quarta-feira, 31 de agosto de 2011

A Passagem III

Ninguém mergulha duas vezes na mesma merda. Ou não deveria. Jaime tinha a desculpa de um livro que precisava comprar (e era fato que as demais livrarias eram um lixo), mas é bem verdade que queria ver a putinha ingrata. Ainda mais trinta quilos mais magro. Claro que ela não deu a mínima. Trocaram comentários sobre música, lançamentos: gostou do Yes?, shows que aconteceriam: ambos iriam ver o Pearl Jam no Rio (conteve-se para não repetir que começou a ouvi-los quando ela ainda não falava, o que dissera à literária); um pouco sobre literatura, preciso ler Faulkner; gostou do Woody Allen? (ele a convidara e ela recusou); ele falou sobre a viagem, das livrarias de Buenos Aires (não, o Ateneo é só um shopping center), sentiu uma angústia de não poder contar nada quando falou em Borges; comentou (ela só respondia, enquanto arrumava os livros, muito profissionalmente) do festival de teatro que acontecia, que vira uma montagem de Ricardo III (ele se declarara apaixonado no dia em que a conheceu; pela peça, claro); ela disse que talvez fosse; nem pense em convidá-la, você sabe onde isso acaba; tem usado meu presente?; ah, claro!; sabe que eu estou com um coleção de King Crimson formidável, e passou a enumerá-los; ela estava graciosa como de costume, uma saia azul e sapatos da mesma cor laranja da blusa; era esguia e tinha cabelos bem negros, uns olhinhos muito vivos... nymph in the prime of youth, como dizia um dos versos que ela desprezou. Olhou-a nos olhos, suspirou entre inconformado e envergonhado com sua própria estupidez, e despediu-se, saboreando a pele macia de sua bochecha. Sabia o que o esperava: o preço de quinze minutos agradáveis ao lado dela eram dois dias chorando. Ela nem falou nada. Putinha.

Faltava uma semana para a abertura da passagem. Telefonou a Jorge: ele era apenas um pouco mais velho, e solteiro, passou-lhe pela cabeça convidá-lo para sair à noite, queria perseguir umas minas agora que estava magro. E com a molecadinha da UnB estava claro que não dava pra fazer nada. Jorge topou e combinaram um desses pubs com música ao vivo, numa sexta. Jaime achava bom ter alguém com quem conversar sobre a passagem, mas ao mesmo tempo se perguntava que consequências a revelação poderia vir a ter; por enquanto, iam se tornando bons amigos. Você já sabe o que vai pedir? - disse ainda na fila, depois de alguma conversa miúda. Talvez seja melhor a gente não falar sobre isso... E como não? Acha que é pelos teus olhos verdes que estou aqui? Jorge, olha... eu estou vendo essa história se complicar... Mas agora é tarde, meu caro. Além do mais, eu te ajudei, não? É mais do que justo que você ao menos compartilhe comigo. E fê-lo descrever a luminescência fosforescente do corredor, o anão e suas cartas mágicas, e pareceu especialmente interessado no botão que abria a passagem, por detrás de um azulejo quebrado. Porra, Guns 'n' Roses, faz vinte anos que eu ouvia isso; essa não pode faltar nunca. Meu, desencana disso de idade, é só uma crise dos trinta. A dos trinta eu já vivi, esta é a dos trinta e um. De qualquer forma, olha essa molecada de vinte e poucos; você quer ser assim? É, tem razão; eu só preciso conhecer gente da minha idade, mas nesta cidade...  Enquanto falavam, Jaime passeava os olhos pelo ambiente que começava a se encher. Tinha uma moreninha de cabelo curto, que não era exatamente gata, mas parecia estar devolvendo seus olhares. Aqui tem umas cervejas importadas bem legais. Jorge não conhecia o lugar; na verdade, não era muito de sair. Jaime encontrara alguém ainda mais misantropo. De repente trombaram a moreninha mais uma vez, e mais uma vez ela ficou olhando. Jorge voltou à carga: vai pedir o que a Borges? A paz mundial? Jaime olhou espantado; só agora percebia como era egoísta. Nã... já até imagino o que ele diria, que o painel não cuida disso, pibe. Além do mais, não estou ligando muito pros problemas do mundo. Você também não tem namorada, né Jorge? Não... eu saí um tempo com uma frequentadora do clube. A gente olhava as estrelas juntos. Que romântico. Pois é; ela não era feia demais, e a gente tinha um interesse em comum. Um dia ela disse que era antiético, balela, eu sei que ela se encantou de um frangote que começou a frequentar o clube, outro dia eu vi os dois, vendo o eclipse. São todas umas putinhas, meu amigo. Só muda o epíteto. Jorge disse que ia ao banheiro. Nosso herói foi até o balcão e pediu uma Amsterdam: uma paulada com 7% de álcool. A morena estava bem ali, junto de sua amiga loira de ar antipático. Jaime criou coragem, aproximou-se e arriscou um singelo "olá". A putinha o olhou de cima a baixo com um ar de desprezo que o enfureceu. Tocava Day Tripper, e ele riu a pesar de si mesmo: she's a big teaser. Jorge não entendeu quando voltou e o amigo já queria ir embora. Nunca tive saco para este tipo de coisa, cara. Não suporto ter que mendigar a atenção dessas... Putinhas. Exato. Mas isso vai mudar: eu vou pedir ao Borges que as mulheres tenham tesão em cultura e não em músculos. Não é o que você queria saber? Cara, você é maluco. Olha, a música tá boa, vamos ficar vai, relaxa. Ficaram. No intervalo deram uma circulada e Jorge encontrou uma colega de faculdade, e ela estava com duas amigas; uma delas assaz interessante. Chamava-se Bárbara, tinha cabelos ruivos, curtos, usava óculos enormes que lhe davam ara de intelectual. Também era funcionária pública, quem não era naquela cidade!, e tinha feito Letras e Direito; Jaime puxou assunto sobre literatura e ela mostrou saber mais que ele - ou que a putinha da livraria -; ele se exibia com o pouco que sabia de qualquer coisa, ela sorria com ar de interesse, nos dois sentidos. Aliás, interessante palavra, interesse: ele não sabia nada de filosofia, mas lembrou-se do que aprendera em uma aula, e achou por bem tentar impressioná-la: não concordo com Kant quando diz que um julgamento estético deve ser desprovido de interesse; eu não poderia te achar bela, e isso não faz nenhum sentido. Ela lhe sorriu por detrás do canudinho de seu drink, com toda sua amável faceirice. Ele não conseguiu juntar coragem para beijá-la naquele momento e se sentiu constrangido. Quando a banda voltou tocando Led Zeppelin a conversa partiu por esse caminho (ela só conhecia aquele sucesso), ele contou de quando tocava bateria nas festinhas da (primeira) faculdade, ela achava tudo o máximo. Trocaram então um olhar que não dava margem a dúvidas, e ele enfim se aproximou e experimentou aqueles lábios convidativos. Foi uma noite agradável, afinal, um grande alívio na verdade. Trocaram telefones, ele ficou ainda mais feliz quando a banda fechou com The Who, e ele deixou a Jorge e então a ela em casa.

Idiota como era, e idiota carente, como era pior, ficava alimentando quimeras, e por mais que tentasse se convencer de que, ora, vocês ficaram ontem, amanhã ela fica com outro e bola pra frente... a verdade é que fermentava ali mais uma das suas. O que ele precisava mesmo é de algo significativo, e aquele aperitivo só lhe aumentava o apetite. Se segurou no sábado, mandou mensagem no domingo. Para sua surpresa ela respondeu de modo bastante animador; Na terça ligou e conversaram bastante, ficaram de se ver no fim de semana. Parecia que os deuses galhofeiros davam uma trégua ao nosso querido psicopata. Por isso mesmo, quando chegou a quinta e ele estacionou o carro na 209 - já eram dez e meia, tinha tido prova - e caminhou até a passagem, não era uma panela de fel em ebulição.

2 comentários:

Trujillos disse...

Leo,

Tá na hora de você dar continuidade na bagaça! Deixa de preguiça cumpadre!

Leonardo Afonso disse...

tá bom, tá bom...