terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Deus os Tenha pt.5

Eu tenho ótimos vinhos em casa, sabia? Ah, é, espertinho? Tá achando que eu caio nessa? E música, você gosta de quê? Ah, de MPB, basicamente. Roberto Carlos? Sou apaixonada por Roberto Carlos. Eu tenho a coleção completa, até o Louco Por Você, o que ele proibiu; custou uma fortuna esse LP. Ele estava digitando a senha do cartão. Tá um pouco tarde, meu turno amanhã é pela manhã... Vai ser só uma garrafa, eu prometo. Beijaram-se. Pediu licença para usar o banheiro. Lá fora ele explicou: só acontece que eu moro um pouco longe, você não quer deixar o carro em casa? Ele ficou admirando as torres que “ele” construiu, fez questão de descobrir o apartamento dela. Dirigiram quase meia hora para chegar ao condomínio dele.

Você já ouviu este disco? Não, mas já ouvi falar, é bom? Não é o melhor dele, mas eu gosto. Beijavam-se no sofá enquanto as taças esperavam na mesa de centro. Depois de um tempo ele se permitiu percorrer o corpo dela com a mão livre, ela cravava as unhas no pescoço dele, ele pressionava o crânio dela com as duas mãos e beijava com mais volúpia, passou ao pescoço, à área atrás da orelha, dava mordidelas no lóbulo; ela arrancou-lhe de vez a gravata e abriu alguns botões da camisa da sorte para acariciar os pelos em seu peito, ele sussurrou que fossem para o quarto. Ele providenciou uma luz indireta, trocou o Rei por um smooth jazz e ligou o ar condicionado, ainda que não estivesse quente. Beijaram-se e tocaram-se mais um pouco, sentados na beirada da cama, primeiro, e depois deitados; ele tentou abrir a saia dela, não conseguiu, ela o fez facilmente, revelando uma charmosa lingerie verde, o que já era mesmo o melhor palpite dele a partir da transparência da camisa, que ele desabotoou sem problemas. Enquanto a beijava na orelha, ficou claro que ela gostava, ele passeava as pontas dos dedos pela parte interna das coxas dela, ela tinha fremidos de desejo, até que se virou por cima dele, ainda de calça, cavalgando-o; seus longos cabelos negros caíam sobre o rosto dele, faziam cócegas, ele a segurava pelas ancas e erguia a cabeça para tentar alcançar seus lábios, ela fez uma brincadeira de dominadora, dando e tirando, até que escorregou para trás, desatou-lhe o cinto e abriu-lhe a braguilha. Dentro da cueca, o membro de Lúcio, nem grande nem pequeno, latejava – sua ida ao banheiro antes de sair do restaurante o resguardava de qualquer imprevisto; ela o tirou para fora, brincou com ele com a mão e depois com a boca; ai, Roberta, faz assim, faz, ele gemia. Ela se ergueu, tirou o sutiã, tinha seios pequenos muito bonitos, auréolas escuras; rodou para o lado e tirou a calcinha também, foi a vez de ele saborear seus seios e então suas coxas e por fim os lábios que não falam. Não falavam havia muito tempo, mas naquele momento diziam venha e me penetre agora mesmo. Ele entendeu e subiu por cima dela, iniciando movimentos vigorosos que lhe arrancavam ais e uis; ora apoiava-se nos braços esticados, ora desabava todo seu peso sobre ela, o que a agradava muito; depois de um tempo, ela ficou apoiada sobre as mãos e joelhos sobre a cama enquanto ele, em pé, encaixava os dedos na bacia dela, trazendo seu traseiro contra seu falo, ela olhava para trás com um sorriso lascivo que lhe realimentava o ímpeto: puxou-a pelos cabelos. Ela estava muito excitada, seus fluidos ajudavam os dois a nem perceberem o preservativo. Quando se sentiu cansado, ele se deitou e ela enfim o cavalgou de fato, os cabelos voltavam a cair sobre o rosto, ele voltava a se erguer, buscando agora seus seios. Ela começou a intensificar os gemidos, que já pareciam mais gritos, até que um sorriso beatífico lhe invadiu o rosto; ele pediu que ela se deitasse e a cobriu, penetrando-a de modo rápido, animalesco, até que ele explodisse em prazer, com urros graves, guturais.

Deitaram-se lado a lado, exaustos demais até para dar qualquer atenção um ao outro. Foi ela quem falou primeiro: eu cheguei a pensar que nunca mais ia sentir isso. Bom, eu há muito tempo não sentia com essa intensidade. Verdade? Claro, e para você, também foi bom? Nossa, preciso dizer? Não deu para perceber? Ele se virou de lado, apoiado em um cotovelo; vaidade e excesso de confiança fizeram-no cometer uma grosseria, agravada por um equívoco imperdoável. Então, eu transo melhor que o Leandro? Ela ergueu o tronco. Leandro? Leandro?! Eu não acredito que você foi falar isso, e ainda troca o nome, você também! Pulou da cama e começou a procurar as peças de roupa, que ia vestindo enquanto ele tentava consertar a burrada. Roberta, me desculpa, foi uma brincadeira sem graça, eu sei, vamos conversar. Ela estava irredutível, terminou de se vestir e determinou que ele chamasse um táxi, passou na sala e bebeu meia taça de vinho em um gole só. Reiterou a ordem. Ele pensou que o tempo de um táxi chegar era o suficiente para ela se acalmar, e chamou. Ela foi até o som e pegou o disco do Roberto Carlos, apoiou-o na estante e o quebrou com o sapato. Ele não quis insistir, esperou em outro cômodo até que o tocasse a campainha, deu uma nota ao motorista e não conseguiu arrancar nem um boa-noite. Assim terminou o primeiro encontro de Roberta e Lúcio. Nada que rosas brancas não resolvessem no dia seguinte, entretanto.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Deus os Tenha pt.4

Roberta? Oi Lúcio! Espera que vou transferir pra minha sala. Fez um sinal à secretária e entrou. Roberta, eu tentei te ligar, caía numa mensagem. Que número você discou? Ele disse. É vinte e sete, não dezessete. Putz, eu ainda tentei trocar o três por seis, e... poxa, me perdoa. Não tem problema, ela mentiu, mas pense duas vezes antes de dizer por aí que tem ótima memória. Poxa, eu não sei o que dizer, nunca aconteceu... Relaxa, Lúcio, não é o fim do mundo; você está ocupado, não? Na verdade não, eles já se foram. Tá tudo bem contigo?, já faz um tempo... Tá sim, mentiu de novo, sabe como é, o de sempre... Onde estávamos mesmo?, brincou ele. Ah, já esqueci, acho que você ia perguntar alguma coisa. Roberta, você quer jantar comigo? É claro que quero, eu te liguei, não? Que tal sexta-feira? Que tal hoje? Ele sorriu da pressa dela, depois da resistência inicial. É melhor ainda! Massa? Adoro massa. Que horas? Nove? Nove. Quer que eu te busque ou nos vemos lá? Não precisa, eu vou de carro, onde fica? É no Araucária, entra no site que tem um mapa. Qual o endereço? Da trattoria ou do site? Dos dois. Faz uma busca por Nonna Dora, dois enes, a rua é Prospero Tranquili, o número é... espera um pouco... quatrocentos e oitenta. Que cara sortudo esse que se chamou Prospero Tranquili, será que ficou tranquilo depois da prosperidade? Você tem um senso de humor peculiar. E isso é bom? Não tem nada em você que não seja bom. Você precisa me conhecer melhor, então. É o que mais quero. Às nove então? Sim, estarei lá. Um beijo. Beijo, tchau.

Ele chegou com dez minutos de antecedência e pediu uma água com gás. Ela chegou com apenas dez minutos de atraso, isso porque iniciou as preparações uma hora e meia antes. Estava em uma saia verde, justa, pouco acima do joelho, e uma camisa de um azul esverdeado, ligeiramente transparente. Era mais ousado do que qualquer coisa que jamais usara, havia comprado naquela tarde: ligou para a colega que lhe devia um favor. O sapato era azul, aberto, exibindo belos dedos, com esmalte incolor, a exemplo das mãos. O batom era de um vermelho discreto, assim como a sombra verde; completavam o arsenal muitos lápis, pós e cremes. Ele a recebeu com um sorriso e dois beijinhos, disse que estava linda. Vestia um terno risca de giz, preto, camisa branca e uma gravata verde-amarelado, sapatos pretos que brilhavam e um relógio prateado enorme. Puxa, que confusão, não? Nem me fala, eu comecei a desconfiar que você tinha esquecido meu número, aí eu achei o número da construtora na planta do apartamento. Ele riu. Meu telefone está na lista. Ah, eu jogo fora, me acostumei a usar internet. Que bom que deu certo, estou muito feliz que você tenha aceitado. Arriscou um carinho em seu rosto. Calaram-se quando o garçom trouxe os cardápios, ela voltou a pedir o refrigerante favorito, ele pediu bruschettas de entrada. Me diz, você é daqui mesmo? Não, toda minha família é do Mato Grosso, eu vim com  dez anos; depois todos voltaram, menos eu. Uma irmã estava conversando comigo de vir para cá, o Leonardo deixou alguma coisinha, e pensei em montar uma clínica minha, ela ajudaria; mas não consegue se desenrolar. É homem? É, isso e várias outras coisas. Tem mais irmãos? Um meio irmão, a gente não tem muito contato com ele, está no acre. E você? Bom, eu já contei um pouco, da minha mãe biológica eu fui o único, tenho dois irmãos de criação, nós não nos falamos: são uns fracassados que fumam maconha até hoje, provavelmente, não surpreende que ela tenha me escolhido; eles me odeiam, é claro. E seu padrasto, é vivo? Sim, eu dou uma mesada a ele, faço uma visita ocasional, ele já está surdo, não me reconhece também. Que triste. Mas, Roberta, você deve levar adiante essa ideia da clínica, mesmo sem sua irmã. Às vezes me parece que você ainda está num estado de choque e não quer começar uma vida nova. Não é bem verdade, eu não estou aqui com você? Ele repetiu a mesma carícia terna no rosto, mas desta vez escorregou a mão para sua nuca, e deu o primeiro impulso, que ela respondeu com vontade, aproximando os lábios. Foi um longo beijo; ela já sentia falta daquela sensação.

Bom, o gnocchi à bolonhesa é uma especialidade, o penne à carbonara também, do que você gosta? Ah, gosto muito de lasanha. Eles têm uma aos quatro queijos que é divina. Você vem sempre aqui então? Sim, eu gosto bastante. E quantas mulheres você já trouxe aqui? Só duas, ele deveria dizer dezenas, minha ex-esposa e você. Mentiroso. Haviam juntado as cadeiras e ele a abraçava pela cintura, ela mergulhou a cabeça em seu ombro. Então lasanha para você e penne para mim. Vinho branco? Sinalizou ao garçom e fez os pedidos. E como é a vida na construtora? Ah, trabalha-se bastante, temos cinco unidades em construção agora, são centenas de empregados... Você abriu com o dinheiro da herança? Sim, na verdade eu tenho cinquenta por cento mais um, e três outros engenheiros entraram com o restante; um estudou comigo, na verdade. Você estudou aqui mesmo? Sim, na federal, e você? Também, mas certamente bem mais tarde. Está me chamando de velho? Não, Lúcio! Estou dizendo que já tinha quase trinta quando comecei a estudar. O que você fazia antes? Trabalhava no shopping, vendedora; era um inferno, não tinha fim de semana. As bruschettas chegaram, ela as elogiou muito; pediram água para limpar o paladar e seguiram se beijando. Faz muitos anos que você se separou, nunca quis... Casar de novo? Não. Por convicção ou por que não conheceu ninguém? Ele se desvencilhou o abraço e respirou fundo. Olha, teve uma pessoa com quem eu me envolvi de verdade, mas foi logo depois do divórcio, eu não queria ouvir falar em casamento, até experimentamos morar juntos, mas foi o bastante para que fosse pelo ralo. De lá para cá, não sei, às vezes me parece que foram apenas preenchimento, não significavam nada, nem duravam muito. Eu fico pensando que elas só querem meu dinheiro, e é o mais provável. Você acha que eu só quero seu dinheiro? Não, você não, você... transmite segurança. Mais um longo e vigoroso beijo. E você, desde que ele se foi... não aconteceu nada? Mas é claro que não! Que pergunta, se você nem queria sair comigo! Eu nunca nem aceitaria aquele café se você não tivesse me impactado tanto desde a primeira vez. Eu te impactei? Nossa, eu me lembro até hoje como você estava linda de luto. Pára, Lúcio, isso já é demais. Tudo bem, me desculpa. Olha, eu até estou usando minha camisa da sorte. Você tem uma camisa da sorte? Bem, é a camisa do dia em que eu te vi pela primeira vez, e pela segunda também. Mentira. É sério. Os pratos foram servidos, e a conversa íntima deu lugar a comentários sobre a aparência dos pratos da Nonna Dora, logo a elogios ao sabor, aí então Roberta ergueu a taça e fez uma confissão. Sabe, eu tenho tomado muito vinho ultimamente. Ah,vinho faz bem. Não, eu tomo meia garrafa todas as noites, isso me preocupa; eu mal bebia antes. E por que então você acha...? Ansiedade, é claro. Eu estava esperando alguém me ligar... Roberta, eu quero te agradecer por ter tomado a iniciativa de me procurar, hoje eu vou salvar seu telefone. Assim que terminaram de comer, a primeira coisa que fizeram foi registrar o número um do outro na memória.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Deus os Tenha pt.3

Comeram, ela reconheceu que era uma delícia, nunca tinha ouvido falar naquele lugar. O Leo não gostava muito de sair, só íamos a restaurantes em algumas ocasiões especiais, e cafés deste tipo eu nunca tive costume de frequentar. Ah, que pena, é uma das coisas boas da vida; especialmente com uma companhia tão agradável como você. Ela sorriu, mas ficou pensativa. Lúcio, não me entenda mal, você é um homem muito... simpático e educado, foi ótimo conversar um pouco, mas eu acho que é prematuro... Faz um ano, Roberta, ele tomou as mãos dela. Não faz ainda. Onze meses, onze meses e um dia, que diferença? Ele significava tudo para mim, Lúcio, não sei, eu estou confusa; preciso pensar a respeito. Nós nos conhecemos no velório dele, seria uma falta de respeito! Eu nunca estive no velório, nós nos vimos na floricultura e sequer conversamos; nós nos conhecemos hoje. Ela livrou as mãos e passou uma pelos cabelos lisos, bebeu o que restava do refrigerante e voltou a mirá-lo. Eu prefiro que a gente... Me dá seu telefone, ele a interrompeu. Você não vai salvar no seu? Não, eu tenho ótima memória. Ela deu o número. Consultou o relógio e disse que tinha de se apressar. Ele pediu a conta e resolveu arriscar. Você disse que não costumava ir a restaurantes; eu conheço um ótimo de frutos do mar, você gosta? Não tenho muito o hábito... E trattoria? Massa? Ela apoiava o cotovelo na mesa e o rosto na mão espalmada, voltou-se a ele segurando o queixo com dois dedos. Me liga na sexta-feira, pode ser?

Ele pagou a conta e despediram-se bem mais formalmente do que ele esperava quando chegaram. Esteve com a namorada naquela noite, mas ela lhe parecia insuportável em sua juventude: deu-se conta que tinha ao seu lado alguém que ele gostava de exibir, e que talvez gostasse mais de seu dinheiro do que dele mesmo. Roberta não lhe saía da cabeça, assim como o número de telefone que ele repetia para não esquecer. Ela estava distraída no trabalho, e chegou a cometer um erro, que por sorte pôde corrigir a tempo: ia receitar um remédio de cachorro para um gato. Leonardo podia ter seus vários defeitos, mas era extremamente carinhoso e dedicado, e o episódio da doença os havia unido ainda mais. Ela não superara sua morte, e sentia sua falta; mas tinha uma vida para viver, outra vida a construir, na verdade, e Lúcio parecia perfeito para ser seu companheiro, até onde ela sabia, pelo menos. Ficou feliz que não o tivesse beijado no mesmo dia, nunca foi de sua natureza, mas decidiu aceitar seu convite para um jantar, quando ligasse.

Chegou a sexta. Ele ligou pouco após o almoço; uma gravação dizia que o número não existia. Ficou nervoso, repetiu várias vezes a operação, com o mesmo resutado. Sua memória teria falhado? Experimentou variações, nada. Em seu desespero, pesquisou por veterinárias com o mesmo nome, achou três, mas nenhuma era aquela, que também nunca disse o sobrenome. Ela achou estranho ele não ligar, e, sozinha em seu apartamento, amaldiçoava-se por ter construído tantos sonhos com aquele homem, também por não tê-lo beijado no café: ele deve ter se aborrecido e desistido de tudo. Ele estava tratando tão mal a namorada que foi ela quem terminou o relacionamento, mas teve raiva da indiferença dele. Vivia esperando o próximo dia dez, que era o único meio que via de rever Roberta. Ela se convenceu de que fora esquecida e foi criando o hábito de beber vinho todas as noites; estava quase bêbada uma noite, quando teve uma ideia: olhou a planta do apartamento, que estava esquecida em algum armário, e achou o telefone da construtora. Na manhã seguinte, não conseguia se decidir a ligar: não é papel da mulher. Uma taça da garrafa que sobrara da noite anterior a ajudou a discar o número. Concivil, bom dia. Eu gostaria de falar com Lúcio Medina, por favor. Desculpe, senhora, aqui é atendimento a clientes. E você pode tranferir? Não é possível, mas vou te dar o telefone da secretária dele. Ela anotou na própria planta e agradeceu, deu a última golada no vinho e discou o novo número. Concivil, presidência, bom dia. Eu gostaria de falar com o sr. Lúcio Medina, por favor. O sr. Medina está em reunião, gostaria de deixar recado? Sim, peça para ligar para Roberta, no número tal e tal. De onde? Como assim? De qual empresa? De empresa nenhuma. Você é parente, amiga? Diga que é a Roberta do cemitério. Roberta do cemitério?! Ele estava se despedindo de alguns engenheiros na porta do escritório, e quando ouviu aquilo correu para tomar o telefone da secretária.

sábado, 28 de janeiro de 2012

Deus os Tenha pt.2

Ela sentia uma excitação mesclada de arrependimento, como podia ter sido tão impulsiva! É claro que sabia a resposta: por mais que a memória do marido estivesse muito viva, ela já começava a se sentir só. Ele sorria com mais um triunfo iminente: na verdade, tinha uma namorada, muito jovem, o que não o impedia de flertar por aí. Em um semáforo, ele, distraído, passou no amarelo, e ela ficou retida. Quando checou o retrovisor e não a viu, proferiu um palavrão e encostou. Por sorte ela o alcançou e seguiram até uma pequena galeria, onde estacionaram. Conseguiram uma mesa numa varanda com muitas plantas, o garçom trouxe os cardápios, mas ele sem os abrir pediu um doppio e um latte. Ela gostou que ele escolhesse por ela, os homens deveriam estar pelo menos aparentemente no comando.

E uma água com gás, dois copos, completou quando o garçom já virara as costas. Bem, eu queria dizer, voltando-se para ela, que lamento muito você ter ficado viúva tão jovem. Trinta e oito não é tão jovem. Como não, é o auge da mulher, ele galanteou. Arrependeu-se, estava se apressando; mas ela reagiu bem. É, fora a pele, eu não me trocaria por mim aos vinte e cinco. Ele não se conteve: mas sua pele é linda, eu não te daria mais que trinta. Ela elaborou um olhar de acanhamento e passou a examinar o cardápio. Posso perguntar como ele morreu? Sim, não há problema. Foi câncer. Ele fez uma careta. Longa batalha, sofrida, suspirou. Ele fumava muito. Mas era novo como você? Ele morreu pouco antes de completar quarenta e cinco. Que tragédia, Roberta. E ficou sem saber o que dizer. Optou pelo protocolo. Com que você trabalha? Eu sou veterinária, mas eu também ajudo minha irmã em sua empresa de festas, uma espécie de consultoria, só que mal remunerada. Ele deu uma risada curta. Os cafés chegaram.

Eu nunca tomei esse café, é bom? Sim, eu espero ter acertado seu gosto; você gosta mais forte? Ah, eu quase não tomo café. Você vai gostar. E você, o que faz? Eu tenho uma construtora. Ela arregalou os olhos, está nadando em dinheiro, então. Nem tanto, mas estamos crescendo; em que bairro você mora? Colinas, perto do viaduto. Naquelas três torres novas? Isso mesmo, como sabe? Foi um palpite; fui eu quem construiu. Eu? É, nós. Nós ou eles? Ela tomou um gole do café saboreando sua provocação. Eles não corstruiriam sem mim, nem eu sem eles. Foi só uma brincadeira. Eu me mudei para lá alguns meses depois da morte do Leo. Fiquei sozinha num três quartos antes que... nós desistimos da adoção quando ele recebeu... e ficou de repente chorosa; tirou uma caixa de lenços da bolsa. Você, tem filhos? Uma filha, vive com a mãe. Eu tenho uma também, na verdade; vive com o pai no Canadá, passa um mês por ano comigo. E você vai sempre ver sua mãe? Foi uma coincidência nos reencontrarmos, não? Eu vou todo dia onze, religiosamente, e olha que não sou religioso. Nossa, eu vou todo dia dez, mas ontem tive que dobrar para cobrir uma colega, fui hoje. Agradeça a sua colega em meu nome. Os dois sorriam um pro outro afetuosamente; ele quase tentou beijá-la, mas não ousou. Que bonito isso, Lúcio, essa consideração. Ah, eu sinto que é minha obrigação, e sinalizou a xícara ao garçom, pedindo outro café duplo.

Ela não era minha mãe biológica, que morreu num acidente, era a melhor amiga dela. Meu pai desapareceu antes de eu nascer. Era uma mulher de temperamento forte, e que me criou com estrita disciplina, o que era verdade também para os filhos biológicos dela. O pior era que ela queria controlar tudo no meu destino: quando jovem eu quis estudar artes plásticas, ela praticamente me obrigou a fazer engenharia, pelo que hoje sou grato. Ela não gostava de nenhuma namorada minha, pegava no pé. Eu não podia chegar tarde nem com mais de dezoito anos. Assim que eu consegui um emprego com um salário melhor eu saí de casa e falei um monte de bobagem para ela. Um tempo depois, ela brigou com o marido, e os filhos, também ressentidos com seu despotismo, tomaram partido do pai. Ela viveu o resto da vida sozinha. O que ninguém soube até que ela morresse foi que ela recebera em algum momento uma gorda herança de um tio solteirão; e ela legou tudo a mim. Só aí eu me dei conta do idiota que fora: aquela mulher aceitou me criar, dedicou, senão seu afeto, seu empenho por vinte anos, a ela eu devia tudo o que era, e agora o que tinha no banco. Bem, eu prometi a mim mesmo visitar sua sepultura mensalmente, e faço isso sem falhar há quase doze anos.

Mas estou falando demais, conte você alguma coisa. Como o que? Ah, você disse que tem uma filha no Canadá, foi um primeiro casamento? Ah, nem chegou a ser um casamento, foi um caso e um acidente. Eu tinha ido lá trabalhar de babá e estudar inglês, logo após terminar a faculdade, não estava achando emprego afinal. Eles tinham um vizinho, bonito, bem sucedido, solteiro. Depois que ele me viu a primeira vez, passou a frequentar a casa o tempo todo. Quando teve a primeira chance de conversar a sós comigo, ele me convidou, todo atrapalhado, para jantar. Eu sentia um impedimento ético, tive uma educação muito conservadora, e disse a ele que teria que fazer o convite na frente dos meus anfitriões, que deveriam consentir. Eles eram pessoas super modernas, e ficaram entusiasmados com a ideia. Nós estávamos juntos havia três meses quando eu descobri que estava grávida, meus pais quiseram que eu voltasse imediatamente, ele queria se casar. Nós brigávamos cada vez mais até a Corin nascer, eu fugi para o Brasil, houve uma disputa judicial e nós perdemos. Saiu até na tevê. Que idade ela tem? Quinze anos, está uma moça linda. Você mal tocou o café, quer outra coisa? Ah, pede uma coca para mim. Claro. E a sua? Como? Sua filha? Ela tem dezenove, Paula é o nome dela, é tão bonita que trabalha de modelo em eventos, mas leva a faculdade de Direito muito a sério. Faz tempo que você se separou? Faz, treze anos. Nossa, e depois que ela soube da herança ela se arrependeu? Ele riu. Isso você tem que perguntar a ela... O rapaz chegou com o refrigerante e Lúcio perguntou a Roberta se ela queria comer alguma coisa, recomendou uma torta de chocolate com amêndoas. Ela aceitou a sugestão, ele pediu um quiche de queijo do reino e tomate seco. Depois da torta eu acho que eu vou, tá? A ele lhe pareceu que era só charme: calma, tá cedo ainda.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Deus os Tenha pt.1

Era uma floricultura dentro de um cemitério. Pequena, simples, as opções eram acanhadas, as coroas, feias. Um senhor de terno preto e camisa branca, sem gravata, passou a mão pelos cabelos já quase todos brancos, e disse qualquer interjeição, só para quebrar o silêncio. Ele era magro e usava barba, um belo cinquentão na verdade, um rosto conhecido dos funcionários dali, cujos nomes ele conhecia. Ela se impacientou e bateu palmas, tirou os óculos escuros e enxugou os olhos. Trajada da cabeça aos pés de negro, cor que também tinham a bolsa e os cabelos atados num coque, não tinha muita experiência em enterros: apenas uma avó havia morrido. Não parecia ter chegado aos quarenta, e mesmo numa circunstância como aquelas era uma mulher que chamava atenção. O funcionário apareceu, pediu desculpas, enxugando as mãos no jaleco. O homem grisalho havia chegado antes, mas fez sinal para que ela pedisse. Ela agradeceu, disse ao rapaz que haviam errado o nome de seu marido na coroa, que ele em vida detestava ser chamado de Leandro, era um desrespeito. Ele se desdobrou em perdões, garantiu que ia providenciar outra faixa e pediu que ela escrevesse o nome em um papel. Ainda teve que ir lá nos fundos buscar uma caneta. Ela não agradeceu, acenou com a cabeça para o senhor e voltou ao velório. Ele pediu um vaso de crisântemos amarelos, escolheu um menos murcho, pagou e se dirigiu ao túmulo velho conhecido.

Depois daquele dia, ele seguiu sua tradição de mais de dez anos de visitar mensalmente o túmulo de sua mãe, todo dia onze; ela iniciou a mesma rotina, mas no dia dez. Dez meses se passaram, no décimo primeiro, ela por  qualquer contratempo não pôde visitar o túmulo do marido no dia de sua morte, mas foi no seguinte. Quando desceu do carro, ele estava entrando no seu, estacionado logo ao lado. Quando os olhares se cruzaram, houve um estremecimento em ambos: ela não sabia se o cumprimentava, mas se lembrava muito bem dele; ele ficara muito impressionado com a beleza dela, mas julgou que qualquer abordagem seria de mau gosto. Ele experimentou um discreto aceno, ela não conteve um sorriso e imitou o gesto. Ela já se distanciava quando ele criou coragem para falar.

Acertaram o nome dele? Ela se virou, tirou os óculos que lhe cobriam metade do rosto e ele pôde enfim vê-la em todo seu encanto. Usava uma saia vermelha, longa, e uma blusa branca que expunha os ombros, tinha o rosto triangular, queixo um pouco proeminente, nariz fino, olhos castanhos com sobrancelhas bem desenhadas. Ele tinha o mesmo paletó aberto e os mesmos plácidos olhos azuis. Pois é, sorria um pouco nervosa, é uma falta de profissionalismo inacreditável. Ele fechou a porta do carro e acionou o alarme. Já faz um tempo, não? Um ano? Onze meses, ela guardou os óculos na mesma bolsa preta. Você também é viúvo? Separado. Sinalizou o cemitério com a cabeça: minha mãe. Instaurou-se uma espécie de desconforto: iam seguir conversando ali no estacionamento? Começaram a falar ao mesmo tempo: então tá, ela; o que você, ele; pode falar; não, desculpa, eu te interrompi; fala; não, era bobagem; tudo bem, cara ou coroa? Ela riu, ele aproveitou a deixa: vamos tomar um café?

Eu sequer sei seu nome, ela disse, mas sem rispidez. Lúcio Medina, você? Roberta, prazer. Bem, prosseguiu, se você esperar enquanto eu visito o Leonardo, seria um prazer, sim. Você fala como se ele estivesse vivo. Ele está, de certa forma, o meu amor... foi interrompida por lágrimas. Perdão, eu não devia ter... Não, tudo bem, eu vou lá. Eu te espero... na floricultura? Ela sorriu, pode ser. Ele cumprimentou o rapazola pelo nome, ela tinha trazido suas próprias flores, podemos entender. O funcionário se disse admirado por sua constância, em suas palavras, claro. Ele disse que tinha uma dívida enorme, e a pagava em prestações. Ela chorou um bocado no túmulo do Leonardo, desculpou-se por ter perdido um dia, mas ao mesmo tempo em que jurava que seu amor duraria para sempre, estava confusa, e culpada, por aceitar o convite de um estranho. Ela voltara a pôr os óculos quando o encontrou na floricultura, por isso o rapaz talvez nem tenha percebido seu olhar de desprezo, a Lúcio esboçou um meio sorriso. Quando já estavam no pátio, ele disse que conhecia um lugar não muito longe dali, ela disse tudo bem, e entraram cada um no seu carro, o dele um sedã de luxo, preto, o dela um compacto azul. Ela o seguiu.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Direções

Eu passava naquele cruzamento todos os dias, voltando da faculdade. Era a interseção de duas vias arteriais, com canteiro no meio, e eu tinha que seguir para chegar em casa. Naquele dia, eu nem estava prestando atenção, o sinal estava aberto e eu passei rápido. Mas tive uma impressão maluca, não podia ser: a placa que costumava dizer Araucária em frente e Cidade Nova à direita dizia respectivamente Sucesso e Felicidade. Seria até interessante ter bairros com esses nomes, mas que diabo!, virei à esquerda e voltei a passar no mesmo cruzamento. Araucária e Cidade Nova. Eu estava ficando louco.

Tinha sido numa sexta-feira, e mal pensei naquilo no fim de semana, fiz um churrasco inclusive, com uns poucos amigos. Na segunda-feira voltaria a passar por lá; obviamente não esperava ver nada diferente, tudo não passara de um truque que minha mente pregou em mim. Mas não deixei de prestar atenção: não é que a placa dizia Sucesso e Felicidade? Olhei fixamente, quase bato o carro quando o semáforo fechou. Fiz sinal para o motorista à minha esquerda e perguntei: o que está escrito naquela placa? Ele pareceu intrigado e respondeu Araucária em frente, Cidade Nova à direita, ora. Olhei de novo: eu estava louco.

O sinal abriu e eu levei um tempo para me dar conta, começaram a buzinar. Não sabia o que pensar. Consultar um psiquiatra? Um oculista? Que ideia idiota. Bem, eu supostamente estava indo rumo ao Sucesso. Aos poucos, percebi que o caminho estava diferente do costumeiro: eu devia estar tão distraído que deixei de virar quando devia. Mas aquilo não se parecia com nenhuma área da cidade que eu conhecia, havia prédios novos e modernos, lojas de produtos caros. Olhei a plaquinha: Avenida da Abastança. Eu tinha que experimentar o outro caminho, e dei a volta no quarteirão, que era por acaso um campus universitário: Rua do Reconhecimento. Louco.

Refiz o trajeto e virei na placa que dizia Felicidade, agora à minha esquerda; em frente, a placa seguia indicando Centro. Mais uma vez, era uma parte totalmente nova da cidade: havia bares com pessoas conversando, casas simples mas muito simpáticas, até que cheguei a um parque com crianças brincando e famílias fazendo pique-nique. A plaquinha dizia Avenida Realização Pessoal. Virei à esquerda, contornando o parque, e à minha direita havia várias lojas de noivas e sex-shops. Rua do Afeto. Louco!

Pois bem, então eu poderia escolher entre Sucesso e Felicidade, mas não conseguia voltar para casa. Parei em um dos bares, pedi uma cerveja e tentei ligar para meu pai, não havia sinal. Pedi a conta e descobri que não aceitavam meu dinheiro. Era um sonho, só podia ser. Mas nos sonhos quando se percebe que é sonho a gente acorda. Uma moça de uma mesa ao lado compadeceu-se de minha aflição e assumiu a dívida. Tentei explicar minha situação, ela achou estranho; eu era tão alienígena para ela quanto tudo aquilo para mim. Disse que morava em tal rua, ela não conhecia, virando ali na avenida tal, tentei, nada. Louco, louco, louco.

Ela disse que estava indo para a faculdade, só podia ser aquela pela qual passara mais cedo. Segui seu carro e estacionamos no campus. Ela disse que poderia me apresentar a algum professor que talvez pudesse ajudar. De psiquiatria? De psicologia? De física quântica? Acabou sendo uma de literatura. Ela estava com pressa a caminho de uma aula, mas achou a história interessante, disse que daria um ótimo conto: uma opção entre sucesso e felicidade, mas que na verdade é uma prisão, e coçava o queixo. Mas e como termina? Rapaz, ela pôs a mão no meu ombro, você vai ter que escrever seu próprio final. A moça que me ajudava sorriu, agradeceu à professora e me puxou pelo braço: usa esse micro aí.

Comecei a narrar tudo como tinha acontecido, a meu modo, nunca tive pretensão de ser escritor. Depois que a professora me aconselhava a escrever meu final e eu sentava ao computador, travei. Eu queria voltar para casa, certamente, já deviam estar preocupados, mas será que para isso eu tinha que abrir mão do sucesso e da felicidade? Consultei um mapa, havia uma região fronteiriça entre os dois bairros. Escrevi que minha família se mudara para lá, que eu tinha um emprego que pagava em moeda do mundo paralelo, e bem, que estudava ali mesmo onde estava escrevendo e namorava uma moça fantástica. Imprimi o conto, para uma eventual necessidade. Minha amiga disse que estava atrasada e me desejou boa sorte.

Dirigi até o endereço que escolhera, era uma casa de classe média, com um jardim bem cuidado e um enfeite dizendo aqui mora uma família feliz. Esquina da Prosperidade com a Paz. Toquei a campainha e esperei. Atendeu alguém que eu não conhecia. Pensei em mostrar o conto como se fosse uma espécie de ordem judicial, mas sabia que não fazia sentido. Desculpei-me e sacudi a cabeça, aturdido. Voltei ao fatídico cruzamento, encostei e liguei o pisca-alerta, desci do carro. Achei uma caneta e, apoiado no capô, escrevi o fracasso do truque para ficar no mundo paralelo, e que voltando ao cruzamento a placa havia voltado ao normal e eu achava o caminho de casa. Dessa vez funcionou, as palavras Sucesso e Felicidade se metamorfosearam em Araucária e Cidade Nova, eu entrei no carro e segui meu caminho. Cheguei em casa no horário usual e ninguém disse nada, tampouco eu. Não sei dizer se sou bem sucedido ou feliz, mas também não acho que sou louco. Sei lá, segue o barco.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Cyber-Intifada pt.2

Cheguei ao outro café amaldiçoando a mim mesmo, e me instalei perto do telefone: era moderno, sem o charme do outro. Pedi um café duplo e uma senha para me conectar. Eu não precisava na verdade esperar o contato de Helsinque, batava consultar a base e ver se o programa estava lá: estava. Mesmo assim aguardei. Acendi outra cigarrilha, o telefone tocou: era a ordem de ir adiante, com sotaque nórdico. Eu precisava achar o backbone outra vez, não estava conseguindo, fiquei preocupado: será que minha invasão tinha sido detectada? Alguns sistemas de defesa são capazes de modificar a estrutura de rede quando atacados. Experimentei outro programa, que funcionou, para meu alívio.

Agora vinha minha tarefa mais difícil: mais do que extrair dados, eu precisava obter privilégio de administrador para rodar um programa. Era mais uma tarefa para o Intruder 3.0, mas antes eu tinha que percorrer a lista em busca do comando adequado, e mais uma vez tive dificuldade: o tempo corria contra mim. Aqui está, só pode ser este, rodei o programa, que levou um tempo até quebrar a senha. Faltavam poucos segundos para cair minha conexão quando introduzi o Cavalo de Troia no ultra-seguro sistema da Bolsa de Valores. Eu me achava o máximo, e um grito que me escapou chamou a atenção dos usuários do café, absortos em qualquer bobagem em seus próprios micros. Mandei executar: outra senha. Caramba. Eu teria que repetir a invasão e quebrar mais aquela barreira. O telefone tocou.

Expliquei a Boston a situação, estava muito próximo, mas estava ficando cada vez mais arriscado. Sentei-me de volta, pedi água. Pacientemente repeti os passos necessários, executei o Intruder e esperei: sucesso! Cortei a conexão, agora podia monitorar desde fora. Liguei para Boston: Feito e feito. Agora você espera a confirmação da queda e foge no primeiro voo para qualquer capital europeia. Copiado. Voltei ao computador e abri um site israelense de notícias financeiras; monitorava as estatísticas do sistema da Bolsa: os acessos cresciam em velocidade exponencial, um sorriso triunfante não deixava meu rosto. Estava exausto e saí um pouco para ver o sol, fazia calor e as pessoas prosseguiam com sua vida. Pedi mais um capuccino e acendi outra cigarrilha. Antes de terminar de fumar, o site anunciou o colapso do sistema da Bolsa. Ergui os braços mas contive desta vez o grito. Paguei a conta e dirigi-me ao carro.

Cheguei ao aeroporto, comi alguma coisa e fui até o balcão da empresa aérea. Estava nervoso, mas era impossível que fossem rápidos o bastante para me pegar, mesmo eu tendo... enfim, chegou minha vez. Vocês têm voo para Madri ainda hoje? Na verdade, esse voo é operado pela El Al e eles têm algum problema hoje... Minha espinha gelou: não tinha pensado nisso! Londres? Paris? Todos? Tentei disfarçar meu aborrecimento, e agradeci educadamente à atendente. Eu precisava ir para algum lugar, voltei pro carro e rumei para a rodoviária.

Olhei no retrovisor e tive a impressão de que um certo carro já estivera atrás de mim no caminho para o aeroporto. Fiz uma conversão à direita, só para experimentar, ele me seguiu. Merda. Merda. Merda! Eram eles: a Mossad não brinca em serviço. Estou perdido. Meu pânico não me permitia pensar direito, encostei em um posto de gasolina e saí andando por um terreno baldio. Minha ideia, ainda que meio difusa, era fingir um ataque e pedir socorro em alguma casa, havia um conjunto habitacional dali a alguns metros. Olhei para trás, eles me seguiam de perto. Não pensei duas vezes, alcancei algumas pedras no chão e comecei a arremessar na direção deles. O destino dá umas voltas irônicas por demais às vezes.  

Cyber-Intifada pt.1

Nossa luta por décadas se serviu das armas mais arcaicas: pedras, bombas. Era a hora de nos atualizarmos, de lutar o combate no terreno do século XXI, o terreno da virtualidade, da informática. Obviamente precisávamos contar com ajuda externa, mas havia uma rede de ativismo cibernético que tinha a nossa como uma das principais causas por justiça global. Afinal, nosso território fora usurpado, e mesmo o pouco que nos restou está sob ocupação há quarenta e cinco anos. Ainda assim, era uma luta de Davi contra Golias, se me permitem usar a mitologia deles. Éramos oito hackers: eu em Beirute, um em Tel-Aviv, três nos Estados Unidos, dois na Alemanha e um na Finlândia, contra os sistemas do maior banco israelense, de uma companhia aérea e da bolsa de valores de Tel-Aviv.

Era preciso evitar rastros, então íamos nos comunicar por telefones públicos e atuar de forma mais ou menos independente. Eu escolhi um café, desses com sinal sem fio, onde alguém com um computador não despertaria suspeita alguma. Meu número tinha sido informado ao líder da operação, que estava em Boston. Eu já havia estudado o sistema da bolsa de valores o máximo que era possível sem ser detectado, mas havia muito por descobrir no caminho. Pedi um capuccino e olhei no relógio: em dez minutos Boston ligaria com instruções.

Corri para atender quando o telefone, que havia sobrevivido às imposições da modernidade, soou sua campainha mecânica. Beirute, você precisa quebrar o backbone dedicado, acessar o inventário de operadores e gerar uma lista com os IPs fixos, que vai ser armazenada no servidor da Finlândia. Depois que ele elaborar o script, você vai ser acionado mais uma vez para rodar o Trojan e monitorar a operação. Ligue se alguma coisa sair do programado. Copiado, Boston. Falávamos em inglês.

Era exatamente o que eu imaginava: a ideia era invadir o sistema, ter acesso a todos os operadores, milhares deles, bancos, corretoras, particulares, e invadi-los com um Cavalo de Tróia que acessaria de forma autônoma o sistema da Bolsa, causando uma sobrecarga que o faria colapsar. Parece simples. Fechei a janela de rede social, pensando bem nem foi uma boa ideia abrir, abri o Prompt do DOS: nada de interface visual para essas peraltices. Foi preciso localizar o backbone dedicado, que mudava de endereço por medidas de segurança; como eu conseguira copiar a estrutura de rede previamente, bastou rodar um mecanismo de busca, o que demorou um pouco. Pedi um espresso e acendi uma cigarrilha, acessei a página da Bolsa na wikipedia, por mera distração, já havia extraído as principais informações. Havia uma história de um dia, nos tempos de inflação, em que a procura por ouro foi tão grande que eles tiveram que fechar as portas. Bacana.

O programa encontrou o backbone, eu tinha poucos minutos para quebrar a senha antes que o endereço fosse alterado. Pelo que tinha levantado, a melhor tática seria atacar com o Intruder 3.0 com busca hexadecimal de ponto flutuante, o que havia de mais recente em invasão "macia" como chamamos: não saía quebrando tudo, sutil e elegante. A ciência da criptografia é um jogo de gato e rato às avessas: nós somos o rato que persegue o gato gordo com perspicácia e astúcia. Meu tempo estava se esgotando, eu estava nervoso. De repente, funcionou: apareceu para mim uma lista que representava todos os subsistemas da Bolsa de Tel-Aviv. Arrisquei o que seria o comando mais óbvio para obter o inventário de operadores, não deu certo. Tive que percorrer a lista no olho, por sorte estava quase no topo, disparei: ótimo. Poucos segundos foram suficientes, e em frações eu já havia subido os dados no servidor de Helsinque.

Corri até o telefone, estava ocupado, e só havia um. Quem ainda usa telefone fixo! Além de nós, claro. Não podia perder tempo, então mandei uma mensagem direta para Helsinque. Agora eu só tinha que esperar: o programa que invadiria os operadores precisava ser adaptado aos dados obtidos, e Helsinque era o especialista nessa área. Pedi outro café, mas antes de terminar o telefone tocou, fui atender. Beirute, a ordem era sem mensagens, você põe a todos em risco! Sim, Boston, eu... o telefone... Escuta: consiga outra conexão, está entendendo? Outra conexão. Outra coisa, você visitou sua rede social daí, o que você tem na cabeça? Boston, foi apenas... tudo bem, eu não deveria, não se repetirá. Estou partindo agora, preciso de quinze minutos. Desliguei sem me despedir, paguei a conta no balcão, e ia saindo quando me toquei que Helsinque, ou mesmo Boston, não teria meu novo número. Pesquisei o telefone de outro café, liguei e obtive o número do telefone público, liguei para Boston e passei a informação. O trânsito já estava melhor àquela hora.

Oferta do Dia

Terminei de escolher as frutas e consultei a lista: não faltava nada, rumei ao caixa. Então me lembrei dos tomates secos, por sorte, pois não os deixo faltar, embora por algum motivo tenham ficado fora da lista. Fui de corredor em corredor tentando achar o produto, às vezes é difícil entender a lógica de quem organiza essas prateleiras. Aí passei por uma moça bonita: alta, loira, esguia, num vestido colorido. Ela nem reparou em mim. Mas algo me chamou atenção além da beleza: parecia ser alguém que eu conhecia, embora por nada no mundo conseguisse decifrar o enigma, e segui em frente. Já estava no corredor seguinte, disposto a esquecer aquilo, quando caiu a ficha: ela tinha estudado inglês comigo muitos anos antes, em outra cidade. Voltei ao corredor onde ela estivera escolhendo azeite e não a achei lá, mas no próximo a encontrei, comprando café. Eu já abandonara o carrinho.

Desculpa, você não é a Larissa? Ela me olhou surpresa e disse com firmeza: meu nome agora é Abaré. Era minha vez de estar surpreso, e confuso. Alguns segundos de um silêncio constrangedor se passaram, e eu atalhei: então antes era Larissa? Você não se lembra de mim, eu, quer dizer, nós... Aí no rosto dela brilhou um sorriso. Sim, eu me lembro! Lá de Manaus... É, nós estudávamos... Com o Jorge, nossa faz muito tempo! Pois é, como você está? E ensejei os dois beijinhos, que saíram meio desajeitados, o brinco de penas dela roçou meu nariz e me deu vontade de espirrar, mas prossegui. Você está morando aqui então? É, já faz um tempo e você? Eu, voltei faz seis anos já. Como assim, você é do Rio? Sim, mas saí novo. Por isso nunca teve sotaque. É verdade; você, veio parar aqui como? Ah, eu passei um tempo em Brasília, meu pai era de lá... Ele morreu? Pois é, mas faz tempo. Que pena, e sua irmã? Ah, ela continua em Manaus, casou com um cara rico e curte uma de socialite. Nós dois rimos, e estávamos cada vez mais à vontade. Bem, então eu nessa época trabalhava no TCU, e um dia eu conheci o Santo Daime. Não brinca! Nossa, aquilo mudou minha vida: cheguei à conclusão de que não podia estragar minha vida com um trabalho chato, por melhor que pagasse. Aí vim pro Rio estudar Cinema. Que barato! E você?

Pois é, e agora? Eu devia inventar uma vida mais interessante para mim mesmo: que eu era budista e que fazia trabalho voluntário, que havia traduzido Hamlet e escalado o Pão de Açúcar. Mas eu sempre fui um péssimo mentiroso, e ia acabar me atrapalhando. Aquela mulher continuava me intimidando: eu era um frangote quando estudei com ela, alguns anos mais velha, mulher enfim, e linda, embora talvez fosse ainda mais hoje; e ela me lançava uns olhares que me deixavam da altura de uma caixa de fósforos. Não é preciso dizer que eu era patologicamente tímido então; um pouco ainda, mas na época eu era um bocoió. Ela figurava no arquivo das grandes oportunidades desperdiçadas, e, numa conversa recente com uma amiga em comum, soube que ela me considerava muito inteligente. Se isso significa alguma coisa.

Ah, eu morei em vários lugares, no Recife primeiro, depois fui pra Juiz de Fora, mas escolhi o curso errado e passei anos basicamente vagabundeando. Depois que minha mãe morreu... Puxa, lamento! Obrigado, pois então, meu pai ficou sozinho em Recife e resolveu reunir a família e voltar para cá, ainda tínhamos o apartamento em Copacabana. Mas eu já não moro mais com ele, aluguei uma casinha em Santa Teresa. Uau, que charme! Ah, é ótimo lá, e a ladeira ajuda a manter a forma; claro que a genética não ajuda. Ela desviou a atenção da prateleira de produtos de soja - eu a seguia enquanto ela prosseguia com as compras - e sorriu. Eu trabalho no Botafogo, o clube, e estou terminando Contábeis este ano. Aí como terminou o cara "muito inteligente" que ela conhecia! E você está trabalhando com Cinema? Sim, sou a assistente do assistente do assistente, mas estou, e gosto muito. No Odeon está passando um filme em que eu trabalhei. Puxa! Vou lá ver. Vai lá, chama Cama de Concreto. E por que esse nome... como é mesmo? Abaré. Então, eu visitei uma tribo uma vez com meu marido (merda!) e eles escolheram esse nome para mim, houve um ritual e tudo, eu resolvi adotar.

Era um caso didático de como, ao dizer de Sancho Panza, a oportunidade quando aparece deve-se agarrá-la pelo rabo e metê-la para dentro da sala. Larissa, ou Abaré, foi um ônibus que só passou uma vez, uma ave que comeu da isca e eu não soube puxar a corda que derrubaria a arapuca. Lá estava eu, solteirão e com uma vida patética, diante de uma mulher fascinante, realizada, casada, com nome indígena e tudo. Eu precisava pôr fim a mais um silêncio constrangedor.

Então está casada? Sim. Mas ele faz você vir ao supermercado sozinha? Ela deu um risinho. Ele está fora, passa muito tempo fora, na verdade, ele é antropólogo. Ah, faz sentido. Você confia muito nele, então? Claro, por que não confiaria? Sei lá, sabe como é homem. Mas ele fica na tribo o tempo todo, e a ética dele... por que está perguntando? E parou de analisar os preços dos biscoitos para me olhar séria. Eu estava tremendo, para que fui inventar? Ei, calma, só estou conversando, não vá achar que... E você, não se casou?, ela ajudou. Não, eu... terminei um namoro há pouco, menti, geralmente é só encrenca mesmo, sabe como é. Às vezes me parece que ninguém mais se entende hoje em dia. Eu me entendo com o Rodolfo. Nossa, então você tem sorte, e ele mais ainda. Olha, você tá começando... Olhei o carrinho dela e dei de cara com um pote de tomates secos, interrompi-a a tempo. Puxa, eu procurei por toda parte por tomate seco, onde você encontrou? Ela pareceu aliviada, explicou onde achá-los. A despedida foi mais seca que os  malditos tomates.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Pechincha

Tá novo, novo, novo. Veja, lataria perfeita, bancos, a revisão foi feita, mas não rodou nem sete mil, tá até cheirando! Sim, na concessionária, o manual tá aqui no porta luvas. Aqui, nota fiscal no meu nome. É um ponto seis, mas é bem econômico. Doze, treze, na cidade, quatorze na estrada. Mas eu rodo pouco, moro perto do trabalho. Tem direção, ar, vidros... trava, alarme, tudo no controle. Completinho. Por quê? Ah, é uma longa história, não vale a pena... Mesmo? Tá com tempo? Bom, vem aqui atrás. Tá vendo isso aqui? Pois bem, pode parecer uma bobagem, mas é este o motivo.

Bem, eu fui promovido ano passado, e meu carro já estava precisando ser trocado... Eu tinha, ainda tenho, algumas dívidas, mas fiz as contas e achei que dava. Tá tudo em dia, quanto a isso pode ficar tranquilo. Minha mulher queria muito este modelo, e é um bom carro mesmo. Foi o primeiro zero que eu tirei. Foi no fim de janeiro. Mas, enfim, ao que interessa. Você sabe dessa moda agora de colar adesivos na traseira com os membros da família, como esses aí. Foi minha filha quem insistiu, eu não queria adesivo nenhum, mas sabe como é: o homem é a cabeça da família, mas a mulher é o pescoço, e ela gostou da ideia. Foi na mesma loja em que instalei o alarme, eles tinham várias opções, eu gostei mais desta.

Este aqui com um sorriso bonachão sou eu, embora me digam que tenho um humor terrível, o que não é verdade, claro. À minha esquerda está minha mãe, de coque no cabelo e crochê nas mãos, o cabelo dela é curto e a única habilidade dela é espezinhar todo mundo. À minha direita, minha esposa, magra e jovial, quando na verdade é gordinha e cheia de rugas. Aí vem meu filho, que tem cara de inteligente aqui mas é um brutamontes apatetado. Depois, minha filha, a caçula, que é um doce aqui e na vida real, no entanto... vai escutando. Por fim, esse cãozinho adorável e felpudo representa na verdade uma cadela, vira-lata das mais corriqueiras.

Eu falei da cadelinha, o nome dela é Espoleta. Era, na verdade. Ela costumava fugir, e numa dessas foi atropelada. Olhei para o adesivo, não quis arrancar: ia ficar uma marca de cola misturada com poeira. Foi em março, começo de março. No fim do mês, minha mãe, dona Risoleta, teve um aneurisma, morreu na hora. Olhava para o carro: seria uma maldição? Bobagem, nunca fui supersticioso. Aí minha filha conseguiu um trabalho temporário, na montagem do Cirque du Soleil. Apareceu um dia dizendo que conheceu um clown, estava apaixonada; não gostei nada daquilo, e não deu outra: minha Lucinha abandonou a faculdade e a nós todos, e literalmente fugiu com o circo. Quem bancou o palhaço fui eu. Foi em maio, já. Em agosto foi o Miguel: eu já estava achando estranho ele ter um segundo celular, e sempre que tocava era um mistério danado, e ele descia por alguns minutos. Foi preso com meio quilo de maconha saindo de uma favela. Eu nem tentei ajudar. Tudo estava desmoronando, mas ainda dava para piorar: no feriado de doze de outubro eu ia viajar com a Tânia, tentar espairecer, minha vida no trabalho também andava estressante. Ela disse, na véspera, que não ia mais; tentei conversar, aí ela disse que ia me deixar, que estava apaixonada e nada ia fazê-la desistir de viver com a Ingrid. Formidável.

Portanto, de todas essas figuras aí eu... Produto? Que produto? Não, eu... o senhor pode usar, não vai querer a família de outra pessoa, e que nem existe mais... Barato? É, eu quero vender logo. Vou perder um pouco sim. Não, não tem truque nenhum, é isso aí que eu contei. Dá pra entender, não? Dirigir, mas é claro! Pode entrar aí, só essa ré aqui que é meio chata, você puxa... ah, já conhece? Pois é, o câmbio é ótimo também, macio.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Digno de Nota pt.3

O bandido nos recolheu com a mesma mão ensanguentada que segurava o canivete. Correu até um beco, guardou o canivete num bolso e a nós em outro, e pulou um muro. Ouvi barulho de água, estava lavando as mãos. Depois percorreu uma distância e escalou um portão de ferro; alguém abriu a porta e gritou, uma mulher, ele a ameaçou e saltou para o chão. Correu até um daqueles lugares com música, talvez fosse até o mesmo. Deu para escutar ele pedir a tal branquinha umas quatro vezes, até que as vozes cessaram de súbito, passos pesados se encaminharam a ele, eram dois. Começaram a questioná-lo rispidamente, sua voz era trêmula, e arrastaram-no para fora. Meteram a mão no bolso onde eu estava e tiraram a Sílvia, a Joyce, a Tânia e a mim, entendi quando reclamou que era "só isso", repartiram-nos entre os dois e lá fomos pra outro bolso, todas amassadas. Pudemos ouvir o rapaz sendo espancado por vários minutos, e então entramos no carro que fazia um barulho gozado, que ouvi várias vezes aquele dia. Quando saí do bolso, estava em um supermercado, e o homem que me tinha tomado por último pediu um pacote de cigarros: foi quando fui parar em outra daquelas gavetas divididas.

Depois disso eu circulei um bocado. Comprei livro, cachorro quente, gasolina, servia de troco quando alguém aparecia com uma garoupa (e o funcionário sempre reclamava); conheci carteiras, bolsas e outros bolsos malcheirosos, descansei em caixas-registradoras, voltei ao banco, quer dizer, não o mesmo, outros, até o dia em que fui parar na carteira de um sujeito aparentemente rico. Tinha a companhia sempre de outras onças e garoupas, e como ele nos deixava em um balcão na sala, dava para perceber que a música era diferente, as pessoas falavam baixo e cada uma de uma vez. Foi o período em que eu aprendi palavras mais complicadas. Um dia alguém me tirou da carteira, e não era ele: devia ser seu filho, que usava uma jaqueta de tecido sintético colorida, em cujo bolso eu fui parar, sozinha. Ele desceu o elevador e entrou no carro, arrancava fazendo barulho com os pneus e escutava uma música repetitiva muito alto. Desceu do carro, andou alguns passos e cumprimentou alguém numa linguagem que me era estranha; foi muito rápido: ele me pôs na mesa e recebeu alguns pacotinhos plásticos. Estive na carteira do sujeito de fala engraçada algum tempo, um dia eu o ouvi conversar com um daqueles sujeitos com botas, que tinha uma risada cínica, e eu mudei de mão mais uma vez.

Passei um tempo com ele, e descobri que aquele tipo de gente se chama policial, descobri porque a mulher dele ficava muito preocupada com sua profissão - a mim, parecia um jeito fácil de fazer dinheiro. Bem, lá na casa deles também havia uma moça que cuidava da casa, e não é que eu reconheci a voz da mesma que havia me tirado da caixa de biscoitos da velhinha? Eu estive com a esposa dele até o dia em que fui dada em pagamento à empregada. Não esperava que ela me reconhecesse, já disse que somos todas quase iguais. Na gaveta dela, não encontrei nenhuma de minhas antigas colegas, nem o marido estava por perto: teria morrido aquele dia? Um dia ela me usou para pagar a padaria, e alguém que parecia ser o dono me pôs na carteira no fim do dia. Em casa, ele jantou com mulher e filhos, e disse que ia sair para uma reunião da maçonaria; escutei ele conversar com uma mulher, discutiam o preço, ela entrou no carro e ensinou como chegar no "ambiente". Ouvi todos aqueles barulhos que eu já sabia o que significavam, e no fim eu fiquei com ela. Da bolsa dela, ainda a ouvi trabalhando três vezes, até que bem de madrugada ela se encontrou com um tipo grosso, que exigia sua parte do trato. Com ele eu fiquei pouco, por sorte, ele me usou em outro supermercado.

De lá, eu voltei a um outro banco, estive no cofre muito tempo, fiz amizades, até aprendi um pouco do idioma daquelas notas verdes. Um dia levaram a mim e a muitas outras para o caixa, mas eu não fui para a gaveta. Um homem que não aparentava ter todo aquele dinheiro nos pôs em uma maleta e nos levou; quando a maleta se abriu, vi um homem muito elegante, que sorria. Ele naquela mesma tarde se encontrou com outro homem, e pude entender que se tratava de uma licença de qualquer espécie, que aparentemente custava todo aquele dinheiro. Despediram-se de forma muito cortês: como é bom estar com gente de bom nível! Outra pessoa apareceu e me levou até o banco. Veja só, era o meu primeiro banco! Fiquei até emocionada. Muito tempo passei lá, acostumei-me à rotina - a vida na rua já perdera a novidade. Até que ouvimos um barulho enorme, gritos, um tiro foi disparado. O rapaz que abriu o cofre estava pálido, e atrás dele um homem de capuz o pressionava a encher um saco preto. Aquilo disparou em mim uma nostalgia... Aí se ouviu o barulho que fazem os carros de polícia, era bem no exato instante em que o funcionário me tirava do cofre. O homem de capuz se assustou e atirou. A cabeça do pobre rapaz foi estilhaçada, e o maço do qual eu era a primeira cédula ficou encharcado em sangue. Por isso estou aqui, esperando para ser incinerada, por um crime que não cometi. Mas não me importa, posso dizer que vivi muito nesse tempo. E que os seres humanos são fascinantes!

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Digno de Nota pt.2

Passou um bom tempo, eu ainda não tinha uma noção exata de dias, em que aquela porta se abria a intervalos, deixando entrar alguma luz; às vezes retiravam algumas de nós aos maços, às vezes traziam mais. Fiquei muito amiga de uma cédula azul, que trazia um peixe estampado; ela também era bem jovem e nenhuma de nós sabia que ela tinha o dobro do meu valor, talvez por isso ainda não fosse esnobe e arrogante como outras que encontraria depois. Uma vez, logo que a porta se abriu, entrou alguém na sala e a moça deu um grito; a outra pessoa era um homem. Ali eu aprendi um som que os humanos fazem para pedir silêncio; dali em diante só ouvimos gemidos abafados, que não sabia dizer se eram de prazer ou desespero, e um grunhido ritmado, que foi se intensificando até dar lugar a uma respiração ofegante. Eu estava extasiada. Que mundo interessante!

Até que um dia me levaram, através de um pequeno corredor; por instantes pude ver quatro cabines com um computador e um vidro separando aquela saleta de um salão grande, repleto de gente. Fui depositada em uma gaveta, com outras colegas iguais a mim, e pela primeira vez conheci outras cédulas: vermelhas, que traziam uma arara, roxas, com uma garça, outras azuis, mas com o desenho de uma tartaruga; havia também uns pedaços redondos de metal, de vários tamanhos. Foi com a experiência de minhas novas vizinhas que fui aprendendo cada vez melhor o que eram os números, e pude entender enfim que eu era uma cinquenta. Ou o que significava 8499A, que era o fim do meu número de série, e como me chamavam até então; aquelas veteranas me puseram o apelido de Tata.

Eu tinha ficado no fundo da pilha, e várias vezes a gaveta se abriu até que eu fosse retirada; tchau Tata, boa sorte no mundo, desejaram as colegas. Fui entregue a uma velhinha, eu já conhecia cada vez melhor os humanos, e sabia que ela era mais velha; já começava a ser capaz de interpretar a entonação da voz deles, e vi que ela era muito educada, assim como a caixa que eu mal pude conhecer. Fui guardada em uma bolsinha que fazia um estalo seco ao fechar; quando ela se abriu, fui parar em uma lata de biscoito, e fiquei lá muito tempo. Eu ouvia o rádio ligado quase o dia todo; às vezes ouvia uma jovem que conversava com ela; ficava cantando e lavando louça. Uma vez eu ouvi a porta abrir e se fechar, a velha saiu. A jovem deixou a limpeza da casa e fez uma enorme bagunça no quarto, abria todas gavetas e revirava todas as caixas, até que abriu minha lata. Fui para em um bolso de calça. Dali a pouco a velha voltou, eu entendi da conversa que a moça precisava sair mais cedo, algumas palavras eu já reconhecia. Ela pegou um ônibus, depois outro, e chegou em casa onde duas ou três crianças faziam algazarra.

Conversou um pouco com um senhor aparentemente idoso, e ouvi barulho de cozinha; mais tarde chegou um homem, as crianças fizeram mais algazarra. Aí ela me tirou do bolso, eu e mais várias iguais a mim, e eles começaram a discutir até os gritos; nós ficamos largadas sobre a mesa, então deu para ver tudo, até quando ele começou a bater nela. Ela chorava estendida no chão quando ele meteu a mim e a mais três colegas no bolso da camisa e pôs as restantes numa gaveta no quarto. Saiu gritando mais um pouco, caminhou em uma rua em que havia barulho de ônibus e entrou em um lugar onde havia música e as pessoas falavam alto. Um pouco como o galpão por onde eu tinha passado. Passou lá muito tempo, e dava para ver quando ele levava um pequeno copo à boca, estava com muita sede. Aprendi mais algumas palavras, que eles repetiam o tempo todo, só depois fui descobrir que eram palavras sujas. Ele praticava uma brincadeira com bolas sobre uma mesa e um taco de madeira; eu via tudo quando ele curvava o corpo para frente. Quando já era tarde (eu já aprendia a medir o tempo), ele nos tirou do bolso, os amigos dele se juntaram em torno, parece que era muito dinheiro; mas eu acabei voltando para o mesmo lugar, e se juntaram a nós umas notas menores amassadas e fedorentas. Despedi-me da Cláudia, que me acompanhava desde o grande cofre da minha infância.

Quando chegou em casa, pronunciou uma frase que, pela movimentação que se seguiu, entendi que significava uma ordem  para esquentar a comida. Aprendi muito de língua de gente ali, todos falavam alto e onde eu fiquei, na mesma gaveta com as outras, era muito perto da sala; devia ser uma casa pequena. Ouvi outras brigas violentas e choro, algazarra dos meninos, e o idoso, que falava sozinho quando o casal saía. Todo dia o homem recorria à gaveta, e fomos ficando poucas rapidamente. Um dia eu voltei a ser escolhida, e passeamos no bolso de sua camisa aberta. No caminho para o bar (palavra que logo aprendi), ouvimos alguém abordá-lo, pelas costas, e pedir o dinheiro (palavra que aprendera muito antes). Ele se virou e entrou em luta com o ladão: foi ferido; eu via lá do chão onde havíamos caído.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Digno de Nota pt.1

Minha memória mais remota é da tranquilidade de uma grande sala sem janelas, a temperatura era sempre mantida um pouco fria; eu ficava acomodada com minhas colegas, lembro que eram muitas delas, bem juntinhas umas das outras, o que nos mantinha aquecidas. Eu não conseguia ver muito ali empilhada como estava, mas podia ouvir passos sempre que uma porta muito pesada se abria, o silêncio retornando depois que ela se fechava com uma pancada assustadora. Me contaram depois de onde nós tínhamos vindo, da capital, onde éramos impressas em série, quase iguais, só nosso número diferia. Não sei se era boato, mas fazia sentido: todas nós carregávamos a figura de uma onça, coisas que chamam de marca d'água, a mesma fitinha e o mesmo número cinquenta, em algarismos e por extenso; também duas assinaturas, bem pequenas, e uma frase falando num tal de Deus. Bem, como eu disse, minha memória só alcança até aquela sala confortável, mas registra muita coisa desde então; se não for lhes ocupar o tempo à toa, eu poderia contar algumas.

Um dia ouvimos um barulho diferente, um estrondo que assustou a nós todas. Aquelas com uma visão privilegiada narravam o acontecido e todas espalhávamos suas palavras. E o pânico era geral: uns homens encapuzados haviam aberto um enorme buraco numa das paredes e estavam sequestrando minhas amigas aos milhares, jogando-as dentro de sacos pretos que eram levados para dentro do buraco. Eu não fiquei tão assustada: aquela vida monótona estava me deixando neurótica, e mal podia esperar para ver o que ia acontecer. Não demorou a que eu fosse parar em um dos sacos, e aí fomos chacoalhando por um bom pedaço até sermos arremessadas em outro lugar, onde esperamos um pouco. Ouvíamos barulhos de gente, mas na época não éramos capazes de entender nada, e eles pareciam não nos escutar: foi aí que eu descobri que a voz da cédula vibra numa frequência inaudível para os humanos.

Fomos transportadas uma e outra vez, aí ouvimos sons do que eu descobriria depois ser algo chamado música, sons de vidro se quebrando, muita gente falando e umas coisas diferentes que eles fazem com a voz, depois eu aprendi que eram gritos e risos. Tudo era aprendizado para mim, todos aqueles sons novos, só a escuridão total que não me agradava. Um dia me tiraram do saco e me puseram em uma caixa um pouco rasa, que fazia um barulho de metal quando fechava. Pude ver muito pouco do ambiente, parecia ser um galpão; eu obviamente não conhecia essa palavra, ou palavra alguma, mas depois eu explico como aprendi língua de gente: vou contar sem ficar me interrompendo com isso, ou vamos longe demais. A caixa, que era uma mala, foi carregada por um homem que assobiava até um carro grande, que ficava tremendo e fazendo barulho. Quando paramos, ele desceu com a mala, conversou muito tempo com outro homem de voz fina, depois os dois conversaram com uma mulher e nos levaram a um lugar onde abriram a mala e passaram a desfazer os maços em que estávamos atadas e a contar uma a uma: foi meu primeiro contato com os números, a primeira coisa que aprendi em língua de gente. Lembro quando a mulher me pegou e olhou contra a luz, vi que estávamos em uma sala delimitada por divisórias que não iam até o teto. Era a maior sensação de liberdade que eu já tinha experimentado, estava feliz. Vi que só contaram e analisaram dois maços, e aí passaram a retirar da mala e a contar os maços inteiros. Houve mais alguma conversa e então o homem que me trouxe pegou mais quatro maços e deu dois a cada um dos outros. Eu estava em uma pilha em cima da mesa, o homem que me trouxe foi embora e nunca mais o vi.

Depois a mulher me colocou numa caixa verde, com um painel de botões na frente, e voltou a escuridão. Pensando bem, não foi meu primeiro cofre, porque a sala de onde fui levada era nada menos que um imenso cofre. Ficamos lá conversando, metade de nós ainda muito assustada, a outra metade terrivelmente excitada com um mundo inteiramente novo. No dia seguinte, abriram o cofre e nos jogaram em um saco de pano, dois na verdade, e entramos em outro carro que fazia barulho, dava para ouvir a mulher da véspera e um outro homem. Rodamos até chegar a um lugar onde fomos recebidos primeiro por uma moça de voz irritante e depois por uma senhora rouca, que falava enquanto caminhava até uma sala onde fomos postas em uma mesa e expostas à claridade fluorescente de outra sala de divisórias. Aí eu passei pela experiência mais inusitada. Nós éramos colocadas em um aparelho e escorregávamos uma em cima da outra em uma velocidade estonteante. Aconteceu outras vezes depois, mas, como eu já disse, tudo era descoberta. Ainda ouvi a voz das duas mulheres enquanto minhas colegas eram acomodadas em mais um cofre, este maior que o anterior. A porta se fechou atrás de nós, mas se abria às vezes ao longo do dia. Estávamos em companhia de cédulas que não conhecíamos, até umas verdes, diferentes, com rostos de sujeitos esquisitos. Eu não sabia então que lugares como aquele seriam como uma casa, a que voltaria várias vezes ao longo de minha vida útil.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Onde Estão Seus Modos?

Minha mãe é artista plástica. No começo ela só queria ter uma atividade para não ser apenas e tão somente esposa do meu pai, que é empresário. Depois de um tempo as pessoas elogiavam seus quadros por um pouco mais que educação; uma amiga dela é esposa de um dono de galeria, eles vieram jantar aqui, um desses jantares idiotas, e ele gostou bastante do trabalho. Levou um, depois três, e em algum tempo ela já era um nome comentado. Ela passou a ser requisitada nas soirées mais exclusivas da cidade. Às vezes ela nos leva a todos, me apresenta como "minha atleta", pior é meu irmão, que é "futuro cientista". O que me deixa possessa é que em casa ela encrenca com meus treinos diários, insistindo em que eu deveria estudar para concursos. Eu curso Comunicação, participo do circuito de corridas de rua, e não tenho nenhuma pretensão de me tornar burocrata.

Ela me fez sair aquele dia para comprar um vestido novo, só para ir ao jantar na casa dos qualquer coisa. Eu já tinha aprendido a não confrontá-la e adotar o gosto cafona dela, só para aquelas ocasiões. Eu iria de jeans e camiseta, se pudesse. Foi difícil achar estacionamento embaixo do bloco, meu pai parou em um lugar um pouco inapropriado. Subimos: era uma sala enorme, decorada com a ostentação mais cafona possível, várias pessoas aqui ou ali bebendo vinho ou cerveja, tocava alguma espécie nauseabunda de easy-listening. A anfitriã nos recebeu com todos salamaleques possíveis, "minha atleta" e vamos nós. Um dos quadros de minha mãe estava na parede, foi o mote para alguma conversa miúda. Eu aceitei um vinho tinto, e fui pra sacada observar a fauna do local.

Pasolini tem uma sensibilidade que faz Buñuel parecer um troglodita, dizia um. Mas é a crueza das emoções humanas que faz seus filmes tão sublimes, sem falar que o seu italiano nunca ouviu falar em roteiro, contestava o outro. Um estava com gola roulé e usava cavanhaque, o outro usava blazer com camiseta, e um sapatênis que não combinava com nada. Eu odeio gente culta demais. Mais adiante, ouvi alguém dizer que esperto é o PMDB, que não está nunca no trono mas controla sempre o poder. Era um careca barrigudo com um enorme bigode. Pedir dinheiro na rua tem que dar cadeia!, espumava uma perua num vestido vermelho decotado, da cor do chapéu extravagante. É o que eu digo, quem não aceitar ir pro abrigo vai em cana! Voltei para perto de meu pai, que explicava que transporte urbano era um ramo que ia sempre bem, a um interlocutor que fingia interesse, muito mal. Minha mãe seguia com os donos da casa, expunha seus projetos de uma inovadora série de naturezas mortas. Alguém precisava produzir arte para pessoas dois séculos atrasadas, afinal.

Chegou a hora de servirem o jantar. Eu fiquei sentada ao lado da senhora qualquer coisa; à minha frente, um prato em cima do outro, três jogos de talheres, duas taças e um vistoso guardanapo de linho enfiado em um anel de madeira. Um problema com esses eventos era obviamente essa etiqueta idiota. O outro era o cardápio: eu não como nada de origem animal. Eu tentava explicar isso a minha mãe quando ela ensinava qual era a faca de peixe, qual era a faca de carne, inútil. Apareceram vários criados uniformizados, um tomou meu prato de cima, fundo, e perguntou: creme de espinafre? Tem leite? Tem manteiga? A senhora qualquer coisa me olhou feio. Eu mostrei a língua. Minha mãe cobriu o rosto com a mão. Aceito sim, moço, ele serviu. Minha mãe me fulminava com o olhar. A dado momento um dos criados veio dizer que interfonaram para dizer que um carro modelo tal tinha tido o retrovisor arrancado. Meu pai desceu às pressas, sem razão, pois não havia o que fazer. Todos o esperaram, comentaram que era um absurdo, quando a culpa no fim era dele. Minha mãe fazia sinais, eu não entendia nada; a senhora qualquer coisa ajudou: você trocou a posição da taça de vinho com a de água. Suspirei mas obedeci. Levaram os pratos usados e voltaram oferecendo picanha recheada ou tucunaré assado. Não, moço, eu não como carne; serve só arroz e salada, por favor. Minha vizinha tomou um gole de vinho com um ar afetado, eu a olhei desafiadoramente.

Bom, para a sopa bastava uma colher, e só havia uma. Para comer o prato principal, mesmo sem o principal, escolhi um garfo intermediário e uma faca com corte, porque eu costumava triturar a salada antes de comer. É um modo inusitado de comer a salada, queridinha, ainda mais com uma faca de carne, e deu uma falsa gargalhada, secundada por duas ou três da socialites. Olhei para a faca: era o único dos talheres com um cabo de madeira avermelhada, a lâmina era larga, o fio fazia uma curva acentuada, repleto de dentes afiados. Olhei para a senhora qualquer coisa, que ainda sorria com soberba. Foi rápido e certeiro: eu nunca matara ninguém, mas um talento natural me fez acertar a jugular da megera. O sangue espirrou, todos se levantaram. Agora eu queria o do cavanhaque, o que gostava do Pasolini, ou do Buñuel, não importa. Ele andava pra trás e tropeçou na mesa de centro, eu o feri na barriga, três, quatro vezes. Que tente sobreviver. O do blazer, que gostava da crueza de sei lá o quê, ganhou apenas um ferimento ou dois no braço, mas fiz questão de jogar seus sapatênis pela sacada. Paralisada de medo estava a perua de vermelho, a única que não saiu do lugar. Fiquei atrás dela, pus a faca em seu pescoço, ela suava e tremia: a bolsa, madama. Ela obedeceu; vou dar para o primeiro pedinte que aparecer, e cortei um pedaço de sua orelha. O careca tinha se escondido. Olhei para o senhor qualquer coisa, desesperado ao lado do corpo da esposa. Não vale a pena. Faltava só uma coisa. Do canto superior direito até o inferior esquerdo, minha faca de carne percorreu o quadro idiota da minha mãe. Mais vinho, senhorita? Como? Olhei para o garçom apalermado, que mostrava o rótulo de um Château N'Importe Quoi. Alguns saboreavam a sobremesa, outros fumavam e tomavam café. A solução mesmo é o voto distrital! Mais vinho, claro.

Chão pt.5

Tomamos um corredor lateral e entramos em sua casa, que de fato era minúscula e sem janela. Era um cômodo só, com uma pia e um vaso, uma cama e uma estante com algumas peças de roupa, várias latas de sardinha e um garrafão, de pinga certamente. Flagrei também um exemplar de Quincas Borba, e perguntei o que fizera do resto de seus livros. Eu doei a uma biblioteca comunitária, esse aí é só pra hora das necessidades, um velho hábito. E o do jogo você teve que abandonar? Às vezes eu jogo dominó a dinheiro na praça tal, mas não é a mesma coisa. Bateram na porta. Ele abriu, era a dona Carmen, conforme ele me apresentou. Era mesmo uma coroa bem aceitável. Não, não estamos precisando de nada, obrigado. Ele me ofereceu da pinga, eu aceitei, mas era de péssima qualidade. Eu hesitei, mas tinha que entrar no assunto alguma hora: e a bebida, Luís, não será o que te impede de sair dessa condição? Ele me olhou furioso. Mas falou com franqueza. Eu me acostumei a esta vida, rapaz, não vejo muita saída. Eu não sirvo mais para escrever, era a única coisa... Por que não?! Interrompi o trabalho de acomodar as compras na prateleira. Tudo isso que você tem vivido é material perfeito para literatura! Eu não quero aparecer em público como alguém de quem as pessoas têm que sentir pena, ou mesmo um exemplo de superação, e ademais eu já estive lá, eu sei como esse meio é uma fogueira de vaidades... Mas todos são, Luís, você joga o jogo sem se deixar contaminar o quanto possa. Você acha que eu adoro meu escritório de advocacia? Bah, você faz parecer que viver na rua tem sido tão divertido que merece ser contado num livro. É uma vida dura, rapaz, um aprendizado. Eu não disse nada disso Luís... Ele me interrompeu, agora queria contar mesmo sem ser questionado.

Trabalhando nos semáforos você não tem banheiro, não tem água fresca, você não ganha um tostão quando chove o dia todo. Eu cansei de dormir faminto, e sujo, minha higiene por muito tempo foi com um caneco de água e um sabão em barra que eu tinha que fazer durar o máximo, só nas áreas mais vitais. Fora o frio: quando eu fiquei embaixo do viaduto, por sorte era verão, mas ainda assim algumas noites eram geladas. Eu já tinha vendido minhas roupas melhores, e me virava só com um conjunto de moletom distribuído por uma organização de caridade, este aqui aliás, e mostrou a calça rasgada. O papelão não estava resolvendo muito, aí eu encontrei nos fundos de um supermercado o motor da câmara frigorífica, e aninhado ali eu conseguia dormir. No terceiro dia me acharam e me acordaram com um balde de água gelada. Era frequente também que me roubassem a mercadoria, por mais que eu tentasse escondê-la; experimentei usar os panos como colchão, mas eles ficavam contaminados da minha sujeira, imprestáveis. Isso tudo sem contar o desprezo com que você é tratado o tempo todo; hoje eu já não ligo, mas... Não, Vinícius, eu não quero aparecer e contar que passei por isso.

Algum orgulho ainda lhe restava então, e isso era bom. E isso não enriquece ainda mais o relato? Aliás, você pode simplesmente dizer que fez tudo como pesquisa para o livro, vão admirar sua coragem. Ele pensou um pouco. Eu não quero mais escrever sobre mim mesmo, Coito Interrompido me esgotou, eu já disse. Faz o seguinte: escreve você, Vinícius, disse, dando uma palmadinha em minha perna. Eu assino, te dou uma porcentagem. Eu fiz um gesto de exasperação: eu não sei escrever como você, Luís, não tenho seu estilo, não tenho seu talento! Eu confio em você, você escreve, eu dou algumas sugestões. Não aceitei uma segunda dose. Era já de noite, e ouvimos o barulho do portão lá fora. Seu Fabrício, ele explicou. Conversamos um pouco sobre como é comum o recurso ao famoso escritor fantasma; fomos interrompidos por alguma altercação dentro da casa, mas não demos muita importância.

A ideia começava a me agradar, era um desafio: a mim mesmo, já desiludido do ofício da escrita, e à obstinação dele em aceitar sua condição aviltante. Luís, olha, pode funcionar sim. Mas eu não quero uma porcentagem, em quero outra coisa... Bateram à porta. Era o seu Fabrício, Luís nos apresentou brevemente. Eu percebi que ele mantinha uma mão para trás, e que no bolso de sua calça havia um volume. Seu Luís, eu queria te perguntar: isso aqui - e revelou, na mão que escondia, uma cueca - já foi meu, eu me lembro quando levei pra você; como foi parar no meu quarto? Ora, seu Fabiano, deve ter sido algum equívoco da Carmen e... Equívoco? Equívoco foi tentar ajudar você seu vagabundo! Ela já confessou tudo - e sacava um revólver enquanto proferia outros insultos. Eu pulei da cama onde estava sentado e me interpus entre os dois, tive que segurar o braço direito do padeiro, que lutava para se livrar. Luís deu um safanão em nós dois que nos levou ao chão, e aproveitou para escapar pelo corredor. Eu desarmei meu adversário e segui meu antigo ídolo e recente amigo, jogando o revólver por cima do muro.

Quando apareci em casa com um ambulante maltrapilho, ele mesmo não objetou a que eu finalmente contasse tudo a minha esposa. Ela achou a história fantástica, assim como a ideia do livro. Foi ela mesma quem convenceu o pai a pagar pela clínica de reabilitação, que era a parte no trato que Luís teria que cumprir, a única retribuição que eu exigia pelo meu trabalho, que no fim foi um prazer. Nos trinta dias em que esteve internado, eu o visitava duas vezes por semana, com um gravador. Ele mesmo, para passar o tempo lá dentro, começou a redigir contos, no papel mesmo; eu li e achei ótimos: outro estilo, a mesma elegância. Também fiz as vezes de seu advogado, recuperei os direitos de todos seus livros e arranquei uma pensão da esposa. Quando tudo isso saiu, ele deixou o sofá da nossa sala, para uma quitinete que ele já podia pagar por si mesmo - um adiantamento da editora foi também providencial. Nossos encontros continuavam, ele não pedia para alterar muito, acabavam sendo conversas animadas, regadas apenas a chá. O livro ficou pronto, foi publicado e fez sucesso imediato. Ele deu entrevistas, aceitou minha ideia de alegar que a mendicância foi só um laboratório. Depois de algum tempo, os mesmos produtores de Coito Interrompido propuseram filmar Chão Por Leito, mas queriam mudar o título. Luís Carrasco voltou a ter uma vida materialmente confortável, voltou a comer muitas mulheres, só não bebia nem jogava. O material que ele produzia enquanto eu me passava por ele também foi publicado mais adiante, na mesma época em que meu próprio volume de contos foi parar nas prateleiras com um prefácio dele.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Chão pt.4

Ele me fez deixá-lo na estação de metrô, não quis revelar onde morava e não tinha telefone. Passei duas horas discutindo com minha esposa. De nada valia meu retrospecto de bom moço, e eu queria manter minha promessa. Ela também conhecia Coito Interrompido, pelo menos o filme, e era um terreno fértil para a semente do boato germinar. Ela insistia em que eu fora encontrar outra mulher, mas pareceu mesmo intrigada com o fato de eu chegar com um fardo de panos de chão, que ele esquecera no meu carro. Dormi exausto. Trabalhei dois dias sem que aquilo me saísse da cabeça. Imagine a quantidade de experiências inusitadas que Luís vivia em sua nova vida de ambulante depauperado. Se ele se dispusesse a narrá-las, com aquele estilo irônico, garanto que ia fazer sucesso, ia tirá-lo da pindaíba. Tinha certeza de que aquela conversa de opção filosófica era empulhação. O problema dele era o alcoolismo, e ele não parecia nem um pouco disposto a abandoná-lo.

Voltei ao cruzamento em que ele trabalhava, não o achei lá da primeira vez. No dia seguinte tive mais sorte. Disse que entrasse, que iríamos a um supermercado. Paga uma dose, doutor? Que escolha eu tinha? Depois de um boteco sujo dali das imediações, fomos às compras. Eu queria ajudá-lo, mas queria também saber onde morava, tinha certa desconfiança de que a história da edícula podia ser um edulcoramento de uma realidade ainda pior. Lembrei-lhe do nosso trato; por uma formalidade, a verdade é que já havia conquistando sua confiança. Perguntei, enquanto punha no carrinho um saco de arroz, há quanto tempo ele vendia panos. Ele disse que não cozinhava em casa. Na verdade, só tinha em mente a prateleira de bebidas. Eu escolhia algumas comidas enlatadas enquanto ele se abria aos poucos. Eu terminei de conquistá-lo com duas garrafas de conhaque.

Bem, com o divórcio eu fui ao chão. Eu já bebia bem, devo ter triplicado a quantidade e diminuído muito a qualidade. Todos os falsos amigos que eu granjeara no meu auge tiveram alguma desculpa pra não me receber provisoriamente, fui parar numa pensão perto da rodoviária. Aí eu dei em cima de uma moça que morava lá, feia, a coitada, mas eu estava bêbado o tempo todo. Enfim, eu fui expulso, e passei algum tempo debaixo de um viaduto. Os inquilinos originais não me acolheram, mas também não me expulsaram. Pedia restos em restaurantes e era escorraçado. Fumava bitucas que encontrava. Aquilo já era um pouco demais, e eu procurei minha ex-mulher, exigindo que ao menos minha máquina de escrever me entregasse. Estava quebrada, não valia quase nada, mas serviu para comprar algumas caixas de balas, que vendia, lá mesmo onde você me encontrou. Eu já comia um pão com manteiga todo dia, estava ótimo. Mas de repente apareceram umas crianças, com o pai delas ameaçando me furar com um canivete se eu não abandonasse aquele ponto. Ah, eu sempre fui bom de briga, doutor Vinícius: ele me fez isso aqui - e mostrou uma cicatriz no antebraço esquerdo - mas quebrei ele de porrada, e virei o rei do pedaço. Na verdade, em pouco tempo eu tinha meia dúzia de moleques trabalhando pra mim, e deu pra pegar outro quarto de pensão. Dessa vez fui eu que não aguentei, estava acostumado afinal com a vida na rua. Foi quando eu comecei com os panos, porque aquilo de vender bala era degradante, sabe? Eu tinha de impor respeito.

E que tipo de coisa inusitada você já viveu nessa vida... na rua?, provoquei. Estávamos pagando a conta. Muita coisa, meu rapaz, é uma vida cheia de interesse a seu modo. Uma vez, no cruzamento onde eu estava trabalhando, houve um engavetamento de três carros. Desceram, irritados, mas logo conseguiram conversar civilizadamente e acabaram descobrindo que um era meio-irmão de outro e o terceiro era primo distante dos dois. Vai calcular a probabilidade.Ou como o dia em que ouvi um carro buzinar, era um carrão, dentro estava um coroa com os olhos fechados, a película não era muito escura; achei estranho mas me aproximei, ele se assustou. Quando eu presto atenção, aparece uma jovem só de sutiã e o tiozão tá recolhendo a artilharia. Guardamos as compras no carro. Teve também a história de como eu fui parar lá onde estou morando, com o seu Fabrício. O padeiro. Ele comprou pano comigo um dia. Puxou assunto, conversamos brevemente, ele sorria bastante. Disse que ia passar ali no dia seguinte com alguns pães dormidos. Passou realmente, e com um sortimento de salgados e doces. Fez isso várias vezes. Ele gostava de conversar comigo, e um dia me questionou o fato de eu parecer ter uma formação intelectual incongruente com a posição social. Eu nem falava de nada intelectualizado, acho que ele se referia a meu português de escritor, que não consegui perder. Bem, eu me afeiçoara ao sujeito, a atenção de alguém nesses momentos, enfim... Eu revelei meu passado de escritor, pedindo segredo total, claro; ele até tinha ouvido falar no filme, prometeu que leria o livro. Aí passou a me trazer roupa velha, também. Eu sabia que ele estava só se livrando de coisas em que tinha que dar um fim, mas era um grande gesto, mesmo assim. Interrompeu a narrativa para dar algumas indicações do caminho, era um bairro afastado. Um dia, prosseguiu, ele me disse que tinha lido e tinha gostado muito do livro. Tinha uma pergunta a fazer: se eu não queria dar aulas de português a sua filha. A perspectiva de algum dinheiro de verdade me fez aceitar, embora não tivesse o menor jeito para ensinar gramática. Começaram as visitas semanais. Era uma mocinha de doze anos, estúpida como um jumento, percebi que não foi só um meio encontrado pelo seu Fabrício de me ajudar. Mas o que me interessou mesmo foi a mãe dela. Ela servia sempre um cafezinho, uns quitutes, uma quarentona com tudo em cima, seu doutor, e me olhava de um jeito! E eu, bem, fazia tempo que o máximo que eu comia era uma dessas craqueiras do centro, quando sobravam vinte mangos. Acontece que a mãe matriculou a filha na natação, no horário logo após as minhas aulas, e passamos a ficar com a casa para nós por algumas horas... o senhor imagina. Continua escutando: eles moram em uma casa com uma edícula minúscula, que estava alugada na época para um metalúrgico. A madama acusou o sumiço de uma joia, pôs a culpa no rapaz e o expulsou. Não sei se por si só, ou se instigado pela mulher, Fabrício me convidou para morar lá, por um aluguel bem camarada. E você está comendo a mulher do cara que te ajudou, interrompi. Mocinho, disse ele abaixando o volume do som, eu disse que se era pra me julgar que me deixasse quieto. Eu gosto de pensar que é uma forma de retribuir a ajuda, se bobear até ele pensa assim. Como? Eu acho que ele sabe. Suspirei, atônito. É aquela casa ali, vermelha.

sábado, 14 de janeiro de 2012

Chão pt.3

Onde você está, seu mau caráter? Calma Soninha, eu esqueci de avisar, eu... um colega me convidou pra jantar, e... Que história é essa Vini, você detesta todos seus colegas. É, mas ia ter uma confraternização, ficava chato... ficava chato recusar, desculpa não ter ligado, volto daqui a pouco, tá, beijo. Ele me fizera prometer que não revelaria para absolutamente ninguém tê-lo encontrado. Ela vai me encher o saco.

Ele saboreou a única refeição decente em sabe-se lá quanto tempo, em silêncio. Respirou fundo, dr. Vinícius, o senhor tem um cigarro? Eu não fumo, mas pedi ao garçom um maço. Ele sacou uma caixa de fósforos e acendeu um cigarro. O garçom veio furioso lembrá-lo da proibição. Mas eu sempre venho a este restaurante e fumo! Meu senhor, então faz muito tempo que o senhor não vem aqui, e empinou ainda mais o nariz. Ele saiu restaurante afora com o cigarro aceso, suscitando protestos. Eu o segui. Ele fumava na entrada do restaurante, e isso também nada agradava ao maître, que abriu um portão lateral para que ele fumasse nos fundos. Entretanto nós paramos no corredor lateral, e janelas basculantes altas davam obviamente para o salão do restaurante.

Um filé desses só não é melhor que uma trepada. O álcool fez efeito em sua língua. Eu já comi muita mulher, sabe dr. Vinícius, eu pedi que dispensasse o título, que eu já sabia desde sempre ser sarcástico, já fodi muito. Já fodi jovem e velha, magra e gorda, já fodi loira e morena, ruiva e japonesa, já fodi namorada, puta, esposa, amiga. Uma vez, no Pará, jovem, eu conheci uma criatura fantástica: ela me fez gozar três vezes, sem intervalo. O amor de uma profissional tem às vezes essa intensidade, mas é só um divertimento perto de uma boa trepada com alguém que importa... Eu tive muitos amores, meu amigo, eu sou bom de cama, sabe, tenho um talento natural de convencer as mulheres... Ele ia se entusiasmando, e disse, quase gritando, uma frase que não reproduziria aqui. No instante seguinte o maître lá estava para nos expulsar. Eu nunca mais poderia frequentar aquele lugar.

Me dá um cigarro. O senhor não fuma. Só o fuzilei com o olhar e ele me deu. Fazia quase três anos, seu Carrasco. Não me olhe assim, eu te economizei uma grana. Sabe o que a gente vai fazer com essa grana, doutor? Estávamos entrando no carro. Vamos comer umas putas! Ah, de jeito nenhum, eu não posso gastar dinheiro com isso. Mas você já gastaria com o restaurante, de qualquer forma; vamos lá, você já está fodido com sua esposa mesmo. Fazia algum sentido. Com uma condição: você vai responder qualquer pergunta que eu fizer. Eu topo, chapa. Faz o seguinte, pega a perimetral.

Era um lugar horrível, a decoração tão brega quanto sempre, de terceira categoria. As moças eram feias pela maior parte, a caipirinha era caríssima e muito mal feita. Sentamos numa mesa perto do palco. Uma moreninha subiu para fazer strip. Então você diz que também escreve. Ah, muito mal, foi coisa de juventude. Você, parou de escrever? Ele não respondeu, fez sinal a uma falsa loura que lhe veio sentar no colo. Eu estava disposto a lembrá-lo do trato quando ele enunciou um não escrevo mais solene. Onde você mora? Moro em uma edícula sem janela atrás da casa de um padeiro. Você não recebe mais nada pelo Coito Interrompido? Meus credores ganharam meus direitos na justiça. Luís, você já ouviu falar na existência de advogados? Não importa, seu doutor (ele entendeu o pedido ao contrário), eu podendo comer como dá e comprar minha cachaça tá muito bom. Mas você não se esforça pra sair dessa situação? Você poderia ser professor, tradutor, um monte de coisas! É uma opção filosófica, filho. Antístenes. Só o cinismo salva. Porque qualquer convenção social é idiota demais pra ser levada a sério. Incluindo o sexo, e fez sinal a uma mulatinha, que veio render a falsa loura. Com ela ele trocou algumas palavras e em pouco tempo entravam para um quarto.

Chão pt.2

Seu Carrasco!, eu gritava, enquanto ele se afastava, mas sem pressa. Desci do carro, ele me encarou. Você é da tevê? Não! Eu era... eu sou um admirador seu, olha aqui. E afastei a capa para mostrar a dedicatória. Vamos conversar? Ele me fitou desconfiado por uns instantes. O semáforo ficou verde, o motorista atrás de mim, depois outros, começaram a buzinar; gente estressada. Me paga um parmegiana. Claro, entra aí. Seu Carrasco, eu mal pude... Luís. Luís, eu mal pude, eu não acredito até agora... Rapazinho, se você me chamou pra me julgar, pode encostar aí que eu desço e janto sardinha de novo. De forma alguma, calma, eu só quero entender, ajudar no que possa. E se é pra me tratar com condescendência, vale o mesmo. Não, putz... faz assim: eu não vou perguntar nada, você diz o que quiser. E calado ele ficou, com o próprio livro entre as mãos. Até que percebi uma lágrima furtiva que ele enxugou com as costas da mão direita. E olha pra frente! Eu conto, depois que você pagar um uísque.

Deixei o carro num estacionamento privado, era uma região um tanto metida a besta, e tive que acenar desafiadoramente ante pelo menos um olhar de reprovação pela companhia "desqualificada". Meu orçamento não me permitia comer ali com frequência, mas eu sabia do que Luís sentia falta, e aquele era o melhor parmegiana da cidade. Ele disse exatamente isso, sorrindo pela primeira vez. O maître foi outro a olhar com desdém. Eu pedi uma mesa reservada, ele atendeu contrariado. Dois uísques e duas águas com gás. Duplo, caubói. Dois duplos sem gelo, e duas águas. Sim, com gás. Ele folheava a esmo enquanto esperávamos. Parmegiana para dois. Esse livro, ele começou após a primeira golada, me esgotou. Me consumiu. Foram três anos por conta dele, quer dizer, reduzi minha atividade acadêmica a um mínimo, e nem isso levava muito a sério. Os alunos gostavam, sabiam que iam passar sem dificuldade. Bando de medíocres. Eu tirei férias para fazer pesquisa no Norte, acabou sendo um mês de putaria, o que é exatamente o que eu buscava. Mas aquele envolvimento, aquele entusiasmo, eu nunca mais terei. Então essa situação atual não é apenas pesquisa para a próxima obra?, arrisquei, apesar da promessa. Ele fez vibrar os lábios, sarcástico. Eu posso ser profissional, mas não tão profissional. Não, eu não sou mais escritor... eu não sei seu nome. Vinícius. Pois bem, Vinícius, o que você quer é saber como estou nesta merda. Vamos lá. Você não é jornalista, é? Saquei a carteira e mostrei a identidade de advogado.

Ele respirou fundo. Coito Interrompido foi um tremendo sucesso, como nem eu esperava. Eu me tornei praticamente uma celebridade. Depois do filme então, aí sim começou a entrar uma grana séria. Começaram as desavenças com minha mulher, que insistia para que aplicássemos, investíssemos em tal ou tal coisa. Mas o dinheiro vinha do meu trabalho, e eu sabia muito bem como empregá-lo. Rapidamente me acostumei a usar os serviços de acompanhantes mais caros, ao menos duas por semana. Descobri o jogo clandestino, que foi minha ruína eventualmente. Quanto mais experimentava estratégias para a roleta, quanto mais ganhava duas ou três rodadas seguidas, mais eu aumentava as apostas. Mas estou me apressando. Sinalizou o copo vazio e eu chamei o garçom, que atendeu com uma cara azeda. Não resisti. Saiba que este é um dos melhores escritores brasileiros da atualidade! Mas, meu senhor, eu não disse nada, com licença. Luís me olhou furioso. Não faça isso novamente, você está tentando me humilhar? Desculpa, não suporto esse tipo de... enfim, prossiga. Pois eu era uma celebridade literária, grande porcaria. Isso se refletia na universidade, minhas aulas eram concorridas, eu comecei a ficar arrogante, o velho clichê; mas aquelas jovens de repente se derretendo por mim, como eu ia resistir? Até que deu merda. Porra, ela parecia ter pelo menos vinte e três, não sei se pelo tamanho; era uma delícia de loira, e até que fazia comentários bem pertinentes, também não me tratava com uma veneração basbaque, tinha aquele sorriso sereno. Com essa eu comecei a me envolver, já fazia uns dois meses que a gente se via, quando a polícia me procurou em minha sala. Os pais dela eram evangélicos, ela supostamente também, e quando souberam que sua ovelha de dezessete anos, recém completos, tinha sido seduzida por um velho tarado (e eu reconheço ser um velho tarado), não tiveram dúvidas, e essa foi minha primeira confrontação com a lei. No fim eu só paguei umas cestas básicas, mas obviamente minha mulher ficou furiosa, e a custo me perdoou, e o departamento também não gostou nada. Deixei o processo administrativo correr à revelia, na verdade deixei tudo correr à revelia e não apareci mais lá. Nessa época eu já estava bebendo cada vez mais.

Sempre entrava uma graninha, o livro teve algum sucesso em quatro traduções, mas meu estilo de vida rapidamente consumia isso e eventualmente consumiu tudo, ou quase tudo, que havia acumulado. Eu escrevia cada vez menos, e a qualidade era obviamente inferior, eu mesmo percebia. Eu apenas me repetia, até que cansei de vez. A entrega que eu dedicara à literatura agora eu dedicava à devassidão. Eu me endividei, e passei a acreditar que publicando outro volume, ou acertando o 17 em cheio, tudo se resolveria. A editora achou que meu nome era ouro por si só e publicou um monte de bobagem, novas e antigas - refugo que com razão eu descartara. Eu li, atalhei, é mesmo lixo. Obrigado. Bem, eu comecei a receber ameaças, e resolvi andar armado. Um dia fui pego dirigindo bêbado e o trabuco no porta-luvas me rendeu uma confusão dessa vez bem mais séria com a polícia. Minha mulher teve que pedir ao pai dela a quantia da fiança, mas em mim mesmo ela perdeu de vez as esperanças. Ela tinha como pagar um bom advogado, eu mal podia pagar um parmegiana como este (que estava sendo servido) e o dinheiro que eu mantinha na conta conjunta para manter as aparências ficou todo para ela, assim como o apartamento. Eu disse que nessa situação ele mesmo podia requerer pensão. Ficou olhando pensativo. Chacoalhou a cabeça: não quero nada daquela megera. Vamos saborear este filé em paz, por enquanto. Obedeci.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Chão pt.1

Eu estava atrasado para uma consulta médica. O semáforo ficou amarelo, eu estava um pouco longe; ainda acelerei, mas vi que era arriscado demais: havia fiscalização eletrônica. Maldisse a sorte, mas pensei que esses médicos sempre nos fazem esperar mesmo. Olhei instintivamente para o carro à direita, eu estava na faixa de fora; era um coroa gordo. Olhei pra fora da minha janela e tinha um sujeito vendendo pano de chão. Barba por fazer, cabelos grisalhos desgrenhados, uma camisa azul, que conhecera dias melhores, calça de moletom cinza, rasgada no joelho direito, e tênis de corrida que deviam ter dado a volta à terra. Passou por mim apregoando tantos por tanto, e recusei maquinalmente. Mas voltei a enquadrar seu rosto.

Impossível! Mas não podia haver dúvida. Ele já estava abordando o terceiro carro da fila, buzinei duas vezes, ele percebeu e veio correndo. Era ele. Eu sou bom fisionomista. Cinco anos antes, talvez seis ou no máximo sete, eu tive que esperar numa fila para trocar poucas palavras com ele, elogiar seu livro, e ter meu exemplar autografado. Sei de cor a dedicatória: "a um jovem escritor, perseverança no caminho das belas letras", em letras de forma, com uma assinatura simples, um traço que subia, descia e voltava para o centro, como duas pás de uma hélice, representando remotamente uma letra L. Seu romance foi um sucesso, muito mais depois que foi adaptado para o cinema, mas eu já o conhecia anteriormente por seus volumes de contos. Tinha um estilo que eu, um humilde aspirante, como a ele confessei, tentava em vão imitar. Sabia usar a informalidade e mesmo a vulgaridade com muito bom gosto.

O livro e o filme lhe deviam ter rendido um bom dinheiro. Talvez por isso tenha demorado para voltar a publicar, mas confesso que nem cheguei a terminar seu último livro: era muito abaixo de seus padrões. De qualquer forma, quem iria esperar que sua decadência fosse tão completa que um admirador seu fosse eventualmente comprar dele panos de chão, em um semáforo qualquer do centro da cidade? Pois foi o que fiz. Não tive coragem de perguntar aquilo que já sabia. Mas perguntei a primeira coisa que veio à mente: você está sempre aqui? Quando ele começou a responder, o sinal já estava verde e o motorista atrás de mim já buzinava. Na hora do almoço e no fim da tarde, foi o que disse. Eram onze e quinze já, o médico ia encher meu saco, foda-se.

Antes de ir trabalhar, passei em casa para buscar meu almoço. Fui até a estante e achei o volume. Tinha pouco mais de trezentas páginas, a edição era bonita, com uma capa escura e acetinada. O nome estava lá, em letras vermelhas, e no frontispício a mensagem de encorajamento. Eu obviamente desisti logo de ter literatura como um ganha pão, aliás nem por diletantismo eu a praticava ultimamente: tornara-me um advogado medíocre que suava para pagar aluguel e prestação do carro; não fosse por minha esposa estava frito. No escritório, nas pausas que fazia lia alguma passagem ou outra. Que verve. A crítica na época o louvava como o Bukowski brasileiro, alguns viam tons machadianos, mas ele nunca foi um imitador, tinha um estilo único. Alterei meu trajeto na volta, aliás, não estava exatamente voltando, não a minha casa ao menos. Tive que encostar o carro, pouco antes do semáforo, para garantir que ficasse retido, liguei o pisca-alerta. Um idiota passou buzinando, vai à merda. No amarelo, arranquei, estava na faixa central e fiquei sendo o segundo da fila. Lá estava ele. Buzinei duas vezes, ele tinha uma expressão de curiosidade ao me reconhecer. Talvez tenha pensado que eu era homossexual e queria propor alguma coisa. Pronunciou um diga patrão seco, algo que soava forçado em sua boca. Eu peguei o livro no banco do passageiro e mostrei a ele.  

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Rupturas

Vivia já há dezesseis anos naquele apartamento. Havia um escritório, com quatro estantes, daquelas de aço esmaltado: uma para os livros do meu marido, pouco mais de metade ocupada, uma para meus livros, repleta, os restantes estando na terceira, da qual duas prateleiras eram ocupadas por uma desordem imensa de papéis acumulados. Minha tarefa para a tarde era percorrer cada item, separando o que era meu, dele ou do lixo. Havia muito material acadêmico, que não podia jogar fora, mesmo que provavelmente nunca mais fosse consultado. Havia três anos inteiros de um periódico estrangeiro, para o qual vale o mesmo. Muita coisa do trabalho dele, da escola do Guilherme, fiquei em dúvida... eram tantas recordações boas! Uma certa angústia me tomou. Carlos me deixara, sem razão aparente; disse que estava esperando o Gui crescer, e esperou até bastante: ele tinha 22. Mas em nenhum momento seu carinho parecera diminuir, pelo contrário, estava até mais caloroso recentemente. Como entender os homens. Quando voltei à lida, esbarrei em um pacote com convites de casamento; cruel ironia.

Alguns eram de parentes, meus e deles, mas quatro me chamaram a atenção: eram de amigos próximos, gente que frequentava a casa. Nenhum casal seguia unido, e nós mesmos nos juntávamos ao clube, no ano das bodas de prata. A Selma tinha estudado comigo, Ciências Sociais. Ela acabou virando funcionária pública, e foi no Ministério que conheceu o Arnaldo, um cara muito bacana também. Eles batalharam, compraram um lote num condomínio irregular, construíram aos poucos, tiveram o Jorginho e em seguida a Vilma, eu lembro quando fomos juntos pra Pirenópolis. O Carlos passou o fim de semana emburrado porque teve que abrir mão do show do Paulinho da Viola, mas a verdade é que ele nunca foi muito com a cara do Arnaldo, que - entre eles - ficava contando vantagens de mulheres, quiçá imaginárias, que tinha tido. Carlos sempre foi um cara tímido e teve poucas namoradas, talvez por isso tenha se apressado tanto em se casar comigo. Os dois fizeram um churrasco quando a casa ficou pronta, ou quase pronta. Uma amiga minha que morava em São Paulo estava me visitando, e ela foi conosco. Paula era muito bonita, é até hoje, e a Selma começou a prestar atenção no modo como Arnaldo conversava com ela; com razão. E ficou tão desconfiada depois daquele dia que começou a perceber sinais, que devia mesmo ter sido muito tonta para ignorar. O mulherengo não tinha nem o cuidado de evitar usar seu telefone para suas escapadas, e por aí foi pego. Tiveram que vender a casa para repartir o dinheiro, Selma ficou com os filhos e ele hoje recebe metade do salário. Os dois nem sempre conseguem evitar de se esbarrar no Ministério, não se falam.

Às vezes reuníamos gente em casa. Para conversar, ouvir uma musiquinha, tomar um vinho e comer um queijo. Um dia, a Selma estava, sem o Arnaldo, eu tinha chamado outra professora do departamento, a Joana, nós nem éramos assim tão próximas, mas ela acabara de chegar a Brasília e não conhecia ninguém. O Carlos chamou um colega também, o Próspero, os dois disputavam uma promoção, na época, o Carlos acabou conseguindo. Os dois, solteiros, não demoraram muito em iniciar uma conversação, e foram ajudados pela origem comum: eram do Rio Grande do Sul. Depois que se despediram, nós olhamos pela sacada e vimos os dois se beijando encostados ao carro dele. Em pouco mais de um ano estavam noivos, e casados dali a seis meses. Pareciam muito felizes, e voltavam aqui amiúde, sempre nos agradeciam por os ter apresentado. Não tiveram filhos, ela ainda queria fazer um doutorado antes. Ele também se sentia estagnado, e decidiu fazer um MBA no exterior. Mas ele queria Estados Unidos e ela foi aceita na França. Surgiu o impasse. Decidiram levar adiante, à distância, revezando: cada mês um cruzava o atlântico. Durou um ano: ela não resistiu aos encantos de um Jean-Pierre qualquer e sua baguete debaixo do braço. Ele ficou inconsolável, mas terminou o curso e hoje está bem profissionalmente, em São Paulo, ela ainda está em Lyon, pós-doc.

Aí um dia a Paula me disse que ia se mudar pra Brasília, passara num concurso. Ela eu conhecia desde criança, lá em Pernambuco. Ela é pouca coisa mais nova que eu, mas parece ser bem mais jovem; já disse que é uma mulher muito bonita. E sempre teve prazer em seduzir os homens, um talento natural. Ocorre que ao chegar certa idade, ela mesma se cansou de jogos inconsequentes, sentiu falta de alguma segurança. Sempre se abria comigo, sua confidente. Mesmo assim, eu não esperava dela que viesse de repente me apresentar o Ricardo, quase trinta anos mais velho e obviamente muito rico, juiz aposentado. Casaram-se oito meses depois de se conhecerem, e oito meses depois ele, obeso, sedentário e tabagista, teve um enfarte fulminante. Ela conseguiu a segurança que almejava, e pertencendo agora às rodas da alta sociedade, foi inclusive amante de um político famoso. Mas um dia, em uma festa, encontrou o Arnaldo, que conhecera naquele malfadado churrasco. Ela mal se lembrava dele, mas ele nunca esquecera aquela morena, e tratou de exercitar seus dotes de galanteador. Saíram de lá para o apartamento dela, e na semana seguinte ele já morava lá. Dois meses depois ela anunciou que estava grávida: fizera de propósito, não podia esperar se queria mesmo uma criança. Como dois adolescentes, casaram-se às pressas. Rosa nasceu prematura, por pouco não sobreviveu, e tinha sempre uma saúde frágil. Por isso mesmo Arnaldo não se conformava em  ver Paula sair pelo menos uma vez por semana para jogar cartas, deixando a criança aos cuidados da babá. Como ele mesmo, ela foi descuidada, e não demorou a ficar claro que ela seguia vendo o tal político. Arnaldo cogitou aceitar a situação, pensava principalmente em seu contracheque, mas era orgulhoso demais, e o casamento se desfez. Hoje ele dá aulas para complementar o orçamento, ela é uma diva dos altos círculos da capital - correm boatos escabrosos quanto a sua reputação.

Enquanto eu prosseguia o trabalho entregue a essas reminiscências, meu filho chegou em casa, vindo da casa da namorada. Pensei em aconselhá-lo um pouco: que não fizesse nenhuma besteira, não se apressasse. Mas para quê? Todos temos que cometer os erros que nos cabem, e se ficar um saldo de bons momentos, que importa que não dure para sempre. Para sempre? Que pretensão. Afinal, será bom mesmo ter o mesmo companheiro a vida toda? No mais da vezes não é só uma conveniência, uma fachada? E me senti feliz de ter vivido um quarto de século com o Carlos. E pensei involuntariamente naquele professor da Filosofia, que  me convidava para almoçar e declarava uma admiração intelectual que bem sabemos o que significava. Gui entrou no escritório. Tá tudo bem? Tá, tudo tranquilo. A Ritinha tá bem? Sim, ela viajar com os pais pra Europa. Ah, que legal. Olha, filho... Mãe, eu preciso dizer uma coisa. Minha espinha gelou. Que fosse, a vida é dele. Pode falar, filho. O papai... me pediu pra conversar com você. Ufa! Você talvez... Diga. Ele vai se casar de novo. Como! Faz um mês que nos separamos! Pois é, e... é alguém que você conhece. A ideia caiu como um raio. Não podia ser. Ele soube interpretar meu olhar de espanto. É ela mesmo.