kansas era o celeiro de todos movimentos de massa radical-socialistas e tal. O mesmo na Europa. Isso deveria nos preocupar, não essa arrogante... que sempre tem uma conotação de classe negativa. Quando as pessoas atacam o racismo das pessoas comuns, é sempre como nós liberais de classe média alta desprezando pessoas comuns. Deveríamos começar a perguntar a nós mesmos o que fizemos de errado.
AMY GOODMAN: E já que vem aqui pros Estados Unidos, sua avaliação do movimento Tea Party?
SLAVOJ ŽIŽEK: É um exemplo perfeito do que eu estava falando. Eu tive quase – eu uso os termos um pouco ironicamente, mas ainda assim – uma espécie de epifania quando, um ano atrás ou algo assim, quando eles organizaram, republicanos das bases, todos eles... as primeiras tea parties contra gastar tanto dinheiro com bancos. Você sabe o que eu estava fazendo? Eu estava sentado em um quarto de hotel, trocando de canal na TV. Na Fox News, era uma transmissão ao vivo de uma tea party no Texas onde um cantor, tipo um falso cantor folk, cantava uma canção anti-Washington, anti-gasto governamental. Na PBS, havia um documentário sobre o grande ícone esquerdista Pete Seeger. Eu fiquei chocado com como as palavras, não obstante os significados político delas, eram quase o mesmo. Ambos cantavam sobre pessoas comuns, pequenas, sendo exploradas; caras maus e grandes, banqueiros em Washington, e tal, Wall Street, e tal. Essa é a tragédia. Essa é a tragédia no mais essencial.
Você deve saber melhor do que eu. Eu não sei se... até onde eu posso julgar a situação, foi depois do Carter, com Reagan, que esse movimento de base e tal foi mais tomado pela direita, tipo, o tempo da esquerda, mobilização de massa radical esquerdista tinha passado. Quando alguém te diz: “Oh, tea party, oh, de um protesto local de base,” seu primeiro “avaliamento” é: estão os direitista fazendo isso de novo, ou o quê? Este é um momento muito triste. Mas sem motivos – espero deixá-lo claro – para o tradicional ataque à América Europeu. E isso é, eu acho, parte de um processo global do que chamo desaparecimento do... o que filósofos como Kant chamaram uso público da razão.
Eu ouvi com surpresa e grande prazer o relato de como aqui nos States as universidades, que são financiadas com dinheiro dos contribuintes, são mais e mais usadas pelas empresas. Na Europa, somos ainda piores. Te direi por quê. Porque eles expuseram claramente o programa na Europa. Não é apenas este problema concreto – grandes empresas controlando, através de doações em dinheiro, as universidades. É algo mais fundamental ocorrendo. É uma bem organizada campanha pan-europeia para converter a nós cientistas, humanos ou naturais, em experts. A idéia é: temos um problema – digamos o vazamento de óleo na Louisiana – oh, precisamos de experts para nos dizer como contê-lo. Temos uma desordem pública, manifestações; precisamos de psicólogos e tal. Isso não é pensamento. Nós deveríamos redefinir e questionar os próprios problemas. É essa a percepção correta do problema? É esse realmente o problema? Nós deveríamos formular questões muito mais fundamentais.
Aqui, pode lhe surpreender, mas eu ainda tenho simpatia pelo Obama. Mas no meu modo de ver, uma se seus maiores fracassos não é no Afeganistão. Lá, a situação é muito complexa. Eu não sei o que eu teria feito. É como ele reagiu ao vazamento. Sabe por quê? Porque ele jogou esse jogo legal, moralista, como se… você sabe, tipo, eu vou chutar a BP – sabemos onde – eles farão... desculpa, mas em uma tragédia dessas proporções, você não pode jogar esse jogo legalista, quem é culpado e tal. Você deve começar a fazer perguntas mais gerais. A BP é má, mas estamos cientes de que também poderia ter acontecido com outra empresa? Então o problema não é a BP. Os problemas são muitos mais gerais – a estrutura de nossa economia, por que estamos vivendo assim, nosso modo de vida e tal e tal. Eu penso ser esse o problema hoje. Estou dizendo isso ironicamente como um esquerdista. Temos talvez até anti-capitalismo demais, mas nessa sobrecarga de anti-capitalismo, mas sempre nesse sentido legal, moralista: ooh, aquela empresa está usando mão-de-obra escrava infantil; ooh, aquela empresa está poluindo; ooh, aquela empresa está... aquela empresa, qualquer coisa, explorando nossas universidades. Não, não, o problema é mais fundamental. É sobre como todo o sistema funciona para fazer as empresas fazerem isso. Não moralize o problema, porque se você o moralizar, você pode dizer nos States o que quiser. Já em filmes como Dossiê Pelicano, você se lembra, sem problema, grande empresa, até o presidente dos EUA pode ser corrupto. Não, este excesso de anti-capitalismo é um falso excesso. Deveríamos começar a formular questões mais fundamentais.
AMY GOODMAN: Slavoj Žižek, seu mais recente livro, por que você o batizou Vivendo no Fim dos Tempos?
 SLAVOJ ŽIŽEK: Obviamente, a ideia é ironicamente se referir ou evocar essa metáfora apocalíptica, não importa, em 2012, nos aproximamos do fim dos tempos. E, é claro, meu argumento não é – não sou esse tipo de crente – oh, temos dois anos para viver, e então qualquer coisa vai acontecer. Mas não obstante, eu penso que todo o... em diferentes níveis, nos aproximamos lentamente – sem pânico por ora – uma espécie de ponto zero. No sentido de... olhemos a ecologia. Está claro que quando me dizem: “Oh, mas você é um utópico,” eu lhes digo: “Não, a única utopia de verdade é que as coisas possam seguir como estão indefinidamente.” E é muito estranho como nos comportamos. De um lado, não acreditamos realmente que haverá uma catástrofe. Estamos divididos. Sabemos disso. Ao mesmo tempo – isso é ideologia da vida quotidiana – para deixar nossa consciência limpa, já notou como somos chantageados nisso no nível quotidiano? “Oh, você jogou fora aquele jornal. Não, você deveria levar…”
AMY GOODMAN: Dez segundos.
 SLAVOJ ŽIŽEK: Sim. Então, o que estou alegando é que estamos nos aproximando de um certo ponto zero. Temos de agir. Se não, não quero viver numa sociedade que estará aqui em vinte anos, digamos.
AMY GOODMAN: Slavoj Žižek, quero agradecê-lo pore star conosco, filósofo esloveno, autor de muitos livros. Seu mais recente está sendo lansado pela Verso Books. Se chama Vivendo no Fim dos Tempos. 

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