sábado, 23 de outubro de 2010

Vísceras

Eu só penso ser conveniente... não que interesse a alguém, obviamente, mas resolvi de qualquer forma, para enganar a modorra de mais uma noite solitária, mais do que qualquer coisa, ouvindo ópera - veja só - quando era melhor ter uma popuzuda dançando funk e roçando em mim, enfim, lançar-me a um pequeno arrazoado, sob a péssima influência de um amor frustrado e mergulhado numa patética fase hamletiana (como se Hamlet não fosse patético em si mesmo), de modo a explicar - se é que não vou confundir cada vez mais, pouco importa - minha opção pela misantropia: antes que alguém se dê ao trabalho de apontar a fábula da raposa e das uvas, apresso-me eu a confirmá-lo; sim, eu detesto a humanidade... não que haja uma humanidade, mais do que uma cachorridade ou uma macaquidade, há bilhões de indivíduos de uma mesma espécie que vão se integrando a partir da violenta imposição de uma Civilização Ocidental - que é o máximo que dá pra odiar - se é que ela mesma existe (Gandhi, perguntado sobre o que pensava da Civilização Ocidental, respondeu que talvez fosse uma boa ideia); mas eu me converti de corpo e alma à misantropia justamente por fracassar totalmente em buscar uma inserção saudável na sociedade, não escondo de ninguém - e pouco importa se essas malditas uvas estão verdes, maduras ou podres; não, eu não tenho namorada, amigos se tive foram ficando pelo caminho e pouco se importam comigo, não tenho um trabalho que me realize, longe disso, não tenho diploma universitário mesmo tendo toda a vida sido importunado com a pecha de "inteligente", fracassei no que sempre foi minha maior paixão, a música, por absoluta falta de disciplina e perseverança - constância, enfim; descobri-me portador de uma doença psiquiátrica e não posso cobrar de ninguém que entenda ou aceite; aliás, com licença que vou ali tomar meus remédios; eu odeio festinha de criança, odeio quando dizem:    "lá tem gente bonita", eu odeio gente bonita, imagina, cheios de roupas e pinturas e cheiros e aquela música horrível, monocórdia que eles insistem em dançar, não! já devia ter aprendido que isso não é pra mim, meu locus é mesmo a solidão, se eu ao menos lesse com mais afinco - tem isso, também - poderia me considerar uma pessoa culta e excêntrica, cheio de latinismos na ponta da língua, pois ora! do jeito que está, eu não passo de esquisito e, pior, egocêntrico e vaidoso, sem o devido estofo para tanto, mendigando por atenção em redes sociais que não passam de vitrine para meu próprio solipsismo - como este endereço, obviamente, que fico torcendo para que visitem e, bem, é prazeroso quando alguém o elogia, mas afinal é para isso que ele existe, ou não? para ser a plataforma de outra existência que oblitere a realidade, como já foi dito.

3 comentários:

ANELISE disse...

Leo,eu to aqui,to te lendo,segui os links e li todos e não concordo com um monte de coisas.Vc é muito inteligente sim e deve saber disso.Qt a festa de criança,quem curte? Remédios,vícios,quem não os toma? Quem não os tem? Misantropia,eu adoro essa palavra,hehe.Solipsismo é exagero não? Fica bem.Um bj.

Ana Carolina disse...

Não sei se era sua intenção, mas eu dei umas boas risadas com seu texto, e me identifiquei também... hahahahahaa mas há ressalvas...
Sinto muito afeto pelas pessoas. Demais, até. Acho que sofro por isso, por não conseguir ficar indiferente.
Olha, não sei muito bem o que é "solipismo", pra mim é uma doutrina filosófica centrada nas experiências do EU, mas enfim... Vejo seu interesse por política. Política é também uma forma de organizar a sociedade, e se você se importa com isso... pensa além de você, sim.

Um beijo!

João Vicente Nascimento Lins disse...

É bom ver outras pessoas pensando parecido comigo hehe