segunda-feira, 1 de agosto de 2011

A Passagem I

Jaime se emputeceu com a festa a dado momento. Bando de adolescentes tardios bem nutridos advindos de famílias de classe média alta se entupindo de maconha e birita e falando “véi” a cada três palavras. Ele era um pouco mais velho, já vivera aquele ciclo uma vez e agora, na segunda graduação, sentia-se um tanto ridículo perseguindo gatinhas de vinte anos. Até se esforçava para se enturmar, mas sempre chegava uma hora em que sua misantropia falava mais alto. Esta era uma delas.




Tinha ido à UnB de carona, seu carro estava quebrado; mas não queria pedir a seu amigo – vá lá, colega – para ir embora e lhe estragar a festa. E mesmo que tivesse crédito no celular provavelmente não ligaria pra pedir um táxi. Ia voltar andando; fazia isso quando estava puto, pra poder ficar maldizendo a sorte. Detalhe: morava na 912. Para quem não conhece Brasília, até o que é perto é longe para ir andando. Era chão pra burro.



Saiu do Teatro de Arena e contornou o Minhocão, que estava fechado, cruzou o estacionamento; na L3 parou no posto e comprou cigarros. Seguiu até a L2, à medida em que repassava todas suas desventuras amorosas recentes. Nem se lhes podia chamar assim, provavelmente, pois eram menos relacionamentos malogrados que quimeras que engendrava dentro da própria cabeça e que tinham o fim previsível. A mocinha da livraria, por exemplo. Dezenove anos. Você, um homem feito... feito de idiota! Era um dos grandes momentos de seu solipsismo. Ninguém vai rir, lembrava do conto do Kundera. Risíveis Amores. Poemas... chocolates... lembrava-se dos primeiros diálogos, em que descobria que aquela criatura que já lhe encantara pela beleza tinha um gosto musical e literário absurdamente compatível com o dele; lembrava-se do dia em que lhe deu uma pick-up de presente: sim, também tinham em comum o gosto pelo vinil. Putinha ingrata. Mas também você queria que ela ficasse obrigada a gostar de você por gratidão? A culpa é toda sua. O cheiro não vem do ralo; não é você que usa o banheiro? O cheiro do ralo vem de você. Ah, vai lá pede desculpas então. Por se apaixonar. Quando atravessava a 407, era a vez da loirinha, que veio a descobrir depois de um tempo ser lésbica (meno male, pensava). A professora veio a lhe lembrar de quando ela defendeu as experiências dos nazistas. Putinha nazi. Bem, era só um rostinho bonito e não tinha nada que ver comigo. Estava superada, mas na época foi uma paixão arrebatadora. Por conta de um olhar que lhe pareceu interesse, no primeiro dia de aula. Bem, tem aquela famosa linha do Bardo, que na verdade é de Marlowe, sobre amor à primeira vista. Eu sou o único idiota no mundo que leva isso a sério. Claro que estava suscetível dado o que viera antes (e já alcançava as 200): tinha pirado em resgatar um relacionamento antigo – que mal se configurara namoro – com a peculiar circunstância de que ela estava em outro estado, e casada. Claro que não serviu de lição, pois quando mal escapara da putinha ingrata pirou em outra mina com namorado. Fora outras de menor importância.



Estava chorando a essa altura. Porra, eu sei que eu sou um cara interessante. Tá bom, meio excêntrico, difícil achar alguém que compartilhe meu universo (como a putinha ingrata, por exemplo), mas porra... Será que me acham arrogante? Eu sei que eu sou bonito também; eu vejo como atraio olhares... olho verde... posso estar gordo, mas caralho... Lembrou do colega de trabalho que era um paquiderme e tinha uma esposa linda – aliás detestava que levassem esposa e filhos para exibir. Estava atravessando o eixinho. Que será que eu estou fazendo ou deixando de fazer que não me permite conseguir uma mina?



Ofereceu-se-lhe então uma alternativa: atravessar o eixão por cima, mais rápido mas um bocado perigoso (ainda havia bastante movimento), ou encarar as fétidas passagens subterrâneas. Provavelmente não foi por prudência, mas para punir a si mesmo que optou por passar por baixo. Era um corredor de uns três metros de largura, coberto de azulejos – vários faltando – cobertos de pixação; o odor era nauseabundo: de urina se estás com sorte, amiúde de merda mesmo. Era também perigoso, mas ele estava tão autocentrado que nem se preocuparia com um possível assaltante ou agressor.



Estava tentando analisar objetivamente sua condição. Ora, se estudava com gente muito mais jovem – e daí provavelmente não sairia nada – e trabalhava num ambiente exclusivamente masculino, estava bem servido. Não gostava de dançar. Preciso frequentar um lugar com gente da minha idade... mas também esta cidade, vai tomar no cu!



Foi então que teve a impressão de ver algo se mover. O túnel não tinha iluminação, a pouca luz que entrava pelas extremidades mal permitia evitar uma mina terrestre de excrementos. Em seguida viu com mais clareza: de fato, o que parecia ser um anão vinha em sua direção e voltou correndo assustado quando percebeu sua presença. Correu atrás do vulto e viu quando ele retirou um pedaço de um azulejo que estava quebrado e pareceu acionar um comando e de repente uma seção da parede girou, como nos filmes de aventura, e o anão, ou o que fosse, entrou pela passagem.



Caralho, faz tanto tempo que eu tomei ácido! Ainda que soubesse que um flashback, ou mesmo uma trip propriamente dita, não podia ser tão vívido. Tudo bem, estava escuro, a ação mais se lhe insinuou do que foi vista propriamente, mas sabia que não era alucinação. Acendeu um cigarro e aproximou a chama do isqueiro da parede até achar o azulejo quebrado; retirou o pedaço solto e viu um pequeno botão metálico, que lhe lembrou os interfones de Buenos Aires (o que lhe lembrou a mina suíça em quem ele também pirara enquanto estava lá, a putinha dos olhos hipnóticos). É claro que não demorou em pressioná-lo. De um golpe, a o chão sob seus pés girou da mesma maneira e ele se viu um novo corredor, perpendicular ao anterior, com uma tênue luz fosforescente que não parecia vir de lugar algum. Jogou o cigarro no chão, pisou em cima e guardou o isqueiro.



Caminhou pelo que pareciam ser uns quinhentos metros, e não se via o fim do corredor, nem tampouco o começo ao se olhar para trás. Percebeu que o inusitado da situação lhe tirava a cabeça de seus infortúnios, e lhe parecia inverossímil que havia meia hora estava numa festa universitária (ainda que dissesse que a UnB não tinha festas universitárias de fato, um saudosismo besta mas com algum fundamento). Também não iria estar em casa dentro de mais meia hora. Não tinha ideia do que podia acontecer. Pronto, estou no meio de um conto fantástico. Parou um instante para descansar, e de repente sentiu a camiseta puxada por detrás. Era um homenzinho calvo e narigudo, com olhos enormes, com calça e colete bordô e camisa branca, e uma gravata borboleta de um vermelho vivo. Não te vi em algum filme do David Lynch? (ele se acreditava muito espirituoso). O anão tirou uma carta do bolso do colete e entregou a Jaime. Era um sete de paus. Quando voltou o olhar a ele, tinha um sorriso meigo nos lábios. Falou numa voz aguda e rouca, com forte sotaque: Agorra que senhorr entrrou... Querr conhecerr... Nosso escrritório? Olhou a carta e as figuras estavam se escorregando e caindo para fora da carta, que ficou toda branca, ao fim. Abaixou-se para pegá-las no chão, mas elas viraram borboletas, que saíram voando, e de repente desapareceram para dentro da parede à sua esquerda. Ele experimentou com o braço e verificou que ela era uma espécie de holograma, que se podia atravessar. Olhou de novo o homenzinho, que lhe fez uma gesto para que prosseguisse. Chefe muito feliz conhecerr você.



Entrou com confiança pela segunda passagem secreta da noite (terceira se contarmos a do eixão). Achou-se de frente a uma porta adornada, que abriu de pronto: conduzia a uma linda biblioteca, muito britânica, com estantes de madeira e livros encadernados em couro. Havia duas poltronas e uma mesinha de centro, com um cinzeiro; mais no fundo havia uma escrivaninha, com um daquelas luminárias verdes com armação dourada. Ao lado da escrivaninha havia outra porta. O anão apareceu mais uma vez como que do nada, dirigiu-se à porta e a abriu. Mestre, disse, fazendo uma reverência. De lá de dentro saiu um senhor com ar fidalgo, impecavelmente vestido com um terno de um quadriculado tirado ao ocre, reforço nos cotovelos, um pulover de losangos, num tom um pouco mais claro, e um cachecol creme. Era um pouco obeso, sem perder a elegância, calvo mas com uns fios esparsos no centro da cabeça, impecavelmente penteados para trás. Usava, por fim, uma bengala de madeira escura, com um anel dourado. Tinha um andar um tanto afetado, e dirigiu-se até Jaime olhando-o de cima. Você teve muita audácia, pibe. Tinha um leve sotaque portenho. Putz, pensou Jaime – e disparou-lhe ainda mais o coração – estou frente a frente com... Borges!



O senhor indicou-lhe uma poltrona e tomou a outra. Sentava-se apoiando o queixo na bengala. O anão fez mais uma de suas aparições, desta vez com uma caixa de charutos. Jaime aceitou um, mas não tinha prática. Tragou e pôs-se a tossir feito louco. Borges riu mansamente. E muita sorte também! Não achas? Bem, de encontrar Borges em pessoa, sou muito afortunado mesmo. Mas não faço ideia do que pode estar acontecendo. Que tipo de cogumelo eu devo ter tomado. Calmate, pibe. Jaime desistiu do charuto e acendeu um cigarro. Você tem razão quanto a minha identidade. Se é que se pode falar em identidade aqui onde estamos. O anãozinho deu uma gargalhada estridente e anasalada, pavorosa. Então me explique, por favor, senhor, sou todo ouvidos. Borges rudemente ignorou o pedido e lançou-se a uma digressão. Uma identidade só pode existir quando essa coisa ou entidade é identificada... por si mesma, ou por outrem, no caso em que passa a ter uma conjunto de características que as possa distinguir de outra coisa ou entidade. Nesse sentido, você pôde perceber em mim um conjunto de característica que me distinguiu como Borges. Mas o que você não pode perceber, pibe, é que esta é só uma forma exterior que eu preciso assumir, ou digamos que você me faz assumir, para que possamos charlar e fumar este charuto, ou este cigarro. Nesse momento lhe ocorreu que esta biblioteca fantástica tinha algum sistema de ventilação artificial igualmente metafísico, e a fumaça não se acumulava. Estava fascinado de poder ouvir razonar um dos seus autores prediletos. Resolveu desencanar de entender qualquer coisa e embarcar na viagem. Então, você não teria uma identidade, não seria mesmo uma entidade, mas... o cerne do que é, antes que se lhe atribuam quaisquer características? Desculpe o senhor a figura, mas posso arriscar dizer então que o senhor é Deus, (Borges deu uma curta risada entediada) e poderia aparecer em qualquer forma dependendo de quem achasse esta passagem – entusiasmava-se. Calmate, pibe. Não sou Deus, apesar de que, de certa maneira posso dizer que faço o trabalho dele. Deus se cansou há muito tempo de cuidar do mundo, pibe. Está aposentado. Teve a fase de palavras cruzadas, imagine o trabalho de confeccionar um bom passatempo para alguém onisciente. Bem, ultimamente, passa o dia no Facebook (Jaime deu uma sonora gargalhada); imagine o que é ter sete bilhões de amigos. Mas você não acredita em Deus, não é Jaime? Bem, depois de hoje, nem na realidade sei se acredito. E que é a realidade, pibe? Que é a realidade? Senhor, eu sempre gostei em seus contos como a realidade fica em suspenso; como no Imortal, pode ser que o relato todo seja uma fraude, e essa hipótese fica apenas insinuada por uma impressão de um erudito, mas também pode-se acreditar... não importa enfim acreditar; enfim, a realidade é construída na percepção. Muito bom, pibe! Estás chegando bem perto. Deixou o charuto um pouco de lado. Jaime (pronunciava Chaime), você já teve vontade de mudar a realidade? Tá brincando? Só o tempo todo.



Levantou-se com toda sua fleuma; apareceu mais uma vez o anão, que caminhou até a porta ao lado da escrivaninha e a abriu. Por aqui, pibe. Passaram pelo umbral para um ambiente totalmente diferente: do conforto amadeirado e quente da biblioteca para o frio metálico e asséptico de uma saleta banhada em luz branca, onde se podia ver uma poltrona de escritório e, em frente a ela, uma parede coberta por uma imensa máquina, um painel de controles com uma cara de anos sessenta, uma seção de potenciômetros, uma de disjuntores, uma com slots conectados por cabos – como uma central telefônica antiga – além de rolos de fita magnética girando. Jaime se lembrou do laboratório no Frankenstein do Mel Brooks e riu internamente. Olhou para Borges inquisidoramente. Eu disse que tinhas sorte, pibe. Aqui fica uma central de controle do universo. Uma delas. Foi a solução encontrada por Deus para poder se aposentar. Bem, hoje em dia, tudo é terceirizado, mesmo... Pois que... Por que me olha assim? E o senhor vai permitir a mim que mude a realidade como queira? Ora, pibe, você achou a passagem e chegou até aqui, e ademais... os astros lhe são um tanto injustos.... Não crês nos astros, eu sei.... E, por fim, seria muito chato não lhe conceder um pedido e ver o que acontece... Bom, essa é fácil então, eu quero ser um sucesso com as mulheres. Não é assim, pibe; eu não sou o gênio da lâmpada. Essas questões de personalidade e afetividade estão em uma outra central, escondida em qualquer outro lugar do planeta, e fica a cargo do meu colega William, você o conhece. Shakespeare? Precisamente. Pois então, aqui o que me toca regular são os parâmetros gerais da realidade. Se você quiser que os carros sejam movidos a suco de laranja, eu posso fazer acontecer. Se quiser que... Já sei! Quero que churrasco emagreça. Hum... Interessante. Um momento. Sentou-se na poltrona e mudou uma conexão telefônica, girou dois potenciômetros, e acionou três disjuntores. O aparato fazia no processo uma série de ruídos de filmes de ficção científica. Girou na poltrona para encarar a Jaime, que – atônito – se perguntava se aquilo tudo não se passava apenas na sua cabeça (como toda sua vida, aliás). Feito, pibe. A partir de agora churrasco queima calorias. Não crês? Olha, podes... eu gostei de você, pibe; voltemos à biblioteca. Dessa vez, prescindiram do anãozinho. Borges lhe indicou uma cadeira de frente à escrivaninha e foi até uma seção da estante de onde trouxe um cilindro. Tirou de dentro uma folha enrolada, abriu-a sobre a escrivaninha e posicionou a luminária para iluminá-la. Era uma mapa celeste. Mira, pibe, esta aqui é a Proxima Centauri, da constelação de Centauro, e a marcou em vermelho; esta outra é a Sirrah, de Andrômeda, marcou-a e uniu as duas; agora aqui tens a Mehrak, da Ursa Maior e por fim a Beta-Ari de Aries, e uniu também estas duas. Vês que formam duas retas paralelas? Pois só nessas ocasiões é que a passagem está aberta. Assim podes voltar. Não disse que estavas com sorte? Pois é melhor que vás, pibe. Amanhã tens que trabalhar, e eu ainda tenho que ler um pouco. Sentiu uma enorme curiosidade de saber o que lia Borges, mas por alguma razão se furtou a fazê-lo. Sentia-se mesmo cansado. Percebeu que o homenzinho surgira e lhe estendia outra carta. Tomou-a: era uma dama de copas. Lentamente a figura foi escapando da carta e ganhando vida. De repente estava bailando uma valsa com a dama de copas, que tinha um perfume muito agradável; ouvia também a música nitidamente em sua cabeça e foi sendo levado por aquelas sensações até um torpor, do qual só acordou na calçada em frente a seu bloco. Bacana, pensou. Me pouparam a parte final da caminhada.

Um comentário:

Diego Ceballos disse...

Leo, gostei da sacada. Pensei que fosse ficar nos solilóquios e lamúrias o conto todo, bela surpresa. Teve ainda uns lances de humor à la Woody Allen que agregaram pequenas descontinuidades, tornando a leitura mais envolvente. Tá acertando a mão, rapá!
Só errou na escolha do boteco do fds, o que pode ser facilmente resolvido pagando a primeira rodada...