quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Dia de um Podólatra: Noite



Por algum motivo naquele dia ele estava particularmente obcecado por pés. Em uma mais que feliz coincidência, as garotas do campus se esforçaram em prodigalizar belos exemplares dessa parte tão vital da anatomia feminina naquela noite. Já de saída viu um par irretocável, pertencente a uma loirinha que de brinde exibia um piercing no umbigo. Esse era um caso à parte: eram pequenos, com dedos em parábola, ápice no segundo, longos mas não demasiado, roliços; o tornozelo era muito suave, toda a pele bem lisa e clara. Ela devia cuidar dos pés, sabia de seu impacto, e para salientá-lo usava uma tornozeleira de prata e uns chinelos com falsos brilhantes nas tiras (que só perdiam em brilho para as unhas miúdas): o fetiche do fetiche. Aquele ficava com o cinturão, pelo menos do dia. Logo adiante viu uma negra com pés grandes e bem feitos, não teve certeza se era diagonal naquela posição, com proeminência de um dedão enorme: lembrou de Portinari. Mais uma e outra e outra no corredor, antes de entrar na sala: já não erguia a vista.

Olhou no relógio: estava cedo. Ela costumava chegar uns dez minutos atrasada. Foi buscar um café, mesmo sabendo que ia atrapalhar o sono. Pôs-se a cantar a música do Genesis, uma que narrava uma história e exigia malabarismos vocais: chamou alguma atenção aqui e ali. Viu outro belo par, diagonal perfeita, sandália de couro; ela não chegou a olhar pra ele, apenas percebeu que ele olhava, pode marcar zero. Voltou e entrou: ela não estava; sentou-se bem atrás de onde ela costumava ficar. Mas quase se esqueceu dela ao passar no caminho por uma morena de estatura mediana, cabelos bem lisos, no ombro, e olhos bem escuros, pele no tom perfeito, num vestidinho preto e... chinelos com brilhantes nas tiras. A desafiante ganhou por nocaute: nunca tinha percebido como seus pés eram lindos! O segundo era basicamente do tamanho do dedão (anotação mental: ampliar as categorias) e daí em diante uma curva muito suave; era um pé estreito, a curvatura interna pouco acentuada, tornozelo um pouco proeminente, mas tudo isso com uma singularíssima harmonia. Talvez aquele esmalte rosado fosse desnecessário, mas não estragava tudo. Cruzaram o olhar (não era a primeira vez); ela se comportou como quem se interessa mas não quer dar esperança: namorado. Aí ela entrou. Aquela-ela-ela. Uma saia longa azul escuro, uma blusinha de alças preta com pintas brancas (que saboneteiras!), e novos óculos, menores, com uma armação marrom que lhe caía bem com o tom dos cabelos. Que mulher. Nos pés, aquelas sandálias de couro azul claro, que combinavam com as unhas, já as tinha visto: cobriam a parte de trás e de cima dos pés. Remetiam à Grécia Antiga, na cabeça dele. Como queria que ela pisasse nele, mas não metaforicamente como costumavam fazer. Ela olhou pra ele, séria, e se sentou. Daquele ângulo tinha boa visão; deve ter olhado um minuto até ter uma epifania: sabia de onde conhecia aquele pé. Era o pé da abertura do Monty Python's Flying Circus: o pé que esmaga tudo.

Tirou do bolso um papel: coragem; roçou com ele no ombro dela. Ela se assustou: o que é isso? Ele sinalizou com os olhos para que ela o lesse. Dizia: vi que você faz notas das aulas, será que eu podia fazer uma cópia? Era a aula antes da prova. Ela deu um sorrisinho que pra ele parecia uma confirmação. Rabiscou alguma coisa e devolveu o papel com uma escrita infantil: sim, mas estão muito bagunçadas. Ele estava além do nirvana. Enquanto isso, o professor prosseguia com seu circo de vaidade intelectual. Acabada a aula, abordou-a; ela parecia sem jeito. Sacando tudo de Kant? Um pouco de conversa miúda e foram juntos até a copiadora; ela era do diurno e estava fazendo só aquela à noite: daí nunca a ter visto antes. Ele achava tudo lindo então, mas mais tarde em retrospecto decretaria que ela era meio apatetada. Muito obrigado e tal, você não quer me dar seu telefone? Depende. Ele pressionou. Ela tinha namorado.

Tentou não se irritar: você fez o que tinha que fazer. Mas era uma bela decepção. Ela me encorajou! Ainda saboreou mais alguns voltando pro carro, e passou por uma gatinha num momento particularmente fritação do duo batera/sax (ele adorava essa combinação); ela nem reagiu, que pena. As cenas e os diálogos da noite ficaram girando em sua cabeça, precisava extravasar. Desfez-se do disfarce, tocou um pouco de bateria. Rodou um Stravinsky que estava na pilha de ouvir. No computador, mensagem de uma mina com quem fizera sexo mecânico, um comentário a sua piadinha, pouca coisa. Abriu um vídeo que o ajudaria a relaxar; era uma culminação, ao contrário do Kevin Spacey em Beleza Americana, que começava assim o dia e daí era ladeira abaixo. Sempre que a coisa começava a esquentar, pensava em visitar um daqueles sites; naquele dia, tinha a sugestão do colega para conferir. E uma ruiva pra esquecer.

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