sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Deus os Tenha pt.1

Era uma floricultura dentro de um cemitério. Pequena, simples, as opções eram acanhadas, as coroas, feias. Um senhor de terno preto e camisa branca, sem gravata, passou a mão pelos cabelos já quase todos brancos, e disse qualquer interjeição, só para quebrar o silêncio. Ele era magro e usava barba, um belo cinquentão na verdade, um rosto conhecido dos funcionários dali, cujos nomes ele conhecia. Ela se impacientou e bateu palmas, tirou os óculos escuros e enxugou os olhos. Trajada da cabeça aos pés de negro, cor que também tinham a bolsa e os cabelos atados num coque, não tinha muita experiência em enterros: apenas uma avó havia morrido. Não parecia ter chegado aos quarenta, e mesmo numa circunstância como aquelas era uma mulher que chamava atenção. O funcionário apareceu, pediu desculpas, enxugando as mãos no jaleco. O homem grisalho havia chegado antes, mas fez sinal para que ela pedisse. Ela agradeceu, disse ao rapaz que haviam errado o nome de seu marido na coroa, que ele em vida detestava ser chamado de Leandro, era um desrespeito. Ele se desdobrou em perdões, garantiu que ia providenciar outra faixa e pediu que ela escrevesse o nome em um papel. Ainda teve que ir lá nos fundos buscar uma caneta. Ela não agradeceu, acenou com a cabeça para o senhor e voltou ao velório. Ele pediu um vaso de crisântemos amarelos, escolheu um menos murcho, pagou e se dirigiu ao túmulo velho conhecido.

Depois daquele dia, ele seguiu sua tradição de mais de dez anos de visitar mensalmente o túmulo de sua mãe, todo dia onze; ela iniciou a mesma rotina, mas no dia dez. Dez meses se passaram, no décimo primeiro, ela por  qualquer contratempo não pôde visitar o túmulo do marido no dia de sua morte, mas foi no seguinte. Quando desceu do carro, ele estava entrando no seu, estacionado logo ao lado. Quando os olhares se cruzaram, houve um estremecimento em ambos: ela não sabia se o cumprimentava, mas se lembrava muito bem dele; ele ficara muito impressionado com a beleza dela, mas julgou que qualquer abordagem seria de mau gosto. Ele experimentou um discreto aceno, ela não conteve um sorriso e imitou o gesto. Ela já se distanciava quando ele criou coragem para falar.

Acertaram o nome dele? Ela se virou, tirou os óculos que lhe cobriam metade do rosto e ele pôde enfim vê-la em todo seu encanto. Usava uma saia vermelha, longa, e uma blusa branca que expunha os ombros, tinha o rosto triangular, queixo um pouco proeminente, nariz fino, olhos castanhos com sobrancelhas bem desenhadas. Ele tinha o mesmo paletó aberto e os mesmos plácidos olhos azuis. Pois é, sorria um pouco nervosa, é uma falta de profissionalismo inacreditável. Ele fechou a porta do carro e acionou o alarme. Já faz um tempo, não? Um ano? Onze meses, ela guardou os óculos na mesma bolsa preta. Você também é viúvo? Separado. Sinalizou o cemitério com a cabeça: minha mãe. Instaurou-se uma espécie de desconforto: iam seguir conversando ali no estacionamento? Começaram a falar ao mesmo tempo: então tá, ela; o que você, ele; pode falar; não, desculpa, eu te interrompi; fala; não, era bobagem; tudo bem, cara ou coroa? Ela riu, ele aproveitou a deixa: vamos tomar um café?

Eu sequer sei seu nome, ela disse, mas sem rispidez. Lúcio Medina, você? Roberta, prazer. Bem, prosseguiu, se você esperar enquanto eu visito o Leonardo, seria um prazer, sim. Você fala como se ele estivesse vivo. Ele está, de certa forma, o meu amor... foi interrompida por lágrimas. Perdão, eu não devia ter... Não, tudo bem, eu vou lá. Eu te espero... na floricultura? Ela sorriu, pode ser. Ele cumprimentou o rapazola pelo nome, ela tinha trazido suas próprias flores, podemos entender. O funcionário se disse admirado por sua constância, em suas palavras, claro. Ele disse que tinha uma dívida enorme, e a pagava em prestações. Ela chorou um bocado no túmulo do Leonardo, desculpou-se por ter perdido um dia, mas ao mesmo tempo em que jurava que seu amor duraria para sempre, estava confusa, e culpada, por aceitar o convite de um estranho. Ela voltara a pôr os óculos quando o encontrou na floricultura, por isso o rapaz talvez nem tenha percebido seu olhar de desprezo, a Lúcio esboçou um meio sorriso. Quando já estavam no pátio, ele disse que conhecia um lugar não muito longe dali, ela disse tudo bem, e entraram cada um no seu carro, o dele um sedã de luxo, preto, o dela um compacto azul. Ela o seguiu.

Nenhum comentário: