sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Negócios, Como Sempre pt. 2

Acordou sobressaltado com alguém batendo palma bem em frente a seu rosto. Seu corpo doía, pela posição inadequada e pelo rapto violento horas antes. Consultou instintivamente o relógio: passava pouco das três. Haviam posicionado uma poltrona à sua frente, na qual se sentava, encarando-o com um ar de escárnio, um senhor de meia idade, pouco mais velho que ele mesmo; não cobria o rosto. É um prazer enorme conhecer um colega tão brilhante, Sr. Floods. As informações que temos são deveras promissoras. Mas não há por que nos apressarmos, o senhor aceita um chá? Jeff assentiu com a cabeça. E o estranho sinalizou a um dos capangas; traga um copo d'água também. Com muito vagar, cortou e acendeu um charuto enorme.  Eu sei que o senhor não fuma. Aceita talvez um... destes? E sacou do bolso do sobretudo um comprimido azul-esverdeado. Vai ajudá-lo. Jeff esfregou os olhos, espreguiçou-se, e estendeu a mão direita.

Chegaram um copo d'água e duas canecas com a etiqueta do saquinho dependurada para fora. Jeff reconsiderou e disse que não tomaria o comprimido, ao menos por agora. Sabia que o remédio era de uso controlado por bons motivos: teria, ou poderia ter, após cessado o efeito tranquilizador, taquicardia e sudorese, e que se rebatesse a dose teria problemas de sono e eventualmente até paranoia (podia pensar que alguém queria sequestrá-lo, esboçou um sorriso auto-irônico). Como preferir, meu caro. Bem, eu não me apresentei. Nem posso, espero que entenda. Mas pode me chamar de Charles por enquanto. Como disse, eu também sou químico, e tomei a liberdade de dar uma olhada... e fez sinal novamente, ao que trouxeram um computador "de colo", como dizem. Jeff reconheceu o aparelho e arregalou os olhos; significava que haviam entrado em sua casa.

Jeffrey Portmouth Floods havia abandonado o ramo dos cosméticos para dedicar-se a um doutorado em psicofarmacologia, em uma prestigiosa universidade, e foi prontamente contratado pela Alora Inc. Um de seus primeiros projetos foi exatamente o que lhe traria tamanho infortúnio. Um medicamento que representava uma fonte importante de receitas para a corporação: tinha alto de valor de mercado, seja pela demanda oficial ou pela paralela, mas também alto custo de produção. A ideia era aperfeiçoar e baratear o processo de síntese, e Jeff logrou um avanço decisivo. O projeto era altamente sigiloso, mas pensando bem agora, tivera uma conversa no restaurante da sede - que lhe parecia seguro - em que celebrava seus resultados. Era a única explicação para que a informação, tão recente, tivesse vazado. Os tentáculos da máfia farmacêutica eram implacáveis, e eles também buscavam uma forma barata de produzir a serenina, uma vez que, as coisas como estavam, saía mais barato pagar os costumeiros subornos para obter a droga do que fabricá-la nos laboratórios clandestinos.

Do bolso da camisa, tirou o comprimido e alcançou o copo d'água. O temor pela segurança da esposa o desestabilizava ainda mais. Providenciaram uma cadeira para o computador, e Charles mostrou a Jeff uma tela que ele conhecia bem. Aquela era uma parte acessória da pesquisa, quanto a isso estava tranquilo. Por isso, não exitou em explicar ao, por assim dizer, colega o processo químico que na verdade apenas evitava a degeneração de uma substância intermediária. Mas a pergunta inevitavelmente veio: como transformar um benzodiazepínico corriqueiro na droga revolucionária, e sem o concurso de uma enzima que apenas podia ser obtida de pacientes em morte cerebral. Jeff insistia no silêncio; Charles se levantou e foi até a mesa onde deixou a caneca e o charuto, em um cinzeiro. Apenas deu de ombros, e Jeff foi brutalmente espancado por dois dos soldados rasos. Jogaram-no em um quarto sem janelas, com nada mais que um colchão e um jarro de água. A um só tempo, estava emocionalmente desesperado e quimicamente apaziguado. Pensava na esposa e como abandonaria tudo para mudarem-se para a América do Sul, uma vez findo o pesadelo. Não pôde dormir o resto da noite, até que abriram a porta na manhã seguinte.

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