terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Digno de Nota pt.1

Minha memória mais remota é da tranquilidade de uma grande sala sem janelas, a temperatura era sempre mantida um pouco fria; eu ficava acomodada com minhas colegas, lembro que eram muitas delas, bem juntinhas umas das outras, o que nos mantinha aquecidas. Eu não conseguia ver muito ali empilhada como estava, mas podia ouvir passos sempre que uma porta muito pesada se abria, o silêncio retornando depois que ela se fechava com uma pancada assustadora. Me contaram depois de onde nós tínhamos vindo, da capital, onde éramos impressas em série, quase iguais, só nosso número diferia. Não sei se era boato, mas fazia sentido: todas nós carregávamos a figura de uma onça, coisas que chamam de marca d'água, a mesma fitinha e o mesmo número cinquenta, em algarismos e por extenso; também duas assinaturas, bem pequenas, e uma frase falando num tal de Deus. Bem, como eu disse, minha memória só alcança até aquela sala confortável, mas registra muita coisa desde então; se não for lhes ocupar o tempo à toa, eu poderia contar algumas.

Um dia ouvimos um barulho diferente, um estrondo que assustou a nós todas. Aquelas com uma visão privilegiada narravam o acontecido e todas espalhávamos suas palavras. E o pânico era geral: uns homens encapuzados haviam aberto um enorme buraco numa das paredes e estavam sequestrando minhas amigas aos milhares, jogando-as dentro de sacos pretos que eram levados para dentro do buraco. Eu não fiquei tão assustada: aquela vida monótona estava me deixando neurótica, e mal podia esperar para ver o que ia acontecer. Não demorou a que eu fosse parar em um dos sacos, e aí fomos chacoalhando por um bom pedaço até sermos arremessadas em outro lugar, onde esperamos um pouco. Ouvíamos barulhos de gente, mas na época não éramos capazes de entender nada, e eles pareciam não nos escutar: foi aí que eu descobri que a voz da cédula vibra numa frequência inaudível para os humanos.

Fomos transportadas uma e outra vez, aí ouvimos sons do que eu descobriria depois ser algo chamado música, sons de vidro se quebrando, muita gente falando e umas coisas diferentes que eles fazem com a voz, depois eu aprendi que eram gritos e risos. Tudo era aprendizado para mim, todos aqueles sons novos, só a escuridão total que não me agradava. Um dia me tiraram do saco e me puseram em uma caixa um pouco rasa, que fazia um barulho de metal quando fechava. Pude ver muito pouco do ambiente, parecia ser um galpão; eu obviamente não conhecia essa palavra, ou palavra alguma, mas depois eu explico como aprendi língua de gente: vou contar sem ficar me interrompendo com isso, ou vamos longe demais. A caixa, que era uma mala, foi carregada por um homem que assobiava até um carro grande, que ficava tremendo e fazendo barulho. Quando paramos, ele desceu com a mala, conversou muito tempo com outro homem de voz fina, depois os dois conversaram com uma mulher e nos levaram a um lugar onde abriram a mala e passaram a desfazer os maços em que estávamos atadas e a contar uma a uma: foi meu primeiro contato com os números, a primeira coisa que aprendi em língua de gente. Lembro quando a mulher me pegou e olhou contra a luz, vi que estávamos em uma sala delimitada por divisórias que não iam até o teto. Era a maior sensação de liberdade que eu já tinha experimentado, estava feliz. Vi que só contaram e analisaram dois maços, e aí passaram a retirar da mala e a contar os maços inteiros. Houve mais alguma conversa e então o homem que me trouxe pegou mais quatro maços e deu dois a cada um dos outros. Eu estava em uma pilha em cima da mesa, o homem que me trouxe foi embora e nunca mais o vi.

Depois a mulher me colocou numa caixa verde, com um painel de botões na frente, e voltou a escuridão. Pensando bem, não foi meu primeiro cofre, porque a sala de onde fui levada era nada menos que um imenso cofre. Ficamos lá conversando, metade de nós ainda muito assustada, a outra metade terrivelmente excitada com um mundo inteiramente novo. No dia seguinte, abriram o cofre e nos jogaram em um saco de pano, dois na verdade, e entramos em outro carro que fazia barulho, dava para ouvir a mulher da véspera e um outro homem. Rodamos até chegar a um lugar onde fomos recebidos primeiro por uma moça de voz irritante e depois por uma senhora rouca, que falava enquanto caminhava até uma sala onde fomos postas em uma mesa e expostas à claridade fluorescente de outra sala de divisórias. Aí eu passei pela experiência mais inusitada. Nós éramos colocadas em um aparelho e escorregávamos uma em cima da outra em uma velocidade estonteante. Aconteceu outras vezes depois, mas, como eu já disse, tudo era descoberta. Ainda ouvi a voz das duas mulheres enquanto minhas colegas eram acomodadas em mais um cofre, este maior que o anterior. A porta se fechou atrás de nós, mas se abria às vezes ao longo do dia. Estávamos em companhia de cédulas que não conhecíamos, até umas verdes, diferentes, com rostos de sujeitos esquisitos. Eu não sabia então que lugares como aquele seriam como uma casa, a que voltaria várias vezes ao longo de minha vida útil.

Um comentário:

Ana Carolina disse...

Jesus, quanto conteúdo! Minhas tardes de férias serão menos monótonas