quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Chão pt.1

Eu estava atrasado para uma consulta médica. O semáforo ficou amarelo, eu estava um pouco longe; ainda acelerei, mas vi que era arriscado demais: havia fiscalização eletrônica. Maldisse a sorte, mas pensei que esses médicos sempre nos fazem esperar mesmo. Olhei instintivamente para o carro à direita, eu estava na faixa de fora; era um coroa gordo. Olhei pra fora da minha janela e tinha um sujeito vendendo pano de chão. Barba por fazer, cabelos grisalhos desgrenhados, uma camisa azul, que conhecera dias melhores, calça de moletom cinza, rasgada no joelho direito, e tênis de corrida que deviam ter dado a volta à terra. Passou por mim apregoando tantos por tanto, e recusei maquinalmente. Mas voltei a enquadrar seu rosto.

Impossível! Mas não podia haver dúvida. Ele já estava abordando o terceiro carro da fila, buzinei duas vezes, ele percebeu e veio correndo. Era ele. Eu sou bom fisionomista. Cinco anos antes, talvez seis ou no máximo sete, eu tive que esperar numa fila para trocar poucas palavras com ele, elogiar seu livro, e ter meu exemplar autografado. Sei de cor a dedicatória: "a um jovem escritor, perseverança no caminho das belas letras", em letras de forma, com uma assinatura simples, um traço que subia, descia e voltava para o centro, como duas pás de uma hélice, representando remotamente uma letra L. Seu romance foi um sucesso, muito mais depois que foi adaptado para o cinema, mas eu já o conhecia anteriormente por seus volumes de contos. Tinha um estilo que eu, um humilde aspirante, como a ele confessei, tentava em vão imitar. Sabia usar a informalidade e mesmo a vulgaridade com muito bom gosto.

O livro e o filme lhe deviam ter rendido um bom dinheiro. Talvez por isso tenha demorado para voltar a publicar, mas confesso que nem cheguei a terminar seu último livro: era muito abaixo de seus padrões. De qualquer forma, quem iria esperar que sua decadência fosse tão completa que um admirador seu fosse eventualmente comprar dele panos de chão, em um semáforo qualquer do centro da cidade? Pois foi o que fiz. Não tive coragem de perguntar aquilo que já sabia. Mas perguntei a primeira coisa que veio à mente: você está sempre aqui? Quando ele começou a responder, o sinal já estava verde e o motorista atrás de mim já buzinava. Na hora do almoço e no fim da tarde, foi o que disse. Eram onze e quinze já, o médico ia encher meu saco, foda-se.

Antes de ir trabalhar, passei em casa para buscar meu almoço. Fui até a estante e achei o volume. Tinha pouco mais de trezentas páginas, a edição era bonita, com uma capa escura e acetinada. O nome estava lá, em letras vermelhas, e no frontispício a mensagem de encorajamento. Eu obviamente desisti logo de ter literatura como um ganha pão, aliás nem por diletantismo eu a praticava ultimamente: tornara-me um advogado medíocre que suava para pagar aluguel e prestação do carro; não fosse por minha esposa estava frito. No escritório, nas pausas que fazia lia alguma passagem ou outra. Que verve. A crítica na época o louvava como o Bukowski brasileiro, alguns viam tons machadianos, mas ele nunca foi um imitador, tinha um estilo único. Alterei meu trajeto na volta, aliás, não estava exatamente voltando, não a minha casa ao menos. Tive que encostar o carro, pouco antes do semáforo, para garantir que ficasse retido, liguei o pisca-alerta. Um idiota passou buzinando, vai à merda. No amarelo, arranquei, estava na faixa central e fiquei sendo o segundo da fila. Lá estava ele. Buzinei duas vezes, ele tinha uma expressão de curiosidade ao me reconhecer. Talvez tenha pensado que eu era homossexual e queria propor alguma coisa. Pronunciou um diga patrão seco, algo que soava forçado em sua boca. Eu peguei o livro no banco do passageiro e mostrei a ele.  

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