domingo, 22 de janeiro de 2012

Digno de Nota pt.3

O bandido nos recolheu com a mesma mão ensanguentada que segurava o canivete. Correu até um beco, guardou o canivete num bolso e a nós em outro, e pulou um muro. Ouvi barulho de água, estava lavando as mãos. Depois percorreu uma distância e escalou um portão de ferro; alguém abriu a porta e gritou, uma mulher, ele a ameaçou e saltou para o chão. Correu até um daqueles lugares com música, talvez fosse até o mesmo. Deu para escutar ele pedir a tal branquinha umas quatro vezes, até que as vozes cessaram de súbito, passos pesados se encaminharam a ele, eram dois. Começaram a questioná-lo rispidamente, sua voz era trêmula, e arrastaram-no para fora. Meteram a mão no bolso onde eu estava e tiraram a Sílvia, a Joyce, a Tânia e a mim, entendi quando reclamou que era "só isso", repartiram-nos entre os dois e lá fomos pra outro bolso, todas amassadas. Pudemos ouvir o rapaz sendo espancado por vários minutos, e então entramos no carro que fazia um barulho gozado, que ouvi várias vezes aquele dia. Quando saí do bolso, estava em um supermercado, e o homem que me tinha tomado por último pediu um pacote de cigarros: foi quando fui parar em outra daquelas gavetas divididas.

Depois disso eu circulei um bocado. Comprei livro, cachorro quente, gasolina, servia de troco quando alguém aparecia com uma garoupa (e o funcionário sempre reclamava); conheci carteiras, bolsas e outros bolsos malcheirosos, descansei em caixas-registradoras, voltei ao banco, quer dizer, não o mesmo, outros, até o dia em que fui parar na carteira de um sujeito aparentemente rico. Tinha a companhia sempre de outras onças e garoupas, e como ele nos deixava em um balcão na sala, dava para perceber que a música era diferente, as pessoas falavam baixo e cada uma de uma vez. Foi o período em que eu aprendi palavras mais complicadas. Um dia alguém me tirou da carteira, e não era ele: devia ser seu filho, que usava uma jaqueta de tecido sintético colorida, em cujo bolso eu fui parar, sozinha. Ele desceu o elevador e entrou no carro, arrancava fazendo barulho com os pneus e escutava uma música repetitiva muito alto. Desceu do carro, andou alguns passos e cumprimentou alguém numa linguagem que me era estranha; foi muito rápido: ele me pôs na mesa e recebeu alguns pacotinhos plásticos. Estive na carteira do sujeito de fala engraçada algum tempo, um dia eu o ouvi conversar com um daqueles sujeitos com botas, que tinha uma risada cínica, e eu mudei de mão mais uma vez.

Passei um tempo com ele, e descobri que aquele tipo de gente se chama policial, descobri porque a mulher dele ficava muito preocupada com sua profissão - a mim, parecia um jeito fácil de fazer dinheiro. Bem, lá na casa deles também havia uma moça que cuidava da casa, e não é que eu reconheci a voz da mesma que havia me tirado da caixa de biscoitos da velhinha? Eu estive com a esposa dele até o dia em que fui dada em pagamento à empregada. Não esperava que ela me reconhecesse, já disse que somos todas quase iguais. Na gaveta dela, não encontrei nenhuma de minhas antigas colegas, nem o marido estava por perto: teria morrido aquele dia? Um dia ela me usou para pagar a padaria, e alguém que parecia ser o dono me pôs na carteira no fim do dia. Em casa, ele jantou com mulher e filhos, e disse que ia sair para uma reunião da maçonaria; escutei ele conversar com uma mulher, discutiam o preço, ela entrou no carro e ensinou como chegar no "ambiente". Ouvi todos aqueles barulhos que eu já sabia o que significavam, e no fim eu fiquei com ela. Da bolsa dela, ainda a ouvi trabalhando três vezes, até que bem de madrugada ela se encontrou com um tipo grosso, que exigia sua parte do trato. Com ele eu fiquei pouco, por sorte, ele me usou em outro supermercado.

De lá, eu voltei a um outro banco, estive no cofre muito tempo, fiz amizades, até aprendi um pouco do idioma daquelas notas verdes. Um dia levaram a mim e a muitas outras para o caixa, mas eu não fui para a gaveta. Um homem que não aparentava ter todo aquele dinheiro nos pôs em uma maleta e nos levou; quando a maleta se abriu, vi um homem muito elegante, que sorria. Ele naquela mesma tarde se encontrou com outro homem, e pude entender que se tratava de uma licença de qualquer espécie, que aparentemente custava todo aquele dinheiro. Despediram-se de forma muito cortês: como é bom estar com gente de bom nível! Outra pessoa apareceu e me levou até o banco. Veja só, era o meu primeiro banco! Fiquei até emocionada. Muito tempo passei lá, acostumei-me à rotina - a vida na rua já perdera a novidade. Até que ouvimos um barulho enorme, gritos, um tiro foi disparado. O rapaz que abriu o cofre estava pálido, e atrás dele um homem de capuz o pressionava a encher um saco preto. Aquilo disparou em mim uma nostalgia... Aí se ouviu o barulho que fazem os carros de polícia, era bem no exato instante em que o funcionário me tirava do cofre. O homem de capuz se assustou e atirou. A cabeça do pobre rapaz foi estilhaçada, e o maço do qual eu era a primeira cédula ficou encharcado em sangue. Por isso estou aqui, esperando para ser incinerada, por um crime que não cometi. Mas não me importa, posso dizer que vivi muito nesse tempo. E que os seres humanos são fascinantes!

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