segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Chão pt.5

Tomamos um corredor lateral e entramos em sua casa, que de fato era minúscula e sem janela. Era um cômodo só, com uma pia e um vaso, uma cama e uma estante com algumas peças de roupa, várias latas de sardinha e um garrafão, de pinga certamente. Flagrei também um exemplar de Quincas Borba, e perguntei o que fizera do resto de seus livros. Eu doei a uma biblioteca comunitária, esse aí é só pra hora das necessidades, um velho hábito. E o do jogo você teve que abandonar? Às vezes eu jogo dominó a dinheiro na praça tal, mas não é a mesma coisa. Bateram na porta. Ele abriu, era a dona Carmen, conforme ele me apresentou. Era mesmo uma coroa bem aceitável. Não, não estamos precisando de nada, obrigado. Ele me ofereceu da pinga, eu aceitei, mas era de péssima qualidade. Eu hesitei, mas tinha que entrar no assunto alguma hora: e a bebida, Luís, não será o que te impede de sair dessa condição? Ele me olhou furioso. Mas falou com franqueza. Eu me acostumei a esta vida, rapaz, não vejo muita saída. Eu não sirvo mais para escrever, era a única coisa... Por que não?! Interrompi o trabalho de acomodar as compras na prateleira. Tudo isso que você tem vivido é material perfeito para literatura! Eu não quero aparecer em público como alguém de quem as pessoas têm que sentir pena, ou mesmo um exemplo de superação, e ademais eu já estive lá, eu sei como esse meio é uma fogueira de vaidades... Mas todos são, Luís, você joga o jogo sem se deixar contaminar o quanto possa. Você acha que eu adoro meu escritório de advocacia? Bah, você faz parecer que viver na rua tem sido tão divertido que merece ser contado num livro. É uma vida dura, rapaz, um aprendizado. Eu não disse nada disso Luís... Ele me interrompeu, agora queria contar mesmo sem ser questionado.

Trabalhando nos semáforos você não tem banheiro, não tem água fresca, você não ganha um tostão quando chove o dia todo. Eu cansei de dormir faminto, e sujo, minha higiene por muito tempo foi com um caneco de água e um sabão em barra que eu tinha que fazer durar o máximo, só nas áreas mais vitais. Fora o frio: quando eu fiquei embaixo do viaduto, por sorte era verão, mas ainda assim algumas noites eram geladas. Eu já tinha vendido minhas roupas melhores, e me virava só com um conjunto de moletom distribuído por uma organização de caridade, este aqui aliás, e mostrou a calça rasgada. O papelão não estava resolvendo muito, aí eu encontrei nos fundos de um supermercado o motor da câmara frigorífica, e aninhado ali eu conseguia dormir. No terceiro dia me acharam e me acordaram com um balde de água gelada. Era frequente também que me roubassem a mercadoria, por mais que eu tentasse escondê-la; experimentei usar os panos como colchão, mas eles ficavam contaminados da minha sujeira, imprestáveis. Isso tudo sem contar o desprezo com que você é tratado o tempo todo; hoje eu já não ligo, mas... Não, Vinícius, eu não quero aparecer e contar que passei por isso.

Algum orgulho ainda lhe restava então, e isso era bom. E isso não enriquece ainda mais o relato? Aliás, você pode simplesmente dizer que fez tudo como pesquisa para o livro, vão admirar sua coragem. Ele pensou um pouco. Eu não quero mais escrever sobre mim mesmo, Coito Interrompido me esgotou, eu já disse. Faz o seguinte: escreve você, Vinícius, disse, dando uma palmadinha em minha perna. Eu assino, te dou uma porcentagem. Eu fiz um gesto de exasperação: eu não sei escrever como você, Luís, não tenho seu estilo, não tenho seu talento! Eu confio em você, você escreve, eu dou algumas sugestões. Não aceitei uma segunda dose. Era já de noite, e ouvimos o barulho do portão lá fora. Seu Fabrício, ele explicou. Conversamos um pouco sobre como é comum o recurso ao famoso escritor fantasma; fomos interrompidos por alguma altercação dentro da casa, mas não demos muita importância.

A ideia começava a me agradar, era um desafio: a mim mesmo, já desiludido do ofício da escrita, e à obstinação dele em aceitar sua condição aviltante. Luís, olha, pode funcionar sim. Mas eu não quero uma porcentagem, em quero outra coisa... Bateram à porta. Era o seu Fabrício, Luís nos apresentou brevemente. Eu percebi que ele mantinha uma mão para trás, e que no bolso de sua calça havia um volume. Seu Luís, eu queria te perguntar: isso aqui - e revelou, na mão que escondia, uma cueca - já foi meu, eu me lembro quando levei pra você; como foi parar no meu quarto? Ora, seu Fabiano, deve ter sido algum equívoco da Carmen e... Equívoco? Equívoco foi tentar ajudar você seu vagabundo! Ela já confessou tudo - e sacava um revólver enquanto proferia outros insultos. Eu pulei da cama onde estava sentado e me interpus entre os dois, tive que segurar o braço direito do padeiro, que lutava para se livrar. Luís deu um safanão em nós dois que nos levou ao chão, e aproveitou para escapar pelo corredor. Eu desarmei meu adversário e segui meu antigo ídolo e recente amigo, jogando o revólver por cima do muro.

Quando apareci em casa com um ambulante maltrapilho, ele mesmo não objetou a que eu finalmente contasse tudo a minha esposa. Ela achou a história fantástica, assim como a ideia do livro. Foi ela mesma quem convenceu o pai a pagar pela clínica de reabilitação, que era a parte no trato que Luís teria que cumprir, a única retribuição que eu exigia pelo meu trabalho, que no fim foi um prazer. Nos trinta dias em que esteve internado, eu o visitava duas vezes por semana, com um gravador. Ele mesmo, para passar o tempo lá dentro, começou a redigir contos, no papel mesmo; eu li e achei ótimos: outro estilo, a mesma elegância. Também fiz as vezes de seu advogado, recuperei os direitos de todos seus livros e arranquei uma pensão da esposa. Quando tudo isso saiu, ele deixou o sofá da nossa sala, para uma quitinete que ele já podia pagar por si mesmo - um adiantamento da editora foi também providencial. Nossos encontros continuavam, ele não pedia para alterar muito, acabavam sendo conversas animadas, regadas apenas a chá. O livro ficou pronto, foi publicado e fez sucesso imediato. Ele deu entrevistas, aceitou minha ideia de alegar que a mendicância foi só um laboratório. Depois de algum tempo, os mesmos produtores de Coito Interrompido propuseram filmar Chão Por Leito, mas queriam mudar o título. Luís Carrasco voltou a ter uma vida materialmente confortável, voltou a comer muitas mulheres, só não bebia nem jogava. O material que ele produzia enquanto eu me passava por ele também foi publicado mais adiante, na mesma época em que meu próprio volume de contos foi parar nas prateleiras com um prefácio dele.

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