domingo, 19 de fevereiro de 2012

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Sorte Grande X

Já havia tomado duas latinhas quando se sentou à mesa, tendo apenas Patrícia como companhia. Serviu-se pensando no momento em que daria a notícia. Ela pensava em como abordar determinado assunto. Começaram lamentando a má sorte de Roberval no trabalho, teriam que apertar os cintos um pouco mais. Mas Deus é grande e tudo vai ficar bem, ela persignou-se. Pode ficar tranquila, Patrícia, nós vamos dar um jeito. Ela passeou por assuntos banais, comentou a ajuda que deu à vizinha para preparar um bobó, mas silenciou sobre o pequeno furto. Enfim tomou coragem e falou. Seu Daniel, eu queria conversar uma coisa. O senhor já percebeu que sua neta está ficando uma mocinha. Eu fico com medo, o senhor sabe, os jovens são cada vez mais apressados hoje em dia, sabe Deus o que pode acontecer. E ela anda tão estranha esses dias... Tentei conversar, mas ela não se abre. E hoje ela não voltou... Ela gosta muito do senhor, eu queria pedir, se o senhor pudesse, que conversasse com ela, tentasse descobrir o que está acontecendo.

Não deve ser nada, Patrícia, fica tranquila. Eu vou conversar com ela sim, hoje mesmo. Eu já ia mesmo ter uma conversa com ela, e acho que ela vai ficar muito feliz. Patrícia arregalou os olhos, ele assentiu com a cabeça. Tirou do bolso o comprovante. Não conte a ninguém por enquanto. Acertei em cheio, Patrícia, finalmente! Finalmente tirei a sorte grande! Abandonaram a refeição para trocar um abraço caloroso. Cada um sorria mais que o outro, ele passou a mão sobre o cabelo dela. Deus é grande, Seu Daniel, eu sabia! Estava às lágrimas. Sentaram-se. Mais uma vez, Patrícia, não conte nada ao Roberval, ou a qualquer pessoa. Eu vou esperar para reclamar o prêmio, é o que aconselham. E quanto o senhor ganhou? Ainda não sei quantos acertaram as seis dezenas, vai dizer no noticiário daqui a pouco. Estava acumulada, e disse o montante. Ela esfregou as mãos entusiasmada.

Depois de comerem, ela tomou conta da louça e ele sentou-se ansioso no sofá. Cada notícia que era anunciada o enchia de angústia, até que foi anunciado o resultado da loteria. Havia dois acertadores, de tal e tal estado. Exibiram as dezenas, ele as saboreou mais uma vez, já as sabia de cor. A conta era fácil, estimou quanto perderia em impostos, seguia sendo muito mais dinheiro do que ele já vira em toda vida, mais do que veria se vivesse cinco vezes com aquela aposentadoria proporcional. Pensou que se trataria com os melhores médicos, que restabeleceriam sua coluna. Queria visitar a praia, podia ficar quanto tempo quisesse. Poderia retomar o hábito de frequentar o cinema, jantar fora, compraria tudo que quisesse no supermercado. Teriam uma, quem sabe duas empregadas, e Patrícia não precisaria cuidar da casa, ou mesmo bordar se não quisesse.

Anunciou à nora o valor que ganharia, e pediu mais uma vez segredo. Só ele sabia por que não queria que o filho soubesse. Entrou para o quarto para tirar seu cochilo costumeiro, mas não conseguiu pregar os olhos, excitado. Então eu sou um estorvo para a família, então o dinheiro que eu gasto jogando é o que faz falta para viver melhor? Vão ver uma coisa. Daqui pra frente vão me olhar com outros olhos. E ele vai fazer como eu disser se quiser qualquer coisa. Aquele mulherengo irresponsável. Patrícia abriu o armário e retirou o objeto. Sentia-se ridícula, não sabia o que fazer. Queria se livrar daquilo, agora que era quase rica, mas não teria coragem de admitir o delito. Saiu de casa, com o utensílio escondido em uma toalha de papel, e o atirou por sobre o muro da vizinha.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Sorte Grande IX

Seu Daniel, em seu quarto térreo, ouviu quando o filho tomava café, e esperou que terminasse e fosse embora para se levantar. Cumprimentou a nora e comeu alguma coisa, colocava um quilo de açúcar no café. Agradeceu e sentou-se na sala para ver televisão, mas ficava passando os canais sem assistir a nada e eventualmente impacientou-se. A nora disse que ia à farmácia. Entrou para o quarto e tirou uma caixa de sapatos de debaixo da cama. Abriu e pegou o primeiro álbum de fotografias. Eram antigas, da falecida esposa ainda solteira, uma linda jovem. As próximas eram do casal em visita ao Espírito Santo, e a memória dele o torturava, não conteve um choro fininho. Mais outras com o Roberval bebê, com a família dela em Belém, e cada vez doía mais aquela ausência de vinte anos. Guardou tudo e tentou se recompor, lavou o rosto.

Não encontrava a nora, tentou bater. Ela demorou um pouco e abriu, desejou boa sorte. Saiu sob um sol escaldante rumo à casa lotérica, a bengala garantindo o equilíbrio. Passou mais uma vez pela praça, desta vez parou para conversar com um amigo. Debateram a escalação do time pelo qual os dois torciam, o mais recente escândalo político e, obviamente, o tempo e o calor inclemente que fazia. Despediram-se e ele chegou enfim ao seu cassino pessoal. Desejou bom dia às moças e pegou uma filipeta com o resultado daquele dia. Era a loteria que pagava os mais altos prêmios, e estava acumulada. Saiu e buscou refúgio em uma lanchonete para analisar seus prognósticos.

Nada no primeiro, um acerto no segundo, nada, nada, três acertos. Não resolvia, o concurso só premiava o bilhete com todos números sorteados. Conferiu vários com um acerto, mais um tanto sem nenhum, até que acertou logo o primeiro número, e depois o segundo, começou a ficar ansioso. Em vez de alternar a vista entre os cartões, simplesmente os pôs lado a lado e quase teve um ataque: era uma identidade perfeita. Não pôde deixar de comemorar em voz alta, o que atraiu curiosos. Ele guardou o bilhete premiado no bolso e hostilizou os enxeridos. Não saiu correndo porque a coluna não permitia, mas mal podia conter sua alegria; quando se viu em um trecho deserto da rua, soltou um grito.

Não queria ir para casa, tomou um táxi rumo a uma sociedade hípica: gostava de ver os cavalos. Pensou na neta, que realizaria seu sonho, pensou nas viagens que gostaria de fazer, a lugares que lhe lembrariam a esposa falecida, pensou nos móveis e eletrodomésticos que a nora teria. Talvez fosse preciso até se mudar de casa, embora aquela fosse tão boa e cheia de lembranças. É que se a vizinhança soubesse... droga, será que eles perceberam? A esta hora, todo o bairro está sabendo. Um carro novinho, não, dois. Vou andar de carro para toda parte. O outro fica com o filho, embora ele não mereça. Voltou a pegar um táxi, que o deixou na frente de casa. Entrou e descobriu que nem o filho nem a neta almoçariam em casa. Pegou uma cerveja e foi pra frente da tevê. A nora achou estranho ver Seu Daniel bebendo assim sem uma ocasião especial, mas não falou nada.

Sorte Gande VIII

Roberval teve um sono intranquilo. Naquele dia ia deixar de lado o trabalho, que já estava devagar, para resolver alguma coisa urgente. Um amigo ia ajudá-lo, e eles haviam combinado de se encontrarem em uma praça do Centro. Acordou cansado, escovou os dentes, desceu e cumprimentou a esposa que o aguardava com o café. Saiu apressado, sem beijá-la. Quando enfim conseguiu estacionar, rumou à praça e encontrou o amigo que o aguardava. Garantiu que conseguiriam com facilidade o intento almejado. Tomara que sim, um tenso Roberval desejou, juntando as mãos espalmadas. A esposa não conseguira arrancar nada do prêmio do sogro, ele não conseguira nenhum serviço, e estava vencendo o prazo dado pela mãe de seu filho para saldar a dívida.

Caminharam até um prédio antigo, havia uma placa de um escritório de contabilidade e outros negócios. Atravessaram um pátio e atingiram um escritório pequeno nos fundos. O amigo apresentou Roberval a um sujeito gordo que usava suspensórios, todos se sentaram. Não queremos tomar seu tempo, Roberval só escutava, meu amigo aqui precisa de uma quantia, pequena, para certas questões pessoais, ele tem emprego e não vai ter problema em pagar de volta. O agiota acendeu um cigarro, perguntou qual era a quantia. Disse que não era tão pequena, não podia ter um prejuízo daquele tamanho, perguntou se tinha carteira assinada, Roberval disse que era autônomo. E uma jóia ou relojo valioso, não tinham? O outro só sacudiu a cabeça. Fica difícl para mim, tente conseguir alguma garantia e volte.

Saiu desanimado, mas o amigo lhe assegurou que um outro que conhecia não seria tão exigente, embora cobrasse juros mais altos. Pediu um segundo para avisar à esposa que não almoçaria em casa. Precisaram pegar o carro, e dirigiram até uma casa em um bairro de classe média. Foram conduzidos pela empregada até uma saleta. Era um tipo estranho com costeletas e cordão de ouro. O amigo de Roberval foi direto ao assunto, dizendo o valor. O agiota começou a explicar os termos do empréstimo: era uma extorsão. Roberval estava desesperado, não pensou meia vez. O dinheiro veio num envelope, Roberval deixou todos seus dados pessoais. Apertaram-se as mãos e saíram

Foram almoçar, o que foi difícil já no meio da tarde. Depois Roberval deixou o amigo em casa, agradeceu novamente e partiu para a casa do filho. Subiu as escadas tirando uma parte do dinheiro e metendo nos bolsos. Ela atendeu furiosa, o menino ficou sem jeito de se aproximar. Dizia que já eram três meses atrasados, como ela podia sustentar o filho assim? Ele pediu calma, disse que estava lá para pagar. Ela se desculpou secamente. O que eu consegui é isso aí. Ela contou, era três quartos da dívida, ela esbravejou, mas acabou guardando o dinheiro, sem deixar de acrescentar que o restante não seria perdoado. Roberval conversou com o filho, prometeu que um dia ia vê-lo jogando bola, e esperava que ele se tornasse um craque. 

Sorte Grande VII

Depois de preparar o café e bordar,  Patrícia avisou ao sogro que ia à farmácia. Comprou o que precisava, e, na volta, encontrou a vizinha chegando a sua casa. As duas trocaram comentários sobre um julgamento que estava sendo comentado o dia inteiro por todas as redes, e Patrícia ouviu da vizinha que esta estaria tentando fazer um bobó de camarão. Dispôs-se a ajudar, embora não pudesse demorar. Entraram na casa e foram diretamente à cozinha. Patrícia explicou os passos e os ingredientes e a outra percebeu no que errara das outras vezes. Ainda assim ela permaneceu um pouco, orientando o preparo e conversando minudências. Patrícia mais uma vez ficou admirando todos os artefatos modernos e bonitos da vizinha, e tentava pensar na Bíblia e nos mandamentos, um em especial. Até que o telefone tocou na sala e a dona da casa pediu licença para atender, Patrícia ficou mexendo uma panela. Foi mais forte que ela: o utensílio mais próximo era um espremedor de alho, Patrícia o enfiou na bolsa e voltou para o fogão taquicárdica, repleta de uma sensação inédita. Quando a vizinha regressou, ouviu que já estava ficando tarde e era melhor ir. Patrícia voltou a repetir alguma recomendação enquanto a outra a acompanhava até a porta.

Entrou em casa tremendo e pálida, correu para seu quarto. Tirou o artefato da bolsa, estava sujo de alho, lavou-o e jogou-o sobre a cama. Ora pensava na condenação de sua alma, ora tomava o objeto e o admirava e manuseava. Bateram à porta, era o sogro, avisando que ia mais uma vez à lotérica; ela ficou sozinha. Desceu para a cozinha e começou a desfazer uma cabeça de alho, escolheu alguns dentes que descascou e moeu com o espremedor novo; sentia-se ótima. Só então pensou no fato de que se o deixasse na gaveta alguém poderia notar, embora só ela cozinhasse, então o utensílio acabou mesmo sendo só uma relíquia no fundo do armário.

O telefone tocou. Era o marido, dizendo tinha muitas visitas para fazer e talvez não almoçasse em casa. Ela ficou desapontada, mas que bom que é trabalho, né? Ele observou que eram só visitas, mas que agora pelo menos um ia contratá-lo, tinha certeza. Patrícia se lançou ao preparo da refeição. O sentimento de culpa, quando vinha, era facilmente rechaçado. Por um momento em que pôde se afastar do fogão, tomou o livro sagrado e leu em voz alta um trecho aleatório, com fervor redobrado. O marido voltou a ligar; disse que a filha havia telefonado avisando que ia almoçar com uma colega. Que pena, ela lamentou, mas pensou que poderia com isso ter uma chance de conversar com o sogro.

Quando os bifes estavam na frigideira, a campainha tocou. Pensou que seria apenas a leitura da água ou da luz, e abriu despreocupada. Recuou como se tomasse uma pancada quando via a vizinha diante de si. Convidou-a a entrar, ofereceu água, o café ainda estava bom. Ela disse que era rapidinho, só precisava perguntar se a irmã não tinha um espremedor de alho para emprestar, podia jurar que tinha usado o seu ainda hoje, mas não conseguia encontrar de jeito nenhum. Uma hora aparece, Patrícia arriscou, isso acontece. Era uma peça de ferro, articulada, de aparência anacrônica, a ferrugem já havia comido o metal em vários pontos; a vizinha agradeceu e aproveitou para observar que o bobó ficara ótimo, podia trazer um pouco. Não é preciso, somos só dois na mesa hoje, mas obrigada.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Sorte Grande VI

A menina andava calada todo o fim de semana. A mãe percebeu, investigou, mas não obteve nada. Na escola, também, participava pouco das aulas, parecia tristonha. Isolava-se, e lia o máximo que podia seu livro, ansiosa por começar o volume seguinte, que ganhara do avô. Sua amiga veio conversar, ela sorriu pela primeira vez em muito tempo. Perguntou se estava de pé, Isabela confirmou que sim, mas precisava avisar o pai. Pediu o telefone emprestado, há muito pedia um para os pais, que se safavam dizendo que ela ainda era jovem demais; disse ao pai que tinha um trabalho a fazer, e iria almoçar na casa de uma colega e ficar lá à tarde. Pronto, tudo certo, você avisou sua mãe que eu ia? E combinou com ele? A amiga se despediu para ir jogar vôlei, Isabela retomou o livro.

O sinal indicou o fim da última aula, Isabela e a amiga esperaram toda a confusão se dissipar e saíram. Ela morava perto da escola, as duas caminharam até lá. A mãe da amiga a tratou muito bem, Isabela ficou constrangida com a insistência com que a colega louvava sua inteligência. Conheceu ainda o pai e os dois irmãos, ambos mais velhos que a amiga, e sentaram-se à mesa. Isabela ficou feliz em ver batata frita na mesa, coisa que nunca tinha em casa, e refrigerante circulando. Ela continuou ouvindo elogios, e não sabia onde meter a cara, até que a conversa desviou para qualquer assunto de trabalho do pai de família. Ele trabalhava em um banco, e Isabela achava aquilo o máximo, ficou pensando que seria bancária quando crescesse.

As duas assistiram à televisão depois da refeição, mas a Isabela não interessavam em nada as notícias dos famosos. Olhava o relógio, faltavam quarenta minutos, estava ansiosa. Ela ainda acreditava que era um engano da amiga, e afirmava isso a cada cinco minutos; ouvia sempre que talvez fosse, mas seria muita coincidência. Saíram de lá rumo ao campinho de futebol, onde ela tinha marcado com o menino. Ele era mais novo que elas, pouca coisa, e era o melhor jogador do bairro; infelizmente, a mãe, solteira, não tinha o dinheiro suficiente para submetê-lo às seleções de escolinhas de futebol. Estava no meio de uma partida quando chegaram. A amiga acenou e ele veio, sorriso no rosto, o contraste dos olhos e dos dentes com a pele negra faziam um belo efeito.

Oi, Isabela disse, tímida. A amiga tomou a dianteira. Então, Isabela, esse é o Daniel, que eu falei. Ele mora aqui no bairro e a gente se conheceu na quermesse. Ele me contou que o pai dele se chama Roberval, mora no seu bairro e conserta bombas. Como eu te contei. É outra pessoa pessoa, ela insistiu, apesar do mesmo nome do avô. Meu pai vem me ver todo mês, ele tem um monza vermelho; minha mãe fala mal dele o tempo todo, mas eu gosto dele. Ele me explicou que não pode morar com a gente, mas um dia ele espera poder dar uma vida melhor para nós dois. Isabela enfim cedeu, o modelo do carro foi a gota d'água. A amiga tomou suas mãos: Isa, não vá falar nada pra sua mãe, coitada, eu só achei que você ia gostar de ter um irmão. Isabela gostava sim da ideia, só não se sentia bem sendo enganada. Ela tinha razão, não vou falar com a mamãe, mas vou cobrar uma explicação dele, isso sim.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Sorte Grande V

Sentaram-se todos à mesa, Isabela ajudou Patrícia a trazer as panelas para a mesa. Daniel se levantou, pegou o controle remoto e pôs no noticiário de esporte, queria descobrir os resultados da rodada da noite anterior. Tirou do bolso da camisa um maço de papéis e uma caneta e deixou sobre a mesa. Durante o almoço, pai! - reclamou Roberval. Isabela meteu o garfo na panela e sacou um pedaço de costelinha; recebeu um leve tapa de Patrícia: ainda não oramos, filha. Ela mesma começou: Obrigado, Deus meu, por esta refeição e por tudo que já fez pela nossa família, zele por favor pela saúde de todos, para que nunca falte serviço a Roberval e compradoras para meus bordados, que Isabela continue tendo boas notas e entre na faculdade, e... que o Seu Daniel tire um dia a sorte grande. Começaram a comer.

Eu ganhei um prêmio hoje, Daniel disse quando começou o intervalo comercial. Guardou os comprovantes, um único resultado inesperado já arruinara todos seus jogos; declarou o valor ganho. Isso é ótimo, pai, vai ajudar muito no orçamento, meu trabalho não vai muito bem... Não, Roberval, você me condena todos os dias por jogar, agora está de olho no meu dinheiro. Eu vou comprar um presente pra Isabela e o resto é meu. Oba! Eu quero o quinto livro dos Cavaleiros Mágicos, vovô. Roberval trocou um olhar com a esposa, ela entendeu: Daniel ouviria antes a ela que ao filho. Só havia um problema na estratégia: a esposa não podia saber para que ele precisava de dinheiro. Ela tentou a sorte. Seu Daniel, nós somos uma família, e estamos passando por dificuldades. É verdade que a loteria é seu passatempo, o dinheiro é seu, mas até as coisas melhorarem, o senhor não acha...

Acho. Acho que vocês não teriam nada hoje não fosse por mim e pela finada Raquel. Os sacrifícios que eu tive que fazer quando ela morreu e você ainda era menino, Roberval, não trabalhava, todos os anos que eu suportei o calor de um motor de ônibus o dia todo, minha coluna estragada para sempre, tudo isso não me permite ter uma aposentadoria sossegada, poder fazer minha fezinha e gastar com o que eu quiser quando ganhar? Comeram um pouco em silêncio, até que Isabela elogiou a comida, receita da mãe de Patrícia, que cresceu em Minas. A mãe agradeceu e afagou a filhota. Vovô, é verdade que a vovó tinha muito dinheiro? Muito, não, Belinha, ela tinha uma pensão pelo pai militar, que deixou também esta casa, mas era o bastante para viver melhor que hoje.

Terminada a refeição, Daniel entrou para escovar os dentes, Isabela ajudava a mãe com a louça e Roberval se sentou para ver o noticiário. O idoso voltou e deu uma nota a Patrícia, tomando cuidado para que o filho não visse. Confirmou com a neta o presente que ela queria, prometeu que ia ainda aquela tarde comprar. Roberval inventou que tinha uma visita a fazer, a verdade é que não se sentia bem em casa. Isabela contou à mãe o dia na escola, tudo menos o desgosto do recreio, ou a confidência que a colega tinha a fazer. Tão logo terminaram o trabalho, a adolescente disse que ia fazer suas tarefas, mas pediu o telefone da mãe para fazer uma ligação e subiu para seu quarto.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Sorte Grande IV

O dia de Patrícia começou cedo. Preparou o café para o marido, esperou vendo televisão e teve que subir para acordá-lo. Assim que ele se foi, retomou seus bordados, estava trabalhando numa colcha. Pensava na vida difícil que levavam. Talvez quando a filha começasse a trabalhar as coisas melhorassem. Já havia desacreditado tanto do futuro profissional do marido quanto da loteria do sogro. A sala era ampla, e a casa como um todo era vestígio de um tempo em que as coisas haviam sido melhores. Ela gostava de se sentar no chão, e a peça ficava sobre a mesa de centro, que por esse mesmo motivo nunca tinha nada sobre ela. Pensava que a filha era inteligente, e que conseguiria um bom emprego. Tinha tanto orgulho, parou um tempo o bordado, pensando. Aí voltou um pensamento antigo: e se ela arrumasse um trabalho? A renda do seu ofício era exígua; mas o marido era muito machista, ela tinha medo até de falar a respeito.

Ela então pôs uma Bíblia sobre a colcha e se dividiu entre bordar e memorizar os salmos. Orgulhava-se de ser respeitada como esposa e serva perfeita. Cada uma das colegas da Congregação tinha algum segredo tenebroso, que ela ficava feliz em descobrir, pelos meios tradicionais. O pastor a adorava, e ela já era havia alguns anos a ajudante dele. O sogro acordou, e desceu para tomar café. Ela preparou alguma coisa, ele mudou o canal da televisão. Ela gostava muito dele; talvez mais do que o marido. Estava na hora de começar a preparar o almoço, ela começou a separar os ingredientes. Percebeu que era preciso comprar alho e ovos, perguntou se o sogro não poderia providenciá-los. Ele achou bom ter alguma coisa para fazer, aceitou a missão e saiu pela porta. Ela mudou o canal de volta.

A verdade era que Patrícia gostava de cozinhar. As rotinas a hipnotizavam  e o tempo passava rápido. Ela se orgulhava do arroz que fazia, e a costelinha de porco que ia preparar era um sucesso com toda família. Desligou a televisão, que dali não conseguia ver, mesmo, e ligou o rádio. O aparelho já estava sintonizado na estação evangélica, e uma pregação estava em curso. O pastor eligira falar naquele dia sobre a inveja. Ela repetia cada frase dele, com um aleluia eventual. Patrícia na verdade pensava no dia em que conheceu a casa da vizinha, e em como seus eletrodomésticos eram todos modernos. Lembrou-se da batedeira que usava, muitas vezes consertadas pelo marido, e que, sem que ela soubesse, algum fetichista provavelmente compraria por milhares de dólares em Nova York.

O sogro chegou com as compras, ela agradeceu, e ele voltou a sair logo em seguida. Só agora ela podia começar de verdade o preparo da refeição. Pegou-se pensando no marido, que a proibia de pôr cominho no feijão. Era um bom coração, mas estava havia tanto tempo dando voltas no mesmo lugar. Lembrou-se mais uma vez da vizinha, cujo marido era funcionário público e ganhava o que, para ela, era uma fortuna. Forçou-se a pensar nesta ou naquela passagem da Bíblia, censurando sua própria cobiça, enquanto descascava mandioca. O sogro de repente chegou contando que havia ganhado um prêmio pequeno, e um pouco depois seu marido chegou com a filha

Sorte Grande III

Soou o sinal do recreio, Isabela guardou calmamente seu material na mochila e saiu civilizadamente, depois que quase todos da sala já haviam saído desordenadamente, para se sentar no último banco do pátio. Abriu sua lancheira e retirou um misto frio e uma maçã, mais a garrafinha com suco de caju. Era a última que mantinha o hábito de trazer lancheira, todos mais comiam na lanchonete. Ao lado dela sentou-se um garoto de uma série mais adiantada. Ela ficou nervosa, jogou as tranças de um lado para o outro. De vez em quando olhava para o lado, e ele nem tomava conhecimento dela, concentrado em uma coxinha. Os garotos do seu ano eram todos uns bobões, e todas as garotas eram apaixonadas por alguém mais velho. Mas parece que Isabela ia precisar esperar mais um pouco para iniciar sua vida amorosa.

Foi até a sala guardar a lancheira e pegar seu livro. Voltou para o mesmo lugar, o menino não estava lá. Abriu o volume, que parecia enorme em suas mãos pequenas; era um episódio de uma famosa série de fantasia medieval. Isabela vivia aquele maravilhamento de ser transportada para outro mundo, que os adultos cedo perdem. Ela então se lembrou de quando visitou um parque com uma encenação medieval, no sul do país. Mas seu sonho mesmo era ver a mesma atração na Disney. Ela sabia todos os espetáculos dos parques da gigante do entretenimento americana sem nunca lá ter estado. Torcia para que o pai conseguisse um emprego melhor, ou quem sabe se o vovô ganhasse na loteria. Ela pedia ao papai do céu todas as noites. Retomou a leitura.

Em dado momento é interrompida por uma colega que precisava completar um time de queimada. Ela com um tom arrogante perguntou se não estavam meio grandinhos para isso. A outra garota fez uma careta e seguiu adiante. Isabela tivera um desenvolvimento intelectual muito precoce, e era considerada uma chata por não compartilhar os interesses da maioria. Terminou de ler um capítulo e levantou-se para ir ao banheiro. No caminho, deparou-se com o garoto de quem gostava, beijando uma menina loira, meio escondidos na entrada da quadra de esportes. Ficou furiosa por dentro, mas fingiu indiferença. É só porque ela é loira, pensava; naquele momento, detestava a cor de sua pele.

Acabou o recreio e ela se instalou em seu lugar, com a coluna ereta. A aula era de matemática, matéria em que a garota era um prodígio. Finda a explicação da professora, os alunos tiveram que fazer exercícios: ela foi a primeira a terminar. Logo após, tiveram que resolver problemas no quadro; ela era chamada para resolver corretamente cada vez que alguém errava. Alguns comentários desdenhosos eram trocados. A aula seguinte foi de português, ela leu um poema e respondeu duas perguntas corretamente. Havia na verdade umas três meninas que gostavam dela, e só. Uma delas enviou um bilhete, dizendo que queria conversar depois da aula. Ela sorriu em resposta, e quando o sinal soou as duas se encontraram na porta; foram caminhando até a saída da escola. A amiga disse que tinha alguma coisa incrível para contar, mas não podia ser ali nem ela podia contar para ninguém. Quando passaram pelo portão, o pai de Isabela estava em pé, encostado ao muro. Ela correu e o abraçou, disse para a amiga que ligaria para ela. Entraram no carro, que caía aos pedaços, e tomaram o rumo de casa.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Sorte Grande II

Foi fácil achar o endereço. O bairro era planejado, e todas as ruas e casas eram numeradas e ordenadas cartesianamente. Estacionou o carro velho, com adesivos nos vidros que anunciavam seu ofício e seu número de telefone. Tocou o interfone, chovia leve; cães vieram tentar intimidá-lo, ou anunciar sua presença aos donos. Uma voz respondeu lá de dentro, dizia que ia avisar a patroa, e ele seguia se molhando. Até que abrissem a porta e prendessem os animais, ele já tinha os cabelos crespos repletos de gotículas e a camisa quase toda molhada. Cumprimentou a madame metida no que mais parecia a ele um pijama, seguiu na direção da piscina. Era uma casa ampla, com um enorme jardim, havia três carros estacionados na garagem. Roberval admirou brevemente a residência antes de acocorar-se para abrir a tampa que dava acesso à bomba. Operou alguns controles, a máquina se pôs em marcha, emitindo um barulho estranho, ele a desligou e deu o diagnóstico. Questionado acerca do preço, iniciou explicando que era preciso desmontar a máquina, fazer enrolamento, ficava em tanto. A madame arregalou os olhos, assobiou um silvo breve e decrescente. Disse que era muito dinheiro, que não tinha como saber se ele não a estava enganando.

A ele incomodava profundamente que lhe questionassem a honestidade. O pai sempre fora obcecado por essa virtude, pela retidão moral, e Roberval sempre levou a sério esses ensinamentos. Mais que o pai, talvez, dado ao vício do jogo, o que, se não é uma desonestidade, é pelo menos uma fraqueza de caráter. Logo eles que não podiam desperdiçar nenhum dinheiro, ver o velho pai entregando tanto à Caixa Econômica. Pensou tudo isso em uma fração de segundo, antes de responder que o problema era difícil, tinha que quase fabricar o motor de novo, ela podia fazer outros orçamentos, mas que se oferecerem mais barato estariam-na enganando, ia dar problema de novo. Ela disse que precisava conversar com o marido e praticamente o empurrou para fora. Ele, constrangido, pediu para usar o banheiro; ela se mostrou visivelmente incomodada em vê-lo entrar em sua casa, e pediu que usasse o banheiro nos fundos.

Ainda tinha uma visita a fazer, atravessando a cidade. Essa não era exatamente a trabalho. Tinha combinado de visitar de seu filho. Seu filho fora do casamento, fruto de uma relação efêmera e pouco cuidadosa. Ela prometeu nunca dizer nada à esposa legítima em troca de uma ajuda mensal. Mas ele estava subindo as escadas até o apartamento dela justamente para dizer que não conseguira nada em duas semanas, mas mês que vem certamente ajudaria. Ela não ia reagir bem, já era a segunda vez. Tocou, ela abriu com o moleque agarrado às pernas, pediu que entrasse. Algumas formalidades trocadas, ele foi direto ao assunto, não tinha interesse em ficar conversando com aquela mulher. Ela se levantou e arremessou uma revista em sua direção, errou. Ela o chamou de cafajeste, disse que trato é trato, e que se ele não contribuía ela não tinha que fazer a parte dela. Ameaçou contar tudo à esposa se ele não trouxesse o dinheiro em cinco dias.

Entrou no carro desconsolado, olhou no relógio: faltava algum tempo até a hora de buscar a filha. Para ajudar, ficava no caminho da escola um bar velho conhecido. É verdade que não costumava beber de dia, mas aquele dia se sentia oprimido, encostou. Entrou e pediu uma pinga e uma cerveja. Lembrou-se de suas aulas no Senai, como prometiam que com treinamento teriam o sucesso profissional. Quinze anos que eu conserto bombas, sempre a mesma coisa: às vezes entra dinheiro a rodo, às vezes passa um mês sem nada. Para piorar tenho essa despesa secreta. É claro que eu amo meu filho, mas não era para acontecer. Se na igreja ficam sabendo isso, então! Eu preciso mesmo é conseguir um emprego numa fábrica, talvez ir embora daqui. Quando terminou a cerveja, pagou e saiu. Entrou no carro e dirigiu até a escola da filha, que ficava ali perto.

Sorte Grande I

Os sacos de lixo se acumulavam na frente das casas, esperando a coleta. Alguns haviam-se rompido, e era possível ver cascas de laranja e borra de café, dentre outras coisas, espalhando-se pela rua, com a ajuda de cães de rua, cascos de animais de tração e pneus de automóveis. As calçadas eram estreitas, onde as havia, o traçado das ruas ia de irregular a labiríntico. Já as casas podiam ser desde cortiços mal ajambrados até construções de dois ou três pavimentos, embora geralmente desprezando qualquer preocupação arquitetônica. Numa esquina esburacada, havia um supermercado, completamente desorganizado e desabastecido, um bar muito pouco recomendável, especialmente à noite, uma casa de madeira completamente murada, e um sobrado amarelo, escondido também atrás de um muro da mesma cor, mas exibindo ainda os vidros escuros do andar de cima.

Uma moto atravessou o cruzamento sem diminuir a velocidade, e fazendo um enorme ruído, e um senhor que saía do supermercado com uma sacola em uma mão e uma bengala na outra quase foi atingido. Gritou um palavrão e brandiu a bengala ameaçadoramente ao imprudente motociclista, que já ia longe. Terminou de atravessar resmungando para si mesmo e abriu uma porta de ferro, que era parte do portão grande, que dava acesso à garagem do sobrado. Era um homem negro, magro; a barba estava por fazer, a cabeça ficara toda branca anos antes; o andar era vacilante, com o tronco projetado para a frente, o que o fazia parecer mais baixo do que era. A garagem estava vazia, o filho estava trabalhando, consertando bombas hidráulicas em alguma parte. Entrou por uma porta que dava para a cozinha, onde a nora cozinhava. Era uma moça baixa, um pouco gorda, com os cabelos longos característicos das adeptas de sua religião. Os móveis e eletrodomésticos eram testemunhas de um outro tempo, e já tinham sido consertados várias vezes. O cheiro do feijão arrancou um comentário ao sexagenário. Ela agradeceu pelas compras e ele as depositou sobre a mesa de fórmica vermelha, descascada aqui ou ali, revelando o aglomerado de madeira que a neta gostava de ficar cavocando. Uma mocinha linda, que estava aquela hora na escola, onde era muito boa aluna.

Eu vou à lotérica, ele avisou. Seu Daniel tinha na loteria seu maior passatempo: arriscava a sorte em todas as modalidades; a que corria na terça tinha os prêmios mais gordos, a da quinta tinha chance dupla, a boa e velha esportiva o fazia sofrer acompanhando os resultados da rodada, até mesmo a anacrônica loteria federal ainda o atraía, os bilhetes eram vistosos, e enquanto aguardava os resultados, também se entretinha com as instantâneas. Nunca gostou do bicho, por ser um homem muito correto e idôneo. Não é preciso dizer que gastava muito mais dinheiro do que ganhava com os pequenos prêmios eventuais; o filho o criticava, poderiam ter um carro melhor hoje, equipar a casa, viajar, não fosse aquele hábito, ou vício, tão arraigado. Ele sempre respondia que o dinheiro era dele, e que um dia ganharia uma bolada e não repartiria nada, o que era provavelmente só uma provocação. Desceu três quadras, não sem alguma dificuldade, cruzou a praça, onde cumprimentou alguns contemporâneos, e chegou à casa lotérica, onde as funcionárias o conheciam bem. Conferiu com calma os jogos que tinham o resultado divulgado naquele dia, não tivera nenhum êxito. Pegou alguns cartões em branco e pôs-se a marcar; não precisou esperar na fila, pela idade, pediu, além das apostas que preparara, cinco bilhetes de instantânea. Despediu-se das duas moças e se sentou em uma mesa da praça, que estava tão descuidada quanto o bairro como um todo, a raspar sua sorte. Um deu direito a outro bilhete, três deram nada, mas um dava um prêmio intermediário, algo que pagasse uma feira: voltou para reclamar o prêmio.

Qualquer dinheiro era obviamente bem vindo. Daniel havia sido aposentado por invalidez depois que muitos anos dirigindo ônibus acabaram com sua coluna. A magra aposentadoria estava ao menos pela metade empenhada no jogo, e o trabalho autônomo do filho, ou os bordados na nora, dificilmente eram uma renda certa e garantida. A neta só falava em conhecer a Disney, eles garantiam que um dia seria possível, esperando que ela crescesse e esquecesse aquilo. Era exatamente no que ele pensava, no caminho de volta: quando ganhasse a tão sonhada bolada, seria o primeiro gasto que faria. Vão ver quem é o velho inútil.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Em Um Beco da Alfama


Vais ver, é um ótimo restaurante. Sempre que venho a Lisboa tenho que comer o bacalhau do Adamastor. Percorriam as ruas calçadas da Alfama, subindo e descendo, até chegar a uma rua curta, onde se escondia o restaurante de uma só porta. Dentro, poucas mesas, apenas uma ocupada por um casal. Utensílios náuticos compunham a decoração das paredes. No fundo, um balcão em boa madeira exibia uma garrafa de vinho do porto e algumas pequenas taças, mas por trás dele não se via o proprietário. Lauro serviu a si mesmo e ao amigo da bebida tradicional de sua terra e chamou pelo velho conhecido. Ele apareceu, ficou muito feliz, apertou com entusiasmo as mãos de ambos, sugeriu que se sentassem.

E como está Nova Iorque? Ah, aquela loucura de sempre, mas eu acho que não consigo mais viver sem, a gente se acostuma. E Lisboa? Estão difíceis as coisas, o senhor sabe, a crise... Há que ser forte, Adamastor, trabalhar e ter fé que isso vai passar. Verdade, senhor Lauro, mas o movimento caiu muito, as pessoas não vão mais a restaurantes. Podes buscar outra fonte, ser criativo, a crise pode ser uma oportunidade, sabe? O proprietário olhou confuso, um pouco ofendido. O gajo que o ajudava apareceu e anotou o pedido, que era o mesmo de sempre, e trouxe água para todos.

Verdade, Adamastor, tu talvez não acredites, mas a crise foi boa para mim. No começo não, tive perdas, mas quando as ações viraram pó eu tinha o capital para comprar, e depois de dois anos, quando elas se recuperaram, eu tive um lucro enorme. Ou então nas minhas operações de arbitragem, em que apostei contra o euro, também me saí muito bem. É tudo uma questão de perspicácia. Adamastor, que ouvia desanimado, alisando o pano que trazia pendurado ao ombro, suspirou. Tudo que eu sei fazer é cozinhar, senhor Lauro, este restaurante pertenceu a meu pai, eu me orgulho de levar a tradição adiante. Mas se as coisas continuarem assim, não vale a pena nem seguir a funcionar. Eu já estou a procurar outro emprego, mas não está fácil achar, e, como disse, só sei cozinhar. Eu nem sei o que é uma ação, arbitragem muito menos; não tenho capital, se é mesmo o que estou a pensar. O senhor como acha que a crise pode ser boa para mim?

Lauro prometeu que ia pensar um pouco e Adamastor, quase às lágrimas, disse que precisava voltar à cozinha. Os dois amigos conversaram um pouco, o casal chamou o gajo e pagou a conta, e dali a pouco chegou o bacalhau, uma garrafa de vinho verde acompanhando. Enquanto comiam, Lauro elogiava a refeição e lamentava a perspectiva de que o restaurante fechasse as portas, ou a única porta. O amigo provocou: não gostas de investimentos arriscados? Por que não compras o negócio? Passada a crise, ele volta a dar lucro, e a tradição não se perde, teu amigo terá um salário fixo, e terás mais um motivo para voltar a Lisboa: todos saem bem. Lauro olhava pensativo: soava bem, mas ele acreditava no valor do esforço pessoal, detestava condescendência. Precisava conseguir outra solução.

O amigo agradeceu pelo melhor bacalhau que já comera, e já consumiam os pastéis de nata quando Lauro teve um estalo. Pediu ao gajo que chamasse o dono, que se sentou com eles. Adamastor, meu caro, eu disse que a crise pode oferecer oportunidades. Eu sei exatamente o que você pode fazer para complementar a renda e manter o restaurante aberto. Tu sabes como muita gente se desespera e deixa o país em busca de outras oportunidades. Que posso dizer eu? De certa forma foi exatamente o que eu fiz. Não importa, o que ia dizer é que conheço portugueses nos Estados Unidos que trabalham com imigração, você sabe, clandestina. Se tu concordares, podes trabalhar recrutando portugueses que queiram ir pra América, não corres risco algum, e tirar um bom dinheiro nisso, que pensas? Adamastor havia escutado a ideia do amigo de Lauro, ficou decepcionado. Sua honestidade tentou argumentar, mas foi vencida pela urgência da situação.

Connaisseur


Olha, entendo tudo do assunto. Absolutamente tudo. Eu sou a pessoa mais indicada para o emprego. Minha mãe, que Deus a tenha, trabalhou fazendo empadas quase toda sua vida. Na verdade, ela fazia no início todo tipo de salgado ou doce, mas suas empadas faziam tanto sucesso que ela se tornou uma especialista. Empadinhas e empadão, vinha gente até de outras cidades encomendar com ela. E quando criança eu ajudava no preparo, escutava as observações dela, aprendi tudo. Ela tinha que me vigiar para que não comesse as encomendas, e até hoje essa é minha iguaria predileta: já comi foie gras e caviar e achei uma porcaria, eu sou um empadófilo convicto. O problema é que nunca fui capaz de produzir uma empada à altura da dela, por razões óbvias, e agora que ela se foi é preciso fazer uma verdadeira peregrinação para encontrar uma empada aceitável. As antigas salgadeiras estão caindo em desuso, hoje há fábricas que as fazem em série, sem nenhum esmero. Na verdade, de um tempo para cá, formaram-se verdadeiras cadeias especializadas, mas penso que elas deveriam ser processadas criminalmente por servir aquelas porcarias!

Eu vou explicar o que é uma boa empada. Primeira coisa: massa podre, há quem as faça com uma massa fininha, aquilo só tem mesmo formato de empada. A massa deve se desfazer com a mordida, mas sem se esfarelar; um pouquinho mais seca ou um pouquinho mais úmida que o ideal são o suficiente para arruinar o quitute. Outra coisa, o recheio deve preencher completamente o interior da empada, espaço vazio é um crime. Bem, o recheio. O recheio é toda uma história. Eu já encontrei um colega que só admitia a empada de palmito, por qualquer razão histórica que ele esclareceu. Verdade ou não, parece exagero, a de frango a mim parece a mais tradicional, e minha favorita certamente. Mas o que andam fazendo hoje, duzentos sabores diferentes, obviamente não é apropriado também. Empada doce? E isso nem é o mais grave: se você vai a uma dessas casas supostamente especializadas, experimente prestar atenção ao recheio: é uma gosma qualquer de maisena colorida artificialmente com vestígios de frango ou bacalhau ou o que seja. É por isso que acredito que um profissional como eu deve ser cobiçadíssimo no mercado.

Mas, meu senhor, a verdade é que nunca tivemos nenhuma posição para degustador de empadas. De vinho, de café, de chocolate, é até frequente, as empresas mais exigentes recorrem a nossos serviços, e nós sempre encontramos a pessoa certa, agora... O seu é um caso novo, não sei nem por onde começar... Você escreve aqui que é gerente de uma loja de pneus, seu salário não é tão mau. Acha que vai conseguir o mesmo degustando empadas? Bem, o que imagino que podemos fazer é um levantamento de empresas que poderiam aproveitá-lo e enviar seu currículo, ver o que acontece. Que me diz?

Ótimo, é o que eu tinha em mente. Tenho certeza de que vai dar certo. Eu não aguento mais ver pneus na minha frente, trabalhar com aquela gente sem bom gosto. E quando preciso fazer um lanche, então? A lanchonete da loja tem a pior empada do mundo, e o dono diz que não vai encerrar o contrato só por isso. Não é por mim, a senhorita entende, é por um mundo melhor. Imagine as gerações vindouras sem uma empada decente para comer.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Maus Bocados pt.2

A casa já ficara muito cara, e mudaram-se para uma menor que a anterior, o carro já tinha sido vendido, o que salvou alguns meses. Eles não tinham como pagar por psicoterapia ou mesmo medicação, e o tratamento dele foi o vinho, barato, que tomava todas as noites. Estava em um estado deplorável quando um ex-colega veio lhe visitar. Ele ficou muito feliz, propôs um brinde, conversou sobre episódios do tempo em que ajudavam pessoas a terem acesso à rede de computadores. Merecíamos medalhas, e no entanto... O outro também perdera o emprego, e vivia desde então de pequenos bicos, consertando defeitos banais em computadores de usuários que não sabiam nem o mais trivial. Com um sorriso no rosto, ele estendeu uma revista ao anfitrião; estava aberta em um artigo que falava sobre o Brasil, de sua economia aquecida, e especificamente, em um quadro que fez questão de apontar, sobre a carência de mão de obra especializada. O amigo, completamente ébrio, esticou-se no sofá, murmurou que não sabia, nem a Lisboa havia ido mais que uma vez, tinha esposa e filhos, mas ia pensar.

Ela o encorajou: qualquer coisa seria melhor que mofar em Leiria e tornar-se um alcoólatra, se não era tarde demais. Ele iria sozinho; depois de um ano, se tudo corresse bem, ela se juntaria a ele com os meninos. Enquanto isso, seguia consertando roupas, o que já fazia cada minuto que estava acordada. Ele pediu ajuda ao filho para pesquisar na internet empresas no Brasil que atuassem em sua área; preencheu algumas fichas e voltou a encontrar o amigo, que estava partindo sem absolutamente nada garantido, desejou-lhe boa sorte. Estava mais animado, e voltou a batalhar uns trocados carregando caixotes. Um dia recebeu uma mensagem, uma empresa precisava de alguém com o perfil dele; a passagem foi parcelada em dois anos, por sorte seu limite ainda não tinha sido reduzido, embarcou.

A viagem até o nordeste do Brasil foi rápida, um funcionário da empresa foi até buscá-lo no aeroporto e instalá-lo em um hotel confortável, ele mal acreditava. A entrevista foi no dia seguinte, correu tudo bem e ele foi contratado, como chão-de-fábrica, é verdade, mas com perspectiva de crescimento, dado seu currículo. Teve de aprender as peculiaridades de um outro país, de outra tecnologia, até mesmo da língua, que era quase a mesma, mas se saiu bem, seu conhecimento era respeitado dentre os colegas. Vivia em um quarto de pensão, de onde ligava para sua esposa e filhos; as coisas melhorando um pouco eles viriam. Mantinha entretanto o hábito do vinho, que lhe ocupava as noites quentes e solitárias. Conseguiu falar com o amigo, que estava em outro estado: estava empregado e já conhecera uma brasileira, com quem morava.

Alugou então a parte de cima de um pequeno sobrado, mas a liberdade não lhe fez bem: ficava até tarde bebendo e vendo televisão. Se estava fazendo algum dinheiro, e enviando uma parte para casa, a verdade era que a adaptação era difícil: o calor, as brincadeiras sobre sua nacionalidade e sobretudo a solidão o entristeciam, e o refúgio era vendido barato em qualquer supermercado. Chegou atrasado um dia, depois outro e mais alguns; um orientador da empresa conversou com ele, recomendou um tratamento. Ele pensou, não era alcoólatra, apenas... afinal, aceitou a ajuda: uma semana de desintoxicação e grupos de ajuda mútua. A esposa estava preocupada, mas ficou feliz, torcia pelo melhor.

Ele já estava há dois meses sem beber quando ligou e disse que preparassem suas coisas, o acumulado já podia pagar as três passagens; foi numa quarta feira. Na sexta, uns colegas insistiram para que saísse com eles, era um forró do melhor, ele não se arrependeria. Ele disse que não bebia mais, que não era apropriado, mas acabou cedendo. Estava entediado: não sabia dançar e não suportava aquela música; esteve o tempo todo em sua mesa, bebendo guaraná. Mas de repente uma moça que estivera dançando com um de seus colegas se sentou; ela achou curioso ele ser de outro país e disparou a perguntar todo tipo de coisa. Ele achou a moça divertida, e a conversa durou horas, ela tinha que recusar convites para dançar, ele havia muito tempo não se abria assim para ninguém. Ao fim da noite, trocaram telefones, e já no domingo ela fez uma visita.

Ele via sua solidão amenizada, mas se sentia culpado pensando na família; entretanto, a intimidade dos dois só crescia, sem falar que o sexo era ótimo. Passagens marcadas para dali a uma semana, ele disse a ela que estava acabado, mas ela se envolvera, fez uma cena. Ainda se encontraram na véspera da chegada da família dele, ele pediu que nunca o procurasse. A esposa, por todas aquelas ligações que ele recusava com uma expressão desdenhosa no rosto, entendeu o que estava acontecendo, mas fingiu não ver nada. Ele realmente subiu rápido na empresa, e em pouco tempo estavam todos morando melhor. A amante ficou com todas aquelas histórias de Portugal rodando em sua cabeça, quando perdeu as esperanças de recuperar seu português, comprou uma passagem e se estabeleceu em Leiria, parece que faz algum dinheiro consertando roupas. O casal ainda discute se voltarão ou não quando a crise passar, as crianças já se acostumaram...

Maus Bocados pt.1

Lembrava-se de quando conseguiu aquele emprego. Fora um sacrifício enorme frequentar o curso técnico à noite, depois da jornada como caixa de supermercado, mas ele conseguiu. Um amigo trabalhava em uma companhia de instalações telefônicas, havia feito o mesmo curso, ele levou currículo, fez entrevista; ainda levaram três meses para chamá-lo. Comprou uma garrafa de vinho para celebrar, o que representava uma exceção a sua costumeira parcimônia. No começo, descobriu que a realidade era um pouco diferente dos livros, mas em pouco tempo pegou o jeito do trabalho, e já podia liderar uma equipe para a instalação de serviços de telefonia e internet. Era muito competente, e também atencioso e educado, e começou a se destacar nas pesquisas de satisfação.

Ele nem acompanhou as notícias de crise imobiliária nos Estados Unidos, não entendia nada daquilo e no fundo não lhe importava: cria que bastava trabalhar duro e as coisas seguiriam melhorando. E melhoraram: tornou-se encarregado com apenas seis meses na empresa. A esposa ficava feliz ao ver a tralha de casa substituída por utensílios modernos, e os dois filhos com roupas novas. A quebra de instituições financeiras, seu socorro pelo governo, fusões, tudo era uma narrativa distante e sem sentido: seu salário era o dobro do que ganhava havia um ano, tudo tinha que estar bem. E estava, aparentemente: muita gente estava instalando internet em Leiria, a empresa crescia, os funcionários recebiam bônus. Ele comprou um carro, usado.

Islândia ainda lhe parecia distante demais para que uma crise de títulos, seja lá o que isso fosse, afetasse a ele. Irlanda era só outra ilha sem importância no seu modo de ver, esperava ansioso pela seção de esportes. Com menos de um ano de contratado, chegou a supervisor; o salário permitia pagar o aluguel de uma casa melhor, mudaram-se. Mas os noticiários começaram a falar dos problemas de Portugal também, e da vizinha Espanha, que seriam parte de uma sigla: PIGS, acrônimo de países em dificuldades. O governo anunciava cortes no orçamento, todos temiam pelo futuro. Ele garantia à esposa, que já abandonara o ofício de consertar roupas, que tudo sairia bem.

Mas a demanda por seus serviços começou a minguar, a parcela do salário que dependia das metas desapareceu. As equipes diminuíam de tamanho, ele via entristecido seus técnicos ficando sem emprego: já se dizia que era cada vez mais difícil conseguir uma recolocação. Ele estava acuado, e reagia trabalhando em dobro, ficando até de noite; o ambiente era insuportável na empresa, a competição, acirrada. Conversou com a esposa, era melhor retomar os consertos, talvez até o mais velho... ela rechaçou veementemente a sugestão. Agora ela tinha que reconfortá-lo. A tensão teve efeito sobre sua saúde, mais de uma vez ele deixou de trabalhar por um colapso nervoso. Isso não influenciou sua demissão, que viria de qualquer forma com o enxugamento da empresa.

A crise era agora concreta para ele, e até passou a tentar entender o noticiário sobre a dívida da Grécia, em pouco tempo discutia o mercado de subprimes nas rodas que se formavam na praça. Obviamente o mais urgente era cuidar de casa, o seguro-desemprego ajudaria, mas por pouco tempo. Ironicamente, para o negócio da esposa a crise era uma vantagem: as pessoas passavam a reformar as roupas em vez de descartá-las, e isso ajudou um pouco. Ele procurou emprego: como técnico em telefonia primeiro, viu que ninguém estava contratando naqueles tempos; tentou como caixa de novo, a experiência ajudaria, pensou, não conseguiu nada. Quando os seis meses se passaram e ele ainda estava procurando emprego, qualquer emprego, sabia que de alguma forma tinha de suprir o auxílio governamental que se acabava: descobriu um bico numa central de alimentos. Carregar caixotes, ele que entendia da última tecnologia de cabeamento ótico, e isso quando era aproveitado: havia um sorteio.

Sua auto-estima estava esmagada, e a esposa precisou de fortaleza para assumir o comando de tudo. Ele foi à igreja, queria perguntar a Deus como podia que alguém se preparasse, trabalhasse com afinco, e se visse reduzido a nada por ação de sabe-se lá quem em outro país; se todo mundo trabalha e trabalha, onde acaba essa riqueza toda? Como pode haver crise? O padre conversou um pouco com ele, que acabou aceitando um prato da sopa que estava sendo servida. Outro com quem teve que conversar foi o psiquiatra, pouco depois, estava com quadro de depressão e nem o bico conseguia levar adiante.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Janela Aberta

Ontem de madrugada eu fiquei conversando com um amigo pela webcam. Contamos algumas novidades, discutimos nossos projetos, e falamos sobre os anos que convivemos, viagens que fizemos, professores que tivemos, shows a que assistimos, dentre outras coisas. Ele hoje mora em oura cidade, quer dizer, eu moro em outra cidade, e criamos o hábito de nos encontrar via internet quando tudo mais dorme. Cada um de nós deve ter dito que estava cansado e ia dormir umas três vezes, só para que surgisse qualquer assunto e o papo prosseguisse, de modo que desligamos já perto das seis.

Melhor dizer que eu desliguei, porque, quando reativei o monitor no dia seguinte, lá estava a sala do mesmo amigo. Tentei alertá-lo pelo microfone, mas ele não parecia me ouvir, sentado a uma mesa com vestígios de um café da manhã frugal, talvez precário, tomando uma xícara de café e fumando. Diminuí a janela e fui ver outras coisas, mas quando me cansei a curiosidade foi mais forte. A namorada dele estava em cena agora, e os dois se beijavam fogosamente sobre um sofá. Não quero ver isso. Fui almoçar.

Quando voltei do almoço, ele tocava violão em uma cadeira, enquanto ela passeava só de calcinha. Era ótima, que cara de sorte. Pensei finalmente em ligar para seu celular e avisar, mas reconsiderei. Vi quando ela se sentou em seu colo e devorou-lhe as orelhas. A coisa começou a esquentar, e dessa vez eu devo confessar que não tive o mesmo escrúpulo. Vou ver só um pouco. Não contive o riso quando ela tirou a calça dele: é minúsculo. Senti-me culpado, estava me aproveitando de um descuido dele de forma desleal. Mas não deixei de salvar um instantâneo quando ela apareceu bem perto da câmera, encobrindo meu amigo pelado.


Eu podia fechar o programa à vontade, quando abrisse de novo, a ligação estava viva. Devia ser algum problema. Mandei uma mensagem para o celular dele, que parecia não usar o computador aquele dia. Voltei a trabalhar em minha dissertação, o que me distraiu daquilo por horas, mas acabei abrindo o programa. Levei um susto: os dois estava amordaçados sobre o sofá e um sujeito com um gorro cobrindo o rosto apontava uma arma para eles. Fiquei desesperado: o que poderia fazer a mil quilômetros de distância?

Pesquisei a página da polícia daquele estado. Achei um telefone, liguei. Expliquei toda a história, ouvi que tinha que ligar outro número; voltei a ligar a explicar toda a história. Nesse meio tempo, o bandido puxou a moça para o meio do tapete e começou a apalpá-la, ela tentava se desvencilhar. Eu estava horrorizado. Ele tirou o membro para fora, que, ao contrário do último que eu tive que ver, podia ser visto com clareza naquela imagem de resolução limitada. Ele forçava a moça a coisas horríveis. Endereço? Não sabia o endereço dele, mas me lembrava que ele me tinha enviado uma vez. Abri o e-mail, uma busca por seu nome retornava resultados demais; por sorte eu me lembrei do tema da mensagem em que pedia a informação: deu certo. Informei à atendente, que garantiu que seria verificado. Quando voltei a abrir a janela da câmera fiquei enfim abismado. Não podia ser! O que ele fazia enquanto a namorada era violentada! À medida em que a cena se desenvolvia, ficava cada vez mais claro que o assaltante... quer dizer... que aquilo era alguma espécie de encenação, um fetiche inusitado. E eu em vez de herói, era mais uma vez um voyeur indiscreto; pior: iria submeter meu amigo a um constrangimento.

Vi quando o suposto assaltante foi pago e sumiu do vídeo. Meu amigo pegou o celular, para ver as horas certamente, e detectou minha mensagem, arregalou os olhos na frente da câmera, ligou o monitor e pôs os fones. Eu tinha que fingir que não estava vendo nada, saí da frente do micro. Mas e a polícia? Eu podia tentar voltar a ligar e acusar o alarme falso, mas não fazia ideia de como explicar o ocorrido. Liguei mesmo assim, fiquei ouvindo aquela gravação estúpida. Voltei a abrir a janela, ele estava todo vestido e conversava com ela, fora do vídeo. Disse oi, constrangido. Ele me pressionou, eu abri o jogo. Ele ficou furibundo, disse que seria melhor confirmar minha história e passar todo o aborrecimento de registrar ocorrência e prestar depoimento do que contar a verdade humilhante. Eu lembrei a ele que era um crime, pedi calma, podíamos pensar alguma coisa. A namorada dele disse no fundo que eu era um palavrão indizível. Ele disse que crime era o que ele ia cometer quando me encontrasse, crime era passar trote na polícia, e era exatamente o que ele ia dizer, que era vítima de um trote e ia dar todos meus dados. Pude ver quando sua mão alcançou a câmera e a janela ficou preta. Penso que daqui a um tempo ele pode me perdoar. Mas se o telefone tocar é melhor não atender.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Canibalismo

Para descansar dos textos, esta piada que me marcou muito, não me sai da cabeça até hoje. É do filme Jabberwocky, do Terry Gilliamm, o primeiro dele fora do Monty Python, mas com Michael Palin estrelando. O filme vale mais que um semestre de história medieval, além de hilário, é claro. Procurem assistir. As legendas vou ficar devendo porque os dois programas que fazem a incorporação não querem funcionar.

Um Dia no Meio do Inverno pt.2

Havia um longo intervalo até a próxima sessão, e Cintia pediu para sair uns minutos. Fez questão de ser atendida por Thiago, e encarava-o com um ar embasbacado o tempo todo. Ele explicava que aquele perfume que ela conhecera estava em fase de testes. Sílvia ouviu tudo aquilo e resolveu pregar uma peça no funcionário: tirou da bolsa o frasco com propriedades fantásticas e o borrifou no pescoço do rapaz, é esse? A até pouco pia senhorita lhe agarrou pelos ombros, deu uma bela fungada sorvendo o perfume exótico, não resistiu e deu-lhe um belo beijo. Desculpou-se com a gerente, mirou lasciva o rapaz, que de repente descobriu que gostava de meninas, só não havia aparecido a certa. Ele alcançou Cíntia na saída e pegou seu telefone; o resto do dia ficaram trocando mensagens, combinando de saírem.

De repente entra na loja ninguém menos que Leopoldo; ele se sentia constrangido tanto com Sílvia quanto com Thiago, mas queria muito uma marca que só se vendia ali, para presentear a colega da provável ex. Ela obviamente insistiu em atendê-lo, numa patética tentativa de sedução. O que ela não percebeu foi que cometeu um erro: o frasco do amigo de Thiago e os frascos da marca que Leopoldo pedia eram parecidos, e ela acabara guardando a poção no mostruário. Foi o primeiro que ele escolheu, borrifou a mão. Thiago, que espiava de longe, percebeu, e viu ali sua chance de recuperar o frasco. Foi um golpe rápido e preciso, mas foi impossível evitar que se tocassem. O cliente ficou uns instantes olhando para o funcionário, voltou a conversar com a gerente, que não gostou nada daqueles olhares, finalizou a compra, encarou novamente Thiago e saiu um pouco constrangido. Leopoldo estava confuso, ele nunca pensara em homens, aquilo não tinha sido nada, mas agora começava a ver seu antigo admirador com outros olhos. Seu gerente perguntou se estava tudo bem, ele se desculpou pelas ausências, não se repetiria.

Thiago nem se lembrava que o propósito inicial era seduzir Leopoldo, ficou incomodado com seus olhares indiscretos; só pensava no esplendor loiro que estaria aquela hora na bilheteria do cinema. Ela também só pensava nele, mas estava sentindo uma leve dor de cabeça. Ocorre que havia de fato um antídoto para a fórmula mágica, um que nem os inventores conheciam, e era uma trivial aspirina. A mesma colega por quem seu ex-namorado esteve brevemente apaixonado providenciou o remédio para Cíntia. Depois de cinco minutos, ela pensou em Leopoldo, resolveu ligar, sem saber bem por quê. Foi a vez de ele desprezá-la, sua voz já ganhava trejeitos efeminados. Ela se desesperou, mas não podia sair naquele horário, o pico de movimento na bilheteria. A fofoca das colegas prosseguia, elas acabaram chegando à conclusão, ou bom palpite ao menos, de que havia um feitiço circulando, e só podia ter sido a aspirina a desfazê-lo.

O comportamento de Leopoldo estava cada vez mais estranho, e o gerente perguntou se ele não queria sair mais cedo, ele disse que estava tudo ótimo. Quando uma das moças da bilheteria entrou insistindo em que ele tomasse um comprimido, que seria um misto de hormônios que o faria irresistível para qualquer pessoa que ele tocasse, ficou desconfiado, mas quis arriscar. Disse que mudara de ideia e aceitou ser dispensado por aquele dia. Correu até a loja onde seu bofe trabalhava, inventou qualquer desculpa para se aproximar dele, que fugia. De repente o antídoto funcionou, não sabia o que estava fazendo ali e tinha saudades de Cíntia. Subiu até onde ela trabalhava, ela ficou feliz em vê-lo, agradeceu pelo presente, e disse que poderia sair em alguns minutos.

Sílvia, enquanto isso, seguia enciumada dos dois, resolveu tentar falar com Leopoldo no fim do expediente, que estava próximo. Thiago começou a ficar preocupado por não receber mais mensagens de Cíntia, até que ela mandou uma sugerindo se tratar de um engano. Pediu para sair um pouco mais cedo; ela autorizou, o que a ele já nem surpreendia, incumbiu outra funcionária de fechar a loja e resolveu seguir Thiago à distância. Ele se dirigiu à praça de alimentação, onde se pode dizer que tudo começou, e viu novamente o casal reunido. Ficou tão possesso com a traição de Cíntia que teve uma atitude impulsiva: abordou os dois, deu um tapa na moça e agarrou o pescoço do pobre rapaz. Os seguranças estavam longe, e, desacostumados a qualquer incidente naquele lugar tranquilo, não puderam evitar um bárbaro assassinato. Sílvia, que assistia a tudo, não pôde crer ao ver seu amado sendo morto, e, quando pôde reagir, tirou da bolsa sua pequena pistola, a qual nunca usara, aproximou-se e atingiu Thiago no peito. Ela foi detida em flagrante, a moça prestou depoimento e foi liberada. Chegou em casa de ônibus, tarde, não quis explicar nada. Tomou uma caixa inteira de remédio controlado; está no hospital, mas fora de perigo.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Um Dia no Meio do Inverno pt.1

As pessoas circulavam na capital mais meridional do país cobertas com todos casacos, gorros e cachecóis que tinham, vapor saía de suas bocas quando falavam. Era o inverno mais rigoroso em várias décadas. Mas dentro do centro comercial Rio Center a calefação garantia um ambiente mais confortável, e os clientes eram vistos carregando a roupa de frio nas mãos. Em uma das lojas, especializada em cosméticos e perfumaria, Thiago trabalhava com seu habitual joie de vivre, em uma calça preta de couro sintético e uma camisa branca com detalhes bordados. Atendia às clientes com toda atenção e prestatividade, conhecia muito bem a linha de produtos. Nem abalava seu bom humor o fato de que Sílvia, a gerente, detestava-o, e fazia o possível para tornar seu dia um inferno, todos os dias, com uma folga por semana apenas. Ela era uma solteirona bastante elegante, metida em um tailleur malva; trabalhava havia muitos anos ali, e seu perfeccionismo beirava o doentio. No caixa do cinema trabalhava Cíntia, uma jovem de ascendência alemã que fazia faculdade pelas manhãs e seria em breve enfermeira. Era doce e cordata, vestia-se com recato, e frequentava a mesma igreja evangélica que Leopoldo, alguns anos mais velho, funcionário de uma loja de calçados, ali mesmo. Ele era um rapaz sério e trabalhador, não bebia, e sonhava com a promoção a gerente, quando poderia usar o paletó verde da loja. Era também muito belo, um negro de feições salientes, apesar de tímido, e foi Cíntia quem teve que deixar claro seu interesse para que ele agisse. Estavam juntos já havia dois anos, e ele tinha que esperar a última sessão para levá-la para casa, onde os pais dela, ansiosos pelo casamento, aguardavam-nos.

Sílvia recomendou a Thiago que não se demorasse em seu intervalo para fumar: o movimento estava aumentado com todo aquele frio; obviamente era o que ela sempre falava, com uma cara azeda. A loja onde trabalhava Leopoldo ficava no caminho para a saída, e ele parou para admirar o rapaz, enquanto fingia ver as vitrines. O ritual era antigo, e deixava o jovem religioso muito constrangido; preferia simplesmente fingir que nada acontecia, mas a cada vez que olhava para ver se o outro já se fora, os olhos se encontravam e ele tinha uma sensação indefinível. No fumódromo, Thiago encontrou um amigo, um amigo com quem já tivera um caso. Ele sabia da paixão do outro pelo vendedor de calçados, e garantiu que tinha a solução. Tirou do bolso do casaco um vidro de perfume: está em fase experimental, mas eu já vi funcionar; você precisa borrifar o bofe com isto e certificar-se de que você seja a primeira coisa que ele toca. O amigo desdenhou, que crendice idiota, o outro insistiu: não vai te custar nada experimentar, quer dizer, custa cem reais. A curiosidade o venceu, pagou. Fumou um segundo cigarro, ia ter que escutar muito na volta.


Ele viu quando Leopoldo passou em frente à loja: devia estar indo almoçar com a namorada na praça de alimentação, ela estava chegando aquela hora. Explicou à chefe que ia almoçar mais cedo, não tinha tomado café, ela resmungou, mas autorizou. Lá estava o casal, ele não tinha bem um plano, sentou-se de modo que sua grande paixão não o visse. Tirou o frasco do bolso e o segurou na mão, o mais discretamente possível; passou pela mesa deles, mas calculou mal o tiro, e, com ajuda do sistema de ventilação, as gotículas aspergidas foram parar no rosto dela. Ela se virou e segurou-o pelo braço, estava disposta a tirar satisfações, mas, quando o viu, um sorriso de abriu em seu rosto, perguntou que perfume era aquele, começou a puxar conversa, enquanto Leopoldo, por mais que o rival fosse obviamente homossexual, não gostava nem um pouco daquilo. Ela disse que se lembrava dele, ele trabalhava em tal loja, ela ia passar lá mais tarde. Ele deu um jeito de se desvencilhar e se despediu, voltou sem almoçar para a loja. Cíntia tratou Leopoldo com indiferença daí em diante.

A gerente da loja estranhou sua volta abrupta, e viu quando ele guardou alguma coisa na gaveta. Tão logo Thiago foi ao banheiro, ela abriu a gaveta e pegou o perfume, experimentou; era diferente, cítrico. Um cliente entrou, um rapaz negro; ela era um tanto racista, mas não quando se tratava de vender, recebeu-o cheia de afabilidades, e tocou-o no ombro. Ele disse que não queria comprar nada, só queria conversar com um rapaz que trabalhava ali. Ela imaginou coisas, e ficou enciumada; começou a reparar no rosto do rapaz, em seus lábios grossos, na força de seus braços. Disse que ele fora embora, estava passando mal, deu um cartão dela, sugeriu que ligasse, acrescentou seu número pessoal, no que eu puder ajudar... Leopoldo não entendia nada. Thiago apareceu quando o outro acabava de sair, pediu licença para fazer um telefonema. Achou estranho quando ela não reclamou nem um pouco. Pediu um café e discou, exigia do amigo um antídoto, e fez uma cena quando descobriu que não havia. Voltou ao trabalho.

Enquanto isso, no caixa do cinema, as colegas de Cíntia estavam surpresas de ouvi-la elogiar tanto aquele homem, de fato bonito, mas gay até a medula, quando até ontem era a namorada bem comportada de um homem tão responsável. Confabularam e decidiram que uma ia conversar com Leopoldo quando pudesse, para sondar aquele mistério. O vendedor de perfumes conferiu a gaveta e descobriu o sumiço da poção, ficou desesperado, mas não teve dúvidas: questionou sua chefe com rispidez, garantiu que se tratava de algo muito perigoso, ela desconversou. Sem saber o que fazer, voltou a ligar para o amigo, desta vez dentro da loja mesmo; contou o incidente com a namorada de seu amado, e que a megera da sua chefe havia roubado o frasco. Ela ouviu tudo, e entendeu o funcionamento da mágica. 

Leopoldo mal conseguia trabalhar, preocupado com o comportamento de Cíntia, e tão distraído estava que sofreu uma reprimenda; aquilo era péssimo para seus planos. De repente viu entrar na loja a coroa que lhe dera uma cantada mais cedo; como se não bastasse! Ela inventava que precisava comprar um presente, fe-lo mostrar alguns modelos, e quando teve a chance deu-lhe uma borrifada do perfume. Ele, entretanto, mantinha-se distante, e, quando viu entrar uma colega de Cíntia, pediu licença à cliente e a cumprimntou com dois beijinhos. Ficou olhando fixamente para a moça, respondeu que não lhe preocupava o que Cíntia fizesse, desde que pudesse todo dia contemplar uma beleza tão sublime quanto a dela. Sílvia xingou em voz alta e disse que voltaria depois. A colega da namorada do vendedor se assustou e também voltou ao trabalho, ávida por compartilhar mais aquela novidade. Leopoldo esteve ainda mais aéreo, e o gerente comentava reservadamente que era uma pena, sua promoção estava para sair a qualquer momento.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Em Busca da Memória Perdida pt.2

Entramos no carro, eu recusei um cigarro: nem pensar. Meu, você estava muito doido ontem. Já é a terceira pessoa que me diz isso, que foi que eu fiz afinal? Bom, você não se lembra de nada? Me lembro quando o show do Planeta acabou, eu já estava bem chapado. Pois é, essa hora você já estava fazendo gracinha com mulher acompanhada, a gente te salvou de tomar umas porradas; não conseguia digitar a senha... Ah é, essa eu lembro. Então, não lembra que a gente passou no Super Cesta, comprou cerveja, você comprou um vinho caro... Putz. Aí passamos no Mauro pra fumar um... É claro. Você quebrou um porta-retrato. Merda. Aí o baixista da banda dele ligou, falando dessa festa, que ia rolar um jam e tal. A gente rodou um bocado até achar o endereço, chegou. A dona da casa era essa gatinha, atriz... Eu conheci hoje. Pois é, aí você abriu o vinho, mas andava por aí com a garrafa numa mão e uma latinha na outra. Caralho... Estavam tocando violão na cozinha, você tocou uns Beatles, errando os acordes... Depois, na sala, jogaram as baquetas na sua mão e você tocou, até que mais ou menos, um blues. Pelo menos isso. A próxima vez que eu soube de você, você tinha pulado na piscina só de cueca. Ai, caramba! A Helena veio dizer que o cloro isso ou aquilo, pediu que saísse e você se vestiu. Daí em diante eu fiquei de olho em você.

Cara, para nesse posto pra comprar água. Bem, aí a gente estava sentado lá fora, apareceu essa mina que devia estar mais louca que você, pegou seu chapéu e pôs nela, disse que você era o Saulo, irmão do André, e repetia isso toda hora. E eu? Você disse que, se ela queria, era. Aí você tentou dar um beijo nela, ela virou a cara e disse que você era casado e tinha filho, você perguntou se dava tempo de ser você de novo, ela disse que você procurasse outra mulher, você disse que essa era a tônica da sua vida, ela mandou você se foder, você disse de novo que era a tônica da sua vida, e mais umas duas vezes, a tudo que ela dizia. Você pegou o copo dela, acho que era vodka, e virou, ela foi lá dentro, voltou com outro e você tomou dela e virou de novo. É, essa parte eu já sei. Aí você agarrou ela, deu-lhe um beijo, virou pro lado e vomitou. Estávamos na fila do caixa, a mulher da frente se virou e olhou feio. Aí foi ela que te deu um beijo. Que nojo! Nessa hora eu entrei, vocês que se entendessem, mas pedi pro Mauro ficar atento.

De repente ele me chama pra ver uma coisa. Lá vem. Vem mesmo: vocês se esconderam atrás de uma árvore, ou tentaram se esconder, você já estava com a calça abaixada, dela só se via a cabeça, na altura da sua virilha... Hehe. Mas alguém mais viu? Uma hora a Helena veio conferir uma carne que tinham esquecido na churrasqueira, não teve como evitar. Puta merda, Flanela. Ela levou na boa, ou fingiu bem, pelo menos. E como é que vocês me deixaram lá, afinal? Bom, você tinha cochilado em uma cadeira, eu fiquei mais tranquilo e voltei pra tocar com a galera, quando o Mauro disse que não aguentava mais, a gente te procurou em todo canto, não achou; como o pessoal que estava com a mina já tinha ido embora, imaginamos que você tinha ido com ela, apesar de que não ia aguentar muita coisa. Onde diabos você se meteu? Ah, eu estava no meio de umas plantas, no fundo do jardim. Estávamos chegando a minha casa.

Cara, eu preciso falar com a Helena e me desculpar. Esquece, meu, todo mundo faz isso uma vez ou outra. Você não tem o telefone dela? Não, eu conheci ela ontem também. Talvez o Mauro. Taí, descansa um pouco, toma um banho, tenta se segurar na próxima. Poxa, muito obrigado, Flanela, você foi firmeza mesmo. Tomei um banho e liguei pro Mauro. Ele não tinha o número, mas o baixista dele devia ter; liguei para o cara, constrangido, eu mal o conhecia. Pois é, eu sei, meti o pé na jaca mesmo. Eu queria pedir desculpas à Helena, você tem o telefone dela? Anotei e liguei na mesma hora. Helena, é o Gabriel. Olha, eu descobri que fiz coisas horríveis na sua casa, queria me desculpar. Mesmo assim, eu fico com a cara no chão, eu não costumo fazer isso. Pois é. Você acha? Eu passei um tempo parado, mas tenho praticado ultimamente. Foi bom voltar a tocar com banda. Mas, me diz, você também gosta de vinil? Conversamos? É, teríamos que conversar tudo novo, mesmo. Bem, foi um prazer conhecer você. Exatamente, duas vezes. Eu te ligo qualquer dia. Beijo, tchau.

Em Busca da Memória Perdida pt.1

Abri os olhos. Plantas. Plantas? Um jardim, uma piscina. Nunca vi este lugar. Boca seca, ressaca; merda, que que eu fiz ontem? Olhei o céu, estava amanhecendo, fazia um pouco de frio. Eu ainda tinha muito sono, mas ali não conseguiria dormir de novo. Levantei cambaleando e achei um canto, imundo, ao lado da churrasqueira, que ainda emanava algum calor.

Acordei mais uma vez, igualmente atônito, estava quente e a claridade era insuportável. Fiquei estirado sobre as costas, esfregando os olhos, precisava recompor até onde pudesse a noite anterior. De repente veio o estalo: nós fomos ao show do Planeta Bizarro no Caçapa do Fundo. Já é alguma coisa. Mas onde diabos vim parar? E que terei aprontado no caminho?

Eu precisava de água, criei coragem para me erguer, e tentei limpar um pouco a camiseta branca, debalde. Uma porta de correr levava a uma sala, havia uma bateria montada. Ninguém por perto, eu não sabia se anunciava minha presença ou se torcia para estar sozinho (desde que não estivesse trancado). Abri uma porta que dava para uma copa e uma cozinha: uma família almoçava e me encarou surpresa, a matriarca deixou cair o garfo: a única coisa que quebrou o silêncio. Eu não sabia como me explicar, então só pedi água. Eles se entreolharam, o pai se levantou: a festa estava boa? Eu queria saber dizer, não disse nada, envergonhado. O filho passou por mim, e em alguns instantes retornou com uma moça de aspecto sonolento.

Nossa, você ainda está aqui! Bem, acho que isso é tudo que eu sei. Você estava muito louco ontem, não se lembra de nada, né? Não muito. Ela me puxou para a sala para que a família prosseguisse com a refeição. Sabe meu nome? Fiz que não com a cabeça. É Helena. Você chegou com o Mauro e o Flanela, já eram quase duas. E eu aprontei alguma? Não... você tocou com o pessoal, aí eu vi você conversando com a Fernanda, ela estava com o seu chapéu e você virou o copo dela duas vezes, depois... eu não te vi mais, não aconteceu nada. Puxa, desculpa, Helena, mas onde é que eu estou? Ela riu, aqui é Laranjeiras. Nunca ouvi falar. É passando a Cidade Nova, é um pouco longe, você veio de carona? Vim, vou ligar pro Flanela... Desculpa, eu não posso te levar agora. Não, não se preocupe. E também é ruim de ônibus, táxi sai uma fortuna.

Pedi mais água, tentei o número do Flanela, caixa postal. Liguei pro Mauro. Fala Maluco! Meu, que que aconteceu ontem? Putz, você estava muito louco. Já é a segunda pessoa a me dizer isso, eu fiz alguma besteira? Nenhuma muito... teve uns lances engraçados. Escuta, você está ocupado? Pode me buscar aqui? Aqui onde? Na festa, onde foi a festa. Você está aí? E riu-se com gosto. Estou, puta situação estranha, dá pra vir? Cara, meu pai tá usando o carro agora, posso ir mais tarde. Você sabe do Flanela? Eu liguei há pouco na casa dele e ele estava dormindo. Qual é o fixo dele? Pedi papel e caneta a Helena. Valeu, Mauro, qualquer coisa eu volto a ligar.

Não quer almoçar... como é que você se chama? Gabriel. Senta aí, come um peixinho. Poxa, eu... Vou fazer mais um telefonema, mas eu aceito sim. Precisei fazer um esforço para lembrar o nome verdadeiro do Flanela, mas a família dele já estava acostumada com o apelido. Pedi para acordá-lo. Porra, Gabo, deixa eu dormir. Cara, eu tô na roubada aqui, na festa. Na festa? É, eu dormi no jardim e vocês me deixaram aqui, seu puto. Eu achei que você tinha ido com a mina. Vem me buscar, quebra essa. Ele demorou um pouco para dizer que viria. O tempo que ele demorou para chegar foi justamente o que eu levei para almoçar, o pai da Helena me fez companhia, um cara simpático. Ela, ao se despedir, sugeriu que voltasse um dia para ouvir uns LP's. Que garota interessante, e eu nem me lembrava dela.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Feito Fumaça pt.3

Desceram com uma sensação boa de dever cumprido. A rádio ficava no caminho, e encontraram um camarada fazendo programa. Contaram as aventuras do dia e a desventura da véspera, e o Caxambu achou por bem fazer uma preza pro Murilo com o beque que não tinham fumado. Ele agradeceu e observou que estavam todos imundos, riram. Caxambu estava preocupado, disse que ainda ia em casa trocar de roupa. Melhor não dirigir assim, pega umas roupas emprestadas. Ah é? Você tem metade do meu tamanho. O Focinho mora perto, ei Focinho, você emprestas uma roupa pro Caxa? Claro. Viu? Chegaram, o Waltinho foi correndo colocar um disco do Miles e o Focinho fez um caprichado. Cabeeeeça! Ficaram curtindo o final da onda, cansados. Caralho, minha bike ficou lá no bandejão!, Pastel se deu conta. Caxambu se ofereceu para levá-lo em casa, de lá foi levar o Focinho e buscar a roupa e voltou para tomar banho na Esbórnia. A camisa era um pouco pequena, pegava na barriga, e ele se sentia ridículo. Já caminhei muito hoje, vamos de carro.

A festa estava meio vazia ainda, o pessoal do Du estava preparando tudo, foram lá conversar. Eles tinham conhecido aquela tarde um aluno da música que ia tocar violino com eles. Se prepara, o Du alertou. Providenciaram cada um uma cerveja, que ainda estava quente, era sempre assim. Circularam, o Caxambu encontrou um grupo de garotas da engenharia de alimentos que ele conhecia, apresentou o amigo, cada um contou suas histórias de fim de semestre, provas feitas de ressaca ou bêbado, madrugadas estudando à base de café. Elas começaram a falar dos planos para as férias, Caxambu as convidou para conhecer a cidade dele. Elas se foram, ele confidenciou ao amigo que já tinha ficado com a mais baixinha, mas que foi uma história esquisita. Como assim? Ah, nada, esquece. Conta porra, foi falar, agora conta. Tá, eu nunca falo isso pra ninguém, mas vá lá: o que aconteceu foi que eu estava com muita vontade de ir ao banheiro, mas, sei lá por quê, não queria interromper, a gente estava na sala da casa dela, fazendo só uma sacangemzinha, sabe como é. Bem, na hora de gozar... imagina o que saiu.... Golden shower? É, meio involuntário. Mandou bem.

Buscaram um canto afastado para pitar um sem serem incomodados demais pelos abas de sempre. Cara, eu não fui ao banco, lembrou Waltinho. Ainda dá tempo, quer ir lá? A gente vai de carro. Beleza, vou só terminar de apertar. Como diz a música. Como? Do Bezerra. Pois é. Entraram no carro, Waltinho voltou a falar em suas preocupações. Pois é, cara, vou formar e fazer o que? Dar aulas? Por uma merreca? Mestrado? Com meu pai me sustentando? E a Nádia? A gente já namora há cinco anos, ela quer que eu volte, quer casar, porra, eu não estou pronto. Porra, meu, espera terminar e aí se preocupa, tenta o mestrado lá, não sei, vai dar certo. Espera aí. Entrou na agência e ficou um tempo olhando o terminal: a noção de que uma máquina lhe dava dinheiro o incomodou, essas ideias de cogumelo. Sacou algum dinheiro e voltou para o carro. Caxa, ouvi falar que vai ter concurso pro Banco. Taí uma boa, você passa tranquilo.

Chegaram de volta à festa, e a Vó Dilza estava tocando. Mas em vez do repertório de rock nacional que já haviam tocado em outras festas, o que se ouvia era um improviso dos mais ousados, cada um tocando uma coisa, mas com resultado muito bom, ao menos na opinião do Waltinho, que estava entusiasmado. Eu falei que eles estavam numa onda experimental. Caxambu talvez ainda não estivesse pronto para assimilar, assim como a imensa maioria ali presente, apenas uns músicos olhavam impressionados, segurando o queixo. O Du depois contaria que foram quarenta minutos de liberdade musical e de sinais da produção da festa para que parassem. Ainda tentaram tocar algo mais estruturado, mas o estrago já estava feito; o Du foi ao microfone. Obrigado, vocês não entendem nada, vocês nunca entenderam nada mesmo! Dali em diante a produção teve o mau gosto habitual na seleção das músicas.

Andavam por aí com suas cervejas, ficavam de olho numa ou noutra mina, encontravam este ou aquele camarada, incluindo os dois de mais cedo; o Pastel estava com uma mina, pegou o beque e esqueceu dele, Waltinho provocou: ô bígamo! ué, casou com o banza e tem duas mulheres, riram. Voltaram à bagunça, e deram de cara com ela, a Diana. E ela estava mesmo com o namorado. Meu, olha lá, não é a cara do polícia que bateu na gente? Viagem sua, Waltinho, esquece essa piranha. Deram mais umas voltas e de repente Caxambu sente uma mão em seu ombro; era ela. Oi, Diana, e esticava a camisa para tentar esconder a barriga. Cê tá bem? Bem, sim, quer dizer, fim de semestre, né? E você? Ah, letras é tranquilo, né, pra mim é. Que bom, eu preciso... Você está magoado comigo ainda, né? Não, magoado não. Você sabe da sua vida, eu só não consigo entender. E seu cara, onde foi parar? Foi ao banheiro. Pois é, eu também preciso... Calma, dá pra esperar um pouco? Pode falar. Tá vendo, eu não quero conversar assim. Então tá bom, eu... Rogério, eu fiz uma besteira, eu sei. Caxambu olhou sério para ela. Você está com outro cara. É, mas... não quer dizer nada. Me dá uma chance de explicar... Seu cara está voltando, me liga se quiser, tchau. Waltinho observava tudo, e cobrou um relatório. Caxambu desfez a pose de durão e abriu um sorriso: ela quer voltar.

A festa estava cheia de gente agora, mas a música não estava boa, e quando o Marcelão disse que o Marco estava fazendo o programa na rádio, não tiveram dúvida. Voltaram a olhar o graffiti do teatro de arena, que não parecia tão incrível quanto à tarde. Fala Marco! Ô, chega aí. Estava tocando Primus. Cara, a gente tomou cogu hoje. Massa! Nós dois mais o Pastel e o Focinho. O Focinho disse que você perdeu duzentos gramas pra um coxinha? Foi, mano, mas é melhor que ser preso, não? Pois é, aconteceu com a gente ontem. Não brinca! É, mas a gente ainda salvou uma pedra. Massa, bota um então, eu tô sem nenhum. Bateram um papo, falaram umas besteiras no ar, e não demorou a surgir a ideia de subir: a rádio ficava em baixo de uma imensa caixa d'água. Leva dois prontos, puseram-se a trabalhar. O Marco mandou um som do Yes de mais de vinte minutos. Era preciso subir em uns canos, atravessar para o outro lado e subir por fora da grade até a primeira cestinha, onde era possível acessar a escada; Waltinho subiu primeiro, Marcelão, que subia pela primeira vez, observou atentamente, e não teve dificuldade, Caxambu apesar da barriga não teve problema (era preciso se esgueirar num espaço estreito), Marco subiu por último. No topo, Marcelão se admirou com a vista, acenderam o beque e ficaram proseando. Ela disse que quer explicar, explicar o que! Cara, você gosta dela, não importa, mulher é complicado mesmo. Eu não queria mais essa pra cabeça, amanhã eu preciso estudar o dia todo. Oriente médio é fácil, é só decorar todas as guerras e acordos fracassados. Como se fosse pouco. Marco tirou o segundo baseado do bolso e sentenciou: esse pessoal só precisa descobrir o cachimbo da paz! Acende logo isso que tá um frio danado aqui.

Feito Fumaça pt.2

Waltinho acordou com a boca seca, estirado em um dos sofás imundos: nem teve força para procurar sua cama. Acendeu um cigarro e esquentou um pouco de café, estava intragável, tomou um copo d'água e foi acordar o amigo. Caxambu demorou a levantar, espreguiçou-se; acabou aquele pão? Acabou, vamo lá na padaria encarar um misto. Os dois se calçaram e andaram cinco quadras até a padaria, comeram e voltaram. Digestivo? Agora. Começaram uma partida de xadrez, daquelas que podiam durar horas; de repente alguém bloqueou a luz que entrava pela porta aberta: era o Focinho. Entra Focinho, ainda tem uma ponta aqui. Opa! Cara, você não imagina o que aconteceu com a gente ontem, disse um. Um policial ficou com metade do nosso banza, completou o outro. Putz, de novo? Peraí, metade? Por que só metade? Ele não sabia que tinha mais. Porra, então não está tão mal. Um amigo meu, o Marco, você conhece, perdeu duzentos de uma vez pra esse mesmo filho da puta. Focinho fazia um triângulo com os dedos para conseguir tirar alguma coisa da ponta. Eu vim com uma proposta pra vocês. Fala. Viram o sol lá fora? Hum... E ontem à noite, o que aconteceu? Choveu. Então, vamo lá? Ah não, protestou Caxambu, eu tenho uma prova de oriente médio, não posso bombar de novo. Quando é a prova? Quinta. Ah, você estuda na quarta, tá tranquilo. Ele nem se fez de difícil, entraram todos no carro.

Pularam a cerca, que era dupla, e começaram a percorrer o pasto cantando o tema dos smurfs e passando um petardo um para o outro. O Caxambu achou, dois de uma vez. O chapéu amarelado e o anel no centro, que quase sempre estava quebrado, fica azulado quando quebra, é esse mesmo. Cada um já tinha achado um monte quando ouviram um latido furioso vindo na direção deles. O dono da propriedade podia ser visto de fora de uma caminhonete, no topo da colina. O cachorro estava longe, e por sorte estavam já perto da cerca. O problema foi que o Focinho conseguiu cair entre uma cerca e outra, e ficou todo preso; os dois voltaram e tiveram trabalho para o desvencilhar do arame farpado. Focinho escapou do arame quase ao mesmo tempo em que o cachorro alcançou a cerca. Caralho! Cê tá bem, mano? Bem? Olha pra mim, porra! Seus braços e pernas estavam todos cortados. Calma, vamo lá em casa, a gente lava isso, passa alguma coisa, Waltinho disse, entrando no banco de trás. Quando juntaram as colheitas de cada um, viram que a safra havia sido ótima; aquele era o melhor pasto, alguém observou. Chegaram; ele tomou um banho, aplicaram qualquer antisséptico, que por sorte alguém tinha, e dirigiram-se à cozinha para a confecção do chá. Mas Waltinho viu o relógio e ponderou que ainda pegavam o bandejão aberto se saíssem naquele momento; ninguém discordou. Entraram no campus, passaram em frente à radio, estacionaram: chegaram a tempo; cada um com sua bandeja, serviram-se e se sentaram. O Caxambu encontrou o Pastel, fez o comentário, e automaticamente o Pastel estava na fita. Voltou para a República da Esbórnia com eles. Caxambu fazia um café, Waltinho fazia um beque, Pastel olhava os discos e Focinho reclamava da sorte. Acenderam o digestivo, conversaram e combinaram de tomar o chá às quatro, para fazer a digestão e aproveitar o pôr-do-sol. Parece que tem uma festa hoje na arquitetura, Pastel comentou. Nossa, eu não soube de nada. Parece que é meio de última hora, mas vai rolar mesmo. Bem quando a onda estiver acabando, perfeito. Voltaram à cozinha, colocaram os cogumelos numa panela com água e acenderam o fogo. Waltinho acendeu um cigarro e provocou Caxambu: a Diana vai estar lá. Que esteja. Vai estar lá com o namorado. É um direito dela. Cala boca, Caxa, todo mundo sabe que você não superou a Diana. Ah, vai à merda, olha isso aí que deve estar bom. Estava; encheram dois quintos de uma jarra pequena, que puseram na geladeira. Caxambu pegou a estrada, ia em casa tomar ao menos um banho; os outros três ficaram na casa, ouvindo música, jogando videogame e fumando, ocasionalmente.

O Caxambu chegou às quatro e meia, todo arrumado, os outros tiraram um sarro, Waltinho sorriu. Foram à cozinha e serviram quatro copos até quase a metade. Todos tomaram de um só gole. Ah, que troço ruim, Caxambu reclamou; poxa, eu gosto do sabor, você acostuma, Pastel discordou; uma vez eu fiz um que ficou um liquor, Focinho acrescentou. A universidade não era muito longe, foram andando, tomados de expectativa. Cara, a gente é louco de fazer isso na semana de prova. Relaxa, cara, vai dar tudo certo. Sei lá, meu, a pressão tá foda. Vocês tão sabendo da última da Mariana? Qual? Bem, que ela largou o César e tá dando pro Trindade vocês já sabem, ontem ela deu um jeito de fazer os dois se encontrarem, ficou provocando o César, que acabou saindo na porrada com o outro, e ela ficou de lado se achando o máximo, foi na cantina da física, todo mundo viu. Cara, disseram que o César tá mal, tá perdendo prova por isso. É, mas onde é que ele foi se meter, também! Waltinho lançou um olhar maroto para o amigo. Estavam chegando ao campus, e o efeito começava a se fazer sentir. Um certo mal-estar febril, uma consciência exacerbada do corpo, trocaram risinhos: você também? Foram direto para o teatro de arena, esparramaram-se nos bancos de concreto; uma galera andava de skate no palco. Waltinho, você não fez uns banza antes de sair? Eu não, nem pensei nisso. Então vamos fazer correndo, porque vai ficar mais difícil. Todos trabalharam para confeccionar cinco baseados. O Pastel veio teorizar sobre a arte de dichavar: tem duas técnicas, ou você pega cada pedacinho e reduz a pó ou vai quebrando em pedaços cada vez menores. E você já calculou com rigor científico qual é o mais eficiente? É mais uma questão pessoal, mas o primeiro evita aquele berlozão perdido no beque, que fura nossa roupa. E de que adianta tanta ciência pra dichavar se o beque que você faz é um pastel? Ah, não é não, eu melhorei bastante. Vamos ver. Na hora de apertar, a coordenação já não ajudava, Focinho ficou segurando a seda aberta um tempão, viajando com um sorriso bobo nos lábios; Caxambu estalou os dedos, acordando-o e todos riram. Terminaram o trabalho, o do Pastel ficou mesmo um pastel, e foi o que acenderam. Passa uma goma aí, senão abre. O celular do Caxambu tocou, não atende, aconselhou Waltinho; calma, é o Du. Fala, Du! Beleza, não imagina o que estamos fazendo. Já fizemos, na verdade. Exatamente! Pode deixar, vamos ficar bem. Sério? Que massa, meu, nós vamos estar lá. Então tá, até mais tarde. Desligou: a banda do Du vai tocar na festa da arquitetura! Porra, que louco! Massa! Será que vai dar certo? Por quê? Sei lá, eles andam meio... deixa pra lá. Naquele momento Waltinho e Focinho se levantaram e passaram a examinar os graffiti nas paredes do teatro. Olha essas cores, caralho! Caxambu ficou onde estava, deitado, olhando as nuvens esparsas executarem um balé fractal para seu deleite, sorrindo de orelha a orelha. O Pastel foi trocar ideia com os skatistas, ainda subiu no skate e tomou uns tombos, voltou gargalhando. Waltinho chamou a todos para tomar água na biblioteca, Caxambu não queria levantar, nem conseguia explicar por quê. Wrauwreuwrouaeiau... Acabaram todos se deitando também, ficaram lá vários minutos. Vamos tomar água, um acordou do transe, todos foram se levantando. Cara, agora tá pegando nervoso. Seguinte, ninguém se separa do grupo agora. Focinho observava o movimento normal da universidade e aquelas pessoas pareciam estar em uma dimensão paralela; via uma garota bonita e ria: como se esforçam para serem tão normais, aliás, como tudo precisa fazer tanta força para funcionar... ele se sentia sendo levado por uma correnteza, seguro. Apesar disso, o chá estava cobrando deles a pior fase da intoxicação. Tomaram água, houve um impasse: Caxambu achou que seria ótima ideia conferir a exposição fotográfica na galeria, Focinho gostou da ideia, mas os outros dois não queriam ficar em ambiente fechado, com mais gente. Olha, o pôr-do-sol não demora muito, vamos indo pro Platô, Waltinho sugeriu. Não, cara, é horário de verão, ainda demora; vamos no bosque da economia. Fechou, todos apoiaram.

Era apenas uma área com pinhos, bastante aprazível. Waltinho começou a se sentir inseguro, e puxava assunto sobre o futuro, os outros o demoveram, queriam curtir um silêncio; quase silêncio, ficavam emitindo uns grunhidos bizarros de vez em quando, esparramados no chão. Waltinho disse que tinha que ir ao banco. Cara, fica tranquilo, não é hora disso, você vai à noite. Ele respirou fundo e tentou vencer a ansiedade. Meu, cê tá tendo uma bad?, o amigo se preocupou. De leve, de leve. Então melhor ficar de fora desse aqui, e acendeu mais um. A conversa dos outros, sobre carros, o irritava, então se distanciou um pouco; o amigo foi lá e conversou um bom tempo, tranquilizando-o. Eu quero ir pra casa. Relaxa, seu corpo é sua casa. Decidiram caminhar até onde veriam o sol se pôr. Cara, é como caminhar na lua! Como você sabe, nunca esteve na lua! Ah, não enche. Era uma subida, até uma parte plana no meio de um morrote; Waltinho, o único que fumava careta, sentiu cansaço no meio do caminho. Mas a cabeça, tá melhor? Tá sim, foi um grilo à toa. Chegaram lá, onde um casal se beijava, ao lado de uma moto. Cumprimentaram-se, a trupe se instalou em outro canto e acenderam mais um dos beques. Conversaram sobre viagens que cada um tinha feito, e algumas peripécias envolvidas. E quando a gente tomou um ácido no MASP? Porra, a gente era moleque. Bem, vocês ainda são, pelo visto. Uma vez eu passei um aperto na Pedra do Baú, cara, tinha que descer uma pedra, mas não dava pra ver nada; a galera estava acostumada, mas eu sofri de medo. E você tinha tomado doce também? Não. Então o que tem a ver? Sei lá, só lembrei; não esperava a inquisição espanhola. Só os dois amigos, fãs de Monty Python, riram. Aí o Pastel e o Focinho entraram numas de zoar o outro com piadas meio infantis, os outros se apartaram e conversavam sobre música: Caxambu estava descobrindo o jazz e o amigo falava um pouco sobre os principais nomes e movimentos. Porra, o problema de sair é que não dá pra ouvir música. A gente pega o fim da onda em casa. O céu começava a ficar avermelhado, eles trocavam comentários sobre os matizes que só eles viam, ou sobre o formato das nuvens. Acende mais um? Ah, esse é sagrado, não? Seus retardados, a gente acabou de fumar. Fumaram quietos, era a fase contemplativa da viagem. Um grupo de maritacas sobrevoava o morro, em círculos. Parece que elas estão só se exibindo pra gente! Waltinho ainda não esquecera suas preocupações com o futuro de todo, e Caxambu pensava demais no passado. Que adiantou se arrumar todo, Caxa, você tá todo sujo. Caralho, é mesmo, e agora?

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Feito Fumaça pt.1

Cara, mas isso aqui é o que a gente comprava por cinquenta, não faz tanto tempo assim. Pois é, são tempos difíceis. Ainda assim, estou me sentindo lesado. Lesado você é o tempo todo, zé roela, paga logo sua parte. Era um grupo de quatro, repartindo com uma serra de pão um tijolo; estudavam na mesma universidade, um era da engenharia mecânica, um da filosofia, e dois eram da história: o Caxambu e o Waltinho, inseparáveis. Caxambu era meio alto, um pouco gordo, cabelos cacheados; Waltinho era baixo e magricela, cabelo longo escorrido. Eram eles que debatiam o preço da maconha agora há pouco. O primeiro vinha obviamente da estância mineira de mesmo nome, o segundo da capital; haviam se conhecido na calourada em que Caxambu era bixo, Waltinho era do terceiro semestre, agora estavam ambos perto da formatura. A viagem da casa do Morcego até a do Waltinho foi um tanto tensa, apesar da curta distância. Velho, põe essa porra no saco, tá entendendo?, disse o dono do carro. No saco? Não faz sentido, eles vão perceber o volume de longe. Põe no porta-luvas e fica tranquilo. Caxambu olhou furioso. É pertinho. O outro acabou cedendo. Saíram da garagem e pegaram uma avenida principal, viraram à esquerda, eram quase duas da manhã e eles obviamente haviam bebido e fumado um. Waltinho prestou atenção a uma placa, virada para o lado oposto: não estamos na contramão, não? Porra, é mesmo, mas eu viro na próxima. Não deu tempo, eles avistaram as luzes eletrônicas que vieram aposentar as tradicionais giratórias: eram eles, os porcos.

Obedeceram ao sinal de encostar, ambos extremamente nervosos. Eu falei pra você esconder isso, porra. Fica tranquilo, eles não vão revistar. Você pingou colírio? A placa é de fora, você vai dizer que não conhece a cidade, eles vão passar uma multa e tudo bem. Ah, tá, então vão falar: tudo bem, podem ir! Como é que me entra na contramão, retardado, há quanto tempo mora aqui? Boa noite senhor, habilitação e documento do carro. Pois não, só um instante. O senhor está transitando na contramão. Sério? Nossa, eu sou de Caxambu, vim visitar um primo, não conheço bem a cidade... Isso não justifica nada, saia do carro, por favor. Os dois. Eles se olharam, preocupados. Senhor, seu documento está atrasado. Mesmo? Mas o final é sete, eu tenho até julho para pagar, é assim em Minas. Essa não cola, moleque. Os dois estavam lado a lado, e o policial jogou a luz da lanterna em seus rostos. Eu deveria recolher o carro, você sabe. Não é necessário, seu guarda, veja... Eu vou fazer o seguinte: vou aplicar a multa, que é meu dever, vocês me dão a maconha que têm no carro e podem ir. Waltinho deu a volta no carro, abriu o porta-luvas e pegou apenas uma das pedras. O policial a tomou com a mão enluvada, examinou-a, tá bom, vai, estou com preguiça de escrever hoje. Deu um safanão em cada um deles, devolveu os documentos. Tudo bem, podem ir; e voltou para a viatura, onde seu parceiro ria às gargalhadas. Entraram no carro; e agora, está se sentindo lesado, seu lesado? Porra, até estou, mas estamos saindo no lucro.

Chegaram à república do Waltinho, uma casa avarandada caiada de amarelo, fizeram festa com o Torque, o vira-lata que um cara da física tinha adotado. A primeira providência foi bolar um baseado; ainda tinha cerveja na geladeira, abriram duas. Cara, que fita, mano, a gente podia ter se fodido grandão nessa. Sorte que o coxinha queria dar umas bolas. Ele vende, idiota, faz uma grana nisso. Como você acha que ele percebeu? Meu, se olha no espelho, você tá japonês. Na verdade eu já ouvi falar nesse cana que confisca o beque da galera. Meu, tem alguma coisa pra comer aí? Ah, deve ter pão, mas tá meio velho... tem um pão de queijo pra assar. Nossa, põe no forno! Fumaram jogando videogame, antes da metade estava cada um jogado para um canto. Caxambu a dado momento acordou com vontade de ir ao banheiro, sentiu cheiro de queimado e se lembrou do pão de queijo. Estava obviamente torrado, e a cozinha repleta de fumaça. Abriram todas as portas e janelas para que ela se dissipasse, mas contribuíram com sua própria fumaça. Cabeça! A ideia foi sua, você devia ter ficado acordado. A culpa é sua, seu cabeça de Cheech n' Chong, tinha que bolar mais um? Agora já era, mano, cadê o pão? Tá em cima da geladeira, tem manteiga também, faz na frigideira, e faz um pra mim. Caxambu morava em um apartamento no Centro, tinha que pegar uma estrada; foi até a porta e sentenciou: cara, vou capotar por aqui, estou com sono pra dirigir. Sono é o menor de seus impedimentos a dirigir; é melhor mesmo, tá chovendo pra caralho, também.

Fim de Tarde

Com este vento é simplesmente impossível ler o jornal. Eu tenho de dobrá-lo em quatro, e antes de chegar ao fim do caderno as dobras já estão se rasgando. Não que nesta época do ano aconteça muita coisa, eu até me divirto em ver como os jornalistas ficam se desdobrando para inventar notícias. Esta praça é a extensão da minha casa, venho todas as tardes, depois que o sol abaixa um pouco. Muitos outros aposentados vêm aqui, mas ficam jogando dominó e rindo de piadas bobas; eu me refugio neste banco, sempre o mesmo, debaixo deste ficus, onde me divido entre ler o jornal e observar a vida ao redor.

A vida. Como é seu nome, rapaz? Prazer, seu Antenor me chamam. Eu já levei a vida a sério, Renato, já tive convicções políticas, já batalhei para ser reconhecido e respeitado, já fui síndico do meu bloco, já escrevi cartas a parlamentares, já organizei abaixo-assinados, já emiti pareceres sobre as novas gerações, já fui um defensor da moral e dos bons costumes, já pertenci à maçonaria, já fui à igreja todos os domingos, já vi a academia como o lugar da criação intelectual, já busquei nos filósofos a sabedoria que permite viver bem, já decorei o que é de bom gosto e as características de cada movimento estético, já persegui o amor ideal, já construí um lar respeitável, dois até, já tentei educar meus filhos segundo meus valores, já exaltei a fortaleza e a perseverança, já repeti que colhemos o que plantamos, e acima de tudo já acreditei que uma ordem superior preside a tudo.

Hoje eu saio fora de casa como quem vai a um circo. As relações humanas me interessam na proporção de seu absurdo. Vi que o que mantém a sociedade coesa é a própria estupidez de seus membros. Talvez se tivesse percebido antes que se trata de apenas de um jogo de aparências e uma enorme fogueira de vaidades, não tivesse perdido tanto tempo com escrúpulos de integridade e honradez. Hoje, pelo menos, aprendi a não levar nada a sério. Sou indiferente até mesmo a estas notícias, que não passam de uma forma de matar o tempo. Preste você mesmo atenção e me diga se não tenho razão. 

Ele disse que ia comprar água e voltaria, eu achei que fosse mais um saindo à francesa. Situação patética esta de ficar mendigando atenção dos outros para suas histórias; perdem eles, é claro. Eu retomei a leitura de um artigo sobre a infraestrutura portuária, não poderia me importar menos, me cansei e pus o caderno junto aos outros, sob a bolsa. Nenhum homem usa mais bolsas deste estilo, em forma de cunha, eu as acho muito práticas. Lá vinha ele, para minha surpresa. Era um rapaz de uns trinta anos, sentou-se ao meu lado para descansar da corrida, pediu para ver a primeira página e eu despejei minha amargura sobre ele. Por algum motivo, ele voltou, e me ofereceu uma garrafinha d'água, agradeci. Continuei.

Eu estive no Diretas Já, acompanhei de perto a elaboração da Constituição, tinha certeza de que dr. Ulisses ia ser presidente; quando eu vi meu próprio partido o abandonar para apoiar o Collor, eu me desgostei de política. Nunca mais. A política de hoje eu acompanho como se fosse a um mau programa de tevê. Eu já fui professor universitário, e dos exigentes; quando eu vi que a maioria dos trabalhos eram péssimos e que eu era sempre voto vencido nas bancas, consegui um trabalho no verdurão do bairro. Eu gostava de ler, livros, grandes pensadores, tinha até alguma vaidade disso. Quando vi uma figura como Pedro Bial sendo tratado como intelectual, e um culto crescente à boçalidade se instaurar, tive a certeza de que era um esforço vão, fome de vento. Sempre ouvi música clássica, por um tempo fui assinante da Sinfônica, conhecia os principais compositores e reconhecia as principais peças, até que vi a orquestra acompanhar um réper, é assim que fala?, e uma música obtusa e pornográfica cair no gosto geral, vendi minha aparelhagem e meus discos, que acabaram sendo meu fundo de previdência, eles são caros hoje, quem diria. E o que eles têm nos museus hoje? Puro lixo sem sentido, deixei de frequentar há muito tempo. Sempre prezei por meu caráter, e sempre devotei às mulheres da minha vida, poucas, uma idolatria que superava a que eu encontrava na poesia que lia. Pois vi meu filho trazer uma moça em casa, boa moça, me pareceu, dizer que enfim tinha encontrado a pessoa certa, depois aparecer cada semana com uma diferente, e seguia dizendo que estava namorando, a moça queria se casar de qualquer forma, aí ela se descobriu grávida, ele fugiu, hoje vive de trazer contrabando do Paraguai, não dá um tostão para a educação do meu neto, que eu nem conheci. Eu fiz meu melhor, mas falhei na educação dos meus filhos. Minha menina era uma princesinha, estudiosa, linda, começou a trabalhar como modelo, abandonou a escola, se envolveu com drogas e um dia veio me apresentar a namorada. Deixei de falar com ela. Hoje eu me arrependo, mas não tenho coragem de procurá-la. Minha mulher, na verdade, numa briga por qualquer motivo idiota, disse que ela não seria minha filha. Talvez fosse só um blefe, mas o casamento acabou ali. Eu tive uma segunda esposa, mulher religiosa, honrada. Nosso filho entrou até para o seminário, fiquei feliz. Eu comecei a notar um nervosismo nele numa visita que nos fez, chamei-o para uma conversa. Eu nem conto o que o padre andava fazendo. Nunca mais fui à igreja, minha mulher me deixou por isso. E a maçonaria então? Parecia ser um grupo de gente honesta, defensora dos valores tradicionais.  Um dia, três diretores da minha loja foram denunciados num esquema de fraudes em contratos com a prefeitura. Quando eu fui síndico, também, além de ser envolvido nas questões mais absurdas, uma moradora que estava em atraso, sem trocadilho, tentou me seduzir em troca do perdão da dívida. E eu, que sempre fui um motorista prudente, nunca tomei uma multa, um dia voltando do trabalho fui atingido por uma motocicleta que subiu a calçada, esta perna nunca ficou boa.

Como, já tem que ir? Que pena. Olha, não se esqueça. hein? A vida é absurda. Claro que vale a pena ser vivida, só não espere pela justiça divina, ou qualquer justiça. Apareça mesmo, estou sempre aqui. Até logo! A luz do dia começava a escassear, ainda era possível ler uma matéria. Tinha chegado à página de Ciência. Um título me chamou atenção: uma equipe multidisciplinar de Harvard conduzia um estudo analisando as relações humanas à luz das leis da física, e já tinham reconhecido padrões da segunda lei da termodinâmica e teoria do Caos. Interessante.