sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Feito Fumaça pt.3

Desceram com uma sensação boa de dever cumprido. A rádio ficava no caminho, e encontraram um camarada fazendo programa. Contaram as aventuras do dia e a desventura da véspera, e o Caxambu achou por bem fazer uma preza pro Murilo com o beque que não tinham fumado. Ele agradeceu e observou que estavam todos imundos, riram. Caxambu estava preocupado, disse que ainda ia em casa trocar de roupa. Melhor não dirigir assim, pega umas roupas emprestadas. Ah é? Você tem metade do meu tamanho. O Focinho mora perto, ei Focinho, você emprestas uma roupa pro Caxa? Claro. Viu? Chegaram, o Waltinho foi correndo colocar um disco do Miles e o Focinho fez um caprichado. Cabeeeeça! Ficaram curtindo o final da onda, cansados. Caralho, minha bike ficou lá no bandejão!, Pastel se deu conta. Caxambu se ofereceu para levá-lo em casa, de lá foi levar o Focinho e buscar a roupa e voltou para tomar banho na Esbórnia. A camisa era um pouco pequena, pegava na barriga, e ele se sentia ridículo. Já caminhei muito hoje, vamos de carro.

A festa estava meio vazia ainda, o pessoal do Du estava preparando tudo, foram lá conversar. Eles tinham conhecido aquela tarde um aluno da música que ia tocar violino com eles. Se prepara, o Du alertou. Providenciaram cada um uma cerveja, que ainda estava quente, era sempre assim. Circularam, o Caxambu encontrou um grupo de garotas da engenharia de alimentos que ele conhecia, apresentou o amigo, cada um contou suas histórias de fim de semestre, provas feitas de ressaca ou bêbado, madrugadas estudando à base de café. Elas começaram a falar dos planos para as férias, Caxambu as convidou para conhecer a cidade dele. Elas se foram, ele confidenciou ao amigo que já tinha ficado com a mais baixinha, mas que foi uma história esquisita. Como assim? Ah, nada, esquece. Conta porra, foi falar, agora conta. Tá, eu nunca falo isso pra ninguém, mas vá lá: o que aconteceu foi que eu estava com muita vontade de ir ao banheiro, mas, sei lá por quê, não queria interromper, a gente estava na sala da casa dela, fazendo só uma sacangemzinha, sabe como é. Bem, na hora de gozar... imagina o que saiu.... Golden shower? É, meio involuntário. Mandou bem.

Buscaram um canto afastado para pitar um sem serem incomodados demais pelos abas de sempre. Cara, eu não fui ao banco, lembrou Waltinho. Ainda dá tempo, quer ir lá? A gente vai de carro. Beleza, vou só terminar de apertar. Como diz a música. Como? Do Bezerra. Pois é. Entraram no carro, Waltinho voltou a falar em suas preocupações. Pois é, cara, vou formar e fazer o que? Dar aulas? Por uma merreca? Mestrado? Com meu pai me sustentando? E a Nádia? A gente já namora há cinco anos, ela quer que eu volte, quer casar, porra, eu não estou pronto. Porra, meu, espera terminar e aí se preocupa, tenta o mestrado lá, não sei, vai dar certo. Espera aí. Entrou na agência e ficou um tempo olhando o terminal: a noção de que uma máquina lhe dava dinheiro o incomodou, essas ideias de cogumelo. Sacou algum dinheiro e voltou para o carro. Caxa, ouvi falar que vai ter concurso pro Banco. Taí uma boa, você passa tranquilo.

Chegaram de volta à festa, e a Vó Dilza estava tocando. Mas em vez do repertório de rock nacional que já haviam tocado em outras festas, o que se ouvia era um improviso dos mais ousados, cada um tocando uma coisa, mas com resultado muito bom, ao menos na opinião do Waltinho, que estava entusiasmado. Eu falei que eles estavam numa onda experimental. Caxambu talvez ainda não estivesse pronto para assimilar, assim como a imensa maioria ali presente, apenas uns músicos olhavam impressionados, segurando o queixo. O Du depois contaria que foram quarenta minutos de liberdade musical e de sinais da produção da festa para que parassem. Ainda tentaram tocar algo mais estruturado, mas o estrago já estava feito; o Du foi ao microfone. Obrigado, vocês não entendem nada, vocês nunca entenderam nada mesmo! Dali em diante a produção teve o mau gosto habitual na seleção das músicas.

Andavam por aí com suas cervejas, ficavam de olho numa ou noutra mina, encontravam este ou aquele camarada, incluindo os dois de mais cedo; o Pastel estava com uma mina, pegou o beque e esqueceu dele, Waltinho provocou: ô bígamo! ué, casou com o banza e tem duas mulheres, riram. Voltaram à bagunça, e deram de cara com ela, a Diana. E ela estava mesmo com o namorado. Meu, olha lá, não é a cara do polícia que bateu na gente? Viagem sua, Waltinho, esquece essa piranha. Deram mais umas voltas e de repente Caxambu sente uma mão em seu ombro; era ela. Oi, Diana, e esticava a camisa para tentar esconder a barriga. Cê tá bem? Bem, sim, quer dizer, fim de semestre, né? E você? Ah, letras é tranquilo, né, pra mim é. Que bom, eu preciso... Você está magoado comigo ainda, né? Não, magoado não. Você sabe da sua vida, eu só não consigo entender. E seu cara, onde foi parar? Foi ao banheiro. Pois é, eu também preciso... Calma, dá pra esperar um pouco? Pode falar. Tá vendo, eu não quero conversar assim. Então tá bom, eu... Rogério, eu fiz uma besteira, eu sei. Caxambu olhou sério para ela. Você está com outro cara. É, mas... não quer dizer nada. Me dá uma chance de explicar... Seu cara está voltando, me liga se quiser, tchau. Waltinho observava tudo, e cobrou um relatório. Caxambu desfez a pose de durão e abriu um sorriso: ela quer voltar.

A festa estava cheia de gente agora, mas a música não estava boa, e quando o Marcelão disse que o Marco estava fazendo o programa na rádio, não tiveram dúvida. Voltaram a olhar o graffiti do teatro de arena, que não parecia tão incrível quanto à tarde. Fala Marco! Ô, chega aí. Estava tocando Primus. Cara, a gente tomou cogu hoje. Massa! Nós dois mais o Pastel e o Focinho. O Focinho disse que você perdeu duzentos gramas pra um coxinha? Foi, mano, mas é melhor que ser preso, não? Pois é, aconteceu com a gente ontem. Não brinca! É, mas a gente ainda salvou uma pedra. Massa, bota um então, eu tô sem nenhum. Bateram um papo, falaram umas besteiras no ar, e não demorou a surgir a ideia de subir: a rádio ficava em baixo de uma imensa caixa d'água. Leva dois prontos, puseram-se a trabalhar. O Marco mandou um som do Yes de mais de vinte minutos. Era preciso subir em uns canos, atravessar para o outro lado e subir por fora da grade até a primeira cestinha, onde era possível acessar a escada; Waltinho subiu primeiro, Marcelão, que subia pela primeira vez, observou atentamente, e não teve dificuldade, Caxambu apesar da barriga não teve problema (era preciso se esgueirar num espaço estreito), Marco subiu por último. No topo, Marcelão se admirou com a vista, acenderam o beque e ficaram proseando. Ela disse que quer explicar, explicar o que! Cara, você gosta dela, não importa, mulher é complicado mesmo. Eu não queria mais essa pra cabeça, amanhã eu preciso estudar o dia todo. Oriente médio é fácil, é só decorar todas as guerras e acordos fracassados. Como se fosse pouco. Marco tirou o segundo baseado do bolso e sentenciou: esse pessoal só precisa descobrir o cachimbo da paz! Acende logo isso que tá um frio danado aqui.

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