sexta-feira, 19 de agosto de 2011

A Passagem II

Acordou tentando sacudir a sensação de incredulidade. Um pouco como uma ressaca, que – não sendo tão intensa a bebedeira a ponto de apagar toda a memória – nos faz batalhar um tempo com um vago receio, que pode se converter em certeza, de ter feito merda. Não era o caso, não tinha bebido demais; tinha se emputecido ainda na metade da festa. Além do mais, as lembranças eram muito nítidas; e, por mais que tivessem um sabor onírico, Jaime por fim se levantou convencido de que visitara Borges embaixo do eixão norte. Mas, para ter plena certeza, só tinha um caminho: experimentar se a alteração de realidade operada no improvável painel de controles estava valendo.



Buscou o carro na oficina e foi trabalhar. Tinha todo o tempo aquele sorrisinho besta de quem sabe um segredo. À noite, não foi pra UnB: passou no supermercado e se armou para a guerra. Picanha, quatro peças; um bife de chorizo; frango, sobrecoxas e tulipinha da asa; linguiça toscana, dois quilos; pão de alho, dez pacotes; queijo de coalho, dez pacotes; carvão de dez quilos, álcool, pão... Assaltou-lhe uma dúvida: cerveja estaria metonimicamente incluída no conceito de churrasco? Que se foda: quatro fardinhos de doze latas.



A verdade é que não era a primeira vez que fazia churrasco solo. Adorava o poder que tinha de colocar as músicas mais improváveis – de Tom Waits a Stockhausen – para um churrasco. Tivera más experiências bastantes com situações em que se tentava agradar às visitas, e não conseguia ouvir sequer um Pink Floyd. Acendeu o fogo, colocou um Vandermark 5, e pôs uma toscana para começar; esquenta o fogo, dizem. Enquanto isso foi dar uma olhada no e-mail. Não tinha nada interessante, mas viu que a putinha literária estava on-line. Era uma jovenzinha encantadora: linda, charmosa e inteligente, uma coleguinha da UnB. Tinham conversado algumas vezes, e iniciaram o contato eletrônico ironicamente por conta de um churrasco para o qual Jaime a convidara (e ela não fora); agora ele tinha sempre que se segurar para não incomodá-la o tempo todo. Afinal, ela tinha namorado (sim, outra); e a verdade no fim é que ele conseguira dessa vez não pular de cabeça (mas não queria estragar alguma chance futura). Vai demorar, pensou, olhando a linguiça. Arriscou: e aê!/(pausa prolongada) ei!/(pensou um pouco) não teve aula?/ah, tenho que terminar uns lances do projeto. e vc? /biquei. vou assar uma carne :)/seu vagabundo =)/ cola aí/ não posso/ que moça dedicada... estou atrapalhando/ não, eu tinha feito uma pausa/ vc tem trinta projetos ao mesmo tempo!/ são três :P (pausa) viu? vc tá sacando tudo de sintaxe, que eu sei/ imagina!/ eu quero que vc me ajude com os estudos dirigidos/ ué, no que eu possa ajudar, avec plaisir, mademoiselle./:P estou estudando italiano/ ah, ciao bella! :)/ :) é, acho que vou fazer um lanche.../ok, ragazza. che vediamo doppo./si :)



A linguiça estava indo devagar, colocou um pão de alho. Largou o computador, estendeu a rede e pegou um livro sobre a história do jazz para ler. Mas mal leu uma página se pôs a ruminar a experiência da véspera. Teve o impulso de voltar à passagem, mas se lembrou da conjunção estelar necessária. Será que se lembrava do nome das estrelas? Tinha uma tal galáxia Andrômeda... Centauro! Putz... devia ter anotado. Voltou ao micro e pesquisou. Descobriu um clube de astronomia em Brasília; anotou o endereço. Foi dormir meia peça de picanha mais tarde, e suavemente inebriado.



No outro dia o despertador tocou cedo. Escovando os dentes pensou: e se a passagem se abrir de novo, vou pedir o quê? Ou ainda: se eu for ao clube de astronomia, vou perguntar o quê? Deitou-se mais um pouco. Eu preciso primeiro verificar o primeiro pedido; mas é bom saber quando se abre de novo o portal. Caramba, eu posso alterar a realidade a meu bel prazer, é uma responsabilidade enorme. Será que essa é só mais uma oportunidade que eu vou estragar? Sacudiu a cabeça e se levantou. Esquentou no microondas os restos do churrasco (devo estar infringindo algum código de ética).



Daquele dia em diante, sempre assava uma carne à noite; matava a segunda aula, ou ficava até de madrugada. No almoço, ia a um desses restaurantes com churrasco e se empanturrava de carne. Pesquisou na internet até descobrir as estrelas que Borges indicara. Visitou o clube de astronomia e consultou o mapa celeste do dia mais inacreditável de sua vida. O presidente do clube, que lhe recebeu muito bem, se chamava Jorge (não conteve uma gargalhada). Mostrou como as quatro estrelas formavam duas paralelas e indagou incisivamente como saber quando aquilo se repetiria. Jorge franziu o cenho, coçou o topo da cabeça e respondeu que era um belo problema, os aficcionados adorariam trabalhar naquilo. Enquanto isso, as pessoas começaram a comentar como estava mais magro; pesou-se: 95. Muito churrasco pela frente. De fato, a mágica não valia só para ele, e as revistas começaram a recomendar a dieta da carne, os médicos se apressaram a explicar que tal aminoácido disparava tal processo metabólico. A carne começou a aumentar.



Nesse período também se deu algo digno de relatar. A putinha literária queria ajuda em sintaxe, como já sabemos; ele repetia a si mesmo "não é flerte, comporte-se". Marcaram e ela não apareceu, mas ligou mais tarde, justo quando ele apresentava seu seminário sobre os Lusíadas; ele retornou depois. Conversa vai, conversa vem, foram parar no Café com Vinil. Apenas amigos, comporte-se, seu psicopata. Mas a esperança, essa fênix dos infernos... Você está mais magro. Obrigado. E você linda como sempre. Sorrisos constrangidos, cardápios, eu quero uma cerveja, outra pra mim; ele pede um Ray Charles. Passaram a rememorar os tempos de escola, os dela tão recentes, os dele com tantas cabeçadas intervenientes; ele narrou um pouco dessas cabeçadas. Ela disse que optara por letras porque sempre escreveu bem, o que ele não repetiu por falsa modéstia; ambos haviam considerado jornalismo e desistido pelos mesmo motivos. Falaram mal de alguns professores, um pouco da incerteza do futuro e de seus incipientes projetos. Ah, é claro, ela explicou o teor das pesquisas em que estava envolvida. A dado momento ela recebeu o telefonema do namorado. Ele aproveitou para voltar à realidade. Essa putinha só quer me envolver e me fuder no fim. Depois de algum tempo e outros assuntos, chega o tal do namorado. Um brutamontes, musculoso e com ar apatetado. Ele foi político o resto da noite, mas não teve o mesmo sabor o Miles Davis que pediu (nem o filé nem o Bitches Brew).



Musculoso. Sempre achou tão patético isso. Mas as minas curtem. Já sei o que vou pedir ao Borges quando voltar lá. Voltou a visitar o clube; Jorge era todo amabilidades: apresentamos sua questão em fóruns internacionais, gente do mundo inteiro se envolveu. Foi um hindu quem matou a charada. Mas... Jaime, você ainda não me explicou por que é tão importante determinar essa conjunção. Jorge, se eu te contasse, você diria que estou louco. Talvez esteja, talvez sempre tenha sido. É que... Não me diga que é astrologia. Não, não é. Tudo bem, vá lá. Mas nem preciso dizer que é um segredo entre nós. Se você sair contando a toda comunidade, nem sei a confusão que pode dar. E contou. Jorge ficou boquiaberto, sem terminar de acreditar. Levou Jaime até um computador e mostrou a mensagem: faltava pouco mais de um mês para que se abrisse a passagem.

Um comentário:

Trujillos disse...

Inocente! Foi confiar no astrônomo nerd. Bem, o estrago está feito. É, Jaime, vai ter que fazer muito abdominal pra conseguir uma barriguinha tanquinho. Teu contato com o mestre já era!

Ficou forte o gancho para "A Passagem III", hein? Fiquei curioso, vou aguardar o próximo.

Abraço