sábado, 15 de outubro de 2011

A Passagem IV

Caminhava sob uma fina chuva até a entrada da passagem. Seu pensamento se dividia entre o primeiro encontro com Borges e a moça que conhecera. Perguntava-se: estar mais magro teria sido decisivo? Em que medida era sua personalidade que a atraía? Teria resolvido seu problema? Estava pondo esperança demais novamente naquilo que nem se podia chamar relacionamento? De uma forma ou de outra, pensava, que diferença entre este dia e aquele! Na verdade nem sabia mais o que pedir... Se o painel de Borges funcionou, não havia por que duvidar da chave para a nova abertura da passagem, e se a previsão do astrônomo estava correta ou não, ele estava prestes a saber.

Deixar o guarda-chuva no carro talvez não tenha sido boa ideia, e quando chegou à boca do túnel, Jaime estava bastante molhado. Tirou o celular do bolso para acender a lanterna, e na mesma hora - coincidência extrema - ele vibrou com um sinal de mensagem: Bárbara. Não poderei sair no sábado. Putinha. Ligou: não atendeu. Pronto, eu sabia, eu sabia. Sempre o mesmo. Talvez seja ainda pior quando dê um gostinho, alimente uma esperança. Da Nazi ou da Ingrata que posso falar? Nada. Merda. Encostou-se à parede nada recomendável da passagem e não chorou por pouco, mas seria de raiva se o fizesse.

Vamos lá... encontrou o azulejo quebrado, mas achou estranho o fato de que o pedaço que cobria o botão estava faltando. Apontou a lanterna para o chão e lá estava ele. Teve antes uma certeza que uma desconfiança, bastava confirmar. Acionou o dispositivo, o chão girou, achou-se no corredor infinito. Até agora, nada do anão. Foi andando tateando com o braço direito a parede. Andou um bocado mas achou a segunda passagem, e a porta. Detalhe: havia um guarda-chuva ao lado dela, um que não combinava com a elegância do senhor Borges, claro.

Aberta a porta, lá estavam instalados nas duas poltronas J.L. Borges, em um garboso terno gris, e o folgado do outro Jorge, o mesmo que você já estava esperando, o astrônomo diletante; em um banquinho se instalara o anão, cuja gargalhada estridente se destacava das outras. Olharam todos na direção de Jaime, Jorge um pouco constrangido, Borges - estranhamente bem humorado - mandou um Hola, pibe! e o anão levantou-se sinalizando a Jaime que lhe tomasse o lugar.

A velha rotina de auto-vitimização: não se pode confiar em mulheres, não se pode confiar em amigos. Jaime acendeu um cigarro antes de aceitar se sentar, e mantinha a cara fechada. Jorge se apressou a se explicar: Olha, foi mera curiosidade... eu me envolvi afinal, você sabe. Mas estávamos esperando por você. Ah! E a conversa estava bastante divertida, pelo que parece. Pibe, calmate. Antes de mais nada, eu vejo que estás muito mais magro! Bem, isso é verdade; e eu agradeço. Não é necessário, eu não fiz nada! Agradece ao painel... Mas já que falaste nisso, veja isso aqui. Levantou-se e caminhou usando a bengala até uma prateleira de onde trouxe um jornal. Desmatamento na Amazônia Fora de Controle. Veja a data, pibe. Era dali a cinco anos. Todos querem comer carne e perder peso, pibe.

Vem aqui comigo, pibe. O anão se apressou a abrir a porta que levava à câmara com o painel. Borges acionou alguns comandos e de repente o monitor começou a exibir imagens a uma velocidade indescritível. Foram alguns instantes que Jaime ficou ali, mas sua impressão foi de ter visto a totalidade dos relacionamentos humanos. Desde as pessoas que levaram existências inteiras solitárias, perto das quais sua vida era extremamente movimentada, passando por gente que suportou relações de aparência a vida toda, e ficou mesmo uma impressão de que boa parte da felicidade do mundo era mera aparência, pessoas que viviam infernos insuportáveis por causa de outra, muita gente como ele, que vivia dando cabeçada, e geralmente acertava uma, e um exemplo ou outro de felicidade genuína, aqui ou ali.

Jaime levou a mão ao queixo: seu egoísmo lhe era evidenciado uma vez mais. E, no fim, ficar magro nem tinha resolvido seu problema. Não ia mudar o fato de que as mulheres são... enfim, como são; de que ninguém fora ele ia reconhecer nele um certo charme excêntrico; de que o acaso determina tanto em nossas vidas. Não havia nenhum fator da realidade que pudesse mudar ipso facto sua sorte, nem faria sentido pedir que mulheres sentissem tesão por caras com livros (provavelmente ia aumentar ainda mais o desmatamento para produzir papel). Respirou fundo. O anão apareceu ao seu lado com uma bandeja onde havia um copo de uísque.

Foi então que Jorge se adiantou, entrando também na saleta: Eu conversava com o Borges, Jaime, sobre como melhorar o mundo usando este painel. Você sabe, eu me considero um socialista, então o primeiro que veio à mente foi pedir uma sociedade sem classes. Você sabe que ele é um aristocrata e riu da minha cara, disse que alguém precisa trabalhar para que os outros possam criar, eu discordei, aí ele perguntou se eu lavava meu banheiro, eu fiquei quieto; então ele disse que mesmo que se estabelecesse essa sociedade, uns iam começar a acumular e logo teríamos as classes de volta, e os banheiros voltariam a ser limpos. Era disso que ríamos.

Apoiando o queixo na bengala, Borges fitava Jaime e, com uma sobrancelha arqueada e um ar cínico disse: Tu conheces este tipo de fábula, pibe, e a moral é sempre previsível. E não me metas em má literatura de novo. Tirou uma baforada do charuto e completou: agora é a hora do teu pedido.

Acabou ficando esclarecido que Bárbara tivera apenas um contratempo qualquer, e não atendera porque entrara no elevador, e depois foi ele quem entrou no túnel. Saíram algumas vezes, mas não sei dizer se deu em coisa mais séria. Acho que o importante foi que depois de todo o episódio ele conseguia levar a vida com mais leveza. Quando o reencontrei anos depois ele se referiu àquilo como um sonho que tivera, e me contou que sua esposa esperava um filho. A notícia que Borges mostrou nunca foi publicada, e as revistas pararam de recomendar a dieta da carne.

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