terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Rupturas

Vivia já há dezesseis anos naquele apartamento. Havia um escritório, com quatro estantes, daquelas de aço esmaltado: uma para os livros do meu marido, pouco mais de metade ocupada, uma para meus livros, repleta, os restantes estando na terceira, da qual duas prateleiras eram ocupadas por uma desordem imensa de papéis acumulados. Minha tarefa para a tarde era percorrer cada item, separando o que era meu, dele ou do lixo. Havia muito material acadêmico, que não podia jogar fora, mesmo que provavelmente nunca mais fosse consultado. Havia três anos inteiros de um periódico estrangeiro, para o qual vale o mesmo. Muita coisa do trabalho dele, da escola do Guilherme, fiquei em dúvida... eram tantas recordações boas! Uma certa angústia me tomou. Carlos me deixara, sem razão aparente; disse que estava esperando o Gui crescer, e esperou até bastante: ele tinha 22. Mas em nenhum momento seu carinho parecera diminuir, pelo contrário, estava até mais caloroso recentemente. Como entender os homens. Quando voltei à lida, esbarrei em um pacote com convites de casamento; cruel ironia.

Alguns eram de parentes, meus e deles, mas quatro me chamaram a atenção: eram de amigos próximos, gente que frequentava a casa. Nenhum casal seguia unido, e nós mesmos nos juntávamos ao clube, no ano das bodas de prata. A Selma tinha estudado comigo, Ciências Sociais. Ela acabou virando funcionária pública, e foi no Ministério que conheceu o Arnaldo, um cara muito bacana também. Eles batalharam, compraram um lote num condomínio irregular, construíram aos poucos, tiveram o Jorginho e em seguida a Vilma, eu lembro quando fomos juntos pra Pirenópolis. O Carlos passou o fim de semana emburrado porque teve que abrir mão do show do Paulinho da Viola, mas a verdade é que ele nunca foi muito com a cara do Arnaldo, que - entre eles - ficava contando vantagens de mulheres, quiçá imaginárias, que tinha tido. Carlos sempre foi um cara tímido e teve poucas namoradas, talvez por isso tenha se apressado tanto em se casar comigo. Os dois fizeram um churrasco quando a casa ficou pronta, ou quase pronta. Uma amiga minha que morava em São Paulo estava me visitando, e ela foi conosco. Paula era muito bonita, é até hoje, e a Selma começou a prestar atenção no modo como Arnaldo conversava com ela; com razão. E ficou tão desconfiada depois daquele dia que começou a perceber sinais, que devia mesmo ter sido muito tonta para ignorar. O mulherengo não tinha nem o cuidado de evitar usar seu telefone para suas escapadas, e por aí foi pego. Tiveram que vender a casa para repartir o dinheiro, Selma ficou com os filhos e ele hoje recebe metade do salário. Os dois nem sempre conseguem evitar de se esbarrar no Ministério, não se falam.

Às vezes reuníamos gente em casa. Para conversar, ouvir uma musiquinha, tomar um vinho e comer um queijo. Um dia, a Selma estava, sem o Arnaldo, eu tinha chamado outra professora do departamento, a Joana, nós nem éramos assim tão próximas, mas ela acabara de chegar a Brasília e não conhecia ninguém. O Carlos chamou um colega também, o Próspero, os dois disputavam uma promoção, na época, o Carlos acabou conseguindo. Os dois, solteiros, não demoraram muito em iniciar uma conversação, e foram ajudados pela origem comum: eram do Rio Grande do Sul. Depois que se despediram, nós olhamos pela sacada e vimos os dois se beijando encostados ao carro dele. Em pouco mais de um ano estavam noivos, e casados dali a seis meses. Pareciam muito felizes, e voltavam aqui amiúde, sempre nos agradeciam por os ter apresentado. Não tiveram filhos, ela ainda queria fazer um doutorado antes. Ele também se sentia estagnado, e decidiu fazer um MBA no exterior. Mas ele queria Estados Unidos e ela foi aceita na França. Surgiu o impasse. Decidiram levar adiante, à distância, revezando: cada mês um cruzava o atlântico. Durou um ano: ela não resistiu aos encantos de um Jean-Pierre qualquer e sua baguete debaixo do braço. Ele ficou inconsolável, mas terminou o curso e hoje está bem profissionalmente, em São Paulo, ela ainda está em Lyon, pós-doc.

Aí um dia a Paula me disse que ia se mudar pra Brasília, passara num concurso. Ela eu conhecia desde criança, lá em Pernambuco. Ela é pouca coisa mais nova que eu, mas parece ser bem mais jovem; já disse que é uma mulher muito bonita. E sempre teve prazer em seduzir os homens, um talento natural. Ocorre que ao chegar certa idade, ela mesma se cansou de jogos inconsequentes, sentiu falta de alguma segurança. Sempre se abria comigo, sua confidente. Mesmo assim, eu não esperava dela que viesse de repente me apresentar o Ricardo, quase trinta anos mais velho e obviamente muito rico, juiz aposentado. Casaram-se oito meses depois de se conhecerem, e oito meses depois ele, obeso, sedentário e tabagista, teve um enfarte fulminante. Ela conseguiu a segurança que almejava, e pertencendo agora às rodas da alta sociedade, foi inclusive amante de um político famoso. Mas um dia, em uma festa, encontrou o Arnaldo, que conhecera naquele malfadado churrasco. Ela mal se lembrava dele, mas ele nunca esquecera aquela morena, e tratou de exercitar seus dotes de galanteador. Saíram de lá para o apartamento dela, e na semana seguinte ele já morava lá. Dois meses depois ela anunciou que estava grávida: fizera de propósito, não podia esperar se queria mesmo uma criança. Como dois adolescentes, casaram-se às pressas. Rosa nasceu prematura, por pouco não sobreviveu, e tinha sempre uma saúde frágil. Por isso mesmo Arnaldo não se conformava em  ver Paula sair pelo menos uma vez por semana para jogar cartas, deixando a criança aos cuidados da babá. Como ele mesmo, ela foi descuidada, e não demorou a ficar claro que ela seguia vendo o tal político. Arnaldo cogitou aceitar a situação, pensava principalmente em seu contracheque, mas era orgulhoso demais, e o casamento se desfez. Hoje ele dá aulas para complementar o orçamento, ela é uma diva dos altos círculos da capital - correm boatos escabrosos quanto a sua reputação.

Enquanto eu prosseguia o trabalho entregue a essas reminiscências, meu filho chegou em casa, vindo da casa da namorada. Pensei em aconselhá-lo um pouco: que não fizesse nenhuma besteira, não se apressasse. Mas para quê? Todos temos que cometer os erros que nos cabem, e se ficar um saldo de bons momentos, que importa que não dure para sempre. Para sempre? Que pretensão. Afinal, será bom mesmo ter o mesmo companheiro a vida toda? No mais da vezes não é só uma conveniência, uma fachada? E me senti feliz de ter vivido um quarto de século com o Carlos. E pensei involuntariamente naquele professor da Filosofia, que  me convidava para almoçar e declarava uma admiração intelectual que bem sabemos o que significava. Gui entrou no escritório. Tá tudo bem? Tá, tudo tranquilo. A Ritinha tá bem? Sim, ela viajar com os pais pra Europa. Ah, que legal. Olha, filho... Mãe, eu preciso dizer uma coisa. Minha espinha gelou. Que fosse, a vida é dele. Pode falar, filho. O papai... me pediu pra conversar com você. Ufa! Você talvez... Diga. Ele vai se casar de novo. Como! Faz um mês que nos separamos! Pois é, e... é alguém que você conhece. A ideia caiu como um raio. Não podia ser. Ele soube interpretar meu olhar de espanto. É ela mesmo.

2 comentários:

Trujillos disse...

Você tá com energia, heim? Tá difícil de acompanhar as atualizações...

Gosto deste tipo de narrativa, você deveria fazer mais vezes. Sua veia "wood allen" está bem presente neste.

Leonardo Afonso disse...

valeu. tô tentando me tirar de dentro da minha ficção. ou melhor, fazer ficção.