quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Janela Aberta

Ontem de madrugada eu fiquei conversando com um amigo pela webcam. Contamos algumas novidades, discutimos nossos projetos, e falamos sobre os anos que convivemos, viagens que fizemos, professores que tivemos, shows a que assistimos, dentre outras coisas. Ele hoje mora em oura cidade, quer dizer, eu moro em outra cidade, e criamos o hábito de nos encontrar via internet quando tudo mais dorme. Cada um de nós deve ter dito que estava cansado e ia dormir umas três vezes, só para que surgisse qualquer assunto e o papo prosseguisse, de modo que desligamos já perto das seis.

Melhor dizer que eu desliguei, porque, quando reativei o monitor no dia seguinte, lá estava a sala do mesmo amigo. Tentei alertá-lo pelo microfone, mas ele não parecia me ouvir, sentado a uma mesa com vestígios de um café da manhã frugal, talvez precário, tomando uma xícara de café e fumando. Diminuí a janela e fui ver outras coisas, mas quando me cansei a curiosidade foi mais forte. A namorada dele estava em cena agora, e os dois se beijavam fogosamente sobre um sofá. Não quero ver isso. Fui almoçar.

Quando voltei do almoço, ele tocava violão em uma cadeira, enquanto ela passeava só de calcinha. Era ótima, que cara de sorte. Pensei finalmente em ligar para seu celular e avisar, mas reconsiderei. Vi quando ela se sentou em seu colo e devorou-lhe as orelhas. A coisa começou a esquentar, e dessa vez eu devo confessar que não tive o mesmo escrúpulo. Vou ver só um pouco. Não contive o riso quando ela tirou a calça dele: é minúsculo. Senti-me culpado, estava me aproveitando de um descuido dele de forma desleal. Mas não deixei de salvar um instantâneo quando ela apareceu bem perto da câmera, encobrindo meu amigo pelado.


Eu podia fechar o programa à vontade, quando abrisse de novo, a ligação estava viva. Devia ser algum problema. Mandei uma mensagem para o celular dele, que parecia não usar o computador aquele dia. Voltei a trabalhar em minha dissertação, o que me distraiu daquilo por horas, mas acabei abrindo o programa. Levei um susto: os dois estava amordaçados sobre o sofá e um sujeito com um gorro cobrindo o rosto apontava uma arma para eles. Fiquei desesperado: o que poderia fazer a mil quilômetros de distância?

Pesquisei a página da polícia daquele estado. Achei um telefone, liguei. Expliquei toda a história, ouvi que tinha que ligar outro número; voltei a ligar a explicar toda a história. Nesse meio tempo, o bandido puxou a moça para o meio do tapete e começou a apalpá-la, ela tentava se desvencilhar. Eu estava horrorizado. Ele tirou o membro para fora, que, ao contrário do último que eu tive que ver, podia ser visto com clareza naquela imagem de resolução limitada. Ele forçava a moça a coisas horríveis. Endereço? Não sabia o endereço dele, mas me lembrava que ele me tinha enviado uma vez. Abri o e-mail, uma busca por seu nome retornava resultados demais; por sorte eu me lembrei do tema da mensagem em que pedia a informação: deu certo. Informei à atendente, que garantiu que seria verificado. Quando voltei a abrir a janela da câmera fiquei enfim abismado. Não podia ser! O que ele fazia enquanto a namorada era violentada! À medida em que a cena se desenvolvia, ficava cada vez mais claro que o assaltante... quer dizer... que aquilo era alguma espécie de encenação, um fetiche inusitado. E eu em vez de herói, era mais uma vez um voyeur indiscreto; pior: iria submeter meu amigo a um constrangimento.

Vi quando o suposto assaltante foi pago e sumiu do vídeo. Meu amigo pegou o celular, para ver as horas certamente, e detectou minha mensagem, arregalou os olhos na frente da câmera, ligou o monitor e pôs os fones. Eu tinha que fingir que não estava vendo nada, saí da frente do micro. Mas e a polícia? Eu podia tentar voltar a ligar e acusar o alarme falso, mas não fazia ideia de como explicar o ocorrido. Liguei mesmo assim, fiquei ouvindo aquela gravação estúpida. Voltei a abrir a janela, ele estava todo vestido e conversava com ela, fora do vídeo. Disse oi, constrangido. Ele me pressionou, eu abri o jogo. Ele ficou furibundo, disse que seria melhor confirmar minha história e passar todo o aborrecimento de registrar ocorrência e prestar depoimento do que contar a verdade humilhante. Eu lembrei a ele que era um crime, pedi calma, podíamos pensar alguma coisa. A namorada dele disse no fundo que eu era um palavrão indizível. Ele disse que crime era o que ele ia cometer quando me encontrasse, crime era passar trote na polícia, e era exatamente o que ele ia dizer, que era vítima de um trote e ia dar todos meus dados. Pude ver quando sua mão alcançou a câmera e a janela ficou preta. Penso que daqui a um tempo ele pode me perdoar. Mas se o telefone tocar é melhor não atender.

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