segunda-feira, 20 de junho de 2011

terça-feira, 14 de junho de 2011

Qual Revolução??


O seminário Revoluções: Uma Política do Sensível aconteceu nos dias 20 e 21 de maio, no Sesc Pinheiros, em São Paulo para discutir as relações entre estética, política e história, pensando na dimensão emancipadora que se abre através de cada uma desses lugares de experiência coletiva. Reuniu entre outros a Marilena Chauí, Emir Sader, Alexandre Kluge e, Slavoj Žižek.


Qual Revolução??

Desde o início, por ouro e prata:
olha quem morre,
então veja você quem mata.
Recebe o mérito a fada que pratica o mal
me ver pobre, preso ou morto
já é cultural”
Racionais Mc's – Negro Drama

Por Maísa – Escola de Pensamento Carcará: por um olhar descolonizado

Era uma sexta-feira e um sábado de maio na capital paulista. O evento acontecia no bairro de Pinheiros, no elegante SESC e contava com a participação de diversos expoentes do pensamento ocidental e filósofos superstar de nossos dias. Os ouvintes-espectadores se acumulavam em frente ao auditório, chegavam de táxi, desciam elegantes e eufóricos. No cardápio a pílula revolucionária que dá alento e esperança à classe média intelectualóide e fornece matéria-prima para seus estudos, teorias, conversas nos botequins e cafés, nas redes sociais. Dá até para esquecer, ou talvez ninguém perceba, que a apenas dois quarteirões dali, nos botecos maltrapilhos, nas casas de show e strip à beira da Av. brigadeiro faria lima, o trabalhador de sempre rasga seu caminho. Estão à espera do ônibus, da lotação, ou comem um pastel do chinês. E não estão sozinhos: os cães-de-guarda estão lá fardados, são duas as viaturas; quatro os porcos com as mãos sobre os .38, sempre sedentas e nervosas por uma ocasião de se mostrarem. E se mostram: são três jovens, um senhor. “Mão na parede!”. A cor deles é parda, o cabelo escuro e as mãos meio sujas. Carregam seus pertences em sacolas plásticas. Ali, pernas abertas e os putos de sempre a percorrer-lhes o corpo, apalpando-os: “- temos de manter a ordem”; “-é para a sua segurança”; “-é só procedimento padrão”.

Mas os revolucionários não passam por ali, não andam a pé nem se misturam a 'essa gente'. Chegam de táxi, estacionam seus veículos no subsolo. Aplaudem quando o palestrante faz piada sobre o nordeste e diz que ali, em São Paulo, é que estão as cabeças pensantes. Os palestrantes incitam à Revolução, nos fazem crer que passaremos por momentos turbulentos e que a Revolução bate à nossa porta.
É o mesmo trololó de sempre.

Essa mini-crônica local pode facilmente ser aplicada em escala regional, nacional e até mesmo global. Não podemos mais escapar do global na ordem econômica e, consequentemente política. Resta saber se a sociedade é capaz de fazer o raciocínio global no plano social para além do Facebook e do Habbo. Me parece, infelizmente, que não. Do mesmo modo que os revolucionários do Sesc não se misturam ao trabalhador, os paulistas da capital não se misturam aos paulistas do interior, e os sulistas não se misturam ao norte e ao nordeste brasileiros, e a Europa e os Estados Unidos não se misturam aos “em desenvolvimento” ou “subdesenvolvidos”, como se dizia há pouquíssimos anos atrás, do hemisfério sul. Há sempre alguém que pensa mais, que pensa melhor: os mais desenvolvidos, os mais civilizados... O imaginário delirante que está sempre vividíssimo nas mentes (pouco) pensantes mundo afora, que impede de reconhecer que nesse mundo de mortais não há melhores nem piores.
A Europa enfrenta agora uma severa crise e uma severa recessão com taxas de desemprego altíssimas e dívidas impagáveis. O mesmo acontece nos Estados Unidos. A população está nas ruas: em Wisconsin, nas praças espanholas... já celebram a vitória em algum canto do mundo: Islândia. Mas, supondo que as revoluções internas nos Estados-Nação surtam algum efeito e venham a ser “bem-sucedidas” numa escala local, o que muda, efetivamente?
A crise econômica que estourou em 2008 e estende-se até hoje não irá se resolver com levantes locais. Pode-se estancar as feridas que estão às vistas, mas quem irá conter a hemorragia interna? Não irá se resolver porque o capitalismo, representado pelo sistema financeiro (o tal Mercado) e suportado pelo Estado de Direito (não seria mais honesto o título “Estado de Privilégios”?) não é um sistema local. Ele não depende exclusivamente de um país ou de outro. Ele não participa da ilusão dos melhores ou piores... todos são só veias a serem sugadas até a última gota.
O delírio financeiro de Wall Street não se encerrou com a crise, nem com o presidente Obama – que manteve nos conselhos financeiros, FED, e comitês de controle os mesmos calhordas responsáveis pela crise, conselheiros e donos das empresas que causaram e causam ainda todo esse pesadelo que se instaurou. Esses putos não foram julgados por crime de qualquer espécie, nem o serão. Nem tiveram de devolver os bilhões que lucraram, embolsaram, durante a farsa financeira e política que empobreceu TODA a população mundial.
Eles não se incomodam com isso, nem precisam. A população não tem acesso a essas decisões. Ainda que tivesse, não pode controlar a instalação dessas empresas mundo afora. Ainda que pudesse, a população, essa sim, vive o delírio dos melhores e dos piores...

O documentário Trabalho Interno (Inside Job - http://www.twitvid.com/PY6MM ) nos conta tudo isso direitinho. É o máximo da globalização (talvez nem seja ainda). Globalização que começa com as navegações do século XVI com a divisão de territórios, os colonizadores europeus levando a 'civilização' e a boa doutrina católica ao mundo pagão e bárbaro. E se intensifica a partir de 1980 com a fragmentação dos territórios proporcionada pela instalação das empresas globais em todos os continentes. Até os europeus, os romanos e os gregos são os colonizados da vez. Somos todos. Colonizados e usurpados por meia dúzia de filhos da puta. E continuaremos a sê-lo. O Brasil e a América Latina estão prósperos nesses dias de crise: por quanto tempo? Na lógica(-ilógica) cíclica do capitalismo, somos os próximos da fila, mais uma vez. Somos apenas outra veia (aberta, e sangrando há 500 anos como explica Eduardo Galeano).

Mas nesse mundo de globalização, nós, a população temos outras coisas de que nos ocupar: são os casamentos das celebridades, as farsas políticas corruptas, os duelos esportivos. Em outro nível, o internético, são as fotos que postamos, os comentários de nossos amigos, quantos deles nas redes sociais gostaram (like) de nossas postagens. Em outro nível ainda, o intelectual, são as produções acadêmicas mais-do-mesmo, e os debates acerca da nova religião mundial que atende pelo nome, na mesma medida fofo e cruel, de Direitos Humanos. Os Direitos Humanos, fazem as pessoas acharem um absurdo que os Ashaninka (um povo indígena que está no Acre -norte do Brasil- e no Peru; que sobrevive à invasões desde a época do Império Inca, e ainda hoje http://apiwtxa.blogspot.com/ ) cacem e comam macacos-prego em extinção. Os Ashaninka que em sua língua não possuem sequer expressões de tempo como “hoje”, “amanhã”, “minuto”. É a barbárie aos olhos civilizados do greco-romano-judaico-cristão-homem-branco-ocidental que esbraveja “Direitos Humanos!”.
-Eles podem ser índios, mas será que não poderiam comer como a gente, falar como a gente, pensar como a gente?
- Ah! Se todos pensassem como a gente dava pra salvar as florestas, os animaizinhos, todos reciclávamos o lixo e todos teríamos os mesmos valores puros e 'democráticos', tão caros ao Ocidente.

Democracia?

De “Democracia-Real” fala-se hoje em dia. Há outros nomes também. Qual a idéia? É um mero problema de representação, ou é um problema mais grave, aquele de como o poder efetivamente está distribuído? Não há democracia em parte alguma desse mundo, está claro para quem quiser abrir os olhos e enxergar. TODAS as decisões mais importantes e que mais nos afetam são tomadas em uma esfera (FMI, OMC, OMT, OTAN, ONU, e a lista é gigante) à qual quiçá tenham acesso os deuses do Olimpo.... mas nós, os mortais, nós não. Mas, adianta um país como a Islândia ter esboçado conseguir a tal democracia?
- Hoje em dia? Não, não adianta merda nenhuma.
- Em tempo global, só há mudança efetiva se for global.
- Mas o que seria isso de uma democracia global?

Há uma tendência em encarar a idéia como um modelo pronto e acabado universal. Mas e se decidirmo pensar de um outro jeito (será que ainda podemos?). A democracia, como sabemos, é o governo do povo. Em outras palavras, é um sistema político que distribui o poder ao povo. E o que é o povo?
Segundo Antonio Negri não há povo, há Moltitudine. Ou seja, há uma multidão diversificada de pessoas, indivíduos que compõem aquilo que chamamos “povo”. “Povo” não é uma coisa homogênea e igual. É preciso, antes de tudo, reconhecer isso. Que “povo” está constituído de culturas, hábitos, costumes, línguas, percepções, que são múltiplas e podem ser até mesmo infinitas, e cada uma delas TEM DE SER RECONHECIDA como tal, sem melhores ou piores. “Povo” pode ser formado de infinitas maneiras. Pense-se ao número 4, por exemplo. É comum pensarmos que 2+2 é um modo de chegarmos a tal número. Mas a matemática nos oferece um conjunto infinito de possibilidades que nos permitem chegar ao número 4. Eu disse INFINITO. O mesmo se dá com “Povo”, que pode ser composto de infinitas maneiras, sem nunca cessar de ser “povo”. A unidade “povo” só é interessante ser pensada quando se tem em vistas um objetivo.

Mas o objetivo, quando se fala em povo, geralmente é pensado por quem acredita estar falando de uma segunda pessoa. Assim, o “povo” é, diria eu, quase sempre utilizado pensando em objetivos que não são os seus, e não há nesse uso qualquer objetivo comum. Nenhum chefe de governo usa o nome do “povo” por um interesse uno, um desejo comum.Nem em escala local, nem regional, nem mundial.
Eu fico pensando naquela idéia de povo global (que é, também, o que somos hoje, só não queremos perceber ou nos ocupar disso). Será que nós, o povo, aqueles que povoam o mundo, não teríamos no fundo bem fundo, em meio a todas as nossas diferenças e multiplicidade, um desejo comum? Será que não temos um objetivo comum (um único que seja!) que justifique a nossa unidade?

É difícil falar e escrever de sonhos em tempos de ideologia não-ideológica!

Queria que os europeus e os norte-americanos que se levantam, aqueles que julgam ter encontrado o paraíso democrático, e os latino-americanos que crêem em sua prosperidade pudessem pensar nisso. Queria que o slogan que saiu dos cartazes espanhóis e ecoam mundo afora com os dizeres: “Se vocês não nos deixarem sonhar, não os deixaremos dormir”, pudesse dizer com os famintos do mundo a quem o ronco no estômago nunca permitiu sonhar: “Se não nos derem de comer, não os deixaremos existir”. Queria poder o abandono da dicotomia Oriente/Ocidente, melhor/pior... queria pensar em um objetivo comum desse povo global.

A democracia poderia existir de diversas maneiras, com toda sorte de cores, rostos e feições. Não há modelo padrão a ser seguido. Há só o povo, e o povo é multidão de culturas, crenças, línguas e formas. São todas elas boas a quem julgar que assim o são. Não há piores, todas são as melhores! O povo é o melhor, sempre, desde que possa decidir assim. Será que nos deixam? Será que nos deixamos?
No sistema em que vivemos, uma revolução que tenha em vistas apenas o bem-estar local está fadada ao fracasso. Atualmente é uma revolução global, ou não é nada, e o abuso vai se repetir sempre, ele nunca cessa. Estamos todos colonizados e enjaulados à mesma cadeia. Só o comum, a unidade global “povo” pode acabar com isso. Nós temos um problema comum, creia quem quiser.
Resta em mim, sonhadora irreparável que sou, apenas a esperança de encontrarmos juntos nosso caminho comum, ao invés de repetirmos as mesmas fórmulas curandeiras equivocadas que insistimos em invocar ciclicamente através dos séculos, cuja única diferença concreta é a troca de nome e embalagem. Será que podemos ao menos tentar?


quinta-feira, 2 de junho de 2011

In the presence of fuckin God…We are all the same

 Swedish reedsmen Mats Gustafsson and Dror Feiler and Norwegian noise maestro Lasse Marhaug