sábado, 28 de janeiro de 2012

Deus os Tenha pt.2

Ela sentia uma excitação mesclada de arrependimento, como podia ter sido tão impulsiva! É claro que sabia a resposta: por mais que a memória do marido estivesse muito viva, ela já começava a se sentir só. Ele sorria com mais um triunfo iminente: na verdade, tinha uma namorada, muito jovem, o que não o impedia de flertar por aí. Em um semáforo, ele, distraído, passou no amarelo, e ela ficou retida. Quando checou o retrovisor e não a viu, proferiu um palavrão e encostou. Por sorte ela o alcançou e seguiram até uma pequena galeria, onde estacionaram. Conseguiram uma mesa numa varanda com muitas plantas, o garçom trouxe os cardápios, mas ele sem os abrir pediu um doppio e um latte. Ela gostou que ele escolhesse por ela, os homens deveriam estar pelo menos aparentemente no comando.

E uma água com gás, dois copos, completou quando o garçom já virara as costas. Bem, eu queria dizer, voltando-se para ela, que lamento muito você ter ficado viúva tão jovem. Trinta e oito não é tão jovem. Como não, é o auge da mulher, ele galanteou. Arrependeu-se, estava se apressando; mas ela reagiu bem. É, fora a pele, eu não me trocaria por mim aos vinte e cinco. Ele não se conteve: mas sua pele é linda, eu não te daria mais que trinta. Ela elaborou um olhar de acanhamento e passou a examinar o cardápio. Posso perguntar como ele morreu? Sim, não há problema. Foi câncer. Ele fez uma careta. Longa batalha, sofrida, suspirou. Ele fumava muito. Mas era novo como você? Ele morreu pouco antes de completar quarenta e cinco. Que tragédia, Roberta. E ficou sem saber o que dizer. Optou pelo protocolo. Com que você trabalha? Eu sou veterinária, mas eu também ajudo minha irmã em sua empresa de festas, uma espécie de consultoria, só que mal remunerada. Ele deu uma risada curta. Os cafés chegaram.

Eu nunca tomei esse café, é bom? Sim, eu espero ter acertado seu gosto; você gosta mais forte? Ah, eu quase não tomo café. Você vai gostar. E você, o que faz? Eu tenho uma construtora. Ela arregalou os olhos, está nadando em dinheiro, então. Nem tanto, mas estamos crescendo; em que bairro você mora? Colinas, perto do viaduto. Naquelas três torres novas? Isso mesmo, como sabe? Foi um palpite; fui eu quem construiu. Eu? É, nós. Nós ou eles? Ela tomou um gole do café saboreando sua provocação. Eles não corstruiriam sem mim, nem eu sem eles. Foi só uma brincadeira. Eu me mudei para lá alguns meses depois da morte do Leo. Fiquei sozinha num três quartos antes que... nós desistimos da adoção quando ele recebeu... e ficou de repente chorosa; tirou uma caixa de lenços da bolsa. Você, tem filhos? Uma filha, vive com a mãe. Eu tenho uma também, na verdade; vive com o pai no Canadá, passa um mês por ano comigo. E você vai sempre ver sua mãe? Foi uma coincidência nos reencontrarmos, não? Eu vou todo dia onze, religiosamente, e olha que não sou religioso. Nossa, eu vou todo dia dez, mas ontem tive que dobrar para cobrir uma colega, fui hoje. Agradeça a sua colega em meu nome. Os dois sorriam um pro outro afetuosamente; ele quase tentou beijá-la, mas não ousou. Que bonito isso, Lúcio, essa consideração. Ah, eu sinto que é minha obrigação, e sinalizou a xícara ao garçom, pedindo outro café duplo.

Ela não era minha mãe biológica, que morreu num acidente, era a melhor amiga dela. Meu pai desapareceu antes de eu nascer. Era uma mulher de temperamento forte, e que me criou com estrita disciplina, o que era verdade também para os filhos biológicos dela. O pior era que ela queria controlar tudo no meu destino: quando jovem eu quis estudar artes plásticas, ela praticamente me obrigou a fazer engenharia, pelo que hoje sou grato. Ela não gostava de nenhuma namorada minha, pegava no pé. Eu não podia chegar tarde nem com mais de dezoito anos. Assim que eu consegui um emprego com um salário melhor eu saí de casa e falei um monte de bobagem para ela. Um tempo depois, ela brigou com o marido, e os filhos, também ressentidos com seu despotismo, tomaram partido do pai. Ela viveu o resto da vida sozinha. O que ninguém soube até que ela morresse foi que ela recebera em algum momento uma gorda herança de um tio solteirão; e ela legou tudo a mim. Só aí eu me dei conta do idiota que fora: aquela mulher aceitou me criar, dedicou, senão seu afeto, seu empenho por vinte anos, a ela eu devia tudo o que era, e agora o que tinha no banco. Bem, eu prometi a mim mesmo visitar sua sepultura mensalmente, e faço isso sem falhar há quase doze anos.

Mas estou falando demais, conte você alguma coisa. Como o que? Ah, você disse que tem uma filha no Canadá, foi um primeiro casamento? Ah, nem chegou a ser um casamento, foi um caso e um acidente. Eu tinha ido lá trabalhar de babá e estudar inglês, logo após terminar a faculdade, não estava achando emprego afinal. Eles tinham um vizinho, bonito, bem sucedido, solteiro. Depois que ele me viu a primeira vez, passou a frequentar a casa o tempo todo. Quando teve a primeira chance de conversar a sós comigo, ele me convidou, todo atrapalhado, para jantar. Eu sentia um impedimento ético, tive uma educação muito conservadora, e disse a ele que teria que fazer o convite na frente dos meus anfitriões, que deveriam consentir. Eles eram pessoas super modernas, e ficaram entusiasmados com a ideia. Nós estávamos juntos havia três meses quando eu descobri que estava grávida, meus pais quiseram que eu voltasse imediatamente, ele queria se casar. Nós brigávamos cada vez mais até a Corin nascer, eu fugi para o Brasil, houve uma disputa judicial e nós perdemos. Saiu até na tevê. Que idade ela tem? Quinze anos, está uma moça linda. Você mal tocou o café, quer outra coisa? Ah, pede uma coca para mim. Claro. E a sua? Como? Sua filha? Ela tem dezenove, Paula é o nome dela, é tão bonita que trabalha de modelo em eventos, mas leva a faculdade de Direito muito a sério. Faz tempo que você se separou? Faz, treze anos. Nossa, e depois que ela soube da herança ela se arrependeu? Ele riu. Isso você tem que perguntar a ela... O rapaz chegou com o refrigerante e Lúcio perguntou a Roberta se ela queria comer alguma coisa, recomendou uma torta de chocolate com amêndoas. Ela aceitou a sugestão, ele pediu um quiche de queijo do reino e tomate seco. Depois da torta eu acho que eu vou, tá? A ele lhe pareceu que era só charme: calma, tá cedo ainda.

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