sábado, 14 de janeiro de 2012

Chão pt.2

Seu Carrasco!, eu gritava, enquanto ele se afastava, mas sem pressa. Desci do carro, ele me encarou. Você é da tevê? Não! Eu era... eu sou um admirador seu, olha aqui. E afastei a capa para mostrar a dedicatória. Vamos conversar? Ele me fitou desconfiado por uns instantes. O semáforo ficou verde, o motorista atrás de mim, depois outros, começaram a buzinar; gente estressada. Me paga um parmegiana. Claro, entra aí. Seu Carrasco, eu mal pude... Luís. Luís, eu mal pude, eu não acredito até agora... Rapazinho, se você me chamou pra me julgar, pode encostar aí que eu desço e janto sardinha de novo. De forma alguma, calma, eu só quero entender, ajudar no que possa. E se é pra me tratar com condescendência, vale o mesmo. Não, putz... faz assim: eu não vou perguntar nada, você diz o que quiser. E calado ele ficou, com o próprio livro entre as mãos. Até que percebi uma lágrima furtiva que ele enxugou com as costas da mão direita. E olha pra frente! Eu conto, depois que você pagar um uísque.

Deixei o carro num estacionamento privado, era uma região um tanto metida a besta, e tive que acenar desafiadoramente ante pelo menos um olhar de reprovação pela companhia "desqualificada". Meu orçamento não me permitia comer ali com frequência, mas eu sabia do que Luís sentia falta, e aquele era o melhor parmegiana da cidade. Ele disse exatamente isso, sorrindo pela primeira vez. O maître foi outro a olhar com desdém. Eu pedi uma mesa reservada, ele atendeu contrariado. Dois uísques e duas águas com gás. Duplo, caubói. Dois duplos sem gelo, e duas águas. Sim, com gás. Ele folheava a esmo enquanto esperávamos. Parmegiana para dois. Esse livro, ele começou após a primeira golada, me esgotou. Me consumiu. Foram três anos por conta dele, quer dizer, reduzi minha atividade acadêmica a um mínimo, e nem isso levava muito a sério. Os alunos gostavam, sabiam que iam passar sem dificuldade. Bando de medíocres. Eu tirei férias para fazer pesquisa no Norte, acabou sendo um mês de putaria, o que é exatamente o que eu buscava. Mas aquele envolvimento, aquele entusiasmo, eu nunca mais terei. Então essa situação atual não é apenas pesquisa para a próxima obra?, arrisquei, apesar da promessa. Ele fez vibrar os lábios, sarcástico. Eu posso ser profissional, mas não tão profissional. Não, eu não sou mais escritor... eu não sei seu nome. Vinícius. Pois bem, Vinícius, o que você quer é saber como estou nesta merda. Vamos lá. Você não é jornalista, é? Saquei a carteira e mostrei a identidade de advogado.

Ele respirou fundo. Coito Interrompido foi um tremendo sucesso, como nem eu esperava. Eu me tornei praticamente uma celebridade. Depois do filme então, aí sim começou a entrar uma grana séria. Começaram as desavenças com minha mulher, que insistia para que aplicássemos, investíssemos em tal ou tal coisa. Mas o dinheiro vinha do meu trabalho, e eu sabia muito bem como empregá-lo. Rapidamente me acostumei a usar os serviços de acompanhantes mais caros, ao menos duas por semana. Descobri o jogo clandestino, que foi minha ruína eventualmente. Quanto mais experimentava estratégias para a roleta, quanto mais ganhava duas ou três rodadas seguidas, mais eu aumentava as apostas. Mas estou me apressando. Sinalizou o copo vazio e eu chamei o garçom, que atendeu com uma cara azeda. Não resisti. Saiba que este é um dos melhores escritores brasileiros da atualidade! Mas, meu senhor, eu não disse nada, com licença. Luís me olhou furioso. Não faça isso novamente, você está tentando me humilhar? Desculpa, não suporto esse tipo de... enfim, prossiga. Pois eu era uma celebridade literária, grande porcaria. Isso se refletia na universidade, minhas aulas eram concorridas, eu comecei a ficar arrogante, o velho clichê; mas aquelas jovens de repente se derretendo por mim, como eu ia resistir? Até que deu merda. Porra, ela parecia ter pelo menos vinte e três, não sei se pelo tamanho; era uma delícia de loira, e até que fazia comentários bem pertinentes, também não me tratava com uma veneração basbaque, tinha aquele sorriso sereno. Com essa eu comecei a me envolver, já fazia uns dois meses que a gente se via, quando a polícia me procurou em minha sala. Os pais dela eram evangélicos, ela supostamente também, e quando souberam que sua ovelha de dezessete anos, recém completos, tinha sido seduzida por um velho tarado (e eu reconheço ser um velho tarado), não tiveram dúvidas, e essa foi minha primeira confrontação com a lei. No fim eu só paguei umas cestas básicas, mas obviamente minha mulher ficou furiosa, e a custo me perdoou, e o departamento também não gostou nada. Deixei o processo administrativo correr à revelia, na verdade deixei tudo correr à revelia e não apareci mais lá. Nessa época eu já estava bebendo cada vez mais.

Sempre entrava uma graninha, o livro teve algum sucesso em quatro traduções, mas meu estilo de vida rapidamente consumia isso e eventualmente consumiu tudo, ou quase tudo, que havia acumulado. Eu escrevia cada vez menos, e a qualidade era obviamente inferior, eu mesmo percebia. Eu apenas me repetia, até que cansei de vez. A entrega que eu dedicara à literatura agora eu dedicava à devassidão. Eu me endividei, e passei a acreditar que publicando outro volume, ou acertando o 17 em cheio, tudo se resolveria. A editora achou que meu nome era ouro por si só e publicou um monte de bobagem, novas e antigas - refugo que com razão eu descartara. Eu li, atalhei, é mesmo lixo. Obrigado. Bem, eu comecei a receber ameaças, e resolvi andar armado. Um dia fui pego dirigindo bêbado e o trabuco no porta-luvas me rendeu uma confusão dessa vez bem mais séria com a polícia. Minha mulher teve que pedir ao pai dela a quantia da fiança, mas em mim mesmo ela perdeu de vez as esperanças. Ela tinha como pagar um bom advogado, eu mal podia pagar um parmegiana como este (que estava sendo servido) e o dinheiro que eu mantinha na conta conjunta para manter as aparências ficou todo para ela, assim como o apartamento. Eu disse que nessa situação ele mesmo podia requerer pensão. Ficou olhando pensativo. Chacoalhou a cabeça: não quero nada daquela megera. Vamos saborear este filé em paz, por enquanto. Obedeci.

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