quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Feito Fumaça pt.1

Cara, mas isso aqui é o que a gente comprava por cinquenta, não faz tanto tempo assim. Pois é, são tempos difíceis. Ainda assim, estou me sentindo lesado. Lesado você é o tempo todo, zé roela, paga logo sua parte. Era um grupo de quatro, repartindo com uma serra de pão um tijolo; estudavam na mesma universidade, um era da engenharia mecânica, um da filosofia, e dois eram da história: o Caxambu e o Waltinho, inseparáveis. Caxambu era meio alto, um pouco gordo, cabelos cacheados; Waltinho era baixo e magricela, cabelo longo escorrido. Eram eles que debatiam o preço da maconha agora há pouco. O primeiro vinha obviamente da estância mineira de mesmo nome, o segundo da capital; haviam se conhecido na calourada em que Caxambu era bixo, Waltinho era do terceiro semestre, agora estavam ambos perto da formatura. A viagem da casa do Morcego até a do Waltinho foi um tanto tensa, apesar da curta distância. Velho, põe essa porra no saco, tá entendendo?, disse o dono do carro. No saco? Não faz sentido, eles vão perceber o volume de longe. Põe no porta-luvas e fica tranquilo. Caxambu olhou furioso. É pertinho. O outro acabou cedendo. Saíram da garagem e pegaram uma avenida principal, viraram à esquerda, eram quase duas da manhã e eles obviamente haviam bebido e fumado um. Waltinho prestou atenção a uma placa, virada para o lado oposto: não estamos na contramão, não? Porra, é mesmo, mas eu viro na próxima. Não deu tempo, eles avistaram as luzes eletrônicas que vieram aposentar as tradicionais giratórias: eram eles, os porcos.

Obedeceram ao sinal de encostar, ambos extremamente nervosos. Eu falei pra você esconder isso, porra. Fica tranquilo, eles não vão revistar. Você pingou colírio? A placa é de fora, você vai dizer que não conhece a cidade, eles vão passar uma multa e tudo bem. Ah, tá, então vão falar: tudo bem, podem ir! Como é que me entra na contramão, retardado, há quanto tempo mora aqui? Boa noite senhor, habilitação e documento do carro. Pois não, só um instante. O senhor está transitando na contramão. Sério? Nossa, eu sou de Caxambu, vim visitar um primo, não conheço bem a cidade... Isso não justifica nada, saia do carro, por favor. Os dois. Eles se olharam, preocupados. Senhor, seu documento está atrasado. Mesmo? Mas o final é sete, eu tenho até julho para pagar, é assim em Minas. Essa não cola, moleque. Os dois estavam lado a lado, e o policial jogou a luz da lanterna em seus rostos. Eu deveria recolher o carro, você sabe. Não é necessário, seu guarda, veja... Eu vou fazer o seguinte: vou aplicar a multa, que é meu dever, vocês me dão a maconha que têm no carro e podem ir. Waltinho deu a volta no carro, abriu o porta-luvas e pegou apenas uma das pedras. O policial a tomou com a mão enluvada, examinou-a, tá bom, vai, estou com preguiça de escrever hoje. Deu um safanão em cada um deles, devolveu os documentos. Tudo bem, podem ir; e voltou para a viatura, onde seu parceiro ria às gargalhadas. Entraram no carro; e agora, está se sentindo lesado, seu lesado? Porra, até estou, mas estamos saindo no lucro.

Chegaram à república do Waltinho, uma casa avarandada caiada de amarelo, fizeram festa com o Torque, o vira-lata que um cara da física tinha adotado. A primeira providência foi bolar um baseado; ainda tinha cerveja na geladeira, abriram duas. Cara, que fita, mano, a gente podia ter se fodido grandão nessa. Sorte que o coxinha queria dar umas bolas. Ele vende, idiota, faz uma grana nisso. Como você acha que ele percebeu? Meu, se olha no espelho, você tá japonês. Na verdade eu já ouvi falar nesse cana que confisca o beque da galera. Meu, tem alguma coisa pra comer aí? Ah, deve ter pão, mas tá meio velho... tem um pão de queijo pra assar. Nossa, põe no forno! Fumaram jogando videogame, antes da metade estava cada um jogado para um canto. Caxambu a dado momento acordou com vontade de ir ao banheiro, sentiu cheiro de queimado e se lembrou do pão de queijo. Estava obviamente torrado, e a cozinha repleta de fumaça. Abriram todas as portas e janelas para que ela se dissipasse, mas contribuíram com sua própria fumaça. Cabeça! A ideia foi sua, você devia ter ficado acordado. A culpa é sua, seu cabeça de Cheech n' Chong, tinha que bolar mais um? Agora já era, mano, cadê o pão? Tá em cima da geladeira, tem manteiga também, faz na frigideira, e faz um pra mim. Caxambu morava em um apartamento no Centro, tinha que pegar uma estrada; foi até a porta e sentenciou: cara, vou capotar por aqui, estou com sono pra dirigir. Sono é o menor de seus impedimentos a dirigir; é melhor mesmo, tá chovendo pra caralho, também.

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