quinta-feira, 17 de março de 2011

Adorável Vilão

Faz meses que este blog está parado, e nada me vinha à mente para escrever. Política certamente não me entusiasma, e Dilma tem confirmado minhas expectativas, sendo tão centrista que já está ultrapassando a direita. Minha vida pessoal então tem sido sem eventos dignos de nota, o que é bom em certo aspecto, se considerarmos o demônio com cara de anjo que motivou algumas postagens por aqui e bagunçou minha vida.

Mas eis que em uma viagem à Chapada dos Veadeiros surge uma nova paixão. Uma verdadeira obsessão na verdade. Não é uma mocinha idiota desta vez, mas uma peça rica e profunda, complexa e multifacetada. É a peça mais encenada do Bardo, eu viria a descobrir. Ricardo III, o tirano deformado, o canalha irresistível de William Shakespeare, e as dezenas de personagens que em seu entorno gravitam, tudo na deliciosa edição crítica da Norton, que traz Fontes e Contextos com Thomas More contando a história ao seu modo acadêmico; Análogos, como trechos da peça anônima True Tragedie of Richard the Third; a Adaptação de Colley Cibber, que usa trechos das peças anteriores 1, 2, 3 Henry VI e interpola linhas próprias - e ficou sendo por dois séculos o texto oficial de Ricardo III até que o texto shakepeareano fosse resgatado; análises de adaptações para o palco e para as telas, incluindo o palpite ilustre de Bernard Shaw; e ensaios críticos. Infelizmente, a chuva me pegou desprevenido e prejudicou bastante o aspecto físico do livro, embora a leitura não tenha sido afetada.

Para quem não é familiar com o enredo, a peça se dá logo após a Guerra das Rosas, em que os York suplantam os Lancaster e ficam com o trono - ou logo após a trilogia Henrique VI. Edward IV é o rei e Richard, Duque de Gloucester, corcunda, manco e com um braço deformado é um de seus irmãos, George, Duque de Clarence é o outro. Richard abre a peça com um monólogo em que se declara um vilão, que trama pela morte de Clarence. De fato, Richard ainda precisa sumir com a ordem do Rei que revertia sua sentença de morte. O diálogo entre os assassinos (e entre ambos e Clarence) é um dos pontos altos do vetor moral da peça. Pouco depois de saber da execução do irmão e dela se arrepender, o próprio Rei - que já andava doente - falece. O vilão tem agora pela frente o Príncipe Edward, filho do Rei Morto, mas que não chega a ser Rei Posto (na peça, na vida real chegou a ser Edward V), pois o ardiloso Gloucester vai revelando seu caráter maquiavélico, prendendo e matando os parentes da Rainha, decapitando o camareiro-mor Lorde Hastings, aprisionando os dois príncipes e manobrando, com a ajuda do Lorde Buckingham para ser enfim coroado Rei Ricardo III. Depois desse ápice, começa sua decadência, pois é detestado por todos (em grande medida por matar os príncipes) e sua crueldade foge do controle, rechaçando mesmo o fiel Buckingham. É quando chegam notícias de que o Conde de Richmond, da casa derrotada de Lancaster, que estava na França, junta um exército para reclamar o trono. Os dois vão medir forças na Batalha de Bosworth. Na noite anterior, fantasmas das vítimas de Richard aparecem para amaldiçoá-lo e abençoar Richmond, e Richard faz a primeira demonstração de fraqueza e culpa - talvez até loucura. Durante a batalha, Richard tem o cavalo morto e se acha em meio aos inimigos, é quando profere uma das mais famosas linhas da História do teatro:

"Um cavalo! Um cavalo! Meu reino por um cavalo!"

Logo depois é morto por Richmond em pessoa, que se torna Rei (Henrique VII, embora isso não seja mencionado). Bem, é claro que esta é uma ultra-simplificação da trama, e não foram mencionados nem um terço dos personnagens, mas espero que já sirva para instigar um leonauta ou outro à leitura da peça. Ou leituras, idealmente, pois uma é pouco - e mal posso esperar a leitura dos artigos críticos para reler a peça.

O que ajudou bastante a dar concretude à trama foi assistir às adaptações cinematográficas. Achei que dava pra pular as mudas, partindo para a dirigida e estrelada pelo famoso ator shakepeareano Laurence Olivier, de 1955. O filme deve muito ao teatro, e o próprio Olivier teria dito ao diretor de fotografia "não tente ganhar um Oscar". Outra questão com Ricardo III é a extensão (só fica atrás de Hamlet), sendo cortes quase unanimemente necessários. O filme de Olivier corta a peça pela metade, mas as linhas do protagonista são as mais poupadas, levando a um domínio absoluto de sua figura, que quando não está manipulando e matando está se jactando disso junto ao público. Infelizmente, Olivier é pouco convincente como vilão, e o filme todo tem a aura artificial que as produções da época costumam ter. Não deixa de ser um bom filme, é claro. Em seguida, parti para a adaptação de Richard Loncraine, com Ian McKellen no papel principal, de 1995. Na verdade, revi o filme, pois tinha assistido na época de seu lançamento, no saudoso Cine Metrópolis, na UFES, em Vitória; e mesmo sem entender completamente, tinha gostado bastante. O filme coloca a ação em uma Inglaterra entregerras, com Richard erguido à condição de tirano fascista; e se sai bem, obrigado. Ian é um grande ator e alcança perfeitamente o resultado de "adorável vilão" inerente ao personagem (William Richardson, em seu ensaio incluído na edição Norton, defende que odiamos Ricardo por sua vilania ao mesmo tempo que o admiramos por suas qualidades intelectuais). Por fim, de 1996 é a brilhante adaptação metalinguística de Al Pacino, em que entrevista pessoas na rua, mostra o processo dos atores discutindo o texto, consulta atores e acadêmicos, tudo entremeado com a ação da peça em si, ou apenas o essencial. O filme é divertido, bem-humorado e ainda assim denso, não deixa de transmitir a tensão da peça, e explora a mente do monarca mais detestado da história inglesa melhor que os outros dois. Minha dica? Vejam todos. Ou então os dois da década de 90, ou pelo menos o do Pacino. E, não me canso de repetir, vá à peça. No original, se possível. Leia, releia. Apesar de vista como uma obra precoce do genial Bardo de Avon, e apesar de a briga medieval pela coroa inlgesa nos parecer distante, a peça é fantástica, e envolvente.

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