sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Negócios, Como Sempre pt.1

Lembrou-se dos amigos que o esperariam em vão para um jogo de cartas, logo após tomar a segunda bofetada, com as costas de uma mão enluvada. Obviamente pensava no desespero que viveria sua jovem esposa desde o momento em que foi abordado por três mascarados e jogado dentro de uma van de carga. Foi saindo da sede da empresa, já de noite, numa rua pouco movimentada que precisava tomar para chegar à estação de metrô. O líder dos sequestradores, que em momento algum pôs as mãos nele, voltou a perguntar pelos arquivos. À medida que o veículo fazia curvas, ele, de mãos atadas, era jogado de um lado para o outro. Em seu estado de pânico, era difícil pensar em respostas que lhe ganhassem tempo sem comprometer o segredo industrial de sua recente descoberta. Respondia que não estavam em seu computador portátil, o que era verdade - nenhuma empresa o permitiria - e foi finalmente constatado pelo terceiro bandido, que jogou o aparelho pela janela.

Naqueles tempos, havia uma indústria farmacêutica bilionária, e uma contraparte que não ficava atrás, apenas funcionando no subterrâneo, no nexo do crime organizado. Não só esta fazia troça de patentes de medicamentos comuns, mas lucrava principalmente com drogas ilícitas, que surgiam e eram proscritas a uma taxa assustadora, bem como suprindo uma demanda reprimida por medicamentos controlados. Como sempre, essas drogas nasciam no âmbito científico, com a melhor das intenções geralmente, e escapavam de todo controle: as organizações criminosas tinham bons profissionais, métodos eficientes, e nenhum escrúpulo, como já pudemos constatar. É o caso da serenina, substância sintetizada pelo laboratório onde Jeff Floods trabalha.

A van finalmente parou; a porta foi aberta e ele foi arremessado para fora, caindo de cara num chão de cascalho fino. Um pouco de sangue escorria de sua boca. Recebera pancadas cada vez mais fortes ao replicar às ameaças dizendo que o relatório de sua pesquisa estava no computador central da corporação farmacêutica, sob três senhas das quais ele só tinha uma, o que era invenção sua - mas eles não poderiam verificar no momento. O líder aproximou seu rosto mascarado do dele - Jeff só viu distintamente os olhos castanhos, calmos como os de um sacerdote. De um jeito ou de outro nós conseguimos o que queremos, Sr. Floods. É melhor cooperar. A um sinal, os dois capangas o arrastaram para dentro de uma casa, muito afastada de qualquer outra, de arquitetura antiga; foi depositado em um sofá.

Pediu água. Trouxeram e desataram-lhe as mãos. Como queria agora ter um comprimido de serenina. Verdadeira droga milagrosa, tinha o efeito de desativar os circuitos da ansiedade, e era usada de modo bastante restrito em hospitais psiquiátricos, mas rapidamente os usuários de drogas sintéticas, psicodélicas especialmente, descobriram que o uso associado de serenina garantia uma viagem confortável. Num segundo momento, pessoas que rechaçariam com horror a pecha de "drogado" passaram a municiar-se de um comprimido para qualquer situação estressante. Ligaram uma televisão: beisebol; ele não conseguia prestar atenção. Por momentos intermináveis, ficaram todos lá, em silêncio, ele mal abafando os soluços. Súbito, um quarto homem chega, trazia pizzas. Ele está vindo, anuncia. Revezavam na sua guarda, para comer, e ofereceram o que sobrou. Jeff não tinha apetite, e exausto, acabou adormecendo dali a instantes.

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