sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Digno de Nota pt.2

Passou um bom tempo, eu ainda não tinha uma noção exata de dias, em que aquela porta se abria a intervalos, deixando entrar alguma luz; às vezes retiravam algumas de nós aos maços, às vezes traziam mais. Fiquei muito amiga de uma cédula azul, que trazia um peixe estampado; ela também era bem jovem e nenhuma de nós sabia que ela tinha o dobro do meu valor, talvez por isso ainda não fosse esnobe e arrogante como outras que encontraria depois. Uma vez, logo que a porta se abriu, entrou alguém na sala e a moça deu um grito; a outra pessoa era um homem. Ali eu aprendi um som que os humanos fazem para pedir silêncio; dali em diante só ouvimos gemidos abafados, que não sabia dizer se eram de prazer ou desespero, e um grunhido ritmado, que foi se intensificando até dar lugar a uma respiração ofegante. Eu estava extasiada. Que mundo interessante!

Até que um dia me levaram, através de um pequeno corredor; por instantes pude ver quatro cabines com um computador e um vidro separando aquela saleta de um salão grande, repleto de gente. Fui depositada em uma gaveta, com outras colegas iguais a mim, e pela primeira vez conheci outras cédulas: vermelhas, que traziam uma arara, roxas, com uma garça, outras azuis, mas com o desenho de uma tartaruga; havia também uns pedaços redondos de metal, de vários tamanhos. Foi com a experiência de minhas novas vizinhas que fui aprendendo cada vez melhor o que eram os números, e pude entender enfim que eu era uma cinquenta. Ou o que significava 8499A, que era o fim do meu número de série, e como me chamavam até então; aquelas veteranas me puseram o apelido de Tata.

Eu tinha ficado no fundo da pilha, e várias vezes a gaveta se abriu até que eu fosse retirada; tchau Tata, boa sorte no mundo, desejaram as colegas. Fui entregue a uma velhinha, eu já conhecia cada vez melhor os humanos, e sabia que ela era mais velha; já começava a ser capaz de interpretar a entonação da voz deles, e vi que ela era muito educada, assim como a caixa que eu mal pude conhecer. Fui guardada em uma bolsinha que fazia um estalo seco ao fechar; quando ela se abriu, fui parar em uma lata de biscoito, e fiquei lá muito tempo. Eu ouvia o rádio ligado quase o dia todo; às vezes ouvia uma jovem que conversava com ela; ficava cantando e lavando louça. Uma vez eu ouvi a porta abrir e se fechar, a velha saiu. A jovem deixou a limpeza da casa e fez uma enorme bagunça no quarto, abria todas gavetas e revirava todas as caixas, até que abriu minha lata. Fui para em um bolso de calça. Dali a pouco a velha voltou, eu entendi da conversa que a moça precisava sair mais cedo, algumas palavras eu já reconhecia. Ela pegou um ônibus, depois outro, e chegou em casa onde duas ou três crianças faziam algazarra.

Conversou um pouco com um senhor aparentemente idoso, e ouvi barulho de cozinha; mais tarde chegou um homem, as crianças fizeram mais algazarra. Aí ela me tirou do bolso, eu e mais várias iguais a mim, e eles começaram a discutir até os gritos; nós ficamos largadas sobre a mesa, então deu para ver tudo, até quando ele começou a bater nela. Ela chorava estendida no chão quando ele meteu a mim e a mais três colegas no bolso da camisa e pôs as restantes numa gaveta no quarto. Saiu gritando mais um pouco, caminhou em uma rua em que havia barulho de ônibus e entrou em um lugar onde havia música e as pessoas falavam alto. Um pouco como o galpão por onde eu tinha passado. Passou lá muito tempo, e dava para ver quando ele levava um pequeno copo à boca, estava com muita sede. Aprendi mais algumas palavras, que eles repetiam o tempo todo, só depois fui descobrir que eram palavras sujas. Ele praticava uma brincadeira com bolas sobre uma mesa e um taco de madeira; eu via tudo quando ele curvava o corpo para frente. Quando já era tarde (eu já aprendia a medir o tempo), ele nos tirou do bolso, os amigos dele se juntaram em torno, parece que era muito dinheiro; mas eu acabei voltando para o mesmo lugar, e se juntaram a nós umas notas menores amassadas e fedorentas. Despedi-me da Cláudia, que me acompanhava desde o grande cofre da minha infância.

Quando chegou em casa, pronunciou uma frase que, pela movimentação que se seguiu, entendi que significava uma ordem  para esquentar a comida. Aprendi muito de língua de gente ali, todos falavam alto e onde eu fiquei, na mesma gaveta com as outras, era muito perto da sala; devia ser uma casa pequena. Ouvi outras brigas violentas e choro, algazarra dos meninos, e o idoso, que falava sozinho quando o casal saía. Todo dia o homem recorria à gaveta, e fomos ficando poucas rapidamente. Um dia eu voltei a ser escolhida, e passeamos no bolso de sua camisa aberta. No caminho para o bar (palavra que logo aprendi), ouvimos alguém abordá-lo, pelas costas, e pedir o dinheiro (palavra que aprendera muito antes). Ele se virou e entrou em luta com o ladão: foi ferido; eu via lá do chão onde havíamos caído.

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