sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Feito Fumaça pt.2

Waltinho acordou com a boca seca, estirado em um dos sofás imundos: nem teve força para procurar sua cama. Acendeu um cigarro e esquentou um pouco de café, estava intragável, tomou um copo d'água e foi acordar o amigo. Caxambu demorou a levantar, espreguiçou-se; acabou aquele pão? Acabou, vamo lá na padaria encarar um misto. Os dois se calçaram e andaram cinco quadras até a padaria, comeram e voltaram. Digestivo? Agora. Começaram uma partida de xadrez, daquelas que podiam durar horas; de repente alguém bloqueou a luz que entrava pela porta aberta: era o Focinho. Entra Focinho, ainda tem uma ponta aqui. Opa! Cara, você não imagina o que aconteceu com a gente ontem, disse um. Um policial ficou com metade do nosso banza, completou o outro. Putz, de novo? Peraí, metade? Por que só metade? Ele não sabia que tinha mais. Porra, então não está tão mal. Um amigo meu, o Marco, você conhece, perdeu duzentos de uma vez pra esse mesmo filho da puta. Focinho fazia um triângulo com os dedos para conseguir tirar alguma coisa da ponta. Eu vim com uma proposta pra vocês. Fala. Viram o sol lá fora? Hum... E ontem à noite, o que aconteceu? Choveu. Então, vamo lá? Ah não, protestou Caxambu, eu tenho uma prova de oriente médio, não posso bombar de novo. Quando é a prova? Quinta. Ah, você estuda na quarta, tá tranquilo. Ele nem se fez de difícil, entraram todos no carro.

Pularam a cerca, que era dupla, e começaram a percorrer o pasto cantando o tema dos smurfs e passando um petardo um para o outro. O Caxambu achou, dois de uma vez. O chapéu amarelado e o anel no centro, que quase sempre estava quebrado, fica azulado quando quebra, é esse mesmo. Cada um já tinha achado um monte quando ouviram um latido furioso vindo na direção deles. O dono da propriedade podia ser visto de fora de uma caminhonete, no topo da colina. O cachorro estava longe, e por sorte estavam já perto da cerca. O problema foi que o Focinho conseguiu cair entre uma cerca e outra, e ficou todo preso; os dois voltaram e tiveram trabalho para o desvencilhar do arame farpado. Focinho escapou do arame quase ao mesmo tempo em que o cachorro alcançou a cerca. Caralho! Cê tá bem, mano? Bem? Olha pra mim, porra! Seus braços e pernas estavam todos cortados. Calma, vamo lá em casa, a gente lava isso, passa alguma coisa, Waltinho disse, entrando no banco de trás. Quando juntaram as colheitas de cada um, viram que a safra havia sido ótima; aquele era o melhor pasto, alguém observou. Chegaram; ele tomou um banho, aplicaram qualquer antisséptico, que por sorte alguém tinha, e dirigiram-se à cozinha para a confecção do chá. Mas Waltinho viu o relógio e ponderou que ainda pegavam o bandejão aberto se saíssem naquele momento; ninguém discordou. Entraram no campus, passaram em frente à radio, estacionaram: chegaram a tempo; cada um com sua bandeja, serviram-se e se sentaram. O Caxambu encontrou o Pastel, fez o comentário, e automaticamente o Pastel estava na fita. Voltou para a República da Esbórnia com eles. Caxambu fazia um café, Waltinho fazia um beque, Pastel olhava os discos e Focinho reclamava da sorte. Acenderam o digestivo, conversaram e combinaram de tomar o chá às quatro, para fazer a digestão e aproveitar o pôr-do-sol. Parece que tem uma festa hoje na arquitetura, Pastel comentou. Nossa, eu não soube de nada. Parece que é meio de última hora, mas vai rolar mesmo. Bem quando a onda estiver acabando, perfeito. Voltaram à cozinha, colocaram os cogumelos numa panela com água e acenderam o fogo. Waltinho acendeu um cigarro e provocou Caxambu: a Diana vai estar lá. Que esteja. Vai estar lá com o namorado. É um direito dela. Cala boca, Caxa, todo mundo sabe que você não superou a Diana. Ah, vai à merda, olha isso aí que deve estar bom. Estava; encheram dois quintos de uma jarra pequena, que puseram na geladeira. Caxambu pegou a estrada, ia em casa tomar ao menos um banho; os outros três ficaram na casa, ouvindo música, jogando videogame e fumando, ocasionalmente.

O Caxambu chegou às quatro e meia, todo arrumado, os outros tiraram um sarro, Waltinho sorriu. Foram à cozinha e serviram quatro copos até quase a metade. Todos tomaram de um só gole. Ah, que troço ruim, Caxambu reclamou; poxa, eu gosto do sabor, você acostuma, Pastel discordou; uma vez eu fiz um que ficou um liquor, Focinho acrescentou. A universidade não era muito longe, foram andando, tomados de expectativa. Cara, a gente é louco de fazer isso na semana de prova. Relaxa, cara, vai dar tudo certo. Sei lá, meu, a pressão tá foda. Vocês tão sabendo da última da Mariana? Qual? Bem, que ela largou o César e tá dando pro Trindade vocês já sabem, ontem ela deu um jeito de fazer os dois se encontrarem, ficou provocando o César, que acabou saindo na porrada com o outro, e ela ficou de lado se achando o máximo, foi na cantina da física, todo mundo viu. Cara, disseram que o César tá mal, tá perdendo prova por isso. É, mas onde é que ele foi se meter, também! Waltinho lançou um olhar maroto para o amigo. Estavam chegando ao campus, e o efeito começava a se fazer sentir. Um certo mal-estar febril, uma consciência exacerbada do corpo, trocaram risinhos: você também? Foram direto para o teatro de arena, esparramaram-se nos bancos de concreto; uma galera andava de skate no palco. Waltinho, você não fez uns banza antes de sair? Eu não, nem pensei nisso. Então vamos fazer correndo, porque vai ficar mais difícil. Todos trabalharam para confeccionar cinco baseados. O Pastel veio teorizar sobre a arte de dichavar: tem duas técnicas, ou você pega cada pedacinho e reduz a pó ou vai quebrando em pedaços cada vez menores. E você já calculou com rigor científico qual é o mais eficiente? É mais uma questão pessoal, mas o primeiro evita aquele berlozão perdido no beque, que fura nossa roupa. E de que adianta tanta ciência pra dichavar se o beque que você faz é um pastel? Ah, não é não, eu melhorei bastante. Vamos ver. Na hora de apertar, a coordenação já não ajudava, Focinho ficou segurando a seda aberta um tempão, viajando com um sorriso bobo nos lábios; Caxambu estalou os dedos, acordando-o e todos riram. Terminaram o trabalho, o do Pastel ficou mesmo um pastel, e foi o que acenderam. Passa uma goma aí, senão abre. O celular do Caxambu tocou, não atende, aconselhou Waltinho; calma, é o Du. Fala, Du! Beleza, não imagina o que estamos fazendo. Já fizemos, na verdade. Exatamente! Pode deixar, vamos ficar bem. Sério? Que massa, meu, nós vamos estar lá. Então tá, até mais tarde. Desligou: a banda do Du vai tocar na festa da arquitetura! Porra, que louco! Massa! Será que vai dar certo? Por quê? Sei lá, eles andam meio... deixa pra lá. Naquele momento Waltinho e Focinho se levantaram e passaram a examinar os graffiti nas paredes do teatro. Olha essas cores, caralho! Caxambu ficou onde estava, deitado, olhando as nuvens esparsas executarem um balé fractal para seu deleite, sorrindo de orelha a orelha. O Pastel foi trocar ideia com os skatistas, ainda subiu no skate e tomou uns tombos, voltou gargalhando. Waltinho chamou a todos para tomar água na biblioteca, Caxambu não queria levantar, nem conseguia explicar por quê. Wrauwreuwrouaeiau... Acabaram todos se deitando também, ficaram lá vários minutos. Vamos tomar água, um acordou do transe, todos foram se levantando. Cara, agora tá pegando nervoso. Seguinte, ninguém se separa do grupo agora. Focinho observava o movimento normal da universidade e aquelas pessoas pareciam estar em uma dimensão paralela; via uma garota bonita e ria: como se esforçam para serem tão normais, aliás, como tudo precisa fazer tanta força para funcionar... ele se sentia sendo levado por uma correnteza, seguro. Apesar disso, o chá estava cobrando deles a pior fase da intoxicação. Tomaram água, houve um impasse: Caxambu achou que seria ótima ideia conferir a exposição fotográfica na galeria, Focinho gostou da ideia, mas os outros dois não queriam ficar em ambiente fechado, com mais gente. Olha, o pôr-do-sol não demora muito, vamos indo pro Platô, Waltinho sugeriu. Não, cara, é horário de verão, ainda demora; vamos no bosque da economia. Fechou, todos apoiaram.

Era apenas uma área com pinhos, bastante aprazível. Waltinho começou a se sentir inseguro, e puxava assunto sobre o futuro, os outros o demoveram, queriam curtir um silêncio; quase silêncio, ficavam emitindo uns grunhidos bizarros de vez em quando, esparramados no chão. Waltinho disse que tinha que ir ao banco. Cara, fica tranquilo, não é hora disso, você vai à noite. Ele respirou fundo e tentou vencer a ansiedade. Meu, cê tá tendo uma bad?, o amigo se preocupou. De leve, de leve. Então melhor ficar de fora desse aqui, e acendeu mais um. A conversa dos outros, sobre carros, o irritava, então se distanciou um pouco; o amigo foi lá e conversou um bom tempo, tranquilizando-o. Eu quero ir pra casa. Relaxa, seu corpo é sua casa. Decidiram caminhar até onde veriam o sol se pôr. Cara, é como caminhar na lua! Como você sabe, nunca esteve na lua! Ah, não enche. Era uma subida, até uma parte plana no meio de um morrote; Waltinho, o único que fumava careta, sentiu cansaço no meio do caminho. Mas a cabeça, tá melhor? Tá sim, foi um grilo à toa. Chegaram lá, onde um casal se beijava, ao lado de uma moto. Cumprimentaram-se, a trupe se instalou em outro canto e acenderam mais um dos beques. Conversaram sobre viagens que cada um tinha feito, e algumas peripécias envolvidas. E quando a gente tomou um ácido no MASP? Porra, a gente era moleque. Bem, vocês ainda são, pelo visto. Uma vez eu passei um aperto na Pedra do Baú, cara, tinha que descer uma pedra, mas não dava pra ver nada; a galera estava acostumada, mas eu sofri de medo. E você tinha tomado doce também? Não. Então o que tem a ver? Sei lá, só lembrei; não esperava a inquisição espanhola. Só os dois amigos, fãs de Monty Python, riram. Aí o Pastel e o Focinho entraram numas de zoar o outro com piadas meio infantis, os outros se apartaram e conversavam sobre música: Caxambu estava descobrindo o jazz e o amigo falava um pouco sobre os principais nomes e movimentos. Porra, o problema de sair é que não dá pra ouvir música. A gente pega o fim da onda em casa. O céu começava a ficar avermelhado, eles trocavam comentários sobre os matizes que só eles viam, ou sobre o formato das nuvens. Acende mais um? Ah, esse é sagrado, não? Seus retardados, a gente acabou de fumar. Fumaram quietos, era a fase contemplativa da viagem. Um grupo de maritacas sobrevoava o morro, em círculos. Parece que elas estão só se exibindo pra gente! Waltinho ainda não esquecera suas preocupações com o futuro de todo, e Caxambu pensava demais no passado. Que adiantou se arrumar todo, Caxa, você tá todo sujo. Caralho, é mesmo, e agora?

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