segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Projeto Pacífico

I
Sér­gio era enge­nheiro mecâ­nico, e conhe­cera André — eco­no­mista — no time de rúgbi da facul­dade. Aca­ba­ram se mudando para a capi­tal, aquele admi­tido em uma trans­na­ci­o­nal, este veio a se tor­nar ope­ra­dor finan­ceiro. Eram dois belos e bem suce­di­dos trin­tões, e legí­ti­mos bon-vivants, cada um a seu modo: Sér­gio gos­tava de car­rões e de fes­tas com música ele­trô­nica, enquanto André era mais um homem de fre­quen­tar o tea­tro e metido a enó­logo. O pri­meiro era um mulhe­rengo inve­te­rado, enquanto o segundo era pra­ti­ca­mente casado com Car­men, uma argen­tina um pouco mais velha, atriz, que além de uma pes­soa fas­ci­nante era her­deira de um rico indus­trial por­te­nho (não que isso fosse determinante).
Car­men orga­ni­zara um con­ves­cote com alguns cole­gas da com­pa­nhia e André cha­mou a Sér­gio, que apa­re­ceu com uma morena espe­ta­cu­lar. Esta­vam todos no espa­çoso apar­ta­mento da atriz, em um aflu­ente bairro da metró­pole; enquanto ela pilo­tava o toca-discos, tro­cando Miles Davis por Igor Stra­vinsky (vinil é “insu­pe­ra­ble”, expli­cava ela), ele dava uma aula sobre Bor­de­aux; o amigo amas­sava a morena no sofá. Foi quando a domés­tica uni­for­mi­zada avi­sou que o fon­due seria ser­vido na varanda. Em uma mesa, o fon­due de queijo reu­nia os dois casais e o dire­tor da trupe — um excên­trico ses­sen­tão homos­se­xual; já o fon­due de cho­co­late aca­bou sendo uma espé­cie de “segunda divi­são”, não por isso menos animada.
A con­versa pas­sou por diver­sos assun­tos, até que o dra­ma­turgo reve­lou seus pro­je­tos malu­cos de uma peça sobre diver­sas coi­sas, den­tre elas o impé­rio Inca. Os dois ami­gos se entre­o­lha­ram com um sor­riso. Sér­gio expli­cou aos demais:
_ Na época da facul­dade a gente fez uma via­gem até Cusco. Muito legal lá.
A morena — Kátia, se eu esqueci de apre­sen­tar — olhou-o com ar de reve­rên­cia e, pas­sando a mão em seu rosto, pediu que con­tasse mais. Ele abo­ca­nhou mais uma tor­ra­di­nha com queijo der­re­tido, deu um gole de vinho e começou:
_ A gente foi até o Acre. Na época nós está­va­mos envol­vi­dos com o Santo Daime, e fomos até lá conhe­cer a ori­gem de tudo.
_ Vocês sem­pre fue­ran par­cei­ros mismo, hein? — Car­men interveio.
_ Ah, sim. E tinha a rádio tam­bém, a gente fazia um pro­grama. Foram bons tem­pos — acres­cen­tou André, girando sua taça de vinho para observá-lo escorrendo.
_ Bons tem­pos são agora! — ata­lhou Sér­gio cor­tando a nos­tal­gia e pro­pondo um brinde.
_ Essa é ati­tude! — apoiou o dire­tor, esta­lando as mãos espal­ma­das com o engenheiro.
_ Daime não é aquela coisa que deixa doi­dão? — Kátia arriscou.
André fez uma cara feia, mas foi polido.
_ Não é nada disso, meu doce, qual­quer dia eu te explico. Enfim, eu já tinha ido lá antes, e conhe­cia o pes­soal de uma igre­ji­nha pequena, e a gente ficou lá com eles; gente muito boa, sim­ples. Faz muito bem a gente da selva de pedra, como nós.
_ Bem — pros­se­guiu Sér­gio –, a gente tirou dez dias para ir até o Peru. O André tam­bém já conhe­cia lá, ele sem­pre se ligou nes­sas coi­sas meio ripon­gas, eu tava des­co­brindo um mundo novo. A gente pre­pa­rou as mochi­las, a ideia era fazer a tri­lha inca, e pegou o busão em Rio Branco que ia até a fron­teira, Assis Bra­sil. Um luga­rejo minúsculo.
_ Naquela época não tinha nem ponte, a gente teve que atra­ves­sar em uma canoa! — obser­vou André.
_ Na ver­dade, a ponte ainda está em cons­tru­ção, deve ser inau­gu­rada até o fim do ano. O mais sur­real foi a Toyota que a gente pegou do outro lado, em…
_ Iña­pari.
_ Isso. Os caras vão enfi­ando gente numa perua até no tan­que de gaso­lina, e toca pra Mal­do­nado, estrada de terra. Ali a pai­sa­gem ainda é a amazô­nica, mas a popu­la­ção já é basi­ca­mente mes­tiça. Inclu­sive foi junto com a gente uma bem boni­ti­nha… (Kátia lhe deu um leve tapa na mão).
_ Lem­bra das pol­le­rias? — os dois riram.
_ É o McDonald’s deles: frango assado com batata frita, a gente comia isso quase sempre.
André pediu licença para ir à cozi­nha avi­sar que o queijo aca­bava. Kátia optou por se jun­tar ao fon­due de cho­co­late (um pouco pelo fora que dera), o dire­tor per­ce­beu que não seria a alma da festa ali e se jun­tou aos cole­gas — suas risa­das afe­ta­das se fize­ram escu­tar -, e Car­men apro­vei­tou para virar o disco. Já Juli­ana, que era empre­sá­ria do grupo, pediu para se jun­tar ao fon­due de queijo.
Sér­gio, che­gando o amigo, per­gun­tou se podia continuar.
_ Depois que eu bus­car mais vinho, que eu ia esquecendo.
_ Pô, eu acho que eu tava afim de um scotch, você tem?
_ Eu sem­pre tenho, mas… a Kátia dirige depois?
_ Sem problema!
André abriu o vinho, com todos seus ritu­ais, e ser­viu a todos, “na ver­dade, ele devia res­pi­rar” — fez ques­tão de obser­var; a cri­ada trouxe a gar­rafa de uís­que e um pequeno balde com gelo, e castanhas.
_ Qué pasó des­pués? — cobrou Car­men, que esque­cia de tentar falar por­tu­guês quando bebia.
_ Em Puerto Mal­do­nado a gente pegou um avião pra Cusco — André reto­mou (os dois parece que dis­pu­ta­vam para nar­rar). É fas­ci­nante ver a flo­resta sim­ples­mente dando lugar à cor­di­lheira, a tran­si­ção é abrupta.
_ Tem mais: a gente ficou em dúvida ainda se ia de ônibus, mas eram qua­renta minu­tos de voo e dois dias de busão! Mas ima­gina, subindo a cordilheira!
_ Foi aí que a gente come­çou a for­mu­lar o Pro­jeto Pací­fico: com­prar um 4X4 e ir até Cusco, e então até Lima, dirigindo.

_ Es locura! — excla­mou Car­men. Sua amiga e colega, que esti­vera calada até então, fez a pri­meira intervenção:
_ Eu acho uma grande ideia. A vida é feita des­sas lou­cu­ras. Tipo o Amir Klink: o cara atra­ves­sou o oce­ano remando, dá pra ser mais louco que isso? Depois escre­veu livros, ganha uma grana dando palestras…
_ É, mas isso aca­bou virando lenda, a gente não levou muito a sério…
_ Eu nunca esqueci o pro­jeto — pro­tes­tou Sér­gio — acho que um dia ainda dá pra fazer, mas o ideal era fazer um lance pro­fis­si­o­nal, com patro­cí­nio e tudo.
_ Pois então — animou-se Juli­ana — eu tra­ba­lho exa­ta­mente com isso. Se você for­mu­lar um bom pro­jeto, você con­se­gue sim um patro­ci­na­dor. Tipo Petro­brás, por exem­plo… Alguma coisa rela­ci­o­nada a bio­di­e­sel, sei lá. Essa é uma via­gem que teria reper­cus­são inter­na­ci­o­nal se bem explo­rada. É inte­res­sante pra eles.
Os ami­gos se entre­o­lha­ram, num silên­cio cheio de cum­pli­ci­dade. Aquilo fazia sen­tido. Car­men par­ti­lhava do entu­siasmo da amiga.
_ Vocês pue­den facer una pelí­cula, un road movie, docu­men­tá­rio, sei lá. Es cierto que con­si­guen apoio! Hay la tele­vi­sión do gobi­erno ahora, que puede inte­res­sarse; has dicho que la puente vai ser inau­gu­rada, trata-se de un hecho his­tó­rico, el camiño del Pacífico…
A ideia ganhava momento.
II
_ Porra, André, eu tô come­çando a gos­tar dessa história!
_ Nem me fala, cara, eu bem que pode­ria ficar um mês longe da bolsa, estou há três anos sem férias, vai me acres­cen­tar uns anos de vida!
_ Eu acho que vou é chu­tar meu trampo pro alto. Uma aven­tura des­sas vai melho­rar meu cur­rí­culo. Acho que a… como é mesmo seu nome? Acho que a Juli­ana tem razão, eu pode­ria dar pales­tras moti­va­ci­o­nais, é uma grana fácil! Mas… será que um mês dá? Pra ir e voltar?
_ Ir e vol­tar por quê? Só che­gar lá é mais que sufi­ci­ente. A gente passa o carro nos cobres e volta voando.
Kátia, que tam­bém não con­se­guira se entur­mar no meio dos artis­tas, e já matara a von­tade de comer cho­co­late, vol­tou a sen­tar junto a seu homem. Ficou curi­osa com o entu­si­asmo de todos.
_ De que vocês estão falando?
_ De diri­gir até o Oce­ano Pací­fico, baby! — Sér­gio res­pon­deu, com a boca cheia de castanhas.
_ Isso é con­versa de bêbado!
Todos exer­ci­ta­ram mais uma vez a paci­ên­cia com aquela moça bobi­nha que caíra nas gar­ras de Sér­gio, que, levando a mão à testa e bai­xando a cabeça, foi menos suave do que o amigo, tendo inti­mi­dade para tanto.
_ Qual é a sua, sua anta, quer jogar água no nosso chope? Esta­mos falando sério!
Ela fechou a cara, cru­zou os bra­ços e pediu timi­da­mente desculpas.
_ Não fica assim boba — Sér­gio ten­tou pacificá-la -, na ver­dade é um sonho antigo, que parece que pode se con­cre­ti­zar agora, dá pra res­pei­tar? — Ela se des­cul­pou mais uma vez e em ins­tan­tes já estava sor­rindo, pen­du­rada no pes­coço de seu garanhão.
_ Putz, lem­bra quando você tinha aquela CR-V? Era per­feita! — André reto­mou a conversa.

_ É, nem me lem­bra, eu gos­tava daquele carro. Sabe que eu com­prei pen­sando nessa via­gem, né?
_ Aí você por­rou ela num poste, seu bebum irres­pon­sá­vel! — repre­en­deu o amigo meio a sério e meio de brin­ca­deira — Mas não há de ser nada, hoje a gente tem como com­prar qual­quer uti­li­tá­rio esporte, e novo!
_ Vocês podem mesmo ten­tar isso pelo patro­cí­nio — a empre­sá­ria res­sal­tou -; olha, eu posso aju­dar vocês: meu tra­ba­lho na peça está feito, eu tenho tempo livre.
Um ator jovem chegou-se ao ouvido de Car­men e sus­sur­rou alguma coisa, e saiu com um sor­riso no rosto e esfre­gando as mãos.
_ Sér­gio, enti­en­des alguna cosa de autos, no?
_ Sin­ce­ra­mente, Car­men, só de diri­gir. Bem lem­brado, seria impor­tante levar um mecâ­nico. Na ver­dade, eu tenho um colega que saca muito, ele já me aju­dou mais de uma vez; é até irri­tante, ele só fala de carro.
_ O Platinado!
_ Ele mesmo. O ape­lido já diz tudo, né? O cara é do tempo do pla­ti­nado. Mas sabe tudo de parte ele­trô­nica tam­bém. Eu vou con­ver­sar com ele.
_ André, vas a me dejar aqui por un mês?
_ Bem, você está presa aqui com a peça, não? Está pen­sando em ir com a gente?
_ Me gus­ta­ría, si. Y la tem­po­rada es de seis meces, no pue­den esperar?
_ Eu pre­ci­sa­ria de uns três ou qua­tro pra parte buro­crá­tica — Juli­ana observou.
_ Entonces! Puedo ir?
_ Por suposto! — André, esfu­zi­ante, caçoou do por­tu­nhol da amá­sia — Brinde ao Pro­jeto Pacífico!
_ Eu tenho uma ideia melhor: ir de um oce­ano ao outro. Uma trip transcontinental!
_ Boa, Sér­gio! A gente podia sair do Rio, sabe como é, uma cidade conhe­cida no mundo todo. Rio-Lima!
O ator que con­fa­bu­lara com Car­men vol­tou com um base­ado aper­tado. Como o fon­due já aca­bara, e a domés­tica estava reco­lhendo tudo, jun­ta­ram as duas mesas em uma; como já era um tanto tarde, alguns se des­pe­di­ram e se foram, ficando a festa mais inti­mista. Car­men foi até a vitrola e sape­cou um Frank Zappa. Sér­gio e André se lem­bra­ram das noi­tes de rádio, em que Zappa era uma cons­tante. Car­men, pas­sando a bola para o par­ceiro, lembrou-se:
_ Ter­mina de con­tar el viaje!
III
_ Cusco é toda mar­rom vista de cima, ao menos naquela época — Sér­gio pas­sou na frente do amigo, a quem Car­men se diri­gira. Quando a gente pegou o táxi, eu fiquei curi­oso de ver a ban­deira do movi­mento gay por todo lado. A do arco-íris. Depois eu fui des­co­brir que era a ban­deira do Impé­rio Inca!
O dire­tor sol­tou mais uma de suas gar­ga­lha­das e fez ques­tão de manifestar-se:
_ Eu não sabia disso! Cer­ta­mente vou usar essa na peça, posso?
_ Claro, fique à von­tade. Depois… — pros­se­guia Sér­gio, até André tam­bém atropelá-lo.
_ A gente dei­xou as coi­sas no hotel, foi até a Plaza de Armas, que ficava perto. É lindo aquele lugar. Levei o Sér­gio pra conhe­cer a Cate­dral e, depois de comer, fomos até Sac­sayhu­a­mán, ruí­nas ali bem perto da cidade. À noite, uma bala­di­nha no Mama África, um dos mui­tos infer­ni­nhos da cidade.
_ De vez em quando um pega fogo — brin­cou Car­men. De fato, alguns anos antes hou­vera uma notí­cia nesse sentido.
_ No outro dia — Sér­gio reto­mou –, eu peguei uma excur­são para Macchu Pic­chu; o André, que já conhe­cia, não quis ir, e pas­seou um pouco pela cidade. É muito bonito, inte­res­sante, mas tem turista demais. E no fim eu gos­tei mais de Pisaq.
_ Inclu­sive a gente des­co­briu que a tri­lha inca estava sim­ples­mente impos­sí­vel de ser feita, muito gringo. O que a gente fez? Com­prou um mapa de tri­lhas para fazer uma cami­nhada por conta pró­pria. E no dia seguinte par­ti­mos sem rumo definido.
_ Como cha­mava aquele pri­meiro lugar que a gente foi? Eu nunca lembro.
_ Chin­chero — André com­ple­tou satis­feito. Fomos de ônibus, para come­çar por lá. Era inte­res­sante que tinha pré­dios espa­nhóis ergui­dos sobre ruí­nas incas. Conhe­ce­mos uma moça isra­e­lense lá.
_ Eles têm uma his­tó­ria de fazer ser­viço mili­tar e depois sair via­jando, acho inte­res­sante. Sei que de Chin­chero a gente andou con­tor­nando uns mor­ros… É muito dife­rente a pai­sa­gem de relevo recente, e aquele céu trans­lú­cido… eu acho que ainda tenho aque­las fotos em algum lugar. Lem­bro que tirei várias no começo da via­gem, depois aca­bou o filme — eu ainda usava filme! — e fui desen­ca­nando; afi­nal, você pode regis­trar uma ima­gem, mas não a expe­ri­ên­cia, ou mesmo a noção de pro­fun­di­dade. E eu nunca fui um fotó­grafo profissional.
_ A Car­men sabe tudo de foto­gra­fia. Inclu­sive pode ser nossa cine­gra­fista, não?
Ela ape­nas sor­riu com a suges­tão do namo­rado. O entu­si­asmo cres­cia. André prosseguiu.
_ A gente estava quase che­gando em Uru­bamba, o pró­ximo luga­rejo, quando pas­sou um ônibus esco­lar. O Sér­gio, que estava quase morto, fez sinal, e eles para­ram. A gente aca­bou indo até Ollan­tay­tambo, uma cida­de­zi­nha maior, de onde sai o trem pra Águas Cali­en­tes, onde fica Macchu Pic­chu. A gente con­se­guiu uma hos­pe­daje por lá pra pas­sar a noite.
_ Esse dia foi mais um aque­ci­mento, eu estava fora de forma, e fumava, na época. No dia seguinte é que a gente pegou uma tri­lha mais pesada, subindo. Pas­sava em uns três luga­re­jos… Pal­lata, eu acho, foi onde a gente parou pra lan­char. Mais na frente, vinha subindo um cami­nhão e a gente pegou carona. O André que­ria ten­tar ir até uns lagos que esta­vam no mapa, mas a gente pas­sou direto e quando o cami­nhão parou a gente resol­veu seguir uma famí­lia, só o pai falava algum espa­nhol. Dali em diante foi como uma via­gem no tempo: tanto pela pai­sa­gem exó­tica quanto pelas pes­soas, que só fala­vam quechua.
André se levan­tou para bus­car vinho; já estava bem cha­pado, tanto do vinho quanto da maco­nha, que só fumava de vez em quando. Ama­nhã é sábado, pen­sou, que se foda. Apro­vei­tou para dis­pen­sar a domés­tica, entregar-lhe o extra com­bi­nado (que mal valia o sacri­fí­cio de vol­tar àquela hora de ônibus para casa). Ten­tou ser rápido, para não per­der a nar­ra­tiva que tão boas recor­da­ções evo­cava, de luga­res que tal­vez vol­tasse a visi­tar, se aquela con­versa toda não se reve­lasse no fim — como sen­ten­ciou Kátia — mera con­versa de bêbado. Che­gando de volta, Sér­gio lhe perguntou:
_ Como era o nome do tiozinho?
_ Jacinto, nues­tro hom­bre en Huacahuasi!
IV
Riram-se às lar­gas ambos cama­ra­das, e André anun­ciou que aquele era um cali­for­ni­ano, mas que era exce­lente; na ver­dade, tinha sem­pre um vinho mais barato para quando já esta­vam bêba­dos. O dire­tor, já de fogo, insis­tia em cha­mar atenção:
_ Ai, você me lem­bra um rapaz de São Fran­cisco que eu conheci. Deus meu, o que era aquilo! — e fez um gesto com as duas mãos sepa­ra­das pelo tama­nho de um falo avantajado.
Car­men sentiu-se cons­tran­gida e levantou-se para puxar-lhe cari­nho­sa­mente a ore­lha. Sér­gio per­ce­beu a deixa e reto­mou a narrativa:
_ Pois lá fomos nós com o Jacinto, esposa, filho e um per­rito. Ele disse que ia para Hua­cahu­asi. A gente olhou no mapa e sim­ples­mente não tinha tri­lha até lá! Bem, con­fi­a­mos nele quando ele disse que era perto: “dos hori­tas, poco, no más”, ele repe­tia. Dis­se­mos que está­va­mos can­sa­dos, e lá vai ele: “des­pa­cito, dos hori­tas, poco, no más”. Sem­pre que a gente per­gun­tava se estava perto ele dizia a mesma coisa.
_ A gente não con­se­guia acom­pa­nhar o ritmo deles, acos­tu­ma­dos à alti­tude e ao tra­jeto, e ele ofe­re­ceu suas hojas de coca. Eu ia par­ti­ci­par de uma sele­ção e achei melhor recu­sar, o Sér­gio mas­cou com gosto.
_ Hoja de coca no es droga! — e cha­co­al­lhava o ter­ceiro uísque.
_ Uma hora a gente che­gou a um rio, com um pequeno plano. Eu per­cebi que era a deixa para ficar ali e erguer acam­pa­mento. O Sér­gio que­ria ir adiante.
_ Só que quando eu fui falar eu vi que já não con­se­guia mais arti­cu­lar as pala­vras! Aí sem chance. Fica­mos ali, fez um frio des­gra­çado quando a noite caiu; pre­pa­ra­mos um macar­rão com carne de soja e che­ga­mos a con­ver­sar sobre a pos­si­bi­li­dade de tomar Daime — a gente tinha levado uma gar­ra­fi­nha. Mas seria lou­cura… ou excepcional.
_ A gente dei­xou pra manhã seguinte a deci­são: vol­tá­va­mos pelo cami­nho conhe­cido ou arris­cá­va­mos che­gar até Hua­cahu­asi? De lá tinha cami­nho até outra cidade e aí pas­sava uma estrada. Sei que apa­re­ceu um tio catando esterco de llama, figura impro­vá­vel, catarro escor­rendo, a cara quei­mada… Ele não falava quase nada de espa­nhol, eu entendi que ele estava indo pra Hua­cahu­asi, e pen­sei que a gente pudesse acompanhá-lo. Ele dizia “dulce”, deve ter sido uma das únicas pala­vras em espa­nhol que ele disse, e eu dei uma bola­cha reche­ada. No fim, a gente sacou que não ia obter nada dele. Aquela cena me lem­bra um conto do H.G.  Wells…
_ Enfim, — Sér­gio reto­mou — esse maluco aqui deci­diu pei­tar o desa­fio, e segui­mos por onde pare­cia haver uma tri­lha, que às vezes sumia, a gente ficava em dúvida, mas fomos adi­ante. Era longe pra burro, a gente nunca que ia che­gar no dia ante­rior. Foi nesse dia que a gente foi mais alto, eu vi neve pela pri­meira vez. Sei que a gente che­gou na casa do Jacinto (nues­tro hom­bre en Hua­cahu­asi), que ficava antes de che­gar na cidade mesmo — se é que dá pra cha­mar aquilo de cidade.
_ Você está esque­cendo que a gente encon­trou outro cara, um jovem, no final do tra­jeto, lem­bra o nome dele?
_ Sem chance. Sei que ele me deu umas lições de que­chua, mas eu não guar­dei nada. Bem, quando afi­nal a cidade apa­re­ceu, todo esforço se pagou: a pai­sa­gem era linda! O luga­rejo ficava no fundo de um vale escar­pado — deu um bom tra­ba­lho des­cer! — e seguindo o vale tinha uma cas­cata enorme, espetacular.
Sér­gio olhou para André como que para “pas­sar o bas­tão”, e assim iam acer­tando os pon­teiro na nar­ra­ção compartilhada.
_ E a gente acam­pou lá, era no fim da tarde. Eram algu­mas casas de adobe ao longo de um ria­cho — o mesmo da cacho­eira. Aliás, eu tinha esque­cido, no começo da cami­nhada, quer dizer, par­tindo de Ollan­tay­tambo, a gente pas­sou por uma cacho­eira e não teve dúvida: entrou debaixo; num frio medo­nho! Enfim, quando a gente acor­dou no outro dia, tinha um monte de mole­que olhando pra gente como se a gente fosse ali­e­ní­gena! Muito engraçado.
O dire­tor entrou de novo em cena:
_ Olha, eu tô me sen­tindo até mal com minha vidi­nha con­for­tá­vel de “elite branca” (era uma alu­são a uma decla­ra­ção de um polí­tico). Eu nunca me meti numa aven­tura remo­o­o­ta­mente parecida!
Car­men não ligou dessa vez, mas apro­vei­tou a inter­rup­ção para obser­var que fazia muito frio ali fora, e con­vi­dou a todos para entrar. Sér­gio pre­ci­sou acor­dar Kátia, que dor­mia encos­tada em seu ombro. Mais dois dos ato­res se des­pe­di­ram. Sér­gio per­ce­beu que a hora era avan­çada e só então, sendo o papo tão bom, lhe ocor­reu con­fe­rir o reló­gio (carís­simo), des­co­brindo que era uma e meia. Resol­veu apres­sar a nar­ra­tiva, que já estava mesmo perto do fim, e sina­li­zou a André, que prosseguiu.
_ A gente pegou a tri­lha para Lares. Moleza. Des­cendo, bem batida, e curta. Em Lares tinha águas ter­mais, foi o repouso mere­cido. A gente ficou o dia inteiro pra­ti­ca­mente de bobeira. À tarde a gente ficou espe­rando o trans­porte pra Cusco, e não viu nada. Só à noite a gente foi des­co­brir que era uma cami­nho­nete comum, que a gente viu mesmo sair. Paciência.
_ Nós che­ga­mos a dar entrada em uma hos­pe­daje para ficar ali, quando apa­re­ceu uma van, a gente con­ver­sou com o cara, que disse que ia pra Cusco, e a gente subiu. Cara, eu só que­ria ter feito aquela trip de dia, para cur­tir a vista; a gente ia cor­co­ve­ando, des­cendo a mon­ta­nha; mas pelo menos tinha uma lua cheia. Chato foi a fiti­nha do George Michael! — os dois riram.
_ Então, aí quando che­gou em Calca a gente resol­veu des­cer. Ou foi em Pisaq que a gente dormiu?
_ Não foi Calca mesmo, no dia seguinte a gente foi pra Pisaq, conhe­ceu as ruí­nas lá. Já disse que eu gos­tei mais que Macchu Pic­chu, né? No mesmo dia a gente vol­tou pra Cusco e quando reto­ma­mos o quarto no hotel e entra­mos debaixo da ducha quente (sepa­ra­dos, é claro), — o dire­tor dis­pa­rou outra gar­ga­lhada — foi uma sen­sa­ção tão boa de dever cumprido!
_ Pois é. E ainda teve direito a mais um Mama África antes de vol­tar. Era cada enxa­dada, uma minhoca, lembra?
_ Ô!
Dali em diante os ébrios con­vi­vas foram se dis­per­sando, se des­pe­dindo. Sér­gio teve difi­cul­dade para levar a sono­lenta morena embora (e no dia seguinte já esta­ria com outra). Car­men per­ce­beu que esque­cera a vitrola rodando sozi­nha, e des­li­gou tudo. Juli­ana, que ficou muito cha­pada com o beque, e ficou escu­tando tudo em silên­cio — ou ao menos a parte em que ainda estava acor­dada –, levan­tou gro­gue e rea­fir­mou a seri­e­dade da pro­posta, antes de ir embora com o dire­tor, que não pare­cia nem um pouco can­sado e ainda pas­sou uma não tão sutil can­tada em Sér­gio. Todos pro­me­te­ram vol­tar a se falar sobre o Projeto.

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