quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Direções

Eu passava naquele cruzamento todos os dias, voltando da faculdade. Era a interseção de duas vias arteriais, com canteiro no meio, e eu tinha que seguir para chegar em casa. Naquele dia, eu nem estava prestando atenção, o sinal estava aberto e eu passei rápido. Mas tive uma impressão maluca, não podia ser: a placa que costumava dizer Araucária em frente e Cidade Nova à direita dizia respectivamente Sucesso e Felicidade. Seria até interessante ter bairros com esses nomes, mas que diabo!, virei à esquerda e voltei a passar no mesmo cruzamento. Araucária e Cidade Nova. Eu estava ficando louco.

Tinha sido numa sexta-feira, e mal pensei naquilo no fim de semana, fiz um churrasco inclusive, com uns poucos amigos. Na segunda-feira voltaria a passar por lá; obviamente não esperava ver nada diferente, tudo não passara de um truque que minha mente pregou em mim. Mas não deixei de prestar atenção: não é que a placa dizia Sucesso e Felicidade? Olhei fixamente, quase bato o carro quando o semáforo fechou. Fiz sinal para o motorista à minha esquerda e perguntei: o que está escrito naquela placa? Ele pareceu intrigado e respondeu Araucária em frente, Cidade Nova à direita, ora. Olhei de novo: eu estava louco.

O sinal abriu e eu levei um tempo para me dar conta, começaram a buzinar. Não sabia o que pensar. Consultar um psiquiatra? Um oculista? Que ideia idiota. Bem, eu supostamente estava indo rumo ao Sucesso. Aos poucos, percebi que o caminho estava diferente do costumeiro: eu devia estar tão distraído que deixei de virar quando devia. Mas aquilo não se parecia com nenhuma área da cidade que eu conhecia, havia prédios novos e modernos, lojas de produtos caros. Olhei a plaquinha: Avenida da Abastança. Eu tinha que experimentar o outro caminho, e dei a volta no quarteirão, que era por acaso um campus universitário: Rua do Reconhecimento. Louco.

Refiz o trajeto e virei na placa que dizia Felicidade, agora à minha esquerda; em frente, a placa seguia indicando Centro. Mais uma vez, era uma parte totalmente nova da cidade: havia bares com pessoas conversando, casas simples mas muito simpáticas, até que cheguei a um parque com crianças brincando e famílias fazendo pique-nique. A plaquinha dizia Avenida Realização Pessoal. Virei à esquerda, contornando o parque, e à minha direita havia várias lojas de noivas e sex-shops. Rua do Afeto. Louco!

Pois bem, então eu poderia escolher entre Sucesso e Felicidade, mas não conseguia voltar para casa. Parei em um dos bares, pedi uma cerveja e tentei ligar para meu pai, não havia sinal. Pedi a conta e descobri que não aceitavam meu dinheiro. Era um sonho, só podia ser. Mas nos sonhos quando se percebe que é sonho a gente acorda. Uma moça de uma mesa ao lado compadeceu-se de minha aflição e assumiu a dívida. Tentei explicar minha situação, ela achou estranho; eu era tão alienígena para ela quanto tudo aquilo para mim. Disse que morava em tal rua, ela não conhecia, virando ali na avenida tal, tentei, nada. Louco, louco, louco.

Ela disse que estava indo para a faculdade, só podia ser aquela pela qual passara mais cedo. Segui seu carro e estacionamos no campus. Ela disse que poderia me apresentar a algum professor que talvez pudesse ajudar. De psiquiatria? De psicologia? De física quântica? Acabou sendo uma de literatura. Ela estava com pressa a caminho de uma aula, mas achou a história interessante, disse que daria um ótimo conto: uma opção entre sucesso e felicidade, mas que na verdade é uma prisão, e coçava o queixo. Mas e como termina? Rapaz, ela pôs a mão no meu ombro, você vai ter que escrever seu próprio final. A moça que me ajudava sorriu, agradeceu à professora e me puxou pelo braço: usa esse micro aí.

Comecei a narrar tudo como tinha acontecido, a meu modo, nunca tive pretensão de ser escritor. Depois que a professora me aconselhava a escrever meu final e eu sentava ao computador, travei. Eu queria voltar para casa, certamente, já deviam estar preocupados, mas será que para isso eu tinha que abrir mão do sucesso e da felicidade? Consultei um mapa, havia uma região fronteiriça entre os dois bairros. Escrevi que minha família se mudara para lá, que eu tinha um emprego que pagava em moeda do mundo paralelo, e bem, que estudava ali mesmo onde estava escrevendo e namorava uma moça fantástica. Imprimi o conto, para uma eventual necessidade. Minha amiga disse que estava atrasada e me desejou boa sorte.

Dirigi até o endereço que escolhera, era uma casa de classe média, com um jardim bem cuidado e um enfeite dizendo aqui mora uma família feliz. Esquina da Prosperidade com a Paz. Toquei a campainha e esperei. Atendeu alguém que eu não conhecia. Pensei em mostrar o conto como se fosse uma espécie de ordem judicial, mas sabia que não fazia sentido. Desculpei-me e sacudi a cabeça, aturdido. Voltei ao fatídico cruzamento, encostei e liguei o pisca-alerta, desci do carro. Achei uma caneta e, apoiado no capô, escrevi o fracasso do truque para ficar no mundo paralelo, e que voltando ao cruzamento a placa havia voltado ao normal e eu achava o caminho de casa. Dessa vez funcionou, as palavras Sucesso e Felicidade se metamorfosearam em Araucária e Cidade Nova, eu entrei no carro e segui meu caminho. Cheguei em casa no horário usual e ninguém disse nada, tampouco eu. Não sei dizer se sou bem sucedido ou feliz, mas também não acho que sou louco. Sei lá, segue o barco.

4 comentários:

Unknown disse...

Gostei muito desse...
A narrativa da fantasia é muito convincente. Eu adoraria ler um livro inteiro baseado nesse enredo, achei muito interessante mesmo!

Parabéns pelo seu talento, camarada!
Abraço!

Unknown disse...

Merda.. esqueci de assinar, o Unknown aí é Juliano Berquó!

Ana Carolina disse...

Ai, Leo, seu louco!

Ana Carolina disse...

A história ta martelando na minha cabeça agora