Era um condomínio de luxo, um pouco afastado de determinada metrópole. Um dispositivo no automóvel, um utilitário-esporte, emitia um sinal que fez abrir automaticamente a cancela. Aristide já havia afrouxado o nó da gravata e aberto o primeiro botão da camisa. Sua posição e a peculiaridade do ramo o forçavam a trabalhar na véspera de Natal.
Na cozinha, Angélica comandava uma equipe de três assistentes que deviam preparar cada detalhe para uma noite magnífica: era quem mais dava importância ao Natal. Um pernil estava sendo levado ao forno, mais tarde um tradicional peru também seria assado e ambos seriam ricamente adornados e guarnecidos de arroz com passas, batatas gratinadas, farofa, salpicão, uma exuberante salada, além de castanhas das mais diversas, importadas.
Na sala, uma árvore enorme, ou uma armação metálica coberta de plástico verde e apinhada de bolas vermelhas e douradas, estava cercada de embrulhos de diversos tamanhos. Um Papai Noel de pelúcia comandava um trenó puxado por renas do mesmo material. Felícia, a do meio, assistia à televisão tomando sorvete, sentada no sofá de couro branco. Era uma linda jovem com duas décadas de uma vida confortável. Estendida sobre o tapete persa, de bruços, Amália, a mais nova, conversava em seu notebook com uma amiga. Iniciava a adolescência.
Em um dos quartos, um rapaz de cabelos escuros, compridos, usando camiseta preta com estampa de banda de heavy metal e jeans, sentava diante do computador. Na tela, magos e guerreiros enfrentavam bestas e malfeitores. Hugo fez uma pausa e verificou se havia alguma mensagem. A angústia e a expectativa iam se fazendo raiva e despeito. Ele já detestava desde sempre o Natal, e naquele em específico estava frustrado pelo relacionamento que imaginava estar tendo, e se desenvolvia bem na internet, mas que terminou antes de se concretizar na vida real. A última tentativa de salvá-lo sequer teve resposta.
Era o mais velho, estava terminando a faculdade de publicidade, era magro e razoavelmente alto, tocava guitarra numa banda, o nariz só um pouco grande demais; dava um bocado de trabalho aos pais, que tinham medo do meio musical e suas drogas. E detestava Natal. Não por isso deixou de pegar algumas castanhas quando foi beber água, sob protestos da mãe, que queria que se esperasse a noite para saborear o grande momento mais intensamente.
Foi quando Aristide entrou em casa. Amália se ergueu para receber um beijo na testa, Felícia desligou a tevê e o abraçou: era afetuosa. Foi até a piscina, onde Angélica tirava uma pausa dos preparativos para fumar. Cruzou com Hugo, que esboçou um "oi, pai" burocrático, antes de voltar a se enfurnar no quarto mais uma vez. O casal se beijou e passou a compartilhar seja os detalhes da festa ou as atribulações do trabalho. Ele tomou banho e vestiu algo mais confortável, abriu uma cerveja. Felícia ligou para uma amiga, que morava ali no mesmo condomínio, e anunciou à mãe: "vou na casa da Manuela depois da meia noite". Amália seguia na internet, Hugo jogava e Aristide lia. Às sete horas, Angélica saiu para levar cada empregada a sua casa, no sedã, cujo porta-malas estava repleto de cestas de Natal e brinquedos. Todos se prepararam, vestiram-se para a noite festiva, Hugo meio a contragosto: queriam que ele ficasse como um playboy. Quando a matriarca chegou e iniciou sua elaborada toalete, já começou a tocar o repertório de músicas natalinas (que davam nos nervos do primogênito).
Começaram então os telefonemas a parentes que moravam longe, os mesmos votos previsíveis. A aparelhagem de som deu lugar à tevê, com a ainda mais previsível programação natalina. Angélica teve que admoestar Hugo, que usava fones de ouvido. Amália e Felícia tiveram que levar o tabuleiro de xadrez da mesa de jantar para a mesa de centro, e interromper a partida para ajudar a mãe a trazer as iguarias, algumas das quais estavam sendo esquentadas no forno. A Hugo coube pôr os pratos e talheres, mas seu desleixo lhe valeu outra bronca. Aristide bebia um uísque devagar, saboreava o momento em família.
Angélica fez um discurso, repleto de uma religiosidade difusa, em que agradecia a Deus pela prosperidade material, mas principalmente pela saúde de todos. Quando falou em espírito do natal, Hugo fez uma careta. Ele não só era ateu e achava a história de Cristo mera invencionice, como detestava o consumismo vazio que caracterizava a festa - muito embora estivesse se preparando para vender coisas e ideias. Comeram. Comentários elogiosos e refrigerantes circularam, bem como futricas sobre a vida dos parentes que acabavam de descobrir.
O roqueiro, mesmo que a mãe fumasse tambem, sempre se escondia para dar suas tragadas, e foi até a garagem para isso, levando uma xícara de café. O casal sentava lado a lado, de mãos dadas, à beira da piscina, e a música natalina retornara. Felícia atendeu o telefone e deu um sorriso maroto. Amália voltou ao computador portátil. Faltava pouco para meia-noite: o grande momento para a mãe e um ritual insuportável para o filho, que foi o único a não jurntar-se ao coro que fez a contagem regressiva. Aristide abriu a garrafa de champanhe fazendo barulho e sujeira; serviu cinco taças, brindaram. Presentes foram abertos, e ele naquele desânimo: deviam saber que eu detesto camisa polo.
Foi quando Felícia chamou seu irmão de lado, e disse que sua amiga Manuela tinha pedido para chamá-lo para também ir a sua casa, que ficava a pouco mais de um quilômetro dali. Ele fez um muchocho e disse que achava aquilo um saco: iriam ficar fofocando e conversando sobre cosméticos. A irmã insistiu, disse que ele ia gostar; como ele não mudasse de ideia, teve que abrir o jogo: tinha alguém que queria conhecê-lo. Ele disse que ia pelo menos trocar de roupa, ela achou que fazia sentido.
Pegaram o carro da mãe emprestado. Não havia a menor necessidade, porque era perto e muito seguro, mas estavam desde sempre mal acostumados. Manuela tinha já por tradição chamar várias amigas para uma noite natalina de jogos de tabuleiro, mas naquela em especial só vieram mesmo Felícia, com o recalcitrante irmão, e seu namorado, que inclusive morava na mesma rua de Hugo. Havia ainda uma moça, que parecia ser a mais velha da assistência, que Hugo nunca vira. Tinha cabelos castanhos ondulados e olhos bem pretos, vestia um vestido um tanto mais despojado que o resto das meninas, e abriu um sorriso quando o viu. Tinha às mãos um livro do Calvin e Haroldo, do qual ele também gostava, de modo que foi instintivo comentar. Ela tinha ganhado do irmão. Daí a conversa começou a se desenvolver naturalmente. A irmã percebeu e veio ajudar: "essa é a Orquídea, ela é irmã do Flávio e mora na Espanha". Flávio era o namorado de Manuela, de modo que Hugo observou: "então é minha vizinha!". "De certa forma, sim".
A noite transcorreu plena de alegria, e Hugo já perdera a rabugice natalina costumeira. Conversou bastante com Orquídea, elogiou-lhe o nome inusitado, "Rosa não é comum, ora?" Ela disse que o ouvira tocar guitarra uma vez, que tocava bem, e que o viu passando de carro. Ele entendeu tudo definitivamente. "Não é Bob Dylan que está tocando?", e ela: "sim, é aquele disco de canções natalinas". Jogando, ela - à sua frente - fez-lhe um sinal com os olhos na direção de Manuela, ao lado dos dois, e passaram então a atacá-la de modo concertado, tirando-a do jogo; trocavam risinhos cúmplices.
À medida em que ficava tarde, a mãe de Flávio veio buscá-lo, e Angélica ligou no celular de Felícia. Hugo e Orquídea haviam acabado de abrir um vinho, e anunciaram que iriam depois. Risinhos circularam obviamente, e os dois não ligaram, já que tão logo a irmã saísse Hugo beijou a vizinha. Mais uma vez, as carícias se desenvolveram muito espontaneamente. Os pais da Manuela já tinham ido dormir e ela mesma usava o computador, feliz até com o papel de alcoviteira.
Voltavam andando, de mãos dadas, trocavam sorrisos francos e discutiam música e cinema. A dada altura havia um jardim, e uma sebe que circunscrevia um espaço invisível desde fora. Não que fizesse diferença, pois àquela hora o máximo que circulava era o carro da empresa de segurança privada. Orquídea estancou: "eu não te dei um presente". Puxou-o para de trás da sebe e aí então foi que as carícias foram num crescendo, até que, desabando fnalmente, exausto, com as costas sobre a relva úmida, ele mirava o corpo esguio dela, que, deitada de lado, passeava com a mão sobre todo seu corpo. "Feliz Natal", ela disse, beijando-lhe a face. "E um próspero ano novo", ele completou.
domingo, 25 de dezembro de 2011
terça-feira, 20 de dezembro de 2011
quinta-feira, 8 de dezembro de 2011
Dia de um Podólatra: Epílogo Desnecessário
Abriu o Coisa Fina. Era bem feito, caprichado. Os ensaios mostravam o rosto das modelos, e elas eram cada uma mais linda que a outra. Lá vai meu décimo terceiro. Algumas fotos permitiam ver os pés, mas a que mais chamou atenção, uma morena de olhos verdes (falsos, provavelmente), com dedinhos gorduchos numa diagonal perfeita e esmalte vermelho escuro, não estava on-line: um ícone em forma de câmera apagado o indicava. Viu uma loira de cabelos ondulados, muito bonita, corpo incrível; mas não via seus pés. A câmera estava acesa, clicou. Era menos bonita do que nas fotos, é claro. Aquela conversa falsa de sempre, será que isso excita alguém? e fez-lhe o pedido. Ah, safadinho... levou a webcam até os pés. Nada feito. Disse que ia pensar e mandava uma mensagem (tinham até um sistema de bate papo). Olhou mais algumas e se interessou por uma outra loira, cabelos escorridos, bem compridos, franja, seios pequenos mas um traseiro digno de nota. Dava pra ver um pouco dos pés em uma foto, e pareciam promissores. Estava disponível. Dessa vez ela parecia ainda mais bonita no vídeo, um ar risonho; olha, posso pedir uma coisa? Mostrou: eram perfeitos; lembrou-se do duelo de mais cedo dos chinelos com brilhantes. Que dia! Eram um trinta e quatro (ele perguntou), as curvas pareciam ter sido projetadas num túnel de vento, dedinhos curtos numa parábola de livro-texto, unhas só com brilho. Elogiou-os efusivamente, ela tinha um sorriso lindo, dentes perfeitos. Mas tudo isso?! Bem... onde é?
Ela estava com uma lingerie preta de muito bom gosto, o ambiente era agradável. Fez-lhe uns protótipos de carícias que, se não eram afeição real, ao menos ajudavam a criar um clima. Não que ele já não estivesse excitadíssimo. Ajoelhou-se: que obra de arte! Tomou-lhe o esquerdo e o analisou minuciosamente; com os olhos primeiro e depois com a língua. Ela dava risadinhas deliciosas. Ergueu-se e beijou-lhe o pescoço com ânsia, e atrás da orelha. Nunca fazia nada parecido com... modelos. Sussurrou-lhe alguma coisa no ouvido. Ela recuou, olhou-o entre surpresa e confusa, mas com toques de marotice. Disse uma cifra, que era um acréscimo de vinte por cento.
Enquanto se banhava - e lavava os pés com atenção redobrada - ela pensava: é simpático esse maluco, que olhos (ela até havia comentado). Tem cliente que é mais fácil atender. Ele a admirava no ritual de se enxugar; pára de me olhar! você é muito linda, obrigada. Abraçou-a de novo, sentiu seu cheiro. Então, na verdade eu tenho outra proposta; ela franziu o cenho. Senta aqui.
Na semana seguinte, ele tinha outra aula pela manhã, mas não se importou em chegar atrasado. Passeou tranquilamente pelos longos corredores daquele prédio abominável, com a mão esquerda segurando uma mãozinha pequena e frágil. Já haviam na verdade se visto no fim de semana: ele lhe comprou um vestidinho e umas sandálias de couro trabalhado, que ficaram ótimas naqueles pezinhos fantásticos. Caminhava afetando indiferença, mas sorveu cada gota de uma boa meia dúzia de olhares invejosos. O zênite foi mesmo quando percebeu claramente que um marmanjo admirava despudoradamente os pés de sua mais nova amiga.
quarta-feira, 7 de dezembro de 2011
Dia de um Podólatra: Noite
Por algum motivo naquele dia ele estava particularmente obcecado por pés. Em uma mais que feliz coincidência, as garotas do campus se esforçaram em prodigalizar belos exemplares dessa parte tão vital da anatomia feminina naquela noite. Já de saída viu um par irretocável, pertencente a uma loirinha que de brinde exibia um piercing no umbigo. Esse era um caso à parte: eram pequenos, com dedos em parábola, ápice no segundo, longos mas não demasiado, roliços; o tornozelo era muito suave, toda a pele bem lisa e clara. Ela devia cuidar dos pés, sabia de seu impacto, e para salientá-lo usava uma tornozeleira de prata e uns chinelos com falsos brilhantes nas tiras (que só perdiam em brilho para as unhas miúdas): o fetiche do fetiche. Aquele ficava com o cinturão, pelo menos do dia. Logo adiante viu uma negra com pés grandes e bem feitos, não teve certeza se era diagonal naquela posição, com proeminência de um dedão enorme: lembrou de Portinari. Mais uma e outra e outra no corredor, antes de entrar na sala: já não erguia a vista.
Olhou no relógio: estava cedo. Ela costumava chegar uns dez minutos atrasada. Foi buscar um café, mesmo sabendo que ia atrapalhar o sono. Pôs-se a cantar a música do Genesis, uma que narrava uma história e exigia malabarismos vocais: chamou alguma atenção aqui e ali. Viu outro belo par, diagonal perfeita, sandália de couro; ela não chegou a olhar pra ele, apenas percebeu que ele olhava, pode marcar zero. Voltou e entrou: ela não estava; sentou-se bem atrás de onde ela costumava ficar. Mas quase se esqueceu dela ao passar no caminho por uma morena de estatura mediana, cabelos bem lisos, no ombro, e olhos bem escuros, pele no tom perfeito, num vestidinho preto e... chinelos com brilhantes nas tiras. A desafiante ganhou por nocaute: nunca tinha percebido como seus pés eram lindos! O segundo era basicamente do tamanho do dedão (anotação mental: ampliar as categorias) e daí em diante uma curva muito suave; era um pé estreito, a curvatura interna pouco acentuada, tornozelo um pouco proeminente, mas tudo isso com uma singularíssima harmonia. Talvez aquele esmalte rosado fosse desnecessário, mas não estragava tudo. Cruzaram o olhar (não era a primeira vez); ela se comportou como quem se interessa mas não quer dar esperança: namorado. Aí ela entrou. Aquela-ela-ela. Uma saia longa azul escuro, uma blusinha de alças preta com pintas brancas (que saboneteiras!), e novos óculos, menores, com uma armação marrom que lhe caía bem com o tom dos cabelos. Que mulher. Nos pés, aquelas sandálias de couro azul claro, que combinavam com as unhas, já as tinha visto: cobriam a parte de trás e de cima dos pés. Remetiam à Grécia Antiga, na cabeça dele. Como queria que ela pisasse nele, mas não metaforicamente como costumavam fazer. Ela olhou pra ele, séria, e se sentou. Daquele ângulo tinha boa visão; deve ter olhado um minuto até ter uma epifania: sabia de onde conhecia aquele pé. Era o pé da abertura do Monty Python's Flying Circus: o pé que esmaga tudo.
Tirou do bolso um papel: coragem; roçou com ele no ombro dela. Ela se assustou: o que é isso? Ele sinalizou com os olhos para que ela o lesse. Dizia: vi que você faz notas das aulas, será que eu podia fazer uma cópia? Era a aula antes da prova. Ela deu um sorrisinho que pra ele parecia uma confirmação. Rabiscou alguma coisa e devolveu o papel com uma escrita infantil: sim, mas estão muito bagunçadas. Ele estava além do nirvana. Enquanto isso, o professor prosseguia com seu circo de vaidade intelectual. Acabada a aula, abordou-a; ela parecia sem jeito. Sacando tudo de Kant? Um pouco de conversa miúda e foram juntos até a copiadora; ela era do diurno e estava fazendo só aquela à noite: daí nunca a ter visto antes. Ele achava tudo lindo então, mas mais tarde em retrospecto decretaria que ela era meio apatetada. Muito obrigado e tal, você não quer me dar seu telefone? Depende. Ele pressionou. Ela tinha namorado.
Tentou não se irritar: você fez o que tinha que fazer. Mas era uma bela decepção. Ela me encorajou! Ainda saboreou mais alguns voltando pro carro, e passou por uma gatinha num momento particularmente fritação do duo batera/sax (ele adorava essa combinação); ela nem reagiu, que pena. As cenas e os diálogos da noite ficaram girando em sua cabeça, precisava extravasar. Desfez-se do disfarce, tocou um pouco de bateria. Rodou um Stravinsky que estava na pilha de ouvir. No computador, mensagem de uma mina com quem fizera sexo mecânico, um comentário a sua piadinha, pouca coisa. Abriu um vídeo que o ajudaria a relaxar; era uma culminação, ao contrário do Kevin Spacey em Beleza Americana, que começava assim o dia e daí era ladeira abaixo. Sempre que a coisa começava a esquentar, pensava em visitar um daqueles sites; naquele dia, tinha a sugestão do colega para conferir. E uma ruiva pra esquecer.
Tirou do bolso um papel: coragem; roçou com ele no ombro dela. Ela se assustou: o que é isso? Ele sinalizou com os olhos para que ela o lesse. Dizia: vi que você faz notas das aulas, será que eu podia fazer uma cópia? Era a aula antes da prova. Ela deu um sorrisinho que pra ele parecia uma confirmação. Rabiscou alguma coisa e devolveu o papel com uma escrita infantil: sim, mas estão muito bagunçadas. Ele estava além do nirvana. Enquanto isso, o professor prosseguia com seu circo de vaidade intelectual. Acabada a aula, abordou-a; ela parecia sem jeito. Sacando tudo de Kant? Um pouco de conversa miúda e foram juntos até a copiadora; ela era do diurno e estava fazendo só aquela à noite: daí nunca a ter visto antes. Ele achava tudo lindo então, mas mais tarde em retrospecto decretaria que ela era meio apatetada. Muito obrigado e tal, você não quer me dar seu telefone? Depende. Ele pressionou. Ela tinha namorado.
Tentou não se irritar: você fez o que tinha que fazer. Mas era uma bela decepção. Ela me encorajou! Ainda saboreou mais alguns voltando pro carro, e passou por uma gatinha num momento particularmente fritação do duo batera/sax (ele adorava essa combinação); ela nem reagiu, que pena. As cenas e os diálogos da noite ficaram girando em sua cabeça, precisava extravasar. Desfez-se do disfarce, tocou um pouco de bateria. Rodou um Stravinsky que estava na pilha de ouvir. No computador, mensagem de uma mina com quem fizera sexo mecânico, um comentário a sua piadinha, pouca coisa. Abriu um vídeo que o ajudaria a relaxar; era uma culminação, ao contrário do Kevin Spacey em Beleza Americana, que começava assim o dia e daí era ladeira abaixo. Sempre que a coisa começava a esquentar, pensava em visitar um daqueles sites; naquele dia, tinha a sugestão do colega para conferir. E uma ruiva pra esquecer.
terça-feira, 6 de dezembro de 2011
Dia de um Podólatra: Tarde
Chegando ao trabalho, percebeu que estava sem o crachá. Para ganhar tempo, parou o carro no térreo e foi até a portaria expedir um provisório. Foi quando uma morena linda e muito elegante, no que parecia ser um tailleur, mas sem o paletó, ficou olhando fixamente pra ele, embora com ar muito sério. Sapatos de salto: ali raramente via pés. Ótimo, mas não resolve nada, ainda assim eu não como ninguém; não estava entretanto disposto a sentir pena de si mesmo. Desceu pra garagem, estacionou e foi até o setor, lá embaixo mesmo: era o homem do subsolo. Cumprimentou um ou outro colega e foi se trocar; bastou arrancar a camiseta do Trout Mask Replica e fechar a camisa, pôr a calça do terno e a gravata marrom e voilà (o chapéu ficou). Lia, tomava café e fumava; por aquela época era até difícil arranjar um parceiro para jogar ping-pong. Só precisava esperar ser chamado pra trabalhar. Demorou quarenta minutos: Dr. Fulano no bloco A. Escolheu uns discos para ouvir: Miles Davis, fase cool, nada muito estranho com esses figurões. Encostou o carro e esperou dez minutos: mais um pouco e acabaria o Bukowski. Boas tardes e tal, restaurante tal endereço tal. Esse era dos que não falavam; é bom, mas às vezes tinha uma conversa interessante ou outra, um mesmo gostava de debater literatura. Na volta, baixou as janelas e aumentou o volume: olhem para um homem com chapéu e bom gosto, num carro chapa de bronze.
Chegou de volta, pendurou o paletó e subiu para o restaurante. Era lugar de ver mulher bonita. Enquanto fumava na entrada, passou uma por ele com um sapato meio aberto, tinha uns dedinhos lindos, esmalte rosa claro. De rosto era só mais ou menos, entretanto. Quando entrou na fila, uma numa mesa perto trocou um olhar fulminante com ele; era loira, mesclada com pretos de alguma forma, também estava muito elegante. O problema com essas funcionárias é que geralmente eram muito metidas; imagina então se soubessem que ele era um reles motorista. Todo galinheiro tem uma hierarquia de bicadas, ele só podia bicar as galinhas terceirizadas, mais subalternas que ele; às vezes o fazia, mas a conversa nunca fluía. Depois que pesou o prato, ao se sentar, uma outra ao seu lado – um pouco mais velha, mas muito conservada – também deu uma encarada. Será o chapéu? Um colega logo veio se juntar a ele; sabia que o outro era religioso, e puxou esse assunto polêmico: era desculpa para expor a sua doutrina do cinismo engajado, uma postura coringa que servia para religião, moral, política, literatura e relacionamentos, dentre outros. Exibicionismo puro, é claro, e conferia se a coroa não estava prestando atenção; não estava. Na fila viu uma de sandália; era razoavelmente bonita, mas tinha uma falta grave: os dedos tinham as extremidades maiores que a base, parecendo aqueles microfones com proteção de espuma. Na rampa, voltando, lá vinha uma cocota – estagiária ou visitante – com um vestidinho maleável que bailava com seu andar desenvolto. Cabelos pretos e curtos, uma boca miúda. Chinelos pretos; a pele era bem branca, os contornos eram suaves, os dedos pequenos e bem feitos, da famílias das diagonais, unhas de um marrom escuro, bem próximo do tom do vestido. Cara, isso tira o sossego de um cristão. Ou de um cínico.
Desceu as escadas tentando sistematizar a apreciação de pés femininos: podia entrar pra história como o pai da podolatria científica, que seria matéria universitária dali a dez anos. Havia duas distinções básicas: uma era entre dedão maior e segundo maior, cada qual tinha representantes dignas; outra era entre diagonais e parabólicas, e ele também não chegava a ter uma preferência. Havia obviamente as anomalias, duas das quais já discutimos, além de estreito demais, largo demais, longo ou curto (incompatível com a estatura), dedos curtos ou longos demais, tendões demais, veias demais, calos demais, unhas mal desenhadas... teria que pedir uma bolsa para estudar a fundo.
Escovou os dentes (só então se deu conta que o efeito da anestesia se dissipara), serviu um café e foi fumar. Na área onde o cigarro era tolerado, costumavam ficar os mais antigos, quase sempre um bando de toscos que passavam o dia chamando um ao outro de viado ou corno e gargalhando estrepitosamente. Mas concentrou-se no livro e chegou ao fim; o desfecho foi meio decepcionante. Em dado momento, ao passar por um grupo, escutou a conversa; uma frase, uma palavra mesmo, chamou sua atenção. Não... o Sedução é porcaria! Chegou perto. Discutiam os sites de “acompanhantes”; ele esperou a deixa e comentou que já tinha usado aquele, mas uma vez teve uma péssima experiência: elas não mostram o rosto, e aí você chega lá e broxa de tão feia. Esse colega mais entusiasmado, de meia idade, já careca, explicou que estava justamente contando de um novo, em que as putinhas ficavam na webcam e você podia conhecê-las antes de decidir. Mas é caro; a partir de tantos reais. Assoviou impressionado. Mas vale a pena! Coisa fina. Como chama? Coisa fina! Ponto com ponto bê erre. Legal, vou conferir.
Dirigia-se ao ping-pong; deixava de ser gradualmente o saco de pancadas do setor, mas ainda perdia mais do que ganhava. Por algum motivo perdera o hábito de jogar xadrez; muito tempo atrás ganhara até um torneio. A próxima saída veio logo: curta, ouviu duas músicas do Herbie Hancock. Começou um Balzac, ou o Balzac mais célebre. No micro, comentou uma coisa ou outra e conversou com uma amiga que morava longe; seus poucos amigos moravam longe. Fez outra saída, essa longa, e conseguiu ouvir o Quadrophenia inteiro. Voltando, subiu para a lanchonete; vale o mesmo que para o restaurante, mas naquele dia não estava com sorte: só uma feiosa prestou atenção nele, viu quando ela leu o título do livro (tudo bem, ler em francês também tinha uma ponta de exibicionismo). Usava tênis. Mais uma saída curta (e mais Hancock) e dali a pouco ele retomava o visual despojado e passava o crachá. No carro, colocou Phillip Glass.
segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
Projeto Pacífico
I
Sérgio era engenheiro mecânico, e conhecera André — economista — no time de rúgbi da faculdade. Acabaram se mudando para a capital, aquele admitido em uma transnacional, este veio a se tornar operador financeiro. Eram dois belos e bem sucedidos trintões, e legítimos bon-vivants, cada um a seu modo: Sérgio gostava de carrões e de festas com música eletrônica, enquanto André era mais um homem de frequentar o teatro e metido a enólogo. O primeiro era um mulherengo inveterado, enquanto o segundo era praticamente casado com Carmen, uma argentina um pouco mais velha, atriz, que além de uma pessoa fascinante era herdeira de um rico industrial portenho (não que isso fosse determinante).
Carmen organizara um convescote com alguns colegas da companhia e André chamou a Sérgio, que apareceu com uma morena espetacular. Estavam todos no espaçoso apartamento da atriz, em um afluente bairro da metrópole; enquanto ela pilotava o toca-discos, trocando Miles Davis por Igor Stravinsky (vinil é “insuperable”, explicava ela), ele dava uma aula sobre Bordeaux; o amigo amassava a morena no sofá. Foi quando a doméstica uniformizada avisou que o fondue seria servido na varanda. Em uma mesa, o fondue de queijo reunia os dois casais e o diretor da trupe — um excêntrico sessentão homossexual; já o fondue de chocolate acabou sendo uma espécie de “segunda divisão”, não por isso menos animada.
A conversa passou por diversos assuntos, até que o dramaturgo revelou seus projetos malucos de uma peça sobre diversas coisas, dentre elas o império Inca. Os dois amigos se entreolharam com um sorriso. Sérgio explicou aos demais:
_ Na época da faculdade a gente fez uma viagem até Cusco. Muito legal lá.
A morena — Kátia, se eu esqueci de apresentar — olhou-o com ar de reverência e, passando a mão em seu rosto, pediu que contasse mais. Ele abocanhou mais uma torradinha com queijo derretido, deu um gole de vinho e começou:
_ A gente foi até o Acre. Na época nós estávamos envolvidos com o Santo Daime, e fomos até lá conhecer a origem de tudo.
_ Vocês sempre fueran parceiros mismo, hein? — Carmen interveio.
_ Ah, sim. E tinha a rádio também, a gente fazia um programa. Foram bons tempos — acrescentou André, girando sua taça de vinho para observá-lo escorrendo.
_ Bons tempos são agora! — atalhou Sérgio cortando a nostalgia e propondo um brinde.
_ Essa é atitude! — apoiou o diretor, estalando as mãos espalmadas com o engenheiro.
_ Daime não é aquela coisa que deixa doidão? — Kátia arriscou.
André fez uma cara feia, mas foi polido.
_ Não é nada disso, meu doce, qualquer dia eu te explico. Enfim, eu já tinha ido lá antes, e conhecia o pessoal de uma igrejinha pequena, e a gente ficou lá com eles; gente muito boa, simples. Faz muito bem a gente da selva de pedra, como nós.
_ Bem — prosseguiu Sérgio –, a gente tirou dez dias para ir até o Peru. O André também já conhecia lá, ele sempre se ligou nessas coisas meio ripongas, eu tava descobrindo um mundo novo. A gente preparou as mochilas, a ideia era fazer a trilha inca, e pegou o busão em Rio Branco que ia até a fronteira, Assis Brasil. Um lugarejo minúsculo.
_ Naquela época não tinha nem ponte, a gente teve que atravessar em uma canoa! — observou André.
_ Na verdade, a ponte ainda está em construção, deve ser inaugurada até o fim do ano. O mais surreal foi a Toyota que a gente pegou do outro lado, em…
_ Iñapari.
_ Isso. Os caras vão enfiando gente numa perua até no tanque de gasolina, e toca pra Maldonado, estrada de terra. Ali a paisagem ainda é a amazônica, mas a população já é basicamente mestiça. Inclusive foi junto com a gente uma bem bonitinha… (Kátia lhe deu um leve tapa na mão).
_ Lembra das pollerias? — os dois riram.
_ É o McDonald’s deles: frango assado com batata frita, a gente comia isso quase sempre.
André pediu licença para ir à cozinha avisar que o queijo acabava. Kátia optou por se juntar ao fondue de chocolate (um pouco pelo fora que dera), o diretor percebeu que não seria a alma da festa ali e se juntou aos colegas — suas risadas afetadas se fizeram escutar -, e Carmen aproveitou para virar o disco. Já Juliana, que era empresária do grupo, pediu para se juntar ao fondue de queijo.
Sérgio, chegando o amigo, perguntou se podia continuar.
_ Depois que eu buscar mais vinho, que eu ia esquecendo.
_ Pô, eu acho que eu tava afim de um scotch, você tem?
_ Eu sempre tenho, mas… a Kátia dirige depois?
_ Sem problema!
André abriu o vinho, com todos seus rituais, e serviu a todos, “na verdade, ele devia respirar” — fez questão de observar; a criada trouxe a garrafa de uísque e um pequeno balde com gelo, e castanhas.
_ Qué pasó después? — cobrou Carmen, que esquecia de tentar falar português quando bebia.
_ Em Puerto Maldonado a gente pegou um avião pra Cusco — André retomou (os dois parece que disputavam para narrar). É fascinante ver a floresta simplesmente dando lugar à cordilheira, a transição é abrupta.
_ Tem mais: a gente ficou em dúvida ainda se ia de ônibus, mas eram quarenta minutos de voo e dois dias de busão! Mas imagina, subindo a cordilheira!
_ Foi aí que a gente começou a formular o Projeto Pacífico: comprar um 4X4 e ir até Cusco, e então até Lima, dirigindo.
_ Es locura! — exclamou Carmen. Sua amiga e colega, que estivera calada até então, fez a primeira intervenção:
_ Eu acho uma grande ideia. A vida é feita dessas loucuras. Tipo o Amir Klink: o cara atravessou o oceano remando, dá pra ser mais louco que isso? Depois escreveu livros, ganha uma grana dando palestras…
_ É, mas isso acabou virando lenda, a gente não levou muito a sério…
_ Eu nunca esqueci o projeto — protestou Sérgio — acho que um dia ainda dá pra fazer, mas o ideal era fazer um lance profissional, com patrocínio e tudo.
_ Pois então — animou-se Juliana — eu trabalho exatamente com isso. Se você formular um bom projeto, você consegue sim um patrocinador. Tipo Petrobrás, por exemplo… Alguma coisa relacionada a biodiesel, sei lá. Essa é uma viagem que teria repercussão internacional se bem explorada. É interessante pra eles.
Os amigos se entreolharam, num silêncio cheio de cumplicidade. Aquilo fazia sentido. Carmen partilhava do entusiasmo da amiga.
_ Vocês pueden facer una película, un road movie, documentário, sei lá. Es cierto que consiguen apoio! Hay la televisión do gobierno ahora, que puede interessarse; has dicho que la puente vai ser inaugurada, trata-se de un hecho histórico, el camiño del Pacífico…
A ideia ganhava momento.
II
_ Porra, André, eu tô começando a gostar dessa história!
_ Nem me fala, cara, eu bem que poderia ficar um mês longe da bolsa, estou há três anos sem férias, vai me acrescentar uns anos de vida!
_ Eu acho que vou é chutar meu trampo pro alto. Uma aventura dessas vai melhorar meu currículo. Acho que a… como é mesmo seu nome? Acho que a Juliana tem razão, eu poderia dar palestras motivacionais, é uma grana fácil! Mas… será que um mês dá? Pra ir e voltar?
_ Ir e voltar por quê? Só chegar lá é mais que suficiente. A gente passa o carro nos cobres e volta voando.
Kátia, que também não conseguira se enturmar no meio dos artistas, e já matara a vontade de comer chocolate, voltou a sentar junto a seu homem. Ficou curiosa com o entusiasmo de todos.
_ De que vocês estão falando?
_ De dirigir até o Oceano Pacífico, baby! — Sérgio respondeu, com a boca cheia de castanhas.
_ Isso é conversa de bêbado!
Todos exercitaram mais uma vez a paciência com aquela moça bobinha que caíra nas garras de Sérgio, que, levando a mão à testa e baixando a cabeça, foi menos suave do que o amigo, tendo intimidade para tanto.
_ Qual é a sua, sua anta, quer jogar água no nosso chope? Estamos falando sério!
Ela fechou a cara, cruzou os braços e pediu timidamente desculpas.
_ Não fica assim boba — Sérgio tentou pacificá-la -, na verdade é um sonho antigo, que parece que pode se concretizar agora, dá pra respeitar? — Ela se desculpou mais uma vez e em instantes já estava sorrindo, pendurada no pescoço de seu garanhão.
_ Putz, lembra quando você tinha aquela CR-V? Era perfeita! — André retomou a conversa.
_ É, nem me lembra, eu gostava daquele carro. Sabe que eu comprei pensando nessa viagem, né?
_ Aí você porrou ela num poste, seu bebum irresponsável! — repreendeu o amigo meio a sério e meio de brincadeira — Mas não há de ser nada, hoje a gente tem como comprar qualquer utilitário esporte, e novo!
_ Vocês podem mesmo tentar isso pelo patrocínio — a empresária ressaltou -; olha, eu posso ajudar vocês: meu trabalho na peça está feito, eu tenho tempo livre.
Um ator jovem chegou-se ao ouvido de Carmen e sussurrou alguma coisa, e saiu com um sorriso no rosto e esfregando as mãos.
_ Sérgio, entiendes alguna cosa de autos, no?
_ Sinceramente, Carmen, só de dirigir. Bem lembrado, seria importante levar um mecânico. Na verdade, eu tenho um colega que saca muito, ele já me ajudou mais de uma vez; é até irritante, ele só fala de carro.
_ O Platinado!
_ Ele mesmo. O apelido já diz tudo, né? O cara é do tempo do platinado. Mas sabe tudo de parte eletrônica também. Eu vou conversar com ele.
_ André, vas a me dejar aqui por un mês?
_ Bem, você está presa aqui com a peça, não? Está pensando em ir com a gente?
_ Me gustaría, si. Y la temporada es de seis meces, no pueden esperar?
_ Eu precisaria de uns três ou quatro pra parte burocrática — Juliana observou.
_ Entonces! Puedo ir?
_ Por suposto! — André, esfuziante, caçoou do portunhol da amásia — Brinde ao Projeto Pacífico!
_ Eu tenho uma ideia melhor: ir de um oceano ao outro. Uma trip transcontinental!
_ Boa, Sérgio! A gente podia sair do Rio, sabe como é, uma cidade conhecida no mundo todo. Rio-Lima!
O ator que confabulara com Carmen voltou com um baseado apertado. Como o fondue já acabara, e a doméstica estava recolhendo tudo, juntaram as duas mesas em uma; como já era um tanto tarde, alguns se despediram e se foram, ficando a festa mais intimista. Carmen foi até a vitrola e sapecou um Frank Zappa. Sérgio e André se lembraram das noites de rádio, em que Zappa era uma constante. Carmen, passando a bola para o parceiro, lembrou-se:
_ Termina de contar el viaje!
III
_ Cusco é toda marrom vista de cima, ao menos naquela época — Sérgio passou na frente do amigo, a quem Carmen se dirigira. Quando a gente pegou o táxi, eu fiquei curioso de ver a bandeira do movimento gay por todo lado. A do arco-íris. Depois eu fui descobrir que era a bandeira do Império Inca!
O diretor soltou mais uma de suas gargalhadas e fez questão de manifestar-se:
_ Eu não sabia disso! Certamente vou usar essa na peça, posso?
_ Claro, fique à vontade. Depois… — prosseguia Sérgio, até André também atropelá-lo.
_ A gente deixou as coisas no hotel, foi até a Plaza de Armas, que ficava perto. É lindo aquele lugar. Levei o Sérgio pra conhecer a Catedral e, depois de comer, fomos até Sacsayhuamán, ruínas ali bem perto da cidade. À noite, uma baladinha no Mama África, um dos muitos inferninhos da cidade.
_ De vez em quando um pega fogo — brincou Carmen. De fato, alguns anos antes houvera uma notícia nesse sentido.
_ No outro dia — Sérgio retomou –, eu peguei uma excursão para Macchu Picchu; o André, que já conhecia, não quis ir, e passeou um pouco pela cidade. É muito bonito, interessante, mas tem turista demais. E no fim eu gostei mais de Pisaq.
_ Inclusive a gente descobriu que a trilha inca estava simplesmente impossível de ser feita, muito gringo. O que a gente fez? Comprou um mapa de trilhas para fazer uma caminhada por conta própria. E no dia seguinte partimos sem rumo definido.
_ Como chamava aquele primeiro lugar que a gente foi? Eu nunca lembro.
_ Chinchero — André completou satisfeito. Fomos de ônibus, para começar por lá. Era interessante que tinha prédios espanhóis erguidos sobre ruínas incas. Conhecemos uma moça israelense lá.
_ Eles têm uma história de fazer serviço militar e depois sair viajando, acho interessante. Sei que de Chinchero a gente andou contornando uns morros… É muito diferente a paisagem de relevo recente, e aquele céu translúcido… eu acho que ainda tenho aquelas fotos em algum lugar. Lembro que tirei várias no começo da viagem, depois acabou o filme — eu ainda usava filme! — e fui desencanando; afinal, você pode registrar uma imagem, mas não a experiência, ou mesmo a noção de profundidade. E eu nunca fui um fotógrafo profissional.
_ A Carmen sabe tudo de fotografia. Inclusive pode ser nossa cinegrafista, não?
Ela apenas sorriu com a sugestão do namorado. O entusiasmo crescia. André prosseguiu.
_ A gente estava quase chegando em Urubamba, o próximo lugarejo, quando passou um ônibus escolar. O Sérgio, que estava quase morto, fez sinal, e eles pararam. A gente acabou indo até Ollantaytambo, uma cidadezinha maior, de onde sai o trem pra Águas Calientes, onde fica Macchu Picchu. A gente conseguiu uma hospedaje por lá pra passar a noite.
_ Esse dia foi mais um aquecimento, eu estava fora de forma, e fumava, na época. No dia seguinte é que a gente pegou uma trilha mais pesada, subindo. Passava em uns três lugarejos… Pallata, eu acho, foi onde a gente parou pra lanchar. Mais na frente, vinha subindo um caminhão e a gente pegou carona. O André queria tentar ir até uns lagos que estavam no mapa, mas a gente passou direto e quando o caminhão parou a gente resolveu seguir uma família, só o pai falava algum espanhol. Dali em diante foi como uma viagem no tempo: tanto pela paisagem exótica quanto pelas pessoas, que só falavam quechua.
André se levantou para buscar vinho; já estava bem chapado, tanto do vinho quanto da maconha, que só fumava de vez em quando. Amanhã é sábado, pensou, que se foda. Aproveitou para dispensar a doméstica, entregar-lhe o extra combinado (que mal valia o sacrifício de voltar àquela hora de ônibus para casa). Tentou ser rápido, para não perder a narrativa que tão boas recordações evocava, de lugares que talvez voltasse a visitar, se aquela conversa toda não se revelasse no fim — como sentenciou Kátia — mera conversa de bêbado. Chegando de volta, Sérgio lhe perguntou:
_ Como era o nome do tiozinho?
_ Jacinto, nuestro hombre en Huacahuasi!
IV
Riram-se às largas ambos camaradas, e André anunciou que aquele era um californiano, mas que era excelente; na verdade, tinha sempre um vinho mais barato para quando já estavam bêbados. O diretor, já de fogo, insistia em chamar atenção:
_ Ai, você me lembra um rapaz de São Francisco que eu conheci. Deus meu, o que era aquilo! — e fez um gesto com as duas mãos separadas pelo tamanho de um falo avantajado.
Carmen sentiu-se constrangida e levantou-se para puxar-lhe carinhosamente a orelha. Sérgio percebeu a deixa e retomou a narrativa:
_ Pois lá fomos nós com o Jacinto, esposa, filho e um perrito. Ele disse que ia para Huacahuasi. A gente olhou no mapa e simplesmente não tinha trilha até lá! Bem, confiamos nele quando ele disse que era perto: “dos horitas, poco, no más”, ele repetia. Dissemos que estávamos cansados, e lá vai ele: “despacito, dos horitas, poco, no más”. Sempre que a gente perguntava se estava perto ele dizia a mesma coisa.
_ A gente não conseguia acompanhar o ritmo deles, acostumados à altitude e ao trajeto, e ele ofereceu suas hojas de coca. Eu ia participar de uma seleção e achei melhor recusar, o Sérgio mascou com gosto.
_ Hoja de coca no es droga! — e chacoallhava o terceiro uísque.
_ Uma hora a gente chegou a um rio, com um pequeno plano. Eu percebi que era a deixa para ficar ali e erguer acampamento. O Sérgio queria ir adiante.
_ Só que quando eu fui falar eu vi que já não conseguia mais articular as palavras! Aí sem chance. Ficamos ali, fez um frio desgraçado quando a noite caiu; preparamos um macarrão com carne de soja e chegamos a conversar sobre a possibilidade de tomar Daime — a gente tinha levado uma garrafinha. Mas seria loucura… ou excepcional.
_ A gente deixou pra manhã seguinte a decisão: voltávamos pelo caminho conhecido ou arriscávamos chegar até Huacahuasi? De lá tinha caminho até outra cidade e aí passava uma estrada. Sei que apareceu um tio catando esterco de llama, figura improvável, catarro escorrendo, a cara queimada… Ele não falava quase nada de espanhol, eu entendi que ele estava indo pra Huacahuasi, e pensei que a gente pudesse acompanhá-lo. Ele dizia “dulce”, deve ter sido uma das únicas palavras em espanhol que ele disse, e eu dei uma bolacha recheada. No fim, a gente sacou que não ia obter nada dele. Aquela cena me lembra um conto do H.G. Wells…
_ Enfim, — Sérgio retomou — esse maluco aqui decidiu peitar o desafio, e seguimos por onde parecia haver uma trilha, que às vezes sumia, a gente ficava em dúvida, mas fomos adiante. Era longe pra burro, a gente nunca que ia chegar no dia anterior. Foi nesse dia que a gente foi mais alto, eu vi neve pela primeira vez. Sei que a gente chegou na casa do Jacinto (nuestro hombre en Huacahuasi), que ficava antes de chegar na cidade mesmo — se é que dá pra chamar aquilo de cidade.
_ Você está esquecendo que a gente encontrou outro cara, um jovem, no final do trajeto, lembra o nome dele?
_ Sem chance. Sei que ele me deu umas lições de quechua, mas eu não guardei nada. Bem, quando afinal a cidade apareceu, todo esforço se pagou: a paisagem era linda! O lugarejo ficava no fundo de um vale escarpado — deu um bom trabalho descer! — e seguindo o vale tinha uma cascata enorme, espetacular.
Sérgio olhou para André como que para “passar o bastão”, e assim iam acertando os ponteiro na narração compartilhada.
_ E a gente acampou lá, era no fim da tarde. Eram algumas casas de adobe ao longo de um riacho — o mesmo da cachoeira. Aliás, eu tinha esquecido, no começo da caminhada, quer dizer, partindo de Ollantaytambo, a gente passou por uma cachoeira e não teve dúvida: entrou debaixo; num frio medonho! Enfim, quando a gente acordou no outro dia, tinha um monte de moleque olhando pra gente como se a gente fosse alienígena! Muito engraçado.
O diretor entrou de novo em cena:
_ Olha, eu tô me sentindo até mal com minha vidinha confortável de “elite branca” (era uma alusão a uma declaração de um político). Eu nunca me meti numa aventura remoootamente parecida!
Carmen não ligou dessa vez, mas aproveitou a interrupção para observar que fazia muito frio ali fora, e convidou a todos para entrar. Sérgio precisou acordar Kátia, que dormia encostada em seu ombro. Mais dois dos atores se despediram. Sérgio percebeu que a hora era avançada e só então, sendo o papo tão bom, lhe ocorreu conferir o relógio (caríssimo), descobrindo que era uma e meia. Resolveu apressar a narrativa, que já estava mesmo perto do fim, e sinalizou a André, que prosseguiu.
_ A gente pegou a trilha para Lares. Moleza. Descendo, bem batida, e curta. Em Lares tinha águas termais, foi o repouso merecido. A gente ficou o dia inteiro praticamente de bobeira. À tarde a gente ficou esperando o transporte pra Cusco, e não viu nada. Só à noite a gente foi descobrir que era uma caminhonete comum, que a gente viu mesmo sair. Paciência.
_ Nós chegamos a dar entrada em uma hospedaje para ficar ali, quando apareceu uma van, a gente conversou com o cara, que disse que ia pra Cusco, e a gente subiu. Cara, eu só queria ter feito aquela trip de dia, para curtir a vista; a gente ia corcoveando, descendo a montanha; mas pelo menos tinha uma lua cheia. Chato foi a fitinha do George Michael! — os dois riram.
_ Então, aí quando chegou em Calca a gente resolveu descer. Ou foi em Pisaq que a gente dormiu?
_ Não foi Calca mesmo, no dia seguinte a gente foi pra Pisaq, conheceu as ruínas lá. Já disse que eu gostei mais que Macchu Picchu, né? No mesmo dia a gente voltou pra Cusco e quando retomamos o quarto no hotel e entramos debaixo da ducha quente (separados, é claro), — o diretor disparou outra gargalhada — foi uma sensação tão boa de dever cumprido!
_ Pois é. E ainda teve direito a mais um Mama África antes de voltar. Era cada enxadada, uma minhoca, lembra?
_ Ô!
Dali em diante os ébrios convivas foram se dispersando, se despedindo. Sérgio teve dificuldade para levar a sonolenta morena embora (e no dia seguinte já estaria com outra). Carmen percebeu que esquecera a vitrola rodando sozinha, e desligou tudo. Juliana, que ficou muito chapada com o beque, e ficou escutando tudo em silêncio — ou ao menos a parte em que ainda estava acordada –, levantou grogue e reafirmou a seriedade da proposta, antes de ir embora com o diretor, que não parecia nem um pouco cansado e ainda passou uma não tão sutil cantada em Sérgio. Todos prometeram voltar a se falar sobre o Projeto.
domingo, 4 de dezembro de 2011
Dia de um Podólatra: Manhã
Acordou devagar, e pareceram vários minutos aqueles instantes em que, desperto, fragmentos de sonho insistem que são reais e pedem que resolva alguma coisa urgente – era algo relacionado a um código ou algo assim. Olhou pela janela, claridade incipiente iluminava o muro onde se lia “só o cinismo salva”. Deve ser cedo: acordou antes de tocar o despertador, um minuto, como verificou; isso era razoavelmente comum e lhe parecia algo sobrenatural. Tinha que acordar cedo para ir ao dentista: dentista-aula-trampo-aula-prometo-que-vou-correr, passou-se-lhe em um átimo a agenda pela cabeça. Levantou-se como que impulsionado por molas – era um período em que estava bem disposto; livrara-se de uma renitente melancolia eivada de autocomiseração sem nenhum livro de auto-ajuda, apenas mandando tudo à merda mesmo: daí o slogan no muro.
Sua boca seca tinha um gosto insuportável, e escovar os dentes e passar um café era talvez menos um remédio para isso do que uma justificativa para retomar o hábito que o provocava (não que um cínico precise de justificativas, aliás). Apertou distraído o tubo e saiu uma quantidade pletórica de pasta, bastante para escovar os dentes desta engrenagem absurda que chamam de mundo (cedo demais para suas metáforas idiotas, pensou). Vou inventar a máquina de pôr a pasta de volta no tubo e ficar rico; e de quebra vou desmoralizar essa tal termodinâmica. Enxaguou a boca e enxugou-se. Meteu os pés num chinelo e conferiu o tamanho das unhas: ainda não; uma de suas idiossincrasias era esperar que ficassem bem grandes antes de cortar (o prazer era maior e o risco de se machucar menor). Chaleira no fogo, lembrou-se de que não colocara um disco pra rodar; voltou ao quarto e meteu a mão a esmo na seção de jazz: Freddie Hubbard, pôs a bolacha no pino (o ato sexual mais frequente que realizava) e delicadamente depositou a agulha na borda, ligou o mixer e o ampli e... voilà. Uma coisa que ele curtia no bebop era que a bateria quase sempre já entra solando em cima das convenções dos metais. A garrafa, o coador, o pó, despeja... mais um pouco; buscou o maço, cadê a porra do isqueiro? Fechou a garrafa, acendeu o primeiro cigarro do dia no fogão mesmo. Ela vai perceber que voltei a fumar e vai dar um esporro: deixa os dentes amarelados (como se eu já não soubesse). Ligou o micro – o que já devia ter feito, para ganhar tempo; uma falha no seu algoritmo matinal. Tinha uma necessidade patética de aceitação, que se manifestava – dentre outras coisas – em piadinhas que compartilhava esperando a reação dos “amigos” virtuais. Nada. Zero. Desligou a parafernália: melhor assim, só ia perder tempo.
Olhou o relógio: quarenta minutos, são no máximo quinze até lá. Sua serviçal tinha deixado fruta picada, comeu um pouco; tinha cereal e granola, mas nunca comprava leite. Ou pão, ainda que tivesse queijo. Dá tempo de ouvir esse lado. De volta ao banheiro, outro cigarro no cinzeiro, espumou o rosto arredondado; tinha o hábito de pôr a tampa na pia e assim usar a mesma água para limpar o barbeador (eu faço a minha parte, sorriu): barbeou-se uma vez, deu uma tragada e escanhoou-se apenas nas bochechas. Que pele linda que você ainda tem (sempre foi vaidoso). Olhou pra baixo. Recentemente tinha se apercebido de que seus próprios pés eram bonitos. Desde o tornozelo o contorno era harmonioso, sem tendões salientes, uma penugem discreta, o dedão bem desenhado, talvez só um pouco separado demais dos outros quatro dedos, que formavam uma diagonal perfeita. Que conflito: agora eu quero me comer. Mas eu já me fodo o tempo todo, mesmo! A caneca de café estava ao alcance da mão na pia de granito enquanto, sentado no vaso, lia um pouco do Bukowski. Delongou-se mais do que exigiu a fisiologia propriamente dita. Banhou-se cantarolando Beatles. Vestiu-se de jeans claros, uma camiseta vermelha do Trout Mask Replica (um sujeito com máscara de peixe e chapéu de turco), uma camisa também vermelha por cima. Nos pés, um lustroso sapato negro de bico quadrado, por sobre meias roxas. Pôs no pescoço um colar com duas voltas de sementes verdes e na cabeça seu chapéu de feltro marrom. Seu figurino favorito (ele veria aquela...). Escovou-se de novo, mesmo não tendo praticamente comido nada (mais de uma vez sentira o constrangimento de ir ao dentista de boca suja). Acertou a mão na pasta desta vez, pelo menos.
O carro estava mais uma vez imundo com excrementos do pássaros que faziam ninho no telhado. Malditos. Ligou o som; o banco do passageiro estava repleto de estojos de disco, e o traseiro ainda mais. Começou a tocar Eric Dolphy; esse cara devia estar na primeira divisão do jazz, é o maior injustiçado do gênero. Mas já tinha escutado o bastante disso: voltou ao Avant Garde Project: Luciano Berio (adorava escutar essas maluquices no último volume e escrutar a reação das pessoas – carências...). Em dez minutos estava estacionando do lado de fora de um Qualquer-Coisa Center onde ficava a clínica odontológica. No hall, lá vinha uma mocinha bonita, morena de cabelos curtos, acompanhada aparentemente pelo pai, que lançou um olhar na sua direção e sorriu encabulada; infelizmente usava tênis brancos. Agora, demorara para achar um dentista confiável, ou uma, mas era simplesmente impossível escapar da Veja e da Antena 1. A revista bastava não ler (o velho Buk o acompanhava), mas contra a rádio seriam precisos fones de ouvido, precisava lembrar da próxima vez.
Vamos entrando? Um pouco de conversa miúda, o tempo como sempre, esticou-se na cadeira e abriu a boca. Ela não falou do cigarro ainda. Voltou a pensar naquela. Tinha pés enormes, mas lindos. Obviamente os pequenos tendem a ser mais delicados, mas os dela eram muito bem feitos: os dedos roliços – o segundo maior que o dedão – tinham belas unhas pintadas de um inusitado azul claro havia uma semana. Além do mais, ela precisaria deles grandes para transportar quase um metro e oitenta de uma ruiva corpulenta mas ao mesmo tempo esguia como uma cascavel. Seus lábios carnudos estavam sempre pintados com um rubro que valorizava os cabelos, provavelmente tingidos, mas num tom muito natural, escuro. Faziam dois arcos até a altura dos ombros, dos quais ele viu um uma vez, quando ela puxou a camiseta folgada de lado: que ossos! Pode cuspir. O que mais a distinguia, entretanto, eram os óculos de armações enormes e transparentes, onde olhos castanhos claros pareciam perdidos. Esses mesmos olhos um dia, entrando na sala, cravaram-se nos dele, por longos segundos, e desde então repetidas vezes (repassou cada uma, lá com a boca escancarada). Uma beleza fora do óbvio, repetia. Ele tinha um plano para mais tarde. Saiu de lá com a boca torta, até fumar era estranho, e teve que desistir de cantar a música do Genesis que era a única que sempre lhe vinha à mente. Também não havia ninguém por ali para impressionar. Percorreu uma distância enorme, o que por um lado permitia ouvir mais música, e chegou ao campus da universidade. Subiu ainda mais o volume e prestou atenção num grupo de três jovens que passavam enquanto estacionava; a soprano disputava com as dissonâncias do piano e a percussão ensandecida no quesito esquisitice. Uma olhou chocada: estamos bem.
Não se dirigiu diretamente à sala, tinha que buscar um café. No corredor, detectou um, dois três pezinhos bonitos. O bom da podolatria é que as pessoas simplesmente acham que você está olhando para o chão; você pode, por exemplo, devorar com os olhos o pé de uma garota acompanhada, sem nenhum constrangimento. Mas ele sempre torcia para que elas percebessem e demonstrassem alguma emoção, que fosse perplexidade ou até repulsa; às vezes ganhava mesmo um sorriso cândido, e essa era a glória suprema. Por isso acabou desenvolvendo um modus operandi: se o rosto e o estilo em geral agradavam, conferia os pés; sendo bonitos, encarava como um maníaco (sem esforço algum) e só daí buscava os olhos da moça. Às vezes nem isso: bastavam os pés; além do mais, olhar uma mulher nos olhos é mendigar sua atenção, não raro só obtinha uma expressão arrogante de desprezo. Dependendo de seu humor, não via nem o rosto, que podia estragar tudo (e o fazia muita vez). Na fila da cantina, se alguém podia chamar aquela espelunca de cantina, umas sandalinhas de couro o encheram de esperança, mas decepcionou-se logo: o terceiro dedo era maior que o segundo, e isso estragava tudo. Café duplo pra viagem; expresso, é claro. Foi fumar do lado de fora, e elas passavam: tênis, bota, chinelos... putz! Ela se aproximou mais, era morena de cabelos cacheados e longos, um rosto interessante, blusinha branca e saia florida. Os chinelos eram cor-de-rosa, trinta e cinco no máximo, ela era miúda; os dedinhos formavam uma parábola com ápice no segundo, a pele cor de caramelo. Coisa para os dez mais, cinco talvez. Olhou pra cima e ela estava olhando pra ele, mas disfarçou. Virou o pescoço para admirar o movimento das ancas. Velho tarado. Apagou o cigarro e foi andando até a sala.
Dez minutos atrasado, tudo bem. Tinha uma moreninha que estava sempre com o cabelo molhado, às vezes olhava pra ele; estava logo na entrada, e ficou olhando pra sua camiseta. Só uma vez alguém a tinha reconhecido e comentado, foi logo após a morte do Captain Beefheart, na entrada de um show de Zappa Cover, terreno propício. Achou uma carteira e prosseguiu bebericando o café; discutiam um livro muito ruim que o fizeram ler: ia ter de se conter. Gostava de participar das aulas, mas tinha de se policiar: tentava filtrar o que era relevante do que era mera vaidade intelectual. Olhou na direção da morena; ela olhou de volta, rápido. Deve ter namorado. Ele tinha pesquisado: redes sociais e tal, havia uma referência a um Carlinhos (não tinha o menor respeito por homens que aceitam ser chamados por um diminutivo) meses atrás, depois nada; omitia o “status de relacionamento”. O cabelo molhado era porque estava vindo do remo, e ela trabalhava em um órgão vizinho ao seu, inclusive. Nada muito interessante, melhor esquecer. Acabou levantando o dedo e falando alguma bobagem: tinha um jeito muito cordato de alfinetar a professora e toda sua concepção literária, e o fazia com certa elegância nos trabalhos escritos, que eram corrigidos óbvia e infelizmente pela monitora. Aliás, que monitora: a negra mais bonita que já vira não seria exagero nenhum. Acho que nunca vi seus pés, pensou. Virou-se e lá estava ela, mas os pés ficaram eclipsados. Mais dez minutos e eu busco outro café. E um anti-ácido: tinha sempre no carro.
No intervalo, teve uma surpresa, a moreninha dos chinelos cor-de-rosa estava sentada em uma das mesas, com um computador portátil; pediu o café, na xícara agora, e sentou-se defronte a ela e abriu o Bukowski. Volta e meia ria com o livro (isso sempre chama a atenção das pessoas), e às vezes flagrava os olhinhos dela, quase negros, na sua direção. Será a camiseta? Não demorou até que ela se levantasse e sumisse, gingando tão suavemente no caminho. Mais um duplo, mais um cigarro e de volta à aula. Os olhos da morena. Ela também estava de chinelo, azul escuro ou preto talvez; seus pés não eram feios, longe disso, mas também não o entusiasmavam. Ali do outro lado tinha outra bem charmosa, mas que parecia simplesmente não estar lá. Aliás, ele também não estava: estava na aula da noite. Quando percebeu, estava respondendo chamada. Entrou no carro e o volume obviamente exagerado o assustou: à medida em que os ouvidos se acostumavam ele ia subindo; sabia que tinha que mudar isso, afinal um idiota com o volume alto demais é um idiota não importa o conteúdo musical.
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