domingo, 5 de fevereiro de 2012

Em Busca da Memória Perdida pt.1

Abri os olhos. Plantas. Plantas? Um jardim, uma piscina. Nunca vi este lugar. Boca seca, ressaca; merda, que que eu fiz ontem? Olhei o céu, estava amanhecendo, fazia um pouco de frio. Eu ainda tinha muito sono, mas ali não conseguiria dormir de novo. Levantei cambaleando e achei um canto, imundo, ao lado da churrasqueira, que ainda emanava algum calor.

Acordei mais uma vez, igualmente atônito, estava quente e a claridade era insuportável. Fiquei estirado sobre as costas, esfregando os olhos, precisava recompor até onde pudesse a noite anterior. De repente veio o estalo: nós fomos ao show do Planeta Bizarro no Caçapa do Fundo. Já é alguma coisa. Mas onde diabos vim parar? E que terei aprontado no caminho?

Eu precisava de água, criei coragem para me erguer, e tentei limpar um pouco a camiseta branca, debalde. Uma porta de correr levava a uma sala, havia uma bateria montada. Ninguém por perto, eu não sabia se anunciava minha presença ou se torcia para estar sozinho (desde que não estivesse trancado). Abri uma porta que dava para uma copa e uma cozinha: uma família almoçava e me encarou surpresa, a matriarca deixou cair o garfo: a única coisa que quebrou o silêncio. Eu não sabia como me explicar, então só pedi água. Eles se entreolharam, o pai se levantou: a festa estava boa? Eu queria saber dizer, não disse nada, envergonhado. O filho passou por mim, e em alguns instantes retornou com uma moça de aspecto sonolento.

Nossa, você ainda está aqui! Bem, acho que isso é tudo que eu sei. Você estava muito louco ontem, não se lembra de nada, né? Não muito. Ela me puxou para a sala para que a família prosseguisse com a refeição. Sabe meu nome? Fiz que não com a cabeça. É Helena. Você chegou com o Mauro e o Flanela, já eram quase duas. E eu aprontei alguma? Não... você tocou com o pessoal, aí eu vi você conversando com a Fernanda, ela estava com o seu chapéu e você virou o copo dela duas vezes, depois... eu não te vi mais, não aconteceu nada. Puxa, desculpa, Helena, mas onde é que eu estou? Ela riu, aqui é Laranjeiras. Nunca ouvi falar. É passando a Cidade Nova, é um pouco longe, você veio de carona? Vim, vou ligar pro Flanela... Desculpa, eu não posso te levar agora. Não, não se preocupe. E também é ruim de ônibus, táxi sai uma fortuna.

Pedi mais água, tentei o número do Flanela, caixa postal. Liguei pro Mauro. Fala Maluco! Meu, que que aconteceu ontem? Putz, você estava muito louco. Já é a segunda pessoa a me dizer isso, eu fiz alguma besteira? Nenhuma muito... teve uns lances engraçados. Escuta, você está ocupado? Pode me buscar aqui? Aqui onde? Na festa, onde foi a festa. Você está aí? E riu-se com gosto. Estou, puta situação estranha, dá pra vir? Cara, meu pai tá usando o carro agora, posso ir mais tarde. Você sabe do Flanela? Eu liguei há pouco na casa dele e ele estava dormindo. Qual é o fixo dele? Pedi papel e caneta a Helena. Valeu, Mauro, qualquer coisa eu volto a ligar.

Não quer almoçar... como é que você se chama? Gabriel. Senta aí, come um peixinho. Poxa, eu... Vou fazer mais um telefonema, mas eu aceito sim. Precisei fazer um esforço para lembrar o nome verdadeiro do Flanela, mas a família dele já estava acostumada com o apelido. Pedi para acordá-lo. Porra, Gabo, deixa eu dormir. Cara, eu tô na roubada aqui, na festa. Na festa? É, eu dormi no jardim e vocês me deixaram aqui, seu puto. Eu achei que você tinha ido com a mina. Vem me buscar, quebra essa. Ele demorou um pouco para dizer que viria. O tempo que ele demorou para chegar foi justamente o que eu levei para almoçar, o pai da Helena me fez companhia, um cara simpático. Ela, ao se despedir, sugeriu que voltasse um dia para ouvir uns LP's. Que garota interessante, e eu nem me lembrava dela.

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