domingo, 25 de dezembro de 2011

O Espírito

Era um condomínio de luxo, um pouco afastado de determinada metrópole. Um dispositivo no automóvel, um utilitário-esporte, emitia um sinal que fez abrir automaticamente a cancela. Aristide já havia afrouxado o nó da gravata e aberto o primeiro botão da camisa. Sua posição e a peculiaridade do ramo o forçavam a trabalhar na véspera de Natal.

Na cozinha, Angélica comandava uma equipe de três assistentes que deviam preparar cada detalhe para uma noite magnífica: era quem mais dava importância ao Natal. Um pernil estava sendo levado ao forno, mais tarde um tradicional peru também seria assado e ambos seriam ricamente adornados e guarnecidos de arroz com passas, batatas gratinadas, farofa, salpicão, uma exuberante salada, além de castanhas das mais diversas, importadas.

Na sala, uma árvore enorme, ou uma armação metálica coberta de plástico verde e apinhada de bolas vermelhas e douradas, estava cercada de embrulhos de diversos tamanhos. Um Papai Noel de pelúcia comandava um trenó puxado por renas do mesmo material. Felícia, a do meio, assistia à televisão tomando sorvete, sentada no sofá de couro branco. Era uma linda jovem com duas décadas de uma vida confortável. Estendida sobre o tapete persa, de bruços, Amália, a mais nova, conversava em seu notebook com uma amiga. Iniciava a adolescência.

Em um dos quartos, um rapaz de cabelos escuros, compridos, usando camiseta preta com estampa de banda de heavy metal e jeans, sentava diante do computador. Na tela, magos e guerreiros enfrentavam bestas e malfeitores. Hugo fez uma pausa e verificou se havia alguma mensagem. A angústia e a expectativa iam se fazendo raiva e despeito. Ele já detestava desde sempre o Natal, e naquele em específico estava frustrado pelo relacionamento que imaginava estar tendo, e se desenvolvia bem na internet, mas que terminou antes de se concretizar na vida real. A última tentativa de salvá-lo sequer teve resposta.

Era o mais velho, estava terminando a faculdade de publicidade, era magro e razoavelmente alto, tocava guitarra numa banda, o nariz só um pouco grande demais; dava um bocado de trabalho aos pais, que tinham medo do meio musical e suas drogas. E detestava Natal. Não por isso deixou de pegar algumas castanhas quando foi beber água, sob protestos da mãe, que queria que se esperasse a noite para saborear o grande momento mais intensamente.

Foi quando Aristide entrou em casa. Amália se ergueu para receber um beijo na testa, Felícia desligou a tevê e o abraçou: era afetuosa. Foi até a piscina, onde Angélica tirava uma pausa dos preparativos para fumar. Cruzou com Hugo, que esboçou um "oi, pai" burocrático, antes de voltar a se enfurnar no quarto mais uma vez. O casal se beijou e passou a compartilhar seja os detalhes da festa ou as atribulações do trabalho. Ele tomou banho e vestiu algo mais confortável, abriu uma cerveja. Felícia ligou para uma amiga, que morava ali no mesmo condomínio, e anunciou à mãe: "vou na casa da Manuela depois da meia noite". Amália seguia na internet, Hugo jogava e Aristide lia. Às sete horas, Angélica saiu para levar cada empregada a sua casa, no sedã, cujo porta-malas estava repleto de cestas de Natal e brinquedos. Todos se prepararam, vestiram-se para a noite festiva, Hugo meio a contragosto: queriam que ele ficasse como um playboy. Quando a matriarca chegou e iniciou sua elaborada toalete, já começou a tocar o repertório de músicas natalinas (que davam nos nervos do primogênito).

Começaram então os telefonemas a parentes que moravam longe, os mesmos votos previsíveis. A aparelhagem de som deu lugar à tevê, com a ainda mais previsível programação natalina. Angélica teve que admoestar Hugo, que usava fones de ouvido. Amália e Felícia tiveram que levar o tabuleiro de xadrez da mesa de jantar para a mesa de centro, e interromper a partida para ajudar a mãe a trazer as iguarias, algumas das quais estavam sendo esquentadas no forno. A Hugo coube pôr os pratos e talheres, mas seu desleixo lhe valeu outra bronca. Aristide bebia um uísque devagar, saboreava o momento em família.

Angélica fez um discurso, repleto de uma religiosidade difusa, em que agradecia a Deus pela prosperidade material, mas principalmente pela saúde de todos. Quando falou em espírito do natal, Hugo fez uma careta. Ele não só era ateu e achava a história de Cristo mera invencionice, como detestava o consumismo vazio que caracterizava a festa - muito embora estivesse se preparando para vender coisas e ideias. Comeram. Comentários elogiosos e refrigerantes circularam, bem como futricas sobre a vida dos parentes que acabavam de descobrir.

O roqueiro, mesmo que a mãe fumasse tambem, sempre se escondia para dar suas tragadas, e foi até a garagem para isso, levando uma xícara de café. O casal sentava lado a lado, de mãos dadas, à beira da piscina, e a música natalina retornara. Felícia atendeu o telefone e deu um sorriso maroto. Amália voltou ao computador portátil. Faltava pouco para meia-noite: o grande momento para a mãe e um ritual insuportável para o filho, que foi o único a não jurntar-se ao coro que fez a contagem regressiva. Aristide abriu a garrafa de champanhe fazendo barulho e sujeira; serviu cinco taças, brindaram. Presentes foram abertos, e ele naquele desânimo: deviam saber que eu detesto camisa polo.

Foi quando Felícia chamou seu irmão de lado, e disse que sua amiga Manuela tinha pedido para chamá-lo para também ir a sua casa, que ficava a pouco mais de um quilômetro dali. Ele fez um muchocho e disse que achava aquilo um saco: iriam ficar fofocando e conversando sobre cosméticos. A irmã insistiu, disse que ele ia gostar; como ele não mudasse de ideia, teve que abrir o jogo: tinha alguém que queria conhecê-lo. Ele disse que ia pelo menos trocar de roupa, ela achou que fazia sentido.

Pegaram o carro da mãe emprestado. Não havia a menor necessidade, porque era perto e muito seguro, mas estavam desde sempre mal acostumados. Manuela tinha já por tradição chamar várias amigas para uma noite natalina de jogos de tabuleiro, mas naquela em especial só vieram mesmo Felícia, com o recalcitrante irmão, e seu namorado, que inclusive morava na mesma rua de Hugo. Havia ainda uma moça, que parecia ser a mais velha da assistência, que Hugo nunca vira. Tinha cabelos castanhos ondulados e olhos bem pretos, vestia um vestido um tanto mais despojado que o resto das meninas, e abriu um sorriso quando o viu. Tinha às mãos um livro do Calvin e Haroldo, do qual ele também gostava, de modo que foi instintivo comentar. Ela tinha ganhado do irmão. Daí a conversa começou a se desenvolver naturalmente. A irmã percebeu e veio ajudar: "essa é a Orquídea, ela é irmã do Flávio e mora na Espanha". Flávio era o namorado de Manuela, de modo que Hugo observou: "então é minha vizinha!". "De certa forma, sim".

A noite transcorreu plena de alegria, e Hugo já perdera a rabugice natalina costumeira. Conversou bastante com Orquídea, elogiou-lhe o nome inusitado, "Rosa não é comum, ora?" Ela disse que o ouvira tocar guitarra uma vez, que tocava bem, e que o viu passando de carro. Ele entendeu tudo definitivamente. "Não é Bob Dylan que está tocando?", e ela: "sim, é aquele disco de canções natalinas". Jogando, ela - à sua frente - fez-lhe um sinal com os olhos na direção de Manuela, ao lado dos dois, e passaram então a atacá-la de modo concertado, tirando-a do jogo; trocavam risinhos cúmplices.

À medida em que ficava tarde, a mãe de Flávio veio buscá-lo, e Angélica ligou no celular de Felícia. Hugo e Orquídea haviam acabado de abrir um vinho, e anunciaram que iriam depois. Risinhos circularam obviamente, e os dois não ligaram, já que tão logo a irmã saísse Hugo beijou a vizinha. Mais uma vez, as carícias se desenvolveram muito espontaneamente. Os pais da Manuela já tinham ido dormir e ela mesma usava o computador, feliz até com o papel de alcoviteira.

Voltavam andando, de mãos dadas, trocavam sorrisos francos e discutiam música e cinema. A dada altura havia um jardim, e uma sebe que circunscrevia um espaço invisível desde fora. Não que fizesse diferença, pois àquela hora o máximo que circulava era o carro da empresa de segurança privada. Orquídea estancou: "eu não te dei um presente". Puxou-o para de trás da sebe e aí então foi que as carícias foram num crescendo, até que, desabando fnalmente, exausto, com as costas sobre a relva úmida, ele mirava o corpo esguio dela, que, deitada de lado, passeava com a mão sobre todo seu corpo. "Feliz Natal", ela disse, beijando-lhe a face. "E um próspero ano novo", ele completou.      
    

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Dia de um Podólatra: Epílogo Desnecessário


Abriu o Coisa Fina. Era bem feito, caprichado. Os ensaios mostravam o rosto das modelos, e elas eram cada uma mais linda que a outra. Lá vai meu décimo terceiro. Algumas fotos permitiam ver os pés, mas a que mais chamou atenção, uma morena de olhos verdes (falsos, provavelmente), com dedinhos gorduchos numa diagonal perfeita e esmalte vermelho escuro, não estava on-line: um ícone em forma de câmera apagado o indicava. Viu uma loira de cabelos ondulados, muito bonita, corpo incrível; mas não via seus pés. A câmera estava acesa, clicou. Era menos bonita do que nas fotos, é claro. Aquela conversa falsa de sempre, será que isso excita alguém? e fez-lhe o pedido. Ah, safadinho... levou a webcam até os pés. Nada feito. Disse que ia pensar e mandava uma mensagem (tinham até um sistema de bate papo). Olhou mais algumas e se interessou por uma outra loira, cabelos escorridos, bem compridos, franja, seios pequenos mas um traseiro digno de nota. Dava pra ver um pouco dos pés em uma foto, e pareciam promissores. Estava disponível. Dessa vez ela parecia ainda mais bonita no vídeo, um ar risonho; olha, posso pedir uma coisa? Mostrou: eram perfeitos; lembrou-se do duelo de mais cedo dos chinelos com brilhantes. Que dia! Eram um trinta e quatro (ele perguntou), as curvas pareciam ter sido projetadas num túnel de vento, dedinhos curtos numa parábola de livro-texto, unhas só com brilho. Elogiou-os efusivamente, ela tinha um sorriso lindo, dentes perfeitos. Mas tudo isso?! Bem... onde é?

Ela estava com uma lingerie preta de muito bom gosto, o ambiente era agradável. Fez-lhe uns protótipos de carícias que, se não eram afeição real, ao menos ajudavam a criar um clima. Não que ele já não estivesse excitadíssimo. Ajoelhou-se: que obra de arte! Tomou-lhe o esquerdo e o analisou minuciosamente; com os olhos primeiro e depois com a língua. Ela dava risadinhas deliciosas. Ergueu-se e beijou-lhe o pescoço com ânsia, e atrás da orelha. Nunca fazia nada parecido com... modelos. Sussurrou-lhe alguma coisa no ouvido. Ela recuou, olhou-o entre surpresa e confusa, mas com toques de marotice. Disse uma cifra, que era um acréscimo de vinte por cento.

Enquanto se banhava - e lavava os pés com atenção redobrada - ela pensava: é simpático esse maluco, que olhos (ela até havia comentado). Tem cliente que é mais fácil atender. Ele a admirava no ritual de se enxugar; pára de me olhar! você é muito linda, obrigada. Abraçou-a de novo, sentiu seu cheiro. Então, na verdade eu tenho outra proposta; ela franziu o cenho. Senta aqui.

Na semana seguinte, ele tinha outra aula pela manhã, mas não se importou em chegar atrasado. Passeou tranquilamente pelos longos corredores daquele prédio abominável, com a mão esquerda segurando uma mãozinha pequena e frágil. Já haviam na verdade se visto no fim de semana: ele lhe comprou um vestidinho e umas sandálias de couro trabalhado, que ficaram ótimas naqueles pezinhos fantásticos. Caminhava afetando indiferença, mas sorveu cada gota de uma boa meia dúzia de olhares invejosos. O zênite foi mesmo quando percebeu claramente que um marmanjo admirava despudoradamente os pés de sua mais nova amiga.

 

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Dia de um Podólatra: Noite



Por algum motivo naquele dia ele estava particularmente obcecado por pés. Em uma mais que feliz coincidência, as garotas do campus se esforçaram em prodigalizar belos exemplares dessa parte tão vital da anatomia feminina naquela noite. Já de saída viu um par irretocável, pertencente a uma loirinha que de brinde exibia um piercing no umbigo. Esse era um caso à parte: eram pequenos, com dedos em parábola, ápice no segundo, longos mas não demasiado, roliços; o tornozelo era muito suave, toda a pele bem lisa e clara. Ela devia cuidar dos pés, sabia de seu impacto, e para salientá-lo usava uma tornozeleira de prata e uns chinelos com falsos brilhantes nas tiras (que só perdiam em brilho para as unhas miúdas): o fetiche do fetiche. Aquele ficava com o cinturão, pelo menos do dia. Logo adiante viu uma negra com pés grandes e bem feitos, não teve certeza se era diagonal naquela posição, com proeminência de um dedão enorme: lembrou de Portinari. Mais uma e outra e outra no corredor, antes de entrar na sala: já não erguia a vista.

Olhou no relógio: estava cedo. Ela costumava chegar uns dez minutos atrasada. Foi buscar um café, mesmo sabendo que ia atrapalhar o sono. Pôs-se a cantar a música do Genesis, uma que narrava uma história e exigia malabarismos vocais: chamou alguma atenção aqui e ali. Viu outro belo par, diagonal perfeita, sandália de couro; ela não chegou a olhar pra ele, apenas percebeu que ele olhava, pode marcar zero. Voltou e entrou: ela não estava; sentou-se bem atrás de onde ela costumava ficar. Mas quase se esqueceu dela ao passar no caminho por uma morena de estatura mediana, cabelos bem lisos, no ombro, e olhos bem escuros, pele no tom perfeito, num vestidinho preto e... chinelos com brilhantes nas tiras. A desafiante ganhou por nocaute: nunca tinha percebido como seus pés eram lindos! O segundo era basicamente do tamanho do dedão (anotação mental: ampliar as categorias) e daí em diante uma curva muito suave; era um pé estreito, a curvatura interna pouco acentuada, tornozelo um pouco proeminente, mas tudo isso com uma singularíssima harmonia. Talvez aquele esmalte rosado fosse desnecessário, mas não estragava tudo. Cruzaram o olhar (não era a primeira vez); ela se comportou como quem se interessa mas não quer dar esperança: namorado. Aí ela entrou. Aquela-ela-ela. Uma saia longa azul escuro, uma blusinha de alças preta com pintas brancas (que saboneteiras!), e novos óculos, menores, com uma armação marrom que lhe caía bem com o tom dos cabelos. Que mulher. Nos pés, aquelas sandálias de couro azul claro, que combinavam com as unhas, já as tinha visto: cobriam a parte de trás e de cima dos pés. Remetiam à Grécia Antiga, na cabeça dele. Como queria que ela pisasse nele, mas não metaforicamente como costumavam fazer. Ela olhou pra ele, séria, e se sentou. Daquele ângulo tinha boa visão; deve ter olhado um minuto até ter uma epifania: sabia de onde conhecia aquele pé. Era o pé da abertura do Monty Python's Flying Circus: o pé que esmaga tudo.

Tirou do bolso um papel: coragem; roçou com ele no ombro dela. Ela se assustou: o que é isso? Ele sinalizou com os olhos para que ela o lesse. Dizia: vi que você faz notas das aulas, será que eu podia fazer uma cópia? Era a aula antes da prova. Ela deu um sorrisinho que pra ele parecia uma confirmação. Rabiscou alguma coisa e devolveu o papel com uma escrita infantil: sim, mas estão muito bagunçadas. Ele estava além do nirvana. Enquanto isso, o professor prosseguia com seu circo de vaidade intelectual. Acabada a aula, abordou-a; ela parecia sem jeito. Sacando tudo de Kant? Um pouco de conversa miúda e foram juntos até a copiadora; ela era do diurno e estava fazendo só aquela à noite: daí nunca a ter visto antes. Ele achava tudo lindo então, mas mais tarde em retrospecto decretaria que ela era meio apatetada. Muito obrigado e tal, você não quer me dar seu telefone? Depende. Ele pressionou. Ela tinha namorado.

Tentou não se irritar: você fez o que tinha que fazer. Mas era uma bela decepção. Ela me encorajou! Ainda saboreou mais alguns voltando pro carro, e passou por uma gatinha num momento particularmente fritação do duo batera/sax (ele adorava essa combinação); ela nem reagiu, que pena. As cenas e os diálogos da noite ficaram girando em sua cabeça, precisava extravasar. Desfez-se do disfarce, tocou um pouco de bateria. Rodou um Stravinsky que estava na pilha de ouvir. No computador, mensagem de uma mina com quem fizera sexo mecânico, um comentário a sua piadinha, pouca coisa. Abriu um vídeo que o ajudaria a relaxar; era uma culminação, ao contrário do Kevin Spacey em Beleza Americana, que começava assim o dia e daí era ladeira abaixo. Sempre que a coisa começava a esquentar, pensava em visitar um daqueles sites; naquele dia, tinha a sugestão do colega para conferir. E uma ruiva pra esquecer.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Dia de um Podólatra: Tarde



Chegando ao trabalho, percebeu que estava sem o crachá. Para ganhar tempo, parou o carro no térreo e foi até a portaria expedir um provisório. Foi quando uma morena linda e muito elegante, no que parecia ser um tailleur, mas sem o paletó, ficou olhando fixamente pra ele, embora com ar muito sério. Sapatos de salto: ali raramente via pés. Ótimo, mas não resolve nada, ainda assim eu não como ninguém; não estava entretanto disposto a sentir pena de si mesmo. Desceu pra garagem, estacionou e foi até o setor, lá embaixo mesmo: era o homem do subsolo. Cumprimentou um ou outro colega e foi se trocar; bastou arrancar a camiseta do Trout Mask Replica e fechar a camisa, pôr a calça do terno e a gravata marrom e voilà (o chapéu ficou). Lia, tomava café e fumava; por aquela época era até difícil arranjar um parceiro para jogar ping-pong. Só precisava esperar ser chamado pra trabalhar. Demorou quarenta minutos: Dr. Fulano no bloco A. Escolheu uns discos para ouvir: Miles Davis, fase cool, nada muito estranho com esses figurões. Encostou o carro e esperou dez minutos: mais um pouco e acabaria o Bukowski. Boas tardes e tal, restaurante tal endereço tal. Esse era dos que não falavam; é bom, mas às vezes tinha uma conversa interessante ou outra, um mesmo gostava de debater literatura. Na volta, baixou as janelas e aumentou o volume: olhem para um homem com chapéu e bom gosto, num carro chapa de bronze.

Chegou de volta, pendurou o paletó e subiu para o restaurante. Era lugar de ver mulher bonita. Enquanto fumava na entrada, passou uma por ele com um sapato meio aberto, tinha uns dedinhos lindos, esmalte rosa claro. De rosto era só mais ou menos, entretanto. Quando entrou na fila, uma numa mesa perto trocou um olhar fulminante com ele; era loira, mesclada com pretos de alguma forma, também estava muito elegante. O problema com essas funcionárias é que geralmente eram muito metidas; imagina então se soubessem que ele era um reles motorista. Todo galinheiro tem uma hierarquia de bicadas, ele só podia bicar as galinhas terceirizadas, mais subalternas que ele; às vezes o fazia, mas a conversa nunca fluía. Depois que pesou o prato, ao se sentar, uma outra ao seu lado – um pouco mais velha, mas muito conservada – também deu uma encarada. Será o chapéu? Um colega logo veio se juntar a ele; sabia que o outro era religioso, e puxou esse assunto polêmico: era desculpa para expor a sua doutrina do cinismo engajado, uma postura coringa que servia para religião, moral, política, literatura e relacionamentos, dentre outros. Exibicionismo puro, é claro, e conferia se a coroa não estava prestando atenção; não estava. Na fila viu uma de sandália; era razoavelmente bonita, mas tinha uma falta grave: os dedos tinham as extremidades maiores que a base, parecendo aqueles microfones com proteção de espuma. Na rampa, voltando, lá vinha uma cocota – estagiária ou visitante – com um vestidinho maleável que bailava com seu andar desenvolto. Cabelos pretos e curtos, uma boca miúda. Chinelos pretos; a pele era bem branca, os contornos eram suaves, os dedos pequenos e bem feitos, da famílias das diagonais, unhas de um marrom escuro, bem próximo do tom do vestido. Cara, isso tira o sossego de um cristão. Ou de um cínico.

Desceu as escadas tentando sistematizar a apreciação de pés femininos: podia entrar pra história como o pai da podolatria científica, que seria matéria universitária dali a dez anos. Havia duas distinções básicas: uma era entre dedão maior e segundo maior, cada qual tinha representantes dignas; outra era entre diagonais e parabólicas, e ele também não chegava a ter uma preferência. Havia obviamente as anomalias, duas das quais já discutimos, além de estreito demais, largo demais, longo ou curto (incompatível com a estatura), dedos curtos ou longos demais, tendões demais, veias demais, calos demais, unhas mal desenhadas... teria que pedir uma bolsa para estudar a fundo.

Escovou os dentes (só então se deu conta que o efeito da anestesia se dissipara), serviu um café e foi fumar. Na área onde o cigarro era tolerado, costumavam ficar os mais antigos, quase sempre um bando de toscos que passavam o dia chamando um ao outro de viado ou corno e gargalhando estrepitosamente. Mas concentrou-se no livro e chegou ao fim; o desfecho foi meio decepcionante. Em dado momento, ao passar por um grupo, escutou a conversa; uma frase, uma palavra mesmo, chamou sua atenção. Não... o Sedução é porcaria! Chegou perto. Discutiam os sites de “acompanhantes”; ele esperou a deixa e comentou que já tinha usado aquele, mas uma vez teve uma péssima experiência: elas não mostram o rosto, e aí você chega lá e broxa de tão feia. Esse colega mais entusiasmado, de meia idade, já careca, explicou que estava justamente contando de um novo, em que as putinhas ficavam na webcam e você podia conhecê-las antes de decidir. Mas é caro; a partir de tantos reais. Assoviou impressionado. Mas vale a pena! Coisa fina. Como chama? Coisa fina! Ponto com ponto bê erre. Legal, vou conferir.

Dirigia-se ao ping-pong; deixava de ser gradualmente o saco de pancadas do setor, mas ainda perdia mais do que ganhava. Por algum motivo perdera o hábito de jogar xadrez; muito tempo atrás ganhara até um torneio. A próxima saída veio logo: curta, ouviu duas músicas do Herbie Hancock. Começou um Balzac, ou o Balzac mais célebre. No micro, comentou uma coisa ou outra e conversou com uma amiga que morava longe; seus poucos amigos moravam longe. Fez outra saída, essa longa, e conseguiu ouvir o Quadrophenia inteiro. Voltando, subiu para a lanchonete; vale o mesmo que para o restaurante, mas naquele dia não estava com sorte: só uma feiosa prestou atenção nele, viu quando ela leu o título do livro (tudo bem, ler em francês também tinha uma ponta de exibicionismo). Usava tênis. Mais uma saída curta (e mais Hancock) e dali a pouco ele retomava o visual despojado e passava o crachá. No carro, colocou Phillip Glass.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Projeto Pacífico

I
Sér­gio era enge­nheiro mecâ­nico, e conhe­cera André — eco­no­mista — no time de rúgbi da facul­dade. Aca­ba­ram se mudando para a capi­tal, aquele admi­tido em uma trans­na­ci­o­nal, este veio a se tor­nar ope­ra­dor finan­ceiro. Eram dois belos e bem suce­di­dos trin­tões, e legí­ti­mos bon-vivants, cada um a seu modo: Sér­gio gos­tava de car­rões e de fes­tas com música ele­trô­nica, enquanto André era mais um homem de fre­quen­tar o tea­tro e metido a enó­logo. O pri­meiro era um mulhe­rengo inve­te­rado, enquanto o segundo era pra­ti­ca­mente casado com Car­men, uma argen­tina um pouco mais velha, atriz, que além de uma pes­soa fas­ci­nante era her­deira de um rico indus­trial por­te­nho (não que isso fosse determinante).
Car­men orga­ni­zara um con­ves­cote com alguns cole­gas da com­pa­nhia e André cha­mou a Sér­gio, que apa­re­ceu com uma morena espe­ta­cu­lar. Esta­vam todos no espa­çoso apar­ta­mento da atriz, em um aflu­ente bairro da metró­pole; enquanto ela pilo­tava o toca-discos, tro­cando Miles Davis por Igor Stra­vinsky (vinil é “insu­pe­ra­ble”, expli­cava ela), ele dava uma aula sobre Bor­de­aux; o amigo amas­sava a morena no sofá. Foi quando a domés­tica uni­for­mi­zada avi­sou que o fon­due seria ser­vido na varanda. Em uma mesa, o fon­due de queijo reu­nia os dois casais e o dire­tor da trupe — um excên­trico ses­sen­tão homos­se­xual; já o fon­due de cho­co­late aca­bou sendo uma espé­cie de “segunda divi­são”, não por isso menos animada.
A con­versa pas­sou por diver­sos assun­tos, até que o dra­ma­turgo reve­lou seus pro­je­tos malu­cos de uma peça sobre diver­sas coi­sas, den­tre elas o impé­rio Inca. Os dois ami­gos se entre­o­lha­ram com um sor­riso. Sér­gio expli­cou aos demais:
_ Na época da facul­dade a gente fez uma via­gem até Cusco. Muito legal lá.
A morena — Kátia, se eu esqueci de apre­sen­tar — olhou-o com ar de reve­rên­cia e, pas­sando a mão em seu rosto, pediu que con­tasse mais. Ele abo­ca­nhou mais uma tor­ra­di­nha com queijo der­re­tido, deu um gole de vinho e começou:
_ A gente foi até o Acre. Na época nós está­va­mos envol­vi­dos com o Santo Daime, e fomos até lá conhe­cer a ori­gem de tudo.
_ Vocês sem­pre fue­ran par­cei­ros mismo, hein? — Car­men interveio.
_ Ah, sim. E tinha a rádio tam­bém, a gente fazia um pro­grama. Foram bons tem­pos — acres­cen­tou André, girando sua taça de vinho para observá-lo escorrendo.
_ Bons tem­pos são agora! — ata­lhou Sér­gio cor­tando a nos­tal­gia e pro­pondo um brinde.
_ Essa é ati­tude! — apoiou o dire­tor, esta­lando as mãos espal­ma­das com o engenheiro.
_ Daime não é aquela coisa que deixa doi­dão? — Kátia arriscou.
André fez uma cara feia, mas foi polido.
_ Não é nada disso, meu doce, qual­quer dia eu te explico. Enfim, eu já tinha ido lá antes, e conhe­cia o pes­soal de uma igre­ji­nha pequena, e a gente ficou lá com eles; gente muito boa, sim­ples. Faz muito bem a gente da selva de pedra, como nós.
_ Bem — pros­se­guiu Sér­gio –, a gente tirou dez dias para ir até o Peru. O André tam­bém já conhe­cia lá, ele sem­pre se ligou nes­sas coi­sas meio ripon­gas, eu tava des­co­brindo um mundo novo. A gente pre­pa­rou as mochi­las, a ideia era fazer a tri­lha inca, e pegou o busão em Rio Branco que ia até a fron­teira, Assis Bra­sil. Um luga­rejo minúsculo.
_ Naquela época não tinha nem ponte, a gente teve que atra­ves­sar em uma canoa! — obser­vou André.
_ Na ver­dade, a ponte ainda está em cons­tru­ção, deve ser inau­gu­rada até o fim do ano. O mais sur­real foi a Toyota que a gente pegou do outro lado, em…
_ Iña­pari.
_ Isso. Os caras vão enfi­ando gente numa perua até no tan­que de gaso­lina, e toca pra Mal­do­nado, estrada de terra. Ali a pai­sa­gem ainda é a amazô­nica, mas a popu­la­ção já é basi­ca­mente mes­tiça. Inclu­sive foi junto com a gente uma bem boni­ti­nha… (Kátia lhe deu um leve tapa na mão).
_ Lem­bra das pol­le­rias? — os dois riram.
_ É o McDonald’s deles: frango assado com batata frita, a gente comia isso quase sempre.
André pediu licença para ir à cozi­nha avi­sar que o queijo aca­bava. Kátia optou por se jun­tar ao fon­due de cho­co­late (um pouco pelo fora que dera), o dire­tor per­ce­beu que não seria a alma da festa ali e se jun­tou aos cole­gas — suas risa­das afe­ta­das se fize­ram escu­tar -, e Car­men apro­vei­tou para virar o disco. Já Juli­ana, que era empre­sá­ria do grupo, pediu para se jun­tar ao fon­due de queijo.
Sér­gio, che­gando o amigo, per­gun­tou se podia continuar.
_ Depois que eu bus­car mais vinho, que eu ia esquecendo.
_ Pô, eu acho que eu tava afim de um scotch, você tem?
_ Eu sem­pre tenho, mas… a Kátia dirige depois?
_ Sem problema!
André abriu o vinho, com todos seus ritu­ais, e ser­viu a todos, “na ver­dade, ele devia res­pi­rar” — fez ques­tão de obser­var; a cri­ada trouxe a gar­rafa de uís­que e um pequeno balde com gelo, e castanhas.
_ Qué pasó des­pués? — cobrou Car­men, que esque­cia de tentar falar por­tu­guês quando bebia.
_ Em Puerto Mal­do­nado a gente pegou um avião pra Cusco — André reto­mou (os dois parece que dis­pu­ta­vam para nar­rar). É fas­ci­nante ver a flo­resta sim­ples­mente dando lugar à cor­di­lheira, a tran­si­ção é abrupta.
_ Tem mais: a gente ficou em dúvida ainda se ia de ônibus, mas eram qua­renta minu­tos de voo e dois dias de busão! Mas ima­gina, subindo a cordilheira!
_ Foi aí que a gente come­çou a for­mu­lar o Pro­jeto Pací­fico: com­prar um 4X4 e ir até Cusco, e então até Lima, dirigindo.

_ Es locura! — excla­mou Car­men. Sua amiga e colega, que esti­vera calada até então, fez a pri­meira intervenção:
_ Eu acho uma grande ideia. A vida é feita des­sas lou­cu­ras. Tipo o Amir Klink: o cara atra­ves­sou o oce­ano remando, dá pra ser mais louco que isso? Depois escre­veu livros, ganha uma grana dando palestras…
_ É, mas isso aca­bou virando lenda, a gente não levou muito a sério…
_ Eu nunca esqueci o pro­jeto — pro­tes­tou Sér­gio — acho que um dia ainda dá pra fazer, mas o ideal era fazer um lance pro­fis­si­o­nal, com patro­cí­nio e tudo.
_ Pois então — animou-se Juli­ana — eu tra­ba­lho exa­ta­mente com isso. Se você for­mu­lar um bom pro­jeto, você con­se­gue sim um patro­ci­na­dor. Tipo Petro­brás, por exem­plo… Alguma coisa rela­ci­o­nada a bio­di­e­sel, sei lá. Essa é uma via­gem que teria reper­cus­são inter­na­ci­o­nal se bem explo­rada. É inte­res­sante pra eles.
Os ami­gos se entre­o­lha­ram, num silên­cio cheio de cum­pli­ci­dade. Aquilo fazia sen­tido. Car­men par­ti­lhava do entu­siasmo da amiga.
_ Vocês pue­den facer una pelí­cula, un road movie, docu­men­tá­rio, sei lá. Es cierto que con­si­guen apoio! Hay la tele­vi­sión do gobi­erno ahora, que puede inte­res­sarse; has dicho que la puente vai ser inau­gu­rada, trata-se de un hecho his­tó­rico, el camiño del Pacífico…
A ideia ganhava momento.
II
_ Porra, André, eu tô come­çando a gos­tar dessa história!
_ Nem me fala, cara, eu bem que pode­ria ficar um mês longe da bolsa, estou há três anos sem férias, vai me acres­cen­tar uns anos de vida!
_ Eu acho que vou é chu­tar meu trampo pro alto. Uma aven­tura des­sas vai melho­rar meu cur­rí­culo. Acho que a… como é mesmo seu nome? Acho que a Juli­ana tem razão, eu pode­ria dar pales­tras moti­va­ci­o­nais, é uma grana fácil! Mas… será que um mês dá? Pra ir e voltar?
_ Ir e vol­tar por quê? Só che­gar lá é mais que sufi­ci­ente. A gente passa o carro nos cobres e volta voando.
Kátia, que tam­bém não con­se­guira se entur­mar no meio dos artis­tas, e já matara a von­tade de comer cho­co­late, vol­tou a sen­tar junto a seu homem. Ficou curi­osa com o entu­si­asmo de todos.
_ De que vocês estão falando?
_ De diri­gir até o Oce­ano Pací­fico, baby! — Sér­gio res­pon­deu, com a boca cheia de castanhas.
_ Isso é con­versa de bêbado!
Todos exer­ci­ta­ram mais uma vez a paci­ên­cia com aquela moça bobi­nha que caíra nas gar­ras de Sér­gio, que, levando a mão à testa e bai­xando a cabeça, foi menos suave do que o amigo, tendo inti­mi­dade para tanto.
_ Qual é a sua, sua anta, quer jogar água no nosso chope? Esta­mos falando sério!
Ela fechou a cara, cru­zou os bra­ços e pediu timi­da­mente desculpas.
_ Não fica assim boba — Sér­gio ten­tou pacificá-la -, na ver­dade é um sonho antigo, que parece que pode se con­cre­ti­zar agora, dá pra res­pei­tar? — Ela se des­cul­pou mais uma vez e em ins­tan­tes já estava sor­rindo, pen­du­rada no pes­coço de seu garanhão.
_ Putz, lem­bra quando você tinha aquela CR-V? Era per­feita! — André reto­mou a conversa.

_ É, nem me lem­bra, eu gos­tava daquele carro. Sabe que eu com­prei pen­sando nessa via­gem, né?
_ Aí você por­rou ela num poste, seu bebum irres­pon­sá­vel! — repre­en­deu o amigo meio a sério e meio de brin­ca­deira — Mas não há de ser nada, hoje a gente tem como com­prar qual­quer uti­li­tá­rio esporte, e novo!
_ Vocês podem mesmo ten­tar isso pelo patro­cí­nio — a empre­sá­ria res­sal­tou -; olha, eu posso aju­dar vocês: meu tra­ba­lho na peça está feito, eu tenho tempo livre.
Um ator jovem chegou-se ao ouvido de Car­men e sus­sur­rou alguma coisa, e saiu com um sor­riso no rosto e esfre­gando as mãos.
_ Sér­gio, enti­en­des alguna cosa de autos, no?
_ Sin­ce­ra­mente, Car­men, só de diri­gir. Bem lem­brado, seria impor­tante levar um mecâ­nico. Na ver­dade, eu tenho um colega que saca muito, ele já me aju­dou mais de uma vez; é até irri­tante, ele só fala de carro.
_ O Platinado!
_ Ele mesmo. O ape­lido já diz tudo, né? O cara é do tempo do pla­ti­nado. Mas sabe tudo de parte ele­trô­nica tam­bém. Eu vou con­ver­sar com ele.
_ André, vas a me dejar aqui por un mês?
_ Bem, você está presa aqui com a peça, não? Está pen­sando em ir com a gente?
_ Me gus­ta­ría, si. Y la tem­po­rada es de seis meces, no pue­den esperar?
_ Eu pre­ci­sa­ria de uns três ou qua­tro pra parte buro­crá­tica — Juli­ana observou.
_ Entonces! Puedo ir?
_ Por suposto! — André, esfu­zi­ante, caçoou do por­tu­nhol da amá­sia — Brinde ao Pro­jeto Pacífico!
_ Eu tenho uma ideia melhor: ir de um oce­ano ao outro. Uma trip transcontinental!
_ Boa, Sér­gio! A gente podia sair do Rio, sabe como é, uma cidade conhe­cida no mundo todo. Rio-Lima!
O ator que con­fa­bu­lara com Car­men vol­tou com um base­ado aper­tado. Como o fon­due já aca­bara, e a domés­tica estava reco­lhendo tudo, jun­ta­ram as duas mesas em uma; como já era um tanto tarde, alguns se des­pe­di­ram e se foram, ficando a festa mais inti­mista. Car­men foi até a vitrola e sape­cou um Frank Zappa. Sér­gio e André se lem­bra­ram das noi­tes de rádio, em que Zappa era uma cons­tante. Car­men, pas­sando a bola para o par­ceiro, lembrou-se:
_ Ter­mina de con­tar el viaje!
III
_ Cusco é toda mar­rom vista de cima, ao menos naquela época — Sér­gio pas­sou na frente do amigo, a quem Car­men se diri­gira. Quando a gente pegou o táxi, eu fiquei curi­oso de ver a ban­deira do movi­mento gay por todo lado. A do arco-íris. Depois eu fui des­co­brir que era a ban­deira do Impé­rio Inca!
O dire­tor sol­tou mais uma de suas gar­ga­lha­das e fez ques­tão de manifestar-se:
_ Eu não sabia disso! Cer­ta­mente vou usar essa na peça, posso?
_ Claro, fique à von­tade. Depois… — pros­se­guia Sér­gio, até André tam­bém atropelá-lo.
_ A gente dei­xou as coi­sas no hotel, foi até a Plaza de Armas, que ficava perto. É lindo aquele lugar. Levei o Sér­gio pra conhe­cer a Cate­dral e, depois de comer, fomos até Sac­sayhu­a­mán, ruí­nas ali bem perto da cidade. À noite, uma bala­di­nha no Mama África, um dos mui­tos infer­ni­nhos da cidade.
_ De vez em quando um pega fogo — brin­cou Car­men. De fato, alguns anos antes hou­vera uma notí­cia nesse sentido.
_ No outro dia — Sér­gio reto­mou –, eu peguei uma excur­são para Macchu Pic­chu; o André, que já conhe­cia, não quis ir, e pas­seou um pouco pela cidade. É muito bonito, inte­res­sante, mas tem turista demais. E no fim eu gos­tei mais de Pisaq.
_ Inclu­sive a gente des­co­briu que a tri­lha inca estava sim­ples­mente impos­sí­vel de ser feita, muito gringo. O que a gente fez? Com­prou um mapa de tri­lhas para fazer uma cami­nhada por conta pró­pria. E no dia seguinte par­ti­mos sem rumo definido.
_ Como cha­mava aquele pri­meiro lugar que a gente foi? Eu nunca lembro.
_ Chin­chero — André com­ple­tou satis­feito. Fomos de ônibus, para come­çar por lá. Era inte­res­sante que tinha pré­dios espa­nhóis ergui­dos sobre ruí­nas incas. Conhe­ce­mos uma moça isra­e­lense lá.
_ Eles têm uma his­tó­ria de fazer ser­viço mili­tar e depois sair via­jando, acho inte­res­sante. Sei que de Chin­chero a gente andou con­tor­nando uns mor­ros… É muito dife­rente a pai­sa­gem de relevo recente, e aquele céu trans­lú­cido… eu acho que ainda tenho aque­las fotos em algum lugar. Lem­bro que tirei várias no começo da via­gem, depois aca­bou o filme — eu ainda usava filme! — e fui desen­ca­nando; afi­nal, você pode regis­trar uma ima­gem, mas não a expe­ri­ên­cia, ou mesmo a noção de pro­fun­di­dade. E eu nunca fui um fotó­grafo profissional.
_ A Car­men sabe tudo de foto­gra­fia. Inclu­sive pode ser nossa cine­gra­fista, não?
Ela ape­nas sor­riu com a suges­tão do namo­rado. O entu­si­asmo cres­cia. André prosseguiu.
_ A gente estava quase che­gando em Uru­bamba, o pró­ximo luga­rejo, quando pas­sou um ônibus esco­lar. O Sér­gio, que estava quase morto, fez sinal, e eles para­ram. A gente aca­bou indo até Ollan­tay­tambo, uma cida­de­zi­nha maior, de onde sai o trem pra Águas Cali­en­tes, onde fica Macchu Pic­chu. A gente con­se­guiu uma hos­pe­daje por lá pra pas­sar a noite.
_ Esse dia foi mais um aque­ci­mento, eu estava fora de forma, e fumava, na época. No dia seguinte é que a gente pegou uma tri­lha mais pesada, subindo. Pas­sava em uns três luga­re­jos… Pal­lata, eu acho, foi onde a gente parou pra lan­char. Mais na frente, vinha subindo um cami­nhão e a gente pegou carona. O André que­ria ten­tar ir até uns lagos que esta­vam no mapa, mas a gente pas­sou direto e quando o cami­nhão parou a gente resol­veu seguir uma famí­lia, só o pai falava algum espa­nhol. Dali em diante foi como uma via­gem no tempo: tanto pela pai­sa­gem exó­tica quanto pelas pes­soas, que só fala­vam quechua.
André se levan­tou para bus­car vinho; já estava bem cha­pado, tanto do vinho quanto da maco­nha, que só fumava de vez em quando. Ama­nhã é sábado, pen­sou, que se foda. Apro­vei­tou para dis­pen­sar a domés­tica, entregar-lhe o extra com­bi­nado (que mal valia o sacri­fí­cio de vol­tar àquela hora de ônibus para casa). Ten­tou ser rápido, para não per­der a nar­ra­tiva que tão boas recor­da­ções evo­cava, de luga­res que tal­vez vol­tasse a visi­tar, se aquela con­versa toda não se reve­lasse no fim — como sen­ten­ciou Kátia — mera con­versa de bêbado. Che­gando de volta, Sér­gio lhe perguntou:
_ Como era o nome do tiozinho?
_ Jacinto, nues­tro hom­bre en Huacahuasi!
IV
Riram-se às lar­gas ambos cama­ra­das, e André anun­ciou que aquele era um cali­for­ni­ano, mas que era exce­lente; na ver­dade, tinha sem­pre um vinho mais barato para quando já esta­vam bêba­dos. O dire­tor, já de fogo, insis­tia em cha­mar atenção:
_ Ai, você me lem­bra um rapaz de São Fran­cisco que eu conheci. Deus meu, o que era aquilo! — e fez um gesto com as duas mãos sepa­ra­das pelo tama­nho de um falo avantajado.
Car­men sentiu-se cons­tran­gida e levantou-se para puxar-lhe cari­nho­sa­mente a ore­lha. Sér­gio per­ce­beu a deixa e reto­mou a narrativa:
_ Pois lá fomos nós com o Jacinto, esposa, filho e um per­rito. Ele disse que ia para Hua­cahu­asi. A gente olhou no mapa e sim­ples­mente não tinha tri­lha até lá! Bem, con­fi­a­mos nele quando ele disse que era perto: “dos hori­tas, poco, no más”, ele repe­tia. Dis­se­mos que está­va­mos can­sa­dos, e lá vai ele: “des­pa­cito, dos hori­tas, poco, no más”. Sem­pre que a gente per­gun­tava se estava perto ele dizia a mesma coisa.
_ A gente não con­se­guia acom­pa­nhar o ritmo deles, acos­tu­ma­dos à alti­tude e ao tra­jeto, e ele ofe­re­ceu suas hojas de coca. Eu ia par­ti­ci­par de uma sele­ção e achei melhor recu­sar, o Sér­gio mas­cou com gosto.
_ Hoja de coca no es droga! — e cha­co­al­lhava o ter­ceiro uísque.
_ Uma hora a gente che­gou a um rio, com um pequeno plano. Eu per­cebi que era a deixa para ficar ali e erguer acam­pa­mento. O Sér­gio que­ria ir adiante.
_ Só que quando eu fui falar eu vi que já não con­se­guia mais arti­cu­lar as pala­vras! Aí sem chance. Fica­mos ali, fez um frio des­gra­çado quando a noite caiu; pre­pa­ra­mos um macar­rão com carne de soja e che­ga­mos a con­ver­sar sobre a pos­si­bi­li­dade de tomar Daime — a gente tinha levado uma gar­ra­fi­nha. Mas seria lou­cura… ou excepcional.
_ A gente dei­xou pra manhã seguinte a deci­são: vol­tá­va­mos pelo cami­nho conhe­cido ou arris­cá­va­mos che­gar até Hua­cahu­asi? De lá tinha cami­nho até outra cidade e aí pas­sava uma estrada. Sei que apa­re­ceu um tio catando esterco de llama, figura impro­vá­vel, catarro escor­rendo, a cara quei­mada… Ele não falava quase nada de espa­nhol, eu entendi que ele estava indo pra Hua­cahu­asi, e pen­sei que a gente pudesse acompanhá-lo. Ele dizia “dulce”, deve ter sido uma das únicas pala­vras em espa­nhol que ele disse, e eu dei uma bola­cha reche­ada. No fim, a gente sacou que não ia obter nada dele. Aquela cena me lem­bra um conto do H.G.  Wells…
_ Enfim, — Sér­gio reto­mou — esse maluco aqui deci­diu pei­tar o desa­fio, e segui­mos por onde pare­cia haver uma tri­lha, que às vezes sumia, a gente ficava em dúvida, mas fomos adi­ante. Era longe pra burro, a gente nunca que ia che­gar no dia ante­rior. Foi nesse dia que a gente foi mais alto, eu vi neve pela pri­meira vez. Sei que a gente che­gou na casa do Jacinto (nues­tro hom­bre en Hua­cahu­asi), que ficava antes de che­gar na cidade mesmo — se é que dá pra cha­mar aquilo de cidade.
_ Você está esque­cendo que a gente encon­trou outro cara, um jovem, no final do tra­jeto, lem­bra o nome dele?
_ Sem chance. Sei que ele me deu umas lições de que­chua, mas eu não guar­dei nada. Bem, quando afi­nal a cidade apa­re­ceu, todo esforço se pagou: a pai­sa­gem era linda! O luga­rejo ficava no fundo de um vale escar­pado — deu um bom tra­ba­lho des­cer! — e seguindo o vale tinha uma cas­cata enorme, espetacular.
Sér­gio olhou para André como que para “pas­sar o bas­tão”, e assim iam acer­tando os pon­teiro na nar­ra­ção compartilhada.
_ E a gente acam­pou lá, era no fim da tarde. Eram algu­mas casas de adobe ao longo de um ria­cho — o mesmo da cacho­eira. Aliás, eu tinha esque­cido, no começo da cami­nhada, quer dizer, par­tindo de Ollan­tay­tambo, a gente pas­sou por uma cacho­eira e não teve dúvida: entrou debaixo; num frio medo­nho! Enfim, quando a gente acor­dou no outro dia, tinha um monte de mole­que olhando pra gente como se a gente fosse ali­e­ní­gena! Muito engraçado.
O dire­tor entrou de novo em cena:
_ Olha, eu tô me sen­tindo até mal com minha vidi­nha con­for­tá­vel de “elite branca” (era uma alu­são a uma decla­ra­ção de um polí­tico). Eu nunca me meti numa aven­tura remo­o­o­ta­mente parecida!
Car­men não ligou dessa vez, mas apro­vei­tou a inter­rup­ção para obser­var que fazia muito frio ali fora, e con­vi­dou a todos para entrar. Sér­gio pre­ci­sou acor­dar Kátia, que dor­mia encos­tada em seu ombro. Mais dois dos ato­res se des­pe­di­ram. Sér­gio per­ce­beu que a hora era avan­çada e só então, sendo o papo tão bom, lhe ocor­reu con­fe­rir o reló­gio (carís­simo), des­co­brindo que era uma e meia. Resol­veu apres­sar a nar­ra­tiva, que já estava mesmo perto do fim, e sina­li­zou a André, que prosseguiu.
_ A gente pegou a tri­lha para Lares. Moleza. Des­cendo, bem batida, e curta. Em Lares tinha águas ter­mais, foi o repouso mere­cido. A gente ficou o dia inteiro pra­ti­ca­mente de bobeira. À tarde a gente ficou espe­rando o trans­porte pra Cusco, e não viu nada. Só à noite a gente foi des­co­brir que era uma cami­nho­nete comum, que a gente viu mesmo sair. Paciência.
_ Nós che­ga­mos a dar entrada em uma hos­pe­daje para ficar ali, quando apa­re­ceu uma van, a gente con­ver­sou com o cara, que disse que ia pra Cusco, e a gente subiu. Cara, eu só que­ria ter feito aquela trip de dia, para cur­tir a vista; a gente ia cor­co­ve­ando, des­cendo a mon­ta­nha; mas pelo menos tinha uma lua cheia. Chato foi a fiti­nha do George Michael! — os dois riram.
_ Então, aí quando che­gou em Calca a gente resol­veu des­cer. Ou foi em Pisaq que a gente dormiu?
_ Não foi Calca mesmo, no dia seguinte a gente foi pra Pisaq, conhe­ceu as ruí­nas lá. Já disse que eu gos­tei mais que Macchu Pic­chu, né? No mesmo dia a gente vol­tou pra Cusco e quando reto­ma­mos o quarto no hotel e entra­mos debaixo da ducha quente (sepa­ra­dos, é claro), — o dire­tor dis­pa­rou outra gar­ga­lhada — foi uma sen­sa­ção tão boa de dever cumprido!
_ Pois é. E ainda teve direito a mais um Mama África antes de vol­tar. Era cada enxa­dada, uma minhoca, lembra?
_ Ô!
Dali em diante os ébrios con­vi­vas foram se dis­per­sando, se des­pe­dindo. Sér­gio teve difi­cul­dade para levar a sono­lenta morena embora (e no dia seguinte já esta­ria com outra). Car­men per­ce­beu que esque­cera a vitrola rodando sozi­nha, e des­li­gou tudo. Juli­ana, que ficou muito cha­pada com o beque, e ficou escu­tando tudo em silên­cio — ou ao menos a parte em que ainda estava acor­dada –, levan­tou gro­gue e rea­fir­mou a seri­e­dade da pro­posta, antes de ir embora com o dire­tor, que não pare­cia nem um pouco can­sado e ainda pas­sou uma não tão sutil can­tada em Sér­gio. Todos pro­me­te­ram vol­tar a se falar sobre o Projeto.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Dia de um Podólatra: Manhã


Acordou devagar, e pareceram vários minutos aqueles instantes em que, desperto, fragmentos de sonho insistem que são reais e pedem que resolva alguma coisa urgente – era algo relacionado a um código ou algo assim. Olhou pela janela, claridade incipiente iluminava o muro onde se lia “só o cinismo salva”. Deve ser cedo: acordou antes de tocar o despertador, um minuto, como verificou; isso era razoavelmente comum e lhe parecia algo sobrenatural. Tinha que acordar cedo para ir ao dentista: dentista-aula-trampo-aula-prometo-que-vou-correr, passou-se-lhe em um átimo a agenda pela cabeça. Levantou-se como que impulsionado por molas – era um período em que estava bem disposto; livrara-se de uma renitente melancolia eivada de autocomiseração sem nenhum livro de auto-ajuda, apenas mandando tudo à merda mesmo: daí o slogan no muro.

Sua boca seca tinha um gosto insuportável, e escovar os dentes e passar um café era talvez menos um remédio para isso do que uma justificativa para retomar o hábito que o provocava (não que um cínico precise de justificativas, aliás). Apertou distraído o tubo e saiu uma quantidade pletórica de pasta, bastante para escovar os dentes desta engrenagem absurda que chamam de mundo (cedo demais para suas metáforas idiotas, pensou). Vou inventar a máquina de pôr a pasta de volta no tubo e ficar rico; e de quebra vou desmoralizar essa tal termodinâmica. Enxaguou a boca e enxugou-se. Meteu os pés num chinelo e conferiu o tamanho das unhas: ainda não; uma de suas idiossincrasias era esperar que ficassem bem grandes antes de cortar (o prazer era maior e o risco de se machucar menor). Chaleira no fogo, lembrou-se de que não colocara um disco pra rodar; voltou ao quarto e meteu a mão a esmo na seção de jazz: Freddie Hubbard, pôs a bolacha no pino (o ato sexual mais frequente que realizava) e delicadamente depositou a agulha na borda, ligou o mixer e o ampli e... voilà. Uma coisa que ele curtia no bebop era que a bateria quase sempre já entra solando em cima das convenções dos metais. A garrafa, o coador, o pó, despeja... mais um pouco; buscou o maço, cadê a porra do isqueiro? Fechou a garrafa, acendeu o primeiro cigarro do dia no fogão mesmo. Ela vai perceber que voltei a fumar e vai dar um esporro: deixa os dentes amarelados (como se eu já não soubesse). Ligou o micro – o que já devia ter feito, para ganhar tempo; uma falha no seu algoritmo matinal. Tinha uma necessidade patética de aceitação, que se manifestava – dentre outras coisas – em piadinhas que compartilhava esperando a reação dos “amigos” virtuais. Nada. Zero. Desligou a parafernália: melhor assim, só ia perder tempo.

Olhou o relógio: quarenta minutos, são no máximo quinze até lá. Sua serviçal tinha deixado fruta picada, comeu um pouco; tinha cereal e granola, mas nunca comprava leite. Ou pão, ainda que tivesse queijo. Dá tempo de ouvir esse lado. De volta ao banheiro, outro cigarro no cinzeiro, espumou o rosto arredondado; tinha o hábito de pôr a tampa na pia e assim usar a mesma água para limpar o barbeador (eu faço a minha parte, sorriu): barbeou-se uma vez, deu uma tragada e escanhoou-se apenas nas bochechas. Que pele linda que você ainda tem (sempre foi vaidoso). Olhou pra baixo. Recentemente tinha se apercebido de que seus próprios pés eram bonitos. Desde o tornozelo o contorno era harmonioso, sem tendões salientes, uma penugem discreta, o dedão bem desenhado, talvez só um pouco separado demais dos outros quatro dedos, que formavam uma diagonal perfeita. Que conflito: agora eu quero me comer. Mas eu já me fodo o tempo todo, mesmo! A caneca de café estava ao alcance da mão na pia de granito enquanto, sentado no vaso, lia um pouco do Bukowski. Delongou-se mais do que exigiu a fisiologia propriamente dita. Banhou-se cantarolando Beatles. Vestiu-se de jeans claros, uma camiseta vermelha do Trout Mask Replica (um sujeito com máscara de peixe e chapéu de turco), uma camisa também vermelha por cima. Nos pés, um lustroso sapato negro de bico quadrado, por sobre meias roxas. Pôs no pescoço um colar com duas voltas de sementes verdes e na cabeça seu chapéu de feltro marrom. Seu figurino favorito (ele veria aquela...). Escovou-se de novo, mesmo não tendo praticamente comido nada (mais de uma vez sentira o constrangimento de ir ao dentista de boca suja). Acertou a mão na pasta desta vez, pelo menos.

O carro estava mais uma vez imundo com excrementos do pássaros que faziam ninho no telhado. Malditos. Ligou o som; o banco do passageiro estava repleto de estojos de disco, e o traseiro ainda mais. Começou a tocar Eric Dolphy; esse cara devia estar na primeira divisão do jazz, é o maior injustiçado do gênero. Mas já tinha escutado o bastante disso: voltou ao Avant Garde Project: Luciano Berio (adorava escutar essas maluquices no último volume e escrutar a reação das pessoas – carências...). Em dez minutos estava estacionando do lado de fora de um Qualquer-Coisa Center onde ficava a clínica odontológica. No hall, lá vinha uma mocinha bonita, morena de cabelos curtos, acompanhada aparentemente pelo pai, que lançou um olhar na sua direção e sorriu encabulada; infelizmente usava tênis brancos. Agora, demorara para achar um dentista confiável, ou uma, mas era simplesmente impossível escapar da Veja e da Antena 1. A revista bastava não ler (o velho Buk o acompanhava), mas contra a rádio seriam precisos fones de ouvido, precisava lembrar da próxima vez.

Vamos entrando? Um pouco de conversa miúda, o tempo como sempre, esticou-se na cadeira e abriu a boca. Ela não falou do cigarro ainda. Voltou a pensar naquela. Tinha pés enormes, mas lindos. Obviamente os pequenos tendem a ser mais delicados, mas os dela eram muito bem feitos: os dedos roliços – o segundo maior que o dedão – tinham belas unhas pintadas de um inusitado azul claro havia uma semana. Além do mais, ela precisaria deles grandes para transportar quase um metro e oitenta de uma ruiva corpulenta mas ao mesmo tempo esguia como uma cascavel. Seus lábios carnudos estavam sempre pintados com um rubro que valorizava os cabelos, provavelmente tingidos, mas num tom muito natural, escuro. Faziam dois arcos até a altura dos ombros, dos quais ele viu um uma vez, quando ela puxou a camiseta folgada de lado: que ossos! Pode cuspir. O que mais a distinguia, entretanto, eram os óculos de armações enormes e transparentes, onde olhos castanhos claros pareciam perdidos. Esses mesmos olhos um dia, entrando na sala, cravaram-se nos dele, por longos segundos, e desde então repetidas vezes (repassou cada uma, lá com a boca escancarada). Uma beleza fora do óbvio, repetia. Ele tinha um plano para mais tarde. Saiu de lá com a boca torta, até fumar era estranho, e teve que desistir de cantar a música do Genesis que era a única que sempre lhe vinha à mente. Também não havia ninguém por ali para impressionar. Percorreu uma distância enorme, o que por um lado permitia ouvir mais música, e chegou ao campus da universidade. Subiu ainda mais o volume e prestou atenção num grupo de três jovens que passavam enquanto estacionava; a soprano disputava com as dissonâncias do piano e a percussão ensandecida no quesito esquisitice. Uma olhou chocada: estamos bem.

Não se dirigiu diretamente à sala, tinha que buscar um café. No corredor, detectou um, dois três pezinhos bonitos. O bom da podolatria é que as pessoas simplesmente acham que você está olhando para o chão; você pode, por exemplo, devorar com os olhos o pé de uma garota acompanhada, sem nenhum constrangimento. Mas ele sempre torcia para que elas percebessem e demonstrassem alguma emoção, que fosse perplexidade ou até repulsa; às vezes ganhava mesmo um sorriso cândido, e essa era a glória suprema. Por isso acabou desenvolvendo um modus operandi: se o rosto e o estilo em geral agradavam, conferia os pés; sendo bonitos, encarava como um maníaco (sem esforço algum) e só daí buscava os olhos da moça. Às vezes nem isso: bastavam os pés; além do mais, olhar uma mulher nos olhos é mendigar sua atenção, não raro só obtinha uma expressão arrogante de desprezo. Dependendo de seu humor, não via nem o rosto, que podia estragar tudo (e o fazia muita vez). Na fila da cantina, se alguém podia chamar aquela espelunca de cantina, umas sandalinhas de couro o encheram de esperança, mas decepcionou-se logo: o terceiro dedo era maior que o segundo, e isso estragava tudo. Café duplo pra viagem; expresso, é claro. Foi fumar do lado de fora, e elas passavam: tênis, bota, chinelos... putz! Ela se aproximou mais, era morena de cabelos cacheados e longos, um rosto interessante, blusinha branca e saia florida. Os chinelos eram cor-de-rosa, trinta e cinco no máximo, ela era miúda; os dedinhos formavam uma parábola com ápice no segundo, a pele cor de caramelo. Coisa para os dez mais, cinco talvez. Olhou pra cima e ela estava olhando pra ele, mas disfarçou. Virou o pescoço para admirar o movimento das ancas. Velho tarado. Apagou o cigarro e foi andando até a sala.

Dez minutos atrasado, tudo bem. Tinha uma moreninha que estava sempre com o cabelo molhado, às vezes olhava pra ele; estava logo na entrada, e ficou olhando pra sua camiseta. Só uma vez alguém a tinha reconhecido e comentado, foi logo após a morte do Captain Beefheart, na entrada de um show de Zappa Cover, terreno propício. Achou uma carteira e prosseguiu bebericando o café; discutiam um livro muito ruim que o fizeram ler: ia ter de se conter. Gostava de participar das aulas, mas tinha de se policiar: tentava filtrar o que era relevante do que era mera vaidade intelectual. Olhou na direção da morena; ela olhou de volta, rápido. Deve ter namorado. Ele tinha pesquisado: redes sociais e tal, havia uma referência a um Carlinhos (não tinha o menor respeito por homens que aceitam ser chamados por um diminutivo) meses atrás, depois nada; omitia o “status de relacionamento”. O cabelo molhado era porque estava vindo do remo, e ela trabalhava em um órgão vizinho ao seu, inclusive. Nada muito interessante, melhor esquecer. Acabou levantando o dedo e falando alguma bobagem: tinha um jeito muito cordato de alfinetar a professora e toda sua concepção literária, e o fazia com certa elegância nos trabalhos escritos, que eram corrigidos óbvia e infelizmente pela monitora. Aliás, que monitora: a negra mais bonita que já vira não seria exagero nenhum. Acho que nunca vi seus pés, pensou. Virou-se e lá estava ela, mas os pés ficaram eclipsados. Mais dez minutos e eu busco outro café. E um anti-ácido: tinha sempre no carro.

No intervalo, teve uma surpresa, a moreninha dos chinelos cor-de-rosa estava sentada em uma das mesas, com um computador portátil; pediu o café, na xícara agora, e sentou-se defronte a ela e abriu o Bukowski. Volta e meia ria com o livro (isso sempre chama a atenção das pessoas), e às vezes flagrava os olhinhos dela, quase negros, na sua direção. Será a camiseta? Não demorou até que ela se levantasse e sumisse, gingando tão suavemente no caminho. Mais um duplo, mais um cigarro e de volta à aula. Os olhos da morena. Ela também estava de chinelo, azul escuro ou preto talvez; seus pés não eram feios, longe disso, mas também não o entusiasmavam. Ali do outro lado tinha outra bem charmosa, mas que parecia simplesmente não estar lá. Aliás, ele também não estava: estava na aula da noite. Quando percebeu, estava respondendo chamada. Entrou no carro e o volume obviamente exagerado o assustou: à medida em que os ouvidos se acostumavam ele ia subindo; sabia que tinha que mudar isso, afinal um idiota com o volume alto demais é um idiota não importa o conteúdo musical. 

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Get Up, Stand Up

Não sei mesmo o que estou fazendo aqui, porque ninguém nunca ri das minhas piadas. Uma vez no trabalho um colega disse que estava com uma ressaca homérica. Eu disse que era o porre que era homérico, a ressaca é dantesca. Silêncio sepulcral. Mas vamos adiante, de qualquer forma.

Outro dia.uma dúvida me assaltou: levou minha carteira, meu celular e meus óculos. Daqui pra frente eu só terei certezas. Mas dizem que a única certeza que a gente tem é a morte, o que até eu vou concordar que é muito pessimista. Se você está vivo pra ter certeza, então pelo menos a vida é uma certeza. Penso logo existo (o que é outro clichê); mas, se tem tanta gente que não pensa e exista mesmo assim, o postulado deveria ser existo logo existo. A gente não precisa ter medo da tautologia; aliás, às vezes me perguntam o que é tautologia: tautologia é tautologia, ora! Não esquecer também que a conclusão do brilhante filósofo do século XVII não resiste à hipótese solipsista: tudo existe na consciência, e a própria consciência de si pode existir mesmo sem um si (até porque mesmo a coisa-em-si-e-para-si do Hegel foi transposta pra lá menor por Bach, sem nenhum problema - fora o anacronismo, claro). Pois bem, o solipsismo é uma doutrina que não tem muitos adeptos fora dos filmes do Woody Allen, mas eu mesmo sou presidente da Associação de Solipsistas de Brasília. É verdade. Também sou fundador e único membro do Clube de Misantropia: mas não podemos aceitar ninguém que queira se associar a algo assim (o que é a frase do Groucho ao contrário, se eu preciso mastigar pra vocês).

Mas eu não sou só misantropo e solipsista, não. O que realmente me define é o Cinismo Engajado, vou explicar. Como dizia o Cazuza, as pessoas costumam querer uma ideologia pra viver. Muitas levam isso muito a sério, outras compram só os adereços, mas no fim o que se vê é muita conversa jogada fora, e a mesma dança estúpida e fora do ritmo. Tantas convenções sociais e rebeldia tola (que diferença faz?), tabus morais e transgressões vazias (que diferença faz?), superstições religiosas e racionalismos tacanhos (que diferença faz?), discussões estéticas pedantes e mau gosto massificado (que diferença faz?), tantos ismos e pós-ismos (que diferença faz?), teóricos cada vez mais incompreensíveis (que diferença faz?), tantas escolas e vertentes, tantas teorias e palpites... Que diferença faz? Ora, que diferença faz qualquer coisa? Pra alguém que já vive mesmo preso na própria cabeça, a opção lógica é pelo niilismo. E isso traz uma paz enorme: o niilismo é a versão cínica do zen. Além do mais, é muito mais prático: o Cinismo Engajado é uma postura... veja bem, mais que uma ideologia é uma anti-ideologia; enfim, uma postura filosófica, política, moral, religiosa, estética, acadêmica, afetiva... qualquer coisa! É uma espécie de carta-coringa, ou mesmo uma imunidade diplomática contra consciência pesada, uma racionalização pré-moldada. Verdade seja dita que tem uma ideologia que eu não consegui abandonar, que é a podolatria (há pés interessantes na plateia hoje); e pra ser totalmente honesto, ainda guardo um sentimento ético, como um souvenir, deve estar em algum lugar aqui... não, acho que esqueci em casa. Alguém pode me emprestar o seu?

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Sylvie Courvoisier's Lonelyville: Cosmorama


Sylive Courvoisier: piano, composition; Mark Feldman: violin; Vincent Courtois: cello; Ikue Mori: electronics; Gerald Cleaver: drums.


No Jazz em Agosto 2008, além de Zorn/Frith e Brötzmann Chicago Tentet, vimos a Sylvie Courvoisier. Como não achava na rede, encomendei o CD. Cosmorama tem o ostinato mais hipnótico da história. Subi no Youtube: mais um serviço à humanidade que não será reconhecido.

sábado, 15 de outubro de 2011

A Passagem IV

Caminhava sob uma fina chuva até a entrada da passagem. Seu pensamento se dividia entre o primeiro encontro com Borges e a moça que conhecera. Perguntava-se: estar mais magro teria sido decisivo? Em que medida era sua personalidade que a atraía? Teria resolvido seu problema? Estava pondo esperança demais novamente naquilo que nem se podia chamar relacionamento? De uma forma ou de outra, pensava, que diferença entre este dia e aquele! Na verdade nem sabia mais o que pedir... Se o painel de Borges funcionou, não havia por que duvidar da chave para a nova abertura da passagem, e se a previsão do astrônomo estava correta ou não, ele estava prestes a saber.

Deixar o guarda-chuva no carro talvez não tenha sido boa ideia, e quando chegou à boca do túnel, Jaime estava bastante molhado. Tirou o celular do bolso para acender a lanterna, e na mesma hora - coincidência extrema - ele vibrou com um sinal de mensagem: Bárbara. Não poderei sair no sábado. Putinha. Ligou: não atendeu. Pronto, eu sabia, eu sabia. Sempre o mesmo. Talvez seja ainda pior quando dê um gostinho, alimente uma esperança. Da Nazi ou da Ingrata que posso falar? Nada. Merda. Encostou-se à parede nada recomendável da passagem e não chorou por pouco, mas seria de raiva se o fizesse.

Vamos lá... encontrou o azulejo quebrado, mas achou estranho o fato de que o pedaço que cobria o botão estava faltando. Apontou a lanterna para o chão e lá estava ele. Teve antes uma certeza que uma desconfiança, bastava confirmar. Acionou o dispositivo, o chão girou, achou-se no corredor infinito. Até agora, nada do anão. Foi andando tateando com o braço direito a parede. Andou um bocado mas achou a segunda passagem, e a porta. Detalhe: havia um guarda-chuva ao lado dela, um que não combinava com a elegância do senhor Borges, claro.

Aberta a porta, lá estavam instalados nas duas poltronas J.L. Borges, em um garboso terno gris, e o folgado do outro Jorge, o mesmo que você já estava esperando, o astrônomo diletante; em um banquinho se instalara o anão, cuja gargalhada estridente se destacava das outras. Olharam todos na direção de Jaime, Jorge um pouco constrangido, Borges - estranhamente bem humorado - mandou um Hola, pibe! e o anão levantou-se sinalizando a Jaime que lhe tomasse o lugar.

A velha rotina de auto-vitimização: não se pode confiar em mulheres, não se pode confiar em amigos. Jaime acendeu um cigarro antes de aceitar se sentar, e mantinha a cara fechada. Jorge se apressou a se explicar: Olha, foi mera curiosidade... eu me envolvi afinal, você sabe. Mas estávamos esperando por você. Ah! E a conversa estava bastante divertida, pelo que parece. Pibe, calmate. Antes de mais nada, eu vejo que estás muito mais magro! Bem, isso é verdade; e eu agradeço. Não é necessário, eu não fiz nada! Agradece ao painel... Mas já que falaste nisso, veja isso aqui. Levantou-se e caminhou usando a bengala até uma prateleira de onde trouxe um jornal. Desmatamento na Amazônia Fora de Controle. Veja a data, pibe. Era dali a cinco anos. Todos querem comer carne e perder peso, pibe.

Vem aqui comigo, pibe. O anão se apressou a abrir a porta que levava à câmara com o painel. Borges acionou alguns comandos e de repente o monitor começou a exibir imagens a uma velocidade indescritível. Foram alguns instantes que Jaime ficou ali, mas sua impressão foi de ter visto a totalidade dos relacionamentos humanos. Desde as pessoas que levaram existências inteiras solitárias, perto das quais sua vida era extremamente movimentada, passando por gente que suportou relações de aparência a vida toda, e ficou mesmo uma impressão de que boa parte da felicidade do mundo era mera aparência, pessoas que viviam infernos insuportáveis por causa de outra, muita gente como ele, que vivia dando cabeçada, e geralmente acertava uma, e um exemplo ou outro de felicidade genuína, aqui ou ali.

Jaime levou a mão ao queixo: seu egoísmo lhe era evidenciado uma vez mais. E, no fim, ficar magro nem tinha resolvido seu problema. Não ia mudar o fato de que as mulheres são... enfim, como são; de que ninguém fora ele ia reconhecer nele um certo charme excêntrico; de que o acaso determina tanto em nossas vidas. Não havia nenhum fator da realidade que pudesse mudar ipso facto sua sorte, nem faria sentido pedir que mulheres sentissem tesão por caras com livros (provavelmente ia aumentar ainda mais o desmatamento para produzir papel). Respirou fundo. O anão apareceu ao seu lado com uma bandeja onde havia um copo de uísque.

Foi então que Jorge se adiantou, entrando também na saleta: Eu conversava com o Borges, Jaime, sobre como melhorar o mundo usando este painel. Você sabe, eu me considero um socialista, então o primeiro que veio à mente foi pedir uma sociedade sem classes. Você sabe que ele é um aristocrata e riu da minha cara, disse que alguém precisa trabalhar para que os outros possam criar, eu discordei, aí ele perguntou se eu lavava meu banheiro, eu fiquei quieto; então ele disse que mesmo que se estabelecesse essa sociedade, uns iam começar a acumular e logo teríamos as classes de volta, e os banheiros voltariam a ser limpos. Era disso que ríamos.

Apoiando o queixo na bengala, Borges fitava Jaime e, com uma sobrancelha arqueada e um ar cínico disse: Tu conheces este tipo de fábula, pibe, e a moral é sempre previsível. E não me metas em má literatura de novo. Tirou uma baforada do charuto e completou: agora é a hora do teu pedido.

Acabou ficando esclarecido que Bárbara tivera apenas um contratempo qualquer, e não atendera porque entrara no elevador, e depois foi ele quem entrou no túnel. Saíram algumas vezes, mas não sei dizer se deu em coisa mais séria. Acho que o importante foi que depois de todo o episódio ele conseguia levar a vida com mais leveza. Quando o reencontrei anos depois ele se referiu àquilo como um sonho que tivera, e me contou que sua esposa esperava um filho. A notícia que Borges mostrou nunca foi publicada, e as revistas pararam de recomendar a dieta da carne.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Senhorita

Me excita, senhorita mistério
Este teu ar sério
Ou como quando me fitas
Centelhas infinitas
Abrasam o cerrado ressecado
Deste músculo tão maltratado
Me excita, senhorita surpresa
Tua fulgurante, inusitada beleza
Me excita teu gosto ao vestir
Ou a desenvoltura em exibir
Pernas que parecem não terminar
Mas terminam, em pés - tão lindos -
que me poderiam pisar
A teu bel prazer, que é meu
O que é dizer eu sou teu
Mas sequer te conheço, senhorita encanto
Como pode que me estanques o pranto?
Isso é uma barbaridade; que seja
Tão longe quanto eu veja
Sopram ventos de mudança
Bem vinda, senhorita esperança.