segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Onde Estão Seus Modos?

Minha mãe é artista plástica. No começo ela só queria ter uma atividade para não ser apenas e tão somente esposa do meu pai, que é empresário. Depois de um tempo as pessoas elogiavam seus quadros por um pouco mais que educação; uma amiga dela é esposa de um dono de galeria, eles vieram jantar aqui, um desses jantares idiotas, e ele gostou bastante do trabalho. Levou um, depois três, e em algum tempo ela já era um nome comentado. Ela passou a ser requisitada nas soirées mais exclusivas da cidade. Às vezes ela nos leva a todos, me apresenta como "minha atleta", pior é meu irmão, que é "futuro cientista". O que me deixa possessa é que em casa ela encrenca com meus treinos diários, insistindo em que eu deveria estudar para concursos. Eu curso Comunicação, participo do circuito de corridas de rua, e não tenho nenhuma pretensão de me tornar burocrata.

Ela me fez sair aquele dia para comprar um vestido novo, só para ir ao jantar na casa dos qualquer coisa. Eu já tinha aprendido a não confrontá-la e adotar o gosto cafona dela, só para aquelas ocasiões. Eu iria de jeans e camiseta, se pudesse. Foi difícil achar estacionamento embaixo do bloco, meu pai parou em um lugar um pouco inapropriado. Subimos: era uma sala enorme, decorada com a ostentação mais cafona possível, várias pessoas aqui ou ali bebendo vinho ou cerveja, tocava alguma espécie nauseabunda de easy-listening. A anfitriã nos recebeu com todos salamaleques possíveis, "minha atleta" e vamos nós. Um dos quadros de minha mãe estava na parede, foi o mote para alguma conversa miúda. Eu aceitei um vinho tinto, e fui pra sacada observar a fauna do local.

Pasolini tem uma sensibilidade que faz Buñuel parecer um troglodita, dizia um. Mas é a crueza das emoções humanas que faz seus filmes tão sublimes, sem falar que o seu italiano nunca ouviu falar em roteiro, contestava o outro. Um estava com gola roulé e usava cavanhaque, o outro usava blazer com camiseta, e um sapatênis que não combinava com nada. Eu odeio gente culta demais. Mais adiante, ouvi alguém dizer que esperto é o PMDB, que não está nunca no trono mas controla sempre o poder. Era um careca barrigudo com um enorme bigode. Pedir dinheiro na rua tem que dar cadeia!, espumava uma perua num vestido vermelho decotado, da cor do chapéu extravagante. É o que eu digo, quem não aceitar ir pro abrigo vai em cana! Voltei para perto de meu pai, que explicava que transporte urbano era um ramo que ia sempre bem, a um interlocutor que fingia interesse, muito mal. Minha mãe seguia com os donos da casa, expunha seus projetos de uma inovadora série de naturezas mortas. Alguém precisava produzir arte para pessoas dois séculos atrasadas, afinal.

Chegou a hora de servirem o jantar. Eu fiquei sentada ao lado da senhora qualquer coisa; à minha frente, um prato em cima do outro, três jogos de talheres, duas taças e um vistoso guardanapo de linho enfiado em um anel de madeira. Um problema com esses eventos era obviamente essa etiqueta idiota. O outro era o cardápio: eu não como nada de origem animal. Eu tentava explicar isso a minha mãe quando ela ensinava qual era a faca de peixe, qual era a faca de carne, inútil. Apareceram vários criados uniformizados, um tomou meu prato de cima, fundo, e perguntou: creme de espinafre? Tem leite? Tem manteiga? A senhora qualquer coisa me olhou feio. Eu mostrei a língua. Minha mãe cobriu o rosto com a mão. Aceito sim, moço, ele serviu. Minha mãe me fulminava com o olhar. A dado momento um dos criados veio dizer que interfonaram para dizer que um carro modelo tal tinha tido o retrovisor arrancado. Meu pai desceu às pressas, sem razão, pois não havia o que fazer. Todos o esperaram, comentaram que era um absurdo, quando a culpa no fim era dele. Minha mãe fazia sinais, eu não entendia nada; a senhora qualquer coisa ajudou: você trocou a posição da taça de vinho com a de água. Suspirei mas obedeci. Levaram os pratos usados e voltaram oferecendo picanha recheada ou tucunaré assado. Não, moço, eu não como carne; serve só arroz e salada, por favor. Minha vizinha tomou um gole de vinho com um ar afetado, eu a olhei desafiadoramente.

Bom, para a sopa bastava uma colher, e só havia uma. Para comer o prato principal, mesmo sem o principal, escolhi um garfo intermediário e uma faca com corte, porque eu costumava triturar a salada antes de comer. É um modo inusitado de comer a salada, queridinha, ainda mais com uma faca de carne, e deu uma falsa gargalhada, secundada por duas ou três da socialites. Olhei para a faca: era o único dos talheres com um cabo de madeira avermelhada, a lâmina era larga, o fio fazia uma curva acentuada, repleto de dentes afiados. Olhei para a senhora qualquer coisa, que ainda sorria com soberba. Foi rápido e certeiro: eu nunca matara ninguém, mas um talento natural me fez acertar a jugular da megera. O sangue espirrou, todos se levantaram. Agora eu queria o do cavanhaque, o que gostava do Pasolini, ou do Buñuel, não importa. Ele andava pra trás e tropeçou na mesa de centro, eu o feri na barriga, três, quatro vezes. Que tente sobreviver. O do blazer, que gostava da crueza de sei lá o quê, ganhou apenas um ferimento ou dois no braço, mas fiz questão de jogar seus sapatênis pela sacada. Paralisada de medo estava a perua de vermelho, a única que não saiu do lugar. Fiquei atrás dela, pus a faca em seu pescoço, ela suava e tremia: a bolsa, madama. Ela obedeceu; vou dar para o primeiro pedinte que aparecer, e cortei um pedaço de sua orelha. O careca tinha se escondido. Olhei para o senhor qualquer coisa, desesperado ao lado do corpo da esposa. Não vale a pena. Faltava só uma coisa. Do canto superior direito até o inferior esquerdo, minha faca de carne percorreu o quadro idiota da minha mãe. Mais vinho, senhorita? Como? Olhei para o garçom apalermado, que mostrava o rótulo de um Château N'Importe Quoi. Alguns saboreavam a sobremesa, outros fumavam e tomavam café. A solução mesmo é o voto distrital! Mais vinho, claro.

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