quinta-feira, 14 de julho de 2011

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Esquetes de Memória I (título provisório)

Estacionaram o carro na Cantina da Química, bem perto do Ciclo Básico. Jorge era o irmão mais velho, e já estudava lá; Ricardo, o mais novo, e Telo, amigo de ambos, iam conferir o resultado do vestibular. Ricardo morava em Vitória e, além de ter optado por engenharia elétrica apenas porque música não fora bem aceito em casa, ressentia-se de deixar a cidade paradisíaca e a namorada para trás; Telo tentava pela terceira vez a mesma elétrica e já estava em Campinas havia tempo, pois seu irmão mais velho fora o primeiro deles a ir estudar na Unicamp.

Subiram as escadas que levavam a uma espécie de átrio onde estavam dispostos os painéis com os nomes dos aprovados. Ricardo estava obviamente um tanto nervoso, mas confiante; já Telo estava extremamente ansioso, aquela era a primeira vez que consegia passar para a segunda fase, e apostava que seria aquela sua vez. Jorge tinha pronto o vidro de tinta guache para aplicar-lhes o trote. E uma tesoura, uma vez que Ricardo prometera perder o cabelo comprido ali mesmo se aprovado.

Deixar o cabelo crescer era pra ele na verdade uma verdadeira obsessão, uma obrigação de metaleiro; mas a verdade é que seu tipo de cabelo nunca foi apropriado para isso. Mas, enfim, pressão dos pares como diz a expressão inglesa: seu professor de bateria e os membros de sua banda, todos usavam cabelo comprido, bem como o irmão do vocalista, com quem ele aprontou tantas, como subir o Pico dos Dois Olhos e fumar todos. Aliás fora com essas "más companhias" que Ricardo tinha começado a fumar maconha. Muitos anos depois ele formularia a teoria de que fumara (e fumara um bocado, como ficará claro) para fugir da pecha de certinho, de "nerd". Sempre fora um aluno destacado, ainda que nunca lhe tenha faltado uma dose de indisciplina: era insubmisso e um tanto voluntarioso. A timidez sempre foi um traço seu, e a primeira namorada que teve foi a que já mencionamos; se ele não sentia nada especial por ela quando começaram o relacionamento, ao fim de pouco tempo Ricardo estava profundamente enamorado de Karina.

_ Passei! Aaaaah! Passei! - Ricardo gritou com os braços erguidos.

Seu irmão lhe deu um abraço, disse "parabéns, cara" e tirou-lhe uma mecha de cabelo crespo; logo em seguida marcou-lhe a face esquerda com dois dedos que mergulhara na guache azul. Enquanto isso, Telo insistia, mas não encontrava seu nome.

_ É, não rolou - disse, com os olhos rasos, que tentava disfarçar.

_ Que merda cara. Tem a segunda chamada... - tentou consolá-lo o amigo, recebendo em seguida os parabéns e agradecendo.

Jorge prosseguiu na tarefa de besuntar a cara do irmão, e Telo assumiu a máquina fotográfica: daquelas que usavam filme e só tinham um visor ótico minúsculo. Ricardo tirou a camiseta e Jorge sacou uma máquina de barbear, barbeou-lhe o peito e a barriga, e pintou ENG. ELÉ-TRICA. Surgiu então a ideia de colar o cabelo cortado ao rosto coberto de tinta, transformando-lhe num monstro. Tudo divertidíssimo para ele, um legítimo ritual de passagem. Era um aluno da Unicamp. Um bixo 98.

_ Em qual posição você passou? - perguntou o irmão.
_ Bom, dizia 11 lá.
_ 11 é o curso, bixo burro!

Quando meses depois Ricardo recebeu o espelho de desempenho, descobriu que passara em terceiro lugar. Até teria performance compatível no primeiro semestre, depois nunca mais. Mas isso seria adiantar o carro na frente dos bois. Foram todos para o Pantanal, boteco célebre pela cerveja gelada. Ricardo chamava atenção por onde passava, obviamente. Aproveitaram que havia um orelhão em frente e ligaram para os pais. Brindaram; a tradição na época era brindar com a garrafa e passar o copo por trás da nuca, uma simpatia para eliminar para além de qualquer dúvida a maldição: beber sem brindar, um ano sem trepar.

_ E aí, cara, qual é sua ideia agora? - Ricardo perguntou ao amigo.
_ Ainda vai sair o resultado de Itajubá; acho que rola. Se dane Unicamp.
_ E você, Rica, vai deixar a namorada?
_ Porra, não, né? Eu sou louco por ela. Segue à distância, fazer o quê?
_ Olha o... - e fez um sinal com o indicador e o mínimo esticados e médio e anular recolhidos.
_ É sempre um risco. Mas ela não faria isso.

Beberam umas cinco antes de almoçar. Pra ficar pensando melhor, como diria o Chico Science. Jorge ficou fazendo terrorismo sobre Cálculo I e outras matérias. Telo foi melhorando seu ânimo e lá pela terceira já não ligava mesmo. Ricardo de repente quis ligar para Karina: não estava em casa. Entraram no carro e pegaram o Tapetão rumo à república, ao som do Fly by Night do Rush.