quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Cyber-Intifada pt.2

Cheguei ao outro café amaldiçoando a mim mesmo, e me instalei perto do telefone: era moderno, sem o charme do outro. Pedi um café duplo e uma senha para me conectar. Eu não precisava na verdade esperar o contato de Helsinque, batava consultar a base e ver se o programa estava lá: estava. Mesmo assim aguardei. Acendi outra cigarrilha, o telefone tocou: era a ordem de ir adiante, com sotaque nórdico. Eu precisava achar o backbone outra vez, não estava conseguindo, fiquei preocupado: será que minha invasão tinha sido detectada? Alguns sistemas de defesa são capazes de modificar a estrutura de rede quando atacados. Experimentei outro programa, que funcionou, para meu alívio.

Agora vinha minha tarefa mais difícil: mais do que extrair dados, eu precisava obter privilégio de administrador para rodar um programa. Era mais uma tarefa para o Intruder 3.0, mas antes eu tinha que percorrer a lista em busca do comando adequado, e mais uma vez tive dificuldade: o tempo corria contra mim. Aqui está, só pode ser este, rodei o programa, que levou um tempo até quebrar a senha. Faltavam poucos segundos para cair minha conexão quando introduzi o Cavalo de Troia no ultra-seguro sistema da Bolsa de Valores. Eu me achava o máximo, e um grito que me escapou chamou a atenção dos usuários do café, absortos em qualquer bobagem em seus próprios micros. Mandei executar: outra senha. Caramba. Eu teria que repetir a invasão e quebrar mais aquela barreira. O telefone tocou.

Expliquei a Boston a situação, estava muito próximo, mas estava ficando cada vez mais arriscado. Sentei-me de volta, pedi água. Pacientemente repeti os passos necessários, executei o Intruder e esperei: sucesso! Cortei a conexão, agora podia monitorar desde fora. Liguei para Boston: Feito e feito. Agora você espera a confirmação da queda e foge no primeiro voo para qualquer capital europeia. Copiado. Voltei ao computador e abri um site israelense de notícias financeiras; monitorava as estatísticas do sistema da Bolsa: os acessos cresciam em velocidade exponencial, um sorriso triunfante não deixava meu rosto. Estava exausto e saí um pouco para ver o sol, fazia calor e as pessoas prosseguiam com sua vida. Pedi mais um capuccino e acendi outra cigarrilha. Antes de terminar de fumar, o site anunciou o colapso do sistema da Bolsa. Ergui os braços mas contive desta vez o grito. Paguei a conta e dirigi-me ao carro.

Cheguei ao aeroporto, comi alguma coisa e fui até o balcão da empresa aérea. Estava nervoso, mas era impossível que fossem rápidos o bastante para me pegar, mesmo eu tendo... enfim, chegou minha vez. Vocês têm voo para Madri ainda hoje? Na verdade, esse voo é operado pela El Al e eles têm algum problema hoje... Minha espinha gelou: não tinha pensado nisso! Londres? Paris? Todos? Tentei disfarçar meu aborrecimento, e agradeci educadamente à atendente. Eu precisava ir para algum lugar, voltei pro carro e rumei para a rodoviária.

Olhei no retrovisor e tive a impressão de que um certo carro já estivera atrás de mim no caminho para o aeroporto. Fiz uma conversão à direita, só para experimentar, ele me seguiu. Merda. Merda. Merda! Eram eles: a Mossad não brinca em serviço. Estou perdido. Meu pânico não me permitia pensar direito, encostei em um posto de gasolina e saí andando por um terreno baldio. Minha ideia, ainda que meio difusa, era fingir um ataque e pedir socorro em alguma casa, havia um conjunto habitacional dali a alguns metros. Olhei para trás, eles me seguiam de perto. Não pensei duas vezes, alcancei algumas pedras no chão e comecei a arremessar na direção deles. O destino dá umas voltas irônicas por demais às vezes.  

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