domingo, 15 de janeiro de 2012

Chão pt.4

Ele me fez deixá-lo na estação de metrô, não quis revelar onde morava e não tinha telefone. Passei duas horas discutindo com minha esposa. De nada valia meu retrospecto de bom moço, e eu queria manter minha promessa. Ela também conhecia Coito Interrompido, pelo menos o filme, e era um terreno fértil para a semente do boato germinar. Ela insistia em que eu fora encontrar outra mulher, mas pareceu mesmo intrigada com o fato de eu chegar com um fardo de panos de chão, que ele esquecera no meu carro. Dormi exausto. Trabalhei dois dias sem que aquilo me saísse da cabeça. Imagine a quantidade de experiências inusitadas que Luís vivia em sua nova vida de ambulante depauperado. Se ele se dispusesse a narrá-las, com aquele estilo irônico, garanto que ia fazer sucesso, ia tirá-lo da pindaíba. Tinha certeza de que aquela conversa de opção filosófica era empulhação. O problema dele era o alcoolismo, e ele não parecia nem um pouco disposto a abandoná-lo.

Voltei ao cruzamento em que ele trabalhava, não o achei lá da primeira vez. No dia seguinte tive mais sorte. Disse que entrasse, que iríamos a um supermercado. Paga uma dose, doutor? Que escolha eu tinha? Depois de um boteco sujo dali das imediações, fomos às compras. Eu queria ajudá-lo, mas queria também saber onde morava, tinha certa desconfiança de que a história da edícula podia ser um edulcoramento de uma realidade ainda pior. Lembrei-lhe do nosso trato; por uma formalidade, a verdade é que já havia conquistando sua confiança. Perguntei, enquanto punha no carrinho um saco de arroz, há quanto tempo ele vendia panos. Ele disse que não cozinhava em casa. Na verdade, só tinha em mente a prateleira de bebidas. Eu escolhia algumas comidas enlatadas enquanto ele se abria aos poucos. Eu terminei de conquistá-lo com duas garrafas de conhaque.

Bem, com o divórcio eu fui ao chão. Eu já bebia bem, devo ter triplicado a quantidade e diminuído muito a qualidade. Todos os falsos amigos que eu granjeara no meu auge tiveram alguma desculpa pra não me receber provisoriamente, fui parar numa pensão perto da rodoviária. Aí eu dei em cima de uma moça que morava lá, feia, a coitada, mas eu estava bêbado o tempo todo. Enfim, eu fui expulso, e passei algum tempo debaixo de um viaduto. Os inquilinos originais não me acolheram, mas também não me expulsaram. Pedia restos em restaurantes e era escorraçado. Fumava bitucas que encontrava. Aquilo já era um pouco demais, e eu procurei minha ex-mulher, exigindo que ao menos minha máquina de escrever me entregasse. Estava quebrada, não valia quase nada, mas serviu para comprar algumas caixas de balas, que vendia, lá mesmo onde você me encontrou. Eu já comia um pão com manteiga todo dia, estava ótimo. Mas de repente apareceram umas crianças, com o pai delas ameaçando me furar com um canivete se eu não abandonasse aquele ponto. Ah, eu sempre fui bom de briga, doutor Vinícius: ele me fez isso aqui - e mostrou uma cicatriz no antebraço esquerdo - mas quebrei ele de porrada, e virei o rei do pedaço. Na verdade, em pouco tempo eu tinha meia dúzia de moleques trabalhando pra mim, e deu pra pegar outro quarto de pensão. Dessa vez fui eu que não aguentei, estava acostumado afinal com a vida na rua. Foi quando eu comecei com os panos, porque aquilo de vender bala era degradante, sabe? Eu tinha de impor respeito.

E que tipo de coisa inusitada você já viveu nessa vida... na rua?, provoquei. Estávamos pagando a conta. Muita coisa, meu rapaz, é uma vida cheia de interesse a seu modo. Uma vez, no cruzamento onde eu estava trabalhando, houve um engavetamento de três carros. Desceram, irritados, mas logo conseguiram conversar civilizadamente e acabaram descobrindo que um era meio-irmão de outro e o terceiro era primo distante dos dois. Vai calcular a probabilidade.Ou como o dia em que ouvi um carro buzinar, era um carrão, dentro estava um coroa com os olhos fechados, a película não era muito escura; achei estranho mas me aproximei, ele se assustou. Quando eu presto atenção, aparece uma jovem só de sutiã e o tiozão tá recolhendo a artilharia. Guardamos as compras no carro. Teve também a história de como eu fui parar lá onde estou morando, com o seu Fabrício. O padeiro. Ele comprou pano comigo um dia. Puxou assunto, conversamos brevemente, ele sorria bastante. Disse que ia passar ali no dia seguinte com alguns pães dormidos. Passou realmente, e com um sortimento de salgados e doces. Fez isso várias vezes. Ele gostava de conversar comigo, e um dia me questionou o fato de eu parecer ter uma formação intelectual incongruente com a posição social. Eu nem falava de nada intelectualizado, acho que ele se referia a meu português de escritor, que não consegui perder. Bem, eu me afeiçoara ao sujeito, a atenção de alguém nesses momentos, enfim... Eu revelei meu passado de escritor, pedindo segredo total, claro; ele até tinha ouvido falar no filme, prometeu que leria o livro. Aí passou a me trazer roupa velha, também. Eu sabia que ele estava só se livrando de coisas em que tinha que dar um fim, mas era um grande gesto, mesmo assim. Interrompeu a narrativa para dar algumas indicações do caminho, era um bairro afastado. Um dia, prosseguiu, ele me disse que tinha lido e tinha gostado muito do livro. Tinha uma pergunta a fazer: se eu não queria dar aulas de português a sua filha. A perspectiva de algum dinheiro de verdade me fez aceitar, embora não tivesse o menor jeito para ensinar gramática. Começaram as visitas semanais. Era uma mocinha de doze anos, estúpida como um jumento, percebi que não foi só um meio encontrado pelo seu Fabrício de me ajudar. Mas o que me interessou mesmo foi a mãe dela. Ela servia sempre um cafezinho, uns quitutes, uma quarentona com tudo em cima, seu doutor, e me olhava de um jeito! E eu, bem, fazia tempo que o máximo que eu comia era uma dessas craqueiras do centro, quando sobravam vinte mangos. Acontece que a mãe matriculou a filha na natação, no horário logo após as minhas aulas, e passamos a ficar com a casa para nós por algumas horas... o senhor imagina. Continua escutando: eles moram em uma casa com uma edícula minúscula, que estava alugada na época para um metalúrgico. A madama acusou o sumiço de uma joia, pôs a culpa no rapaz e o expulsou. Não sei se por si só, ou se instigado pela mulher, Fabrício me convidou para morar lá, por um aluguel bem camarada. E você está comendo a mulher do cara que te ajudou, interrompi. Mocinho, disse ele abaixando o volume do som, eu disse que se era pra me julgar que me deixasse quieto. Eu gosto de pensar que é uma forma de retribuir a ajuda, se bobear até ele pensa assim. Como? Eu acho que ele sabe. Suspirei, atônito. É aquela casa ali, vermelha.

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