sábado, 7 de janeiro de 2012

Negócios, Como Sempre pt. 3

A tênue luz de uma lâmpada incandescente foi ofuscada por uma claridade de dia. Aquele que parecia ser o líder dos brutamontes pôs metade do corpo para dentro e acenou com a cabeça. Havia duas fatias de pão com manteiga e uma caneca de café sobre a mesa; sentou-se. Charles veio de outro quarto, tomou outra cadeira e desejou bom dia, sem resposta. O senhor recebeu um bônus pela sua descoberta, Floods? Isso representa o que, dez por cento do lucro que eles terão em um único mês? Jeff olhava com ódio para o homem grisalho. Eu não entendo tanta lealdade, sinceramente. Basta que o senhor me explique a síntese da serenina, e sairá ileso. O senhor e... e tirou de dentro do sobretudo uma pequena bolsa de couro vermelha, com detalhes em metal dourado. Era apenas uma confirmação.

Deixem Kathlyn fora disto, seus monstros. Com prazer, Floods, basta me ensinar seu truque. É complexo demais para explicar, ao menos sem todo o relatório. Consiga então o relatório. Eu já disse, ele é protegido por três senhas... Isso é balela, Floods, quer me convencer de que não tem acesso a sua própria pesquisa? Nós conhecemos o funcionamento da Alora. Nós temos gente nossa lá. O senhor pode acessar seus arquivos remotamente, Jeffrey, não é verdade? Ele redobrou o olhar de desprezo, pela intimidade do primeiro nome e por ter sido posto a nu. Apenas em conexões autenticadas. Isso não é um problema; o processamento de dados funciona em fins de semana, o senhor vai ligar e dizer que precisa acessar a base de dados de sua casa de veraneio. Empurrou um telefone através da superfície da mesa. Eu quero falar com Kathlyn! Charles olhou para o líder dos capangas, que sacudiu a cabeça negativamente. Ela está bem, prosseguiu, mas pode não estar em breve. Olhou para o mascarado que acompanhava cada movimento de Jeff, o qual sacou de um coldre uma arma de choque, que aplicou incontinenti ao pobre cientista.

Faça a ligação, Jeffrey! O senhor não tem alternativa. Ele havia caído da cadeira, e levou alguns segundos para se recuperar. Foi auxiliado a se sentar novamente. Tomou o telefone, tremendo. Eu não sei número de memória! Já está aí, basta pressionar o botão verde. Respirou fundo e pensou: que reputação eu posso ter a defender se o que eu quero é mesmo escapar para bem longe? Que futuro eu posso almejar numa corporação que provavelmente daqui a alguns anos vai me demitir para contratar outro jovem promissor por bem menos? Recobrou o sangue frio, depositou o telefone novamente na mesa. Charles, meu caro. O senhor tem toda razão. A Alora não me remunera de acordo com a importância da minha descoberta. E tem mais: daqui a alguns meses quando a nova técnica for adotada em escala industrial, vai ser algum executivo quem vai aparecer em revistas contando sua história de sucesso. Uma coisa se pode admirar na sua organização: a lealdade é recompensada. Sem circunlóquios, Jeff, vá direto ao ponto.

O que eu quero dizer é que, sim, eu posso acessar a base de dados da Alora. Entretanto, por uma medida de segurança, há várias versões do relatório. Charles e o líder dos capangas trocaram um olhar. Eu poderia simplesmente descarregar um dos documentos falsos, inventar uma explicação plausível e salvar minha pele e a da minha esposa. Vocês só descobririam ao tentar produzir. Isso é mais um blefe, Sr. Floods, Charles retomou a formalidade. Se fosse? Vocês só têm um jeito de descobrir, não? E por que então nos diria isso em vez de simplesmente levar adiante a manobra diversionista? Porque não quero mais trabalhar para a Alora. O mascarado-mor, que até então não lhe tocara, pegou-o pelo colarinho; os olhos castanhos já não expressavam calma. Que espécie de truque é essa, Floods? Permita-me explicar.

Kathlyn tomava sol dentro de um maiô verde, sobre uma espreguiçadeira de vime, propriedade de um resort dos mais exclusivos, onde os abonados de um país emergente descansavam da rotina estafante de gastar muito dinheiro. Jeff agora pertencia a esse time, e saboreava um martini enquanto vigiava o filho brincar na piscina. Era proprietário de uma indústria farmacêutica de porte intermediário. Contudo, sua renda maior provinha de outra atividade: protegido pela identidade de respeitável empresário, comandava a produção e a distribuição internacional de um cobiçado fármaco que, graças a ele, podia ser produzido sem grande sofisticação, clandestinamente. Jeff sentiu sincero pesar ao saber que a Alora Inc. declarara concordata. Ele apagara seus arquivos da base da empresa e os vendera a uma rival.

2 comentários:

Trujillos disse...

Leo,

Ia ler apenas a primeira parte, mas acabei me empolgando e terminei todo ele. Gostei. Muito intrigante e com bons e numerosos detalhes. A narrativa está bem envolvente, rápida. Não tem uma frase sobrando.

A última parte eu li ouvindo a música do Dunaj. Casou perfeitamente com a narrativa, mas seria exagero achar que foi premeditado. Aliás, o que inicialmente me chamou a atenção foi a figura de um quadro do Klimt, que eu não conhecia... belo traseiro.

Leonardo Afonso disse...

ironicamente quem me indicou o quadro foi a putinha sem sentido. e é verdade, casa mesmo! obrigado!