domingo, 29 de janeiro de 2012

Deus os Tenha pt.3

Comeram, ela reconheceu que era uma delícia, nunca tinha ouvido falar naquele lugar. O Leo não gostava muito de sair, só íamos a restaurantes em algumas ocasiões especiais, e cafés deste tipo eu nunca tive costume de frequentar. Ah, que pena, é uma das coisas boas da vida; especialmente com uma companhia tão agradável como você. Ela sorriu, mas ficou pensativa. Lúcio, não me entenda mal, você é um homem muito... simpático e educado, foi ótimo conversar um pouco, mas eu acho que é prematuro... Faz um ano, Roberta, ele tomou as mãos dela. Não faz ainda. Onze meses, onze meses e um dia, que diferença? Ele significava tudo para mim, Lúcio, não sei, eu estou confusa; preciso pensar a respeito. Nós nos conhecemos no velório dele, seria uma falta de respeito! Eu nunca estive no velório, nós nos vimos na floricultura e sequer conversamos; nós nos conhecemos hoje. Ela livrou as mãos e passou uma pelos cabelos lisos, bebeu o que restava do refrigerante e voltou a mirá-lo. Eu prefiro que a gente... Me dá seu telefone, ele a interrompeu. Você não vai salvar no seu? Não, eu tenho ótima memória. Ela deu o número. Consultou o relógio e disse que tinha de se apressar. Ele pediu a conta e resolveu arriscar. Você disse que não costumava ir a restaurantes; eu conheço um ótimo de frutos do mar, você gosta? Não tenho muito o hábito... E trattoria? Massa? Ela apoiava o cotovelo na mesa e o rosto na mão espalmada, voltou-se a ele segurando o queixo com dois dedos. Me liga na sexta-feira, pode ser?

Ele pagou a conta e despediram-se bem mais formalmente do que ele esperava quando chegaram. Esteve com a namorada naquela noite, mas ela lhe parecia insuportável em sua juventude: deu-se conta que tinha ao seu lado alguém que ele gostava de exibir, e que talvez gostasse mais de seu dinheiro do que dele mesmo. Roberta não lhe saía da cabeça, assim como o número de telefone que ele repetia para não esquecer. Ela estava distraída no trabalho, e chegou a cometer um erro, que por sorte pôde corrigir a tempo: ia receitar um remédio de cachorro para um gato. Leonardo podia ter seus vários defeitos, mas era extremamente carinhoso e dedicado, e o episódio da doença os havia unido ainda mais. Ela não superara sua morte, e sentia sua falta; mas tinha uma vida para viver, outra vida a construir, na verdade, e Lúcio parecia perfeito para ser seu companheiro, até onde ela sabia, pelo menos. Ficou feliz que não o tivesse beijado no mesmo dia, nunca foi de sua natureza, mas decidiu aceitar seu convite para um jantar, quando ligasse.

Chegou a sexta. Ele ligou pouco após o almoço; uma gravação dizia que o número não existia. Ficou nervoso, repetiu várias vezes a operação, com o mesmo resutado. Sua memória teria falhado? Experimentou variações, nada. Em seu desespero, pesquisou por veterinárias com o mesmo nome, achou três, mas nenhuma era aquela, que também nunca disse o sobrenome. Ela achou estranho ele não ligar, e, sozinha em seu apartamento, amaldiçoava-se por ter construído tantos sonhos com aquele homem, também por não tê-lo beijado no café: ele deve ter se aborrecido e desistido de tudo. Ele estava tratando tão mal a namorada que foi ela quem terminou o relacionamento, mas teve raiva da indiferença dele. Vivia esperando o próximo dia dez, que era o único meio que via de rever Roberta. Ela se convenceu de que fora esquecida e foi criando o hábito de beber vinho todas as noites; estava quase bêbada uma noite, quando teve uma ideia: olhou a planta do apartamento, que estava esquecida em algum armário, e achou o telefone da construtora. Na manhã seguinte, não conseguia se decidir a ligar: não é papel da mulher. Uma taça da garrafa que sobrara da noite anterior a ajudou a discar o número. Concivil, bom dia. Eu gostaria de falar com Lúcio Medina, por favor. Desculpe, senhora, aqui é atendimento a clientes. E você pode tranferir? Não é possível, mas vou te dar o telefone da secretária dele. Ela anotou na própria planta e agradeceu, deu a última golada no vinho e discou o novo número. Concivil, presidência, bom dia. Eu gostaria de falar com o sr. Lúcio Medina, por favor. O sr. Medina está em reunião, gostaria de deixar recado? Sim, peça para ligar para Roberta, no número tal e tal. De onde? Como assim? De qual empresa? De empresa nenhuma. Você é parente, amiga? Diga que é a Roberta do cemitério. Roberta do cemitério?! Ele estava se despedindo de alguns engenheiros na porta do escritório, e quando ouviu aquilo correu para tomar o telefone da secretária.

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