segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Deus os Tenha pt.4

Roberta? Oi Lúcio! Espera que vou transferir pra minha sala. Fez um sinal à secretária e entrou. Roberta, eu tentei te ligar, caía numa mensagem. Que número você discou? Ele disse. É vinte e sete, não dezessete. Putz, eu ainda tentei trocar o três por seis, e... poxa, me perdoa. Não tem problema, ela mentiu, mas pense duas vezes antes de dizer por aí que tem ótima memória. Poxa, eu não sei o que dizer, nunca aconteceu... Relaxa, Lúcio, não é o fim do mundo; você está ocupado, não? Na verdade não, eles já se foram. Tá tudo bem contigo?, já faz um tempo... Tá sim, mentiu de novo, sabe como é, o de sempre... Onde estávamos mesmo?, brincou ele. Ah, já esqueci, acho que você ia perguntar alguma coisa. Roberta, você quer jantar comigo? É claro que quero, eu te liguei, não? Que tal sexta-feira? Que tal hoje? Ele sorriu da pressa dela, depois da resistência inicial. É melhor ainda! Massa? Adoro massa. Que horas? Nove? Nove. Quer que eu te busque ou nos vemos lá? Não precisa, eu vou de carro, onde fica? É no Araucária, entra no site que tem um mapa. Qual o endereço? Da trattoria ou do site? Dos dois. Faz uma busca por Nonna Dora, dois enes, a rua é Prospero Tranquili, o número é... espera um pouco... quatrocentos e oitenta. Que cara sortudo esse que se chamou Prospero Tranquili, será que ficou tranquilo depois da prosperidade? Você tem um senso de humor peculiar. E isso é bom? Não tem nada em você que não seja bom. Você precisa me conhecer melhor, então. É o que mais quero. Às nove então? Sim, estarei lá. Um beijo. Beijo, tchau.

Ele chegou com dez minutos de antecedência e pediu uma água com gás. Ela chegou com apenas dez minutos de atraso, isso porque iniciou as preparações uma hora e meia antes. Estava em uma saia verde, justa, pouco acima do joelho, e uma camisa de um azul esverdeado, ligeiramente transparente. Era mais ousado do que qualquer coisa que jamais usara, havia comprado naquela tarde: ligou para a colega que lhe devia um favor. O sapato era azul, aberto, exibindo belos dedos, com esmalte incolor, a exemplo das mãos. O batom era de um vermelho discreto, assim como a sombra verde; completavam o arsenal muitos lápis, pós e cremes. Ele a recebeu com um sorriso e dois beijinhos, disse que estava linda. Vestia um terno risca de giz, preto, camisa branca e uma gravata verde-amarelado, sapatos pretos que brilhavam e um relógio prateado enorme. Puxa, que confusão, não? Nem me fala, eu comecei a desconfiar que você tinha esquecido meu número, aí eu achei o número da construtora na planta do apartamento. Ele riu. Meu telefone está na lista. Ah, eu jogo fora, me acostumei a usar internet. Que bom que deu certo, estou muito feliz que você tenha aceitado. Arriscou um carinho em seu rosto. Calaram-se quando o garçom trouxe os cardápios, ela voltou a pedir o refrigerante favorito, ele pediu bruschettas de entrada. Me diz, você é daqui mesmo? Não, toda minha família é do Mato Grosso, eu vim com  dez anos; depois todos voltaram, menos eu. Uma irmã estava conversando comigo de vir para cá, o Leonardo deixou alguma coisinha, e pensei em montar uma clínica minha, ela ajudaria; mas não consegue se desenrolar. É homem? É, isso e várias outras coisas. Tem mais irmãos? Um meio irmão, a gente não tem muito contato com ele, está no acre. E você? Bom, eu já contei um pouco, da minha mãe biológica eu fui o único, tenho dois irmãos de criação, nós não nos falamos: são uns fracassados que fumam maconha até hoje, provavelmente, não surpreende que ela tenha me escolhido; eles me odeiam, é claro. E seu padrasto, é vivo? Sim, eu dou uma mesada a ele, faço uma visita ocasional, ele já está surdo, não me reconhece também. Que triste. Mas, Roberta, você deve levar adiante essa ideia da clínica, mesmo sem sua irmã. Às vezes me parece que você ainda está num estado de choque e não quer começar uma vida nova. Não é bem verdade, eu não estou aqui com você? Ele repetiu a mesma carícia terna no rosto, mas desta vez escorregou a mão para sua nuca, e deu o primeiro impulso, que ela respondeu com vontade, aproximando os lábios. Foi um longo beijo; ela já sentia falta daquela sensação.

Bom, o gnocchi à bolonhesa é uma especialidade, o penne à carbonara também, do que você gosta? Ah, gosto muito de lasanha. Eles têm uma aos quatro queijos que é divina. Você vem sempre aqui então? Sim, eu gosto bastante. E quantas mulheres você já trouxe aqui? Só duas, ele deveria dizer dezenas, minha ex-esposa e você. Mentiroso. Haviam juntado as cadeiras e ele a abraçava pela cintura, ela mergulhou a cabeça em seu ombro. Então lasanha para você e penne para mim. Vinho branco? Sinalizou ao garçom e fez os pedidos. E como é a vida na construtora? Ah, trabalha-se bastante, temos cinco unidades em construção agora, são centenas de empregados... Você abriu com o dinheiro da herança? Sim, na verdade eu tenho cinquenta por cento mais um, e três outros engenheiros entraram com o restante; um estudou comigo, na verdade. Você estudou aqui mesmo? Sim, na federal, e você? Também, mas certamente bem mais tarde. Está me chamando de velho? Não, Lúcio! Estou dizendo que já tinha quase trinta quando comecei a estudar. O que você fazia antes? Trabalhava no shopping, vendedora; era um inferno, não tinha fim de semana. As bruschettas chegaram, ela as elogiou muito; pediram água para limpar o paladar e seguiram se beijando. Faz muitos anos que você se separou, nunca quis... Casar de novo? Não. Por convicção ou por que não conheceu ninguém? Ele se desvencilhou o abraço e respirou fundo. Olha, teve uma pessoa com quem eu me envolvi de verdade, mas foi logo depois do divórcio, eu não queria ouvir falar em casamento, até experimentamos morar juntos, mas foi o bastante para que fosse pelo ralo. De lá para cá, não sei, às vezes me parece que foram apenas preenchimento, não significavam nada, nem duravam muito. Eu fico pensando que elas só querem meu dinheiro, e é o mais provável. Você acha que eu só quero seu dinheiro? Não, você não, você... transmite segurança. Mais um longo e vigoroso beijo. E você, desde que ele se foi... não aconteceu nada? Mas é claro que não! Que pergunta, se você nem queria sair comigo! Eu nunca nem aceitaria aquele café se você não tivesse me impactado tanto desde a primeira vez. Eu te impactei? Nossa, eu me lembro até hoje como você estava linda de luto. Pára, Lúcio, isso já é demais. Tudo bem, me desculpa. Olha, eu até estou usando minha camisa da sorte. Você tem uma camisa da sorte? Bem, é a camisa do dia em que eu te vi pela primeira vez, e pela segunda também. Mentira. É sério. Os pratos foram servidos, e a conversa íntima deu lugar a comentários sobre a aparência dos pratos da Nonna Dora, logo a elogios ao sabor, aí então Roberta ergueu a taça e fez uma confissão. Sabe, eu tenho tomado muito vinho ultimamente. Ah,vinho faz bem. Não, eu tomo meia garrafa todas as noites, isso me preocupa; eu mal bebia antes. E por que então você acha...? Ansiedade, é claro. Eu estava esperando alguém me ligar... Roberta, eu quero te agradecer por ter tomado a iniciativa de me procurar, hoje eu vou salvar seu telefone. Assim que terminaram de comer, a primeira coisa que fizeram foi registrar o número um do outro na memória.

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