quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Oferta do Dia

Terminei de escolher as frutas e consultei a lista: não faltava nada, rumei ao caixa. Então me lembrei dos tomates secos, por sorte, pois não os deixo faltar, embora por algum motivo tenham ficado fora da lista. Fui de corredor em corredor tentando achar o produto, às vezes é difícil entender a lógica de quem organiza essas prateleiras. Aí passei por uma moça bonita: alta, loira, esguia, num vestido colorido. Ela nem reparou em mim. Mas algo me chamou atenção além da beleza: parecia ser alguém que eu conhecia, embora por nada no mundo conseguisse decifrar o enigma, e segui em frente. Já estava no corredor seguinte, disposto a esquecer aquilo, quando caiu a ficha: ela tinha estudado inglês comigo muitos anos antes, em outra cidade. Voltei ao corredor onde ela estivera escolhendo azeite e não a achei lá, mas no próximo a encontrei, comprando café. Eu já abandonara o carrinho.

Desculpa, você não é a Larissa? Ela me olhou surpresa e disse com firmeza: meu nome agora é Abaré. Era minha vez de estar surpreso, e confuso. Alguns segundos de um silêncio constrangedor se passaram, e eu atalhei: então antes era Larissa? Você não se lembra de mim, eu, quer dizer, nós... Aí no rosto dela brilhou um sorriso. Sim, eu me lembro! Lá de Manaus... É, nós estudávamos... Com o Jorge, nossa faz muito tempo! Pois é, como você está? E ensejei os dois beijinhos, que saíram meio desajeitados, o brinco de penas dela roçou meu nariz e me deu vontade de espirrar, mas prossegui. Você está morando aqui então? É, já faz um tempo e você? Eu, voltei faz seis anos já. Como assim, você é do Rio? Sim, mas saí novo. Por isso nunca teve sotaque. É verdade; você, veio parar aqui como? Ah, eu passei um tempo em Brasília, meu pai era de lá... Ele morreu? Pois é, mas faz tempo. Que pena, e sua irmã? Ah, ela continua em Manaus, casou com um cara rico e curte uma de socialite. Nós dois rimos, e estávamos cada vez mais à vontade. Bem, então eu nessa época trabalhava no TCU, e um dia eu conheci o Santo Daime. Não brinca! Nossa, aquilo mudou minha vida: cheguei à conclusão de que não podia estragar minha vida com um trabalho chato, por melhor que pagasse. Aí vim pro Rio estudar Cinema. Que barato! E você?

Pois é, e agora? Eu devia inventar uma vida mais interessante para mim mesmo: que eu era budista e que fazia trabalho voluntário, que havia traduzido Hamlet e escalado o Pão de Açúcar. Mas eu sempre fui um péssimo mentiroso, e ia acabar me atrapalhando. Aquela mulher continuava me intimidando: eu era um frangote quando estudei com ela, alguns anos mais velha, mulher enfim, e linda, embora talvez fosse ainda mais hoje; e ela me lançava uns olhares que me deixavam da altura de uma caixa de fósforos. Não é preciso dizer que eu era patologicamente tímido então; um pouco ainda, mas na época eu era um bocoió. Ela figurava no arquivo das grandes oportunidades desperdiçadas, e, numa conversa recente com uma amiga em comum, soube que ela me considerava muito inteligente. Se isso significa alguma coisa.

Ah, eu morei em vários lugares, no Recife primeiro, depois fui pra Juiz de Fora, mas escolhi o curso errado e passei anos basicamente vagabundeando. Depois que minha mãe morreu... Puxa, lamento! Obrigado, pois então, meu pai ficou sozinho em Recife e resolveu reunir a família e voltar para cá, ainda tínhamos o apartamento em Copacabana. Mas eu já não moro mais com ele, aluguei uma casinha em Santa Teresa. Uau, que charme! Ah, é ótimo lá, e a ladeira ajuda a manter a forma; claro que a genética não ajuda. Ela desviou a atenção da prateleira de produtos de soja - eu a seguia enquanto ela prosseguia com as compras - e sorriu. Eu trabalho no Botafogo, o clube, e estou terminando Contábeis este ano. Aí como terminou o cara "muito inteligente" que ela conhecia! E você está trabalhando com Cinema? Sim, sou a assistente do assistente do assistente, mas estou, e gosto muito. No Odeon está passando um filme em que eu trabalhei. Puxa! Vou lá ver. Vai lá, chama Cama de Concreto. E por que esse nome... como é mesmo? Abaré. Então, eu visitei uma tribo uma vez com meu marido (merda!) e eles escolheram esse nome para mim, houve um ritual e tudo, eu resolvi adotar.

Era um caso didático de como, ao dizer de Sancho Panza, a oportunidade quando aparece deve-se agarrá-la pelo rabo e metê-la para dentro da sala. Larissa, ou Abaré, foi um ônibus que só passou uma vez, uma ave que comeu da isca e eu não soube puxar a corda que derrubaria a arapuca. Lá estava eu, solteirão e com uma vida patética, diante de uma mulher fascinante, realizada, casada, com nome indígena e tudo. Eu precisava pôr fim a mais um silêncio constrangedor.

Então está casada? Sim. Mas ele faz você vir ao supermercado sozinha? Ela deu um risinho. Ele está fora, passa muito tempo fora, na verdade, ele é antropólogo. Ah, faz sentido. Você confia muito nele, então? Claro, por que não confiaria? Sei lá, sabe como é homem. Mas ele fica na tribo o tempo todo, e a ética dele... por que está perguntando? E parou de analisar os preços dos biscoitos para me olhar séria. Eu estava tremendo, para que fui inventar? Ei, calma, só estou conversando, não vá achar que... E você, não se casou?, ela ajudou. Não, eu... terminei um namoro há pouco, menti, geralmente é só encrenca mesmo, sabe como é. Às vezes me parece que ninguém mais se entende hoje em dia. Eu me entendo com o Rodolfo. Nossa, então você tem sorte, e ele mais ainda. Olha, você tá começando... Olhei o carrinho dela e dei de cara com um pote de tomates secos, interrompi-a a tempo. Puxa, eu procurei por toda parte por tomate seco, onde você encontrou? Ela pareceu aliviada, explicou onde achá-los. A despedida foi mais seca que os  malditos tomates.

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