terça-feira, 22 de novembro de 2011

Get Up, Stand Up

Não sei mesmo o que estou fazendo aqui, porque ninguém nunca ri das minhas piadas. Uma vez no trabalho um colega disse que estava com uma ressaca homérica. Eu disse que era o porre que era homérico, a ressaca é dantesca. Silêncio sepulcral. Mas vamos adiante, de qualquer forma.

Outro dia.uma dúvida me assaltou: levou minha carteira, meu celular e meus óculos. Daqui pra frente eu só terei certezas. Mas dizem que a única certeza que a gente tem é a morte, o que até eu vou concordar que é muito pessimista. Se você está vivo pra ter certeza, então pelo menos a vida é uma certeza. Penso logo existo (o que é outro clichê); mas, se tem tanta gente que não pensa e exista mesmo assim, o postulado deveria ser existo logo existo. A gente não precisa ter medo da tautologia; aliás, às vezes me perguntam o que é tautologia: tautologia é tautologia, ora! Não esquecer também que a conclusão do brilhante filósofo do século XVII não resiste à hipótese solipsista: tudo existe na consciência, e a própria consciência de si pode existir mesmo sem um si (até porque mesmo a coisa-em-si-e-para-si do Hegel foi transposta pra lá menor por Bach, sem nenhum problema - fora o anacronismo, claro). Pois bem, o solipsismo é uma doutrina que não tem muitos adeptos fora dos filmes do Woody Allen, mas eu mesmo sou presidente da Associação de Solipsistas de Brasília. É verdade. Também sou fundador e único membro do Clube de Misantropia: mas não podemos aceitar ninguém que queira se associar a algo assim (o que é a frase do Groucho ao contrário, se eu preciso mastigar pra vocês).

Mas eu não sou só misantropo e solipsista, não. O que realmente me define é o Cinismo Engajado, vou explicar. Como dizia o Cazuza, as pessoas costumam querer uma ideologia pra viver. Muitas levam isso muito a sério, outras compram só os adereços, mas no fim o que se vê é muita conversa jogada fora, e a mesma dança estúpida e fora do ritmo. Tantas convenções sociais e rebeldia tola (que diferença faz?), tabus morais e transgressões vazias (que diferença faz?), superstições religiosas e racionalismos tacanhos (que diferença faz?), discussões estéticas pedantes e mau gosto massificado (que diferença faz?), tantos ismos e pós-ismos (que diferença faz?), teóricos cada vez mais incompreensíveis (que diferença faz?), tantas escolas e vertentes, tantas teorias e palpites... Que diferença faz? Ora, que diferença faz qualquer coisa? Pra alguém que já vive mesmo preso na própria cabeça, a opção lógica é pelo niilismo. E isso traz uma paz enorme: o niilismo é a versão cínica do zen. Além do mais, é muito mais prático: o Cinismo Engajado é uma postura... veja bem, mais que uma ideologia é uma anti-ideologia; enfim, uma postura filosófica, política, moral, religiosa, estética, acadêmica, afetiva... qualquer coisa! É uma espécie de carta-coringa, ou mesmo uma imunidade diplomática contra consciência pesada, uma racionalização pré-moldada. Verdade seja dita que tem uma ideologia que eu não consegui abandonar, que é a podolatria (há pés interessantes na plateia hoje); e pra ser totalmente honesto, ainda guardo um sentimento ético, como um souvenir, deve estar em algum lugar aqui... não, acho que esqueci em casa. Alguém pode me emprestar o seu?