quarta-feira, 31 de agosto de 2011

A Passagem III

Ninguém mergulha duas vezes na mesma merda. Ou não deveria. Jaime tinha a desculpa de um livro que precisava comprar (e era fato que as demais livrarias eram um lixo), mas é bem verdade que queria ver a putinha ingrata. Ainda mais trinta quilos mais magro. Claro que ela não deu a mínima. Trocaram comentários sobre música, lançamentos: gostou do Yes?, shows que aconteceriam: ambos iriam ver o Pearl Jam no Rio (conteve-se para não repetir que começou a ouvi-los quando ela ainda não falava, o que dissera à literária); um pouco sobre literatura, preciso ler Faulkner; gostou do Woody Allen? (ele a convidara e ela recusou); ele falou sobre a viagem, das livrarias de Buenos Aires (não, o Ateneo é só um shopping center), sentiu uma angústia de não poder contar nada quando falou em Borges; comentou (ela só respondia, enquanto arrumava os livros, muito profissionalmente) do festival de teatro que acontecia, que vira uma montagem de Ricardo III (ele se declarara apaixonado no dia em que a conheceu; pela peça, claro); ela disse que talvez fosse; nem pense em convidá-la, você sabe onde isso acaba; tem usado meu presente?; ah, claro!; sabe que eu estou com um coleção de King Crimson formidável, e passou a enumerá-los; ela estava graciosa como de costume, uma saia azul e sapatos da mesma cor laranja da blusa; era esguia e tinha cabelos bem negros, uns olhinhos muito vivos... nymph in the prime of youth, como dizia um dos versos que ela desprezou. Olhou-a nos olhos, suspirou entre inconformado e envergonhado com sua própria estupidez, e despediu-se, saboreando a pele macia de sua bochecha. Sabia o que o esperava: o preço de quinze minutos agradáveis ao lado dela eram dois dias chorando. Ela nem falou nada. Putinha.

Faltava uma semana para a abertura da passagem. Telefonou a Jorge: ele era apenas um pouco mais velho, e solteiro, passou-lhe pela cabeça convidá-lo para sair à noite, queria perseguir umas minas agora que estava magro. E com a molecadinha da UnB estava claro que não dava pra fazer nada. Jorge topou e combinaram um desses pubs com música ao vivo, numa sexta. Jaime achava bom ter alguém com quem conversar sobre a passagem, mas ao mesmo tempo se perguntava que consequências a revelação poderia vir a ter; por enquanto, iam se tornando bons amigos. Você já sabe o que vai pedir? - disse ainda na fila, depois de alguma conversa miúda. Talvez seja melhor a gente não falar sobre isso... E como não? Acha que é pelos teus olhos verdes que estou aqui? Jorge, olha... eu estou vendo essa história se complicar... Mas agora é tarde, meu caro. Além do mais, eu te ajudei, não? É mais do que justo que você ao menos compartilhe comigo. E fê-lo descrever a luminescência fosforescente do corredor, o anão e suas cartas mágicas, e pareceu especialmente interessado no botão que abria a passagem, por detrás de um azulejo quebrado. Porra, Guns 'n' Roses, faz vinte anos que eu ouvia isso; essa não pode faltar nunca. Meu, desencana disso de idade, é só uma crise dos trinta. A dos trinta eu já vivi, esta é a dos trinta e um. De qualquer forma, olha essa molecada de vinte e poucos; você quer ser assim? É, tem razão; eu só preciso conhecer gente da minha idade, mas nesta cidade...  Enquanto falavam, Jaime passeava os olhos pelo ambiente que começava a se encher. Tinha uma moreninha de cabelo curto, que não era exatamente gata, mas parecia estar devolvendo seus olhares. Aqui tem umas cervejas importadas bem legais. Jorge não conhecia o lugar; na verdade, não era muito de sair. Jaime encontrara alguém ainda mais misantropo. De repente trombaram a moreninha mais uma vez, e mais uma vez ela ficou olhando. Jorge voltou à carga: vai pedir o que a Borges? A paz mundial? Jaime olhou espantado; só agora percebia como era egoísta. Nã... já até imagino o que ele diria, que o painel não cuida disso, pibe. Além do mais, não estou ligando muito pros problemas do mundo. Você também não tem namorada, né Jorge? Não... eu saí um tempo com uma frequentadora do clube. A gente olhava as estrelas juntos. Que romântico. Pois é; ela não era feia demais, e a gente tinha um interesse em comum. Um dia ela disse que era antiético, balela, eu sei que ela se encantou de um frangote que começou a frequentar o clube, outro dia eu vi os dois, vendo o eclipse. São todas umas putinhas, meu amigo. Só muda o epíteto. Jorge disse que ia ao banheiro. Nosso herói foi até o balcão e pediu uma Amsterdam: uma paulada com 7% de álcool. A morena estava bem ali, junto de sua amiga loira de ar antipático. Jaime criou coragem, aproximou-se e arriscou um singelo "olá". A putinha o olhou de cima a baixo com um ar de desprezo que o enfureceu. Tocava Day Tripper, e ele riu a pesar de si mesmo: she's a big teaser. Jorge não entendeu quando voltou e o amigo já queria ir embora. Nunca tive saco para este tipo de coisa, cara. Não suporto ter que mendigar a atenção dessas... Putinhas. Exato. Mas isso vai mudar: eu vou pedir ao Borges que as mulheres tenham tesão em cultura e não em músculos. Não é o que você queria saber? Cara, você é maluco. Olha, a música tá boa, vamos ficar vai, relaxa. Ficaram. No intervalo deram uma circulada e Jorge encontrou uma colega de faculdade, e ela estava com duas amigas; uma delas assaz interessante. Chamava-se Bárbara, tinha cabelos ruivos, curtos, usava óculos enormes que lhe davam ara de intelectual. Também era funcionária pública, quem não era naquela cidade!, e tinha feito Letras e Direito; Jaime puxou assunto sobre literatura e ela mostrou saber mais que ele - ou que a putinha da livraria -; ele se exibia com o pouco que sabia de qualquer coisa, ela sorria com ar de interesse, nos dois sentidos. Aliás, interessante palavra, interesse: ele não sabia nada de filosofia, mas lembrou-se do que aprendera em uma aula, e achou por bem tentar impressioná-la: não concordo com Kant quando diz que um julgamento estético deve ser desprovido de interesse; eu não poderia te achar bela, e isso não faz nenhum sentido. Ela lhe sorriu por detrás do canudinho de seu drink, com toda sua amável faceirice. Ele não conseguiu juntar coragem para beijá-la naquele momento e se sentiu constrangido. Quando a banda voltou tocando Led Zeppelin a conversa partiu por esse caminho (ela só conhecia aquele sucesso), ele contou de quando tocava bateria nas festinhas da (primeira) faculdade, ela achava tudo o máximo. Trocaram então um olhar que não dava margem a dúvidas, e ele enfim se aproximou e experimentou aqueles lábios convidativos. Foi uma noite agradável, afinal, um grande alívio na verdade. Trocaram telefones, ele ficou ainda mais feliz quando a banda fechou com The Who, e ele deixou a Jorge e então a ela em casa.

Idiota como era, e idiota carente, como era pior, ficava alimentando quimeras, e por mais que tentasse se convencer de que, ora, vocês ficaram ontem, amanhã ela fica com outro e bola pra frente... a verdade é que fermentava ali mais uma das suas. O que ele precisava mesmo é de algo significativo, e aquele aperitivo só lhe aumentava o apetite. Se segurou no sábado, mandou mensagem no domingo. Para sua surpresa ela respondeu de modo bastante animador; Na terça ligou e conversaram bastante, ficaram de se ver no fim de semana. Parecia que os deuses galhofeiros davam uma trégua ao nosso querido psicopata. Por isso mesmo, quando chegou a quinta e ele estacionou o carro na 209 - já eram dez e meia, tinha tido prova - e caminhou até a passagem, não era uma panela de fel em ebulição.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

A Passagem II

Acordou tentando sacudir a sensação de incredulidade. Um pouco como uma ressaca, que – não sendo tão intensa a bebedeira a ponto de apagar toda a memória – nos faz batalhar um tempo com um vago receio, que pode se converter em certeza, de ter feito merda. Não era o caso, não tinha bebido demais; tinha se emputecido ainda na metade da festa. Além do mais, as lembranças eram muito nítidas; e, por mais que tivessem um sabor onírico, Jaime por fim se levantou convencido de que visitara Borges embaixo do eixão norte. Mas, para ter plena certeza, só tinha um caminho: experimentar se a alteração de realidade operada no improvável painel de controles estava valendo.



Buscou o carro na oficina e foi trabalhar. Tinha todo o tempo aquele sorrisinho besta de quem sabe um segredo. À noite, não foi pra UnB: passou no supermercado e se armou para a guerra. Picanha, quatro peças; um bife de chorizo; frango, sobrecoxas e tulipinha da asa; linguiça toscana, dois quilos; pão de alho, dez pacotes; queijo de coalho, dez pacotes; carvão de dez quilos, álcool, pão... Assaltou-lhe uma dúvida: cerveja estaria metonimicamente incluída no conceito de churrasco? Que se foda: quatro fardinhos de doze latas.



A verdade é que não era a primeira vez que fazia churrasco solo. Adorava o poder que tinha de colocar as músicas mais improváveis – de Tom Waits a Stockhausen – para um churrasco. Tivera más experiências bastantes com situações em que se tentava agradar às visitas, e não conseguia ouvir sequer um Pink Floyd. Acendeu o fogo, colocou um Vandermark 5, e pôs uma toscana para começar; esquenta o fogo, dizem. Enquanto isso foi dar uma olhada no e-mail. Não tinha nada interessante, mas viu que a putinha literária estava on-line. Era uma jovenzinha encantadora: linda, charmosa e inteligente, uma coleguinha da UnB. Tinham conversado algumas vezes, e iniciaram o contato eletrônico ironicamente por conta de um churrasco para o qual Jaime a convidara (e ela não fora); agora ele tinha sempre que se segurar para não incomodá-la o tempo todo. Afinal, ela tinha namorado (sim, outra); e a verdade no fim é que ele conseguira dessa vez não pular de cabeça (mas não queria estragar alguma chance futura). Vai demorar, pensou, olhando a linguiça. Arriscou: e aê!/(pausa prolongada) ei!/(pensou um pouco) não teve aula?/ah, tenho que terminar uns lances do projeto. e vc? /biquei. vou assar uma carne :)/seu vagabundo =)/ cola aí/ não posso/ que moça dedicada... estou atrapalhando/ não, eu tinha feito uma pausa/ vc tem trinta projetos ao mesmo tempo!/ são três :P (pausa) viu? vc tá sacando tudo de sintaxe, que eu sei/ imagina!/ eu quero que vc me ajude com os estudos dirigidos/ ué, no que eu possa ajudar, avec plaisir, mademoiselle./:P estou estudando italiano/ ah, ciao bella! :)/ :) é, acho que vou fazer um lanche.../ok, ragazza. che vediamo doppo./si :)



A linguiça estava indo devagar, colocou um pão de alho. Largou o computador, estendeu a rede e pegou um livro sobre a história do jazz para ler. Mas mal leu uma página se pôs a ruminar a experiência da véspera. Teve o impulso de voltar à passagem, mas se lembrou da conjunção estelar necessária. Será que se lembrava do nome das estrelas? Tinha uma tal galáxia Andrômeda... Centauro! Putz... devia ter anotado. Voltou ao micro e pesquisou. Descobriu um clube de astronomia em Brasília; anotou o endereço. Foi dormir meia peça de picanha mais tarde, e suavemente inebriado.



No outro dia o despertador tocou cedo. Escovando os dentes pensou: e se a passagem se abrir de novo, vou pedir o quê? Ou ainda: se eu for ao clube de astronomia, vou perguntar o quê? Deitou-se mais um pouco. Eu preciso primeiro verificar o primeiro pedido; mas é bom saber quando se abre de novo o portal. Caramba, eu posso alterar a realidade a meu bel prazer, é uma responsabilidade enorme. Será que essa é só mais uma oportunidade que eu vou estragar? Sacudiu a cabeça e se levantou. Esquentou no microondas os restos do churrasco (devo estar infringindo algum código de ética).



Daquele dia em diante, sempre assava uma carne à noite; matava a segunda aula, ou ficava até de madrugada. No almoço, ia a um desses restaurantes com churrasco e se empanturrava de carne. Pesquisou na internet até descobrir as estrelas que Borges indicara. Visitou o clube de astronomia e consultou o mapa celeste do dia mais inacreditável de sua vida. O presidente do clube, que lhe recebeu muito bem, se chamava Jorge (não conteve uma gargalhada). Mostrou como as quatro estrelas formavam duas paralelas e indagou incisivamente como saber quando aquilo se repetiria. Jorge franziu o cenho, coçou o topo da cabeça e respondeu que era um belo problema, os aficcionados adorariam trabalhar naquilo. Enquanto isso, as pessoas começaram a comentar como estava mais magro; pesou-se: 95. Muito churrasco pela frente. De fato, a mágica não valia só para ele, e as revistas começaram a recomendar a dieta da carne, os médicos se apressaram a explicar que tal aminoácido disparava tal processo metabólico. A carne começou a aumentar.



Nesse período também se deu algo digno de relatar. A putinha literária queria ajuda em sintaxe, como já sabemos; ele repetia a si mesmo "não é flerte, comporte-se". Marcaram e ela não apareceu, mas ligou mais tarde, justo quando ele apresentava seu seminário sobre os Lusíadas; ele retornou depois. Conversa vai, conversa vem, foram parar no Café com Vinil. Apenas amigos, comporte-se, seu psicopata. Mas a esperança, essa fênix dos infernos... Você está mais magro. Obrigado. E você linda como sempre. Sorrisos constrangidos, cardápios, eu quero uma cerveja, outra pra mim; ele pede um Ray Charles. Passaram a rememorar os tempos de escola, os dela tão recentes, os dele com tantas cabeçadas intervenientes; ele narrou um pouco dessas cabeçadas. Ela disse que optara por letras porque sempre escreveu bem, o que ele não repetiu por falsa modéstia; ambos haviam considerado jornalismo e desistido pelos mesmo motivos. Falaram mal de alguns professores, um pouco da incerteza do futuro e de seus incipientes projetos. Ah, é claro, ela explicou o teor das pesquisas em que estava envolvida. A dado momento ela recebeu o telefonema do namorado. Ele aproveitou para voltar à realidade. Essa putinha só quer me envolver e me fuder no fim. Depois de algum tempo e outros assuntos, chega o tal do namorado. Um brutamontes, musculoso e com ar apatetado. Ele foi político o resto da noite, mas não teve o mesmo sabor o Miles Davis que pediu (nem o filé nem o Bitches Brew).



Musculoso. Sempre achou tão patético isso. Mas as minas curtem. Já sei o que vou pedir ao Borges quando voltar lá. Voltou a visitar o clube; Jorge era todo amabilidades: apresentamos sua questão em fóruns internacionais, gente do mundo inteiro se envolveu. Foi um hindu quem matou a charada. Mas... Jaime, você ainda não me explicou por que é tão importante determinar essa conjunção. Jorge, se eu te contasse, você diria que estou louco. Talvez esteja, talvez sempre tenha sido. É que... Não me diga que é astrologia. Não, não é. Tudo bem, vá lá. Mas nem preciso dizer que é um segredo entre nós. Se você sair contando a toda comunidade, nem sei a confusão que pode dar. E contou. Jorge ficou boquiaberto, sem terminar de acreditar. Levou Jaime até um computador e mostrou a mensagem: faltava pouco mais de um mês para que se abrisse a passagem.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

A Passagem I

Jaime se emputeceu com a festa a dado momento. Bando de adolescentes tardios bem nutridos advindos de famílias de classe média alta se entupindo de maconha e birita e falando “véi” a cada três palavras. Ele era um pouco mais velho, já vivera aquele ciclo uma vez e agora, na segunda graduação, sentia-se um tanto ridículo perseguindo gatinhas de vinte anos. Até se esforçava para se enturmar, mas sempre chegava uma hora em que sua misantropia falava mais alto. Esta era uma delas.




Tinha ido à UnB de carona, seu carro estava quebrado; mas não queria pedir a seu amigo – vá lá, colega – para ir embora e lhe estragar a festa. E mesmo que tivesse crédito no celular provavelmente não ligaria pra pedir um táxi. Ia voltar andando; fazia isso quando estava puto, pra poder ficar maldizendo a sorte. Detalhe: morava na 912. Para quem não conhece Brasília, até o que é perto é longe para ir andando. Era chão pra burro.



Saiu do Teatro de Arena e contornou o Minhocão, que estava fechado, cruzou o estacionamento; na L3 parou no posto e comprou cigarros. Seguiu até a L2, à medida em que repassava todas suas desventuras amorosas recentes. Nem se lhes podia chamar assim, provavelmente, pois eram menos relacionamentos malogrados que quimeras que engendrava dentro da própria cabeça e que tinham o fim previsível. A mocinha da livraria, por exemplo. Dezenove anos. Você, um homem feito... feito de idiota! Era um dos grandes momentos de seu solipsismo. Ninguém vai rir, lembrava do conto do Kundera. Risíveis Amores. Poemas... chocolates... lembrava-se dos primeiros diálogos, em que descobria que aquela criatura que já lhe encantara pela beleza tinha um gosto musical e literário absurdamente compatível com o dele; lembrava-se do dia em que lhe deu uma pick-up de presente: sim, também tinham em comum o gosto pelo vinil. Putinha ingrata. Mas também você queria que ela ficasse obrigada a gostar de você por gratidão? A culpa é toda sua. O cheiro não vem do ralo; não é você que usa o banheiro? O cheiro do ralo vem de você. Ah, vai lá pede desculpas então. Por se apaixonar. Quando atravessava a 407, era a vez da loirinha, que veio a descobrir depois de um tempo ser lésbica (meno male, pensava). A professora veio a lhe lembrar de quando ela defendeu as experiências dos nazistas. Putinha nazi. Bem, era só um rostinho bonito e não tinha nada que ver comigo. Estava superada, mas na época foi uma paixão arrebatadora. Por conta de um olhar que lhe pareceu interesse, no primeiro dia de aula. Bem, tem aquela famosa linha do Bardo, que na verdade é de Marlowe, sobre amor à primeira vista. Eu sou o único idiota no mundo que leva isso a sério. Claro que estava suscetível dado o que viera antes (e já alcançava as 200): tinha pirado em resgatar um relacionamento antigo – que mal se configurara namoro – com a peculiar circunstância de que ela estava em outro estado, e casada. Claro que não serviu de lição, pois quando mal escapara da putinha ingrata pirou em outra mina com namorado. Fora outras de menor importância.



Estava chorando a essa altura. Porra, eu sei que eu sou um cara interessante. Tá bom, meio excêntrico, difícil achar alguém que compartilhe meu universo (como a putinha ingrata, por exemplo), mas porra... Será que me acham arrogante? Eu sei que eu sou bonito também; eu vejo como atraio olhares... olho verde... posso estar gordo, mas caralho... Lembrou do colega de trabalho que era um paquiderme e tinha uma esposa linda – aliás detestava que levassem esposa e filhos para exibir. Estava atravessando o eixinho. Que será que eu estou fazendo ou deixando de fazer que não me permite conseguir uma mina?



Ofereceu-se-lhe então uma alternativa: atravessar o eixão por cima, mais rápido mas um bocado perigoso (ainda havia bastante movimento), ou encarar as fétidas passagens subterrâneas. Provavelmente não foi por prudência, mas para punir a si mesmo que optou por passar por baixo. Era um corredor de uns três metros de largura, coberto de azulejos – vários faltando – cobertos de pixação; o odor era nauseabundo: de urina se estás com sorte, amiúde de merda mesmo. Era também perigoso, mas ele estava tão autocentrado que nem se preocuparia com um possível assaltante ou agressor.



Estava tentando analisar objetivamente sua condição. Ora, se estudava com gente muito mais jovem – e daí provavelmente não sairia nada – e trabalhava num ambiente exclusivamente masculino, estava bem servido. Não gostava de dançar. Preciso frequentar um lugar com gente da minha idade... mas também esta cidade, vai tomar no cu!



Foi então que teve a impressão de ver algo se mover. O túnel não tinha iluminação, a pouca luz que entrava pelas extremidades mal permitia evitar uma mina terrestre de excrementos. Em seguida viu com mais clareza: de fato, o que parecia ser um anão vinha em sua direção e voltou correndo assustado quando percebeu sua presença. Correu atrás do vulto e viu quando ele retirou um pedaço de um azulejo que estava quebrado e pareceu acionar um comando e de repente uma seção da parede girou, como nos filmes de aventura, e o anão, ou o que fosse, entrou pela passagem.



Caralho, faz tanto tempo que eu tomei ácido! Ainda que soubesse que um flashback, ou mesmo uma trip propriamente dita, não podia ser tão vívido. Tudo bem, estava escuro, a ação mais se lhe insinuou do que foi vista propriamente, mas sabia que não era alucinação. Acendeu um cigarro e aproximou a chama do isqueiro da parede até achar o azulejo quebrado; retirou o pedaço solto e viu um pequeno botão metálico, que lhe lembrou os interfones de Buenos Aires (o que lhe lembrou a mina suíça em quem ele também pirara enquanto estava lá, a putinha dos olhos hipnóticos). É claro que não demorou em pressioná-lo. De um golpe, a o chão sob seus pés girou da mesma maneira e ele se viu um novo corredor, perpendicular ao anterior, com uma tênue luz fosforescente que não parecia vir de lugar algum. Jogou o cigarro no chão, pisou em cima e guardou o isqueiro.



Caminhou pelo que pareciam ser uns quinhentos metros, e não se via o fim do corredor, nem tampouco o começo ao se olhar para trás. Percebeu que o inusitado da situação lhe tirava a cabeça de seus infortúnios, e lhe parecia inverossímil que havia meia hora estava numa festa universitária (ainda que dissesse que a UnB não tinha festas universitárias de fato, um saudosismo besta mas com algum fundamento). Também não iria estar em casa dentro de mais meia hora. Não tinha ideia do que podia acontecer. Pronto, estou no meio de um conto fantástico. Parou um instante para descansar, e de repente sentiu a camiseta puxada por detrás. Era um homenzinho calvo e narigudo, com olhos enormes, com calça e colete bordô e camisa branca, e uma gravata borboleta de um vermelho vivo. Não te vi em algum filme do David Lynch? (ele se acreditava muito espirituoso). O anão tirou uma carta do bolso do colete e entregou a Jaime. Era um sete de paus. Quando voltou o olhar a ele, tinha um sorriso meigo nos lábios. Falou numa voz aguda e rouca, com forte sotaque: Agorra que senhorr entrrou... Querr conhecerr... Nosso escrritório? Olhou a carta e as figuras estavam se escorregando e caindo para fora da carta, que ficou toda branca, ao fim. Abaixou-se para pegá-las no chão, mas elas viraram borboletas, que saíram voando, e de repente desapareceram para dentro da parede à sua esquerda. Ele experimentou com o braço e verificou que ela era uma espécie de holograma, que se podia atravessar. Olhou de novo o homenzinho, que lhe fez uma gesto para que prosseguisse. Chefe muito feliz conhecerr você.



Entrou com confiança pela segunda passagem secreta da noite (terceira se contarmos a do eixão). Achou-se de frente a uma porta adornada, que abriu de pronto: conduzia a uma linda biblioteca, muito britânica, com estantes de madeira e livros encadernados em couro. Havia duas poltronas e uma mesinha de centro, com um cinzeiro; mais no fundo havia uma escrivaninha, com um daquelas luminárias verdes com armação dourada. Ao lado da escrivaninha havia outra porta. O anão apareceu mais uma vez como que do nada, dirigiu-se à porta e a abriu. Mestre, disse, fazendo uma reverência. De lá de dentro saiu um senhor com ar fidalgo, impecavelmente vestido com um terno de um quadriculado tirado ao ocre, reforço nos cotovelos, um pulover de losangos, num tom um pouco mais claro, e um cachecol creme. Era um pouco obeso, sem perder a elegância, calvo mas com uns fios esparsos no centro da cabeça, impecavelmente penteados para trás. Usava, por fim, uma bengala de madeira escura, com um anel dourado. Tinha um andar um tanto afetado, e dirigiu-se até Jaime olhando-o de cima. Você teve muita audácia, pibe. Tinha um leve sotaque portenho. Putz, pensou Jaime – e disparou-lhe ainda mais o coração – estou frente a frente com... Borges!



O senhor indicou-lhe uma poltrona e tomou a outra. Sentava-se apoiando o queixo na bengala. O anão fez mais uma de suas aparições, desta vez com uma caixa de charutos. Jaime aceitou um, mas não tinha prática. Tragou e pôs-se a tossir feito louco. Borges riu mansamente. E muita sorte também! Não achas? Bem, de encontrar Borges em pessoa, sou muito afortunado mesmo. Mas não faço ideia do que pode estar acontecendo. Que tipo de cogumelo eu devo ter tomado. Calmate, pibe. Jaime desistiu do charuto e acendeu um cigarro. Você tem razão quanto a minha identidade. Se é que se pode falar em identidade aqui onde estamos. O anãozinho deu uma gargalhada estridente e anasalada, pavorosa. Então me explique, por favor, senhor, sou todo ouvidos. Borges rudemente ignorou o pedido e lançou-se a uma digressão. Uma identidade só pode existir quando essa coisa ou entidade é identificada... por si mesma, ou por outrem, no caso em que passa a ter uma conjunto de características que as possa distinguir de outra coisa ou entidade. Nesse sentido, você pôde perceber em mim um conjunto de característica que me distinguiu como Borges. Mas o que você não pode perceber, pibe, é que esta é só uma forma exterior que eu preciso assumir, ou digamos que você me faz assumir, para que possamos charlar e fumar este charuto, ou este cigarro. Nesse momento lhe ocorreu que esta biblioteca fantástica tinha algum sistema de ventilação artificial igualmente metafísico, e a fumaça não se acumulava. Estava fascinado de poder ouvir razonar um dos seus autores prediletos. Resolveu desencanar de entender qualquer coisa e embarcar na viagem. Então, você não teria uma identidade, não seria mesmo uma entidade, mas... o cerne do que é, antes que se lhe atribuam quaisquer características? Desculpe o senhor a figura, mas posso arriscar dizer então que o senhor é Deus, (Borges deu uma curta risada entediada) e poderia aparecer em qualquer forma dependendo de quem achasse esta passagem – entusiasmava-se. Calmate, pibe. Não sou Deus, apesar de que, de certa maneira posso dizer que faço o trabalho dele. Deus se cansou há muito tempo de cuidar do mundo, pibe. Está aposentado. Teve a fase de palavras cruzadas, imagine o trabalho de confeccionar um bom passatempo para alguém onisciente. Bem, ultimamente, passa o dia no Facebook (Jaime deu uma sonora gargalhada); imagine o que é ter sete bilhões de amigos. Mas você não acredita em Deus, não é Jaime? Bem, depois de hoje, nem na realidade sei se acredito. E que é a realidade, pibe? Que é a realidade? Senhor, eu sempre gostei em seus contos como a realidade fica em suspenso; como no Imortal, pode ser que o relato todo seja uma fraude, e essa hipótese fica apenas insinuada por uma impressão de um erudito, mas também pode-se acreditar... não importa enfim acreditar; enfim, a realidade é construída na percepção. Muito bom, pibe! Estás chegando bem perto. Deixou o charuto um pouco de lado. Jaime (pronunciava Chaime), você já teve vontade de mudar a realidade? Tá brincando? Só o tempo todo.



Levantou-se com toda sua fleuma; apareceu mais uma vez o anão, que caminhou até a porta ao lado da escrivaninha e a abriu. Por aqui, pibe. Passaram pelo umbral para um ambiente totalmente diferente: do conforto amadeirado e quente da biblioteca para o frio metálico e asséptico de uma saleta banhada em luz branca, onde se podia ver uma poltrona de escritório e, em frente a ela, uma parede coberta por uma imensa máquina, um painel de controles com uma cara de anos sessenta, uma seção de potenciômetros, uma de disjuntores, uma com slots conectados por cabos – como uma central telefônica antiga – além de rolos de fita magnética girando. Jaime se lembrou do laboratório no Frankenstein do Mel Brooks e riu internamente. Olhou para Borges inquisidoramente. Eu disse que tinhas sorte, pibe. Aqui fica uma central de controle do universo. Uma delas. Foi a solução encontrada por Deus para poder se aposentar. Bem, hoje em dia, tudo é terceirizado, mesmo... Pois que... Por que me olha assim? E o senhor vai permitir a mim que mude a realidade como queira? Ora, pibe, você achou a passagem e chegou até aqui, e ademais... os astros lhe são um tanto injustos.... Não crês nos astros, eu sei.... E, por fim, seria muito chato não lhe conceder um pedido e ver o que acontece... Bom, essa é fácil então, eu quero ser um sucesso com as mulheres. Não é assim, pibe; eu não sou o gênio da lâmpada. Essas questões de personalidade e afetividade estão em uma outra central, escondida em qualquer outro lugar do planeta, e fica a cargo do meu colega William, você o conhece. Shakespeare? Precisamente. Pois então, aqui o que me toca regular são os parâmetros gerais da realidade. Se você quiser que os carros sejam movidos a suco de laranja, eu posso fazer acontecer. Se quiser que... Já sei! Quero que churrasco emagreça. Hum... Interessante. Um momento. Sentou-se na poltrona e mudou uma conexão telefônica, girou dois potenciômetros, e acionou três disjuntores. O aparato fazia no processo uma série de ruídos de filmes de ficção científica. Girou na poltrona para encarar a Jaime, que – atônito – se perguntava se aquilo tudo não se passava apenas na sua cabeça (como toda sua vida, aliás). Feito, pibe. A partir de agora churrasco queima calorias. Não crês? Olha, podes... eu gostei de você, pibe; voltemos à biblioteca. Dessa vez, prescindiram do anãozinho. Borges lhe indicou uma cadeira de frente à escrivaninha e foi até uma seção da estante de onde trouxe um cilindro. Tirou de dentro uma folha enrolada, abriu-a sobre a escrivaninha e posicionou a luminária para iluminá-la. Era uma mapa celeste. Mira, pibe, esta aqui é a Proxima Centauri, da constelação de Centauro, e a marcou em vermelho; esta outra é a Sirrah, de Andrômeda, marcou-a e uniu as duas; agora aqui tens a Mehrak, da Ursa Maior e por fim a Beta-Ari de Aries, e uniu também estas duas. Vês que formam duas retas paralelas? Pois só nessas ocasiões é que a passagem está aberta. Assim podes voltar. Não disse que estavas com sorte? Pois é melhor que vás, pibe. Amanhã tens que trabalhar, e eu ainda tenho que ler um pouco. Sentiu uma enorme curiosidade de saber o que lia Borges, mas por alguma razão se furtou a fazê-lo. Sentia-se mesmo cansado. Percebeu que o homenzinho surgira e lhe estendia outra carta. Tomou-a: era uma dama de copas. Lentamente a figura foi escapando da carta e ganhando vida. De repente estava bailando uma valsa com a dama de copas, que tinha um perfume muito agradável; ouvia também a música nitidamente em sua cabeça e foi sendo levado por aquelas sensações até um torpor, do qual só acordou na calçada em frente a seu bloco. Bacana, pensou. Me pouparam a parte final da caminhada.